terça-feira, 25 de setembro de 2012

As três funções de um caso: didática, metafórica e heurística, Juan David Nasio

Função didática: é justamente esse caráter cênico e figurado que confere ao estudo de casos um poder incontestável de sugestão e de ensino. Por quê? O que distingue o relato de um caso de outros textos didáticos? Sua particularidade prende-se a isto: ele transmite a teoria, dirigindo-se à imaginação e à emoção do leitor. Imperceptivelmente, o jovem clínico aprende a psicanálise de maneira ativa e concreta. Como leitor atento, imagina-se ocupando alternadamente o lugar do terapeuta e o do paciente, e sente aquilo que sentem os protagonistas do encontro clínico. O caso se apresenta, portanto, como uma fantasia em que voejamos livremente de um personagem para outro, no seio de um mundo virtual, estando dispensados de qualquer confronto direto com a realidade. Assim, o exemplo clínico mostra os conceitos e, ao mostrá-los, transforma o leitor num ator que, pela encenação improvisada de um papel, inicia-se na prática e assimila a teoria. É essa a função didática do caso: transmitir a psicanálise por intermédio da imagem, ou, mais exatamente, por intermédio da disposição em imagens de uma situação clínica, o que favorece a empatia do leitor e o introduz sutilmente no universo abstrato dos conceitos. Note-se que a importância evocadora dessa colocação em imagens que é o caso aproxima-se da ideia aristotélica de catarse. Em sua Poética, Aristóteles explica a atração que a tragédia grega exerce sobre o espectador através do fenômeno da “purificação (catharsis) das paixões”. O espectador livra-se da tensão de suas paixões ao ver encenar-se diante dele o espetáculo de seu drama íntimo. Vê desenrolar-se do lado de fora o conflito que está em seu interior. Eis, numa fórmula, o princípio do fenômeno catártico: o semelhante se trata através do semelhante. As paixões que agitam em silêncio o inconsciente do espectador aplacam-se, quando ele vê essas mesmas paixões desencadeadas no palco; assim, a violência das pulsões recalcadas é exorcizada pela violência das paixões teatralizadas. Graças a identificações imaginárias com os personagens da tragédia, o espectador participa ativamente da trama; de espectador, transforma-se em ator. Ora, é exatamente esse mesmo princípio que confere à leitura do caso clínico seu poder sugestivo. Para nosso leitor transformado em ator, o semelhante é aprendido pelo semelhante; ao ler o relato das sessões, ele se imagina sofrendo o que o paciente sofre e intervindo como intervém o terapeuta. Mas surge uma questão. De que maneira a escrita figurada facilita o acesso ao pensamento abstrato? Como pode o leitor, a partir de uma observação clínica, deduzir a teoria? Deixando de lado o prazer narcísico de ler um caso – verdadeiro espelho que remete o leitor a si mesmo –, como esxplicar, por exemplo, por que o relato da Pequena Piggle nos permite compreender de maneira tão sutil o conceito winnicottiano de “mãe suficientemente boa”? Dissemos que o caso – visto pelo lado daquele que o redige – é uma colocação do conceito em imagens, uma passagem do abstrato ao concreto, mas agora queremos conhecer o movimento inverso. Queremos saber como se produz, no espírito do leitor, o trajeto que vai do texto ilustrado ao conceito pensado, da cena à ideia, do concreto ao abstrato. Nossa resposta pode resumir-se no seguinte encadeamento. Num primeiro tempo, e para respaldar uma proposição teórica, o clínico redige o relato do desenrolar de uma análise, descrevendo a vida e os sintomas de seu paciente. Em seguida, o leitor aborda esse texto e se identifica com os personagens principais da história do sujeito, e depois generaliza o caso, comparando-o com outras situações análogas, para enfim discernir o conceito que até então continuava não formulado. É nesse momento que Le deixa a cena clínica e, guiado pelo conceito emergente, vasculha seu espaço mental, povoado por outros conceitos conhecidos e outras experiências vividas. Em suma, depois que nosso leitor vira a primeira página do célebre diário de uma análise que é A pequena Piggle, ele compreende que um dos eixos do livro é a ideia de “mãe suficientemente boa”. Compreende que a “mãe suficientemente boa” é a mãe simbólica, isto é, a duplicação psíquica da pessoa real da mãe, uma estatueta mental que a criança pode maltratar e agredir, sem destruí-la e sem destruir a si* mesma. A partir daí, só resta ao leitor das um último passo – um passo que ele dá sem dificuldade: estender a ideia de “mãe suficientemente boa” ao campo mais geral da relação transferencial entre paciente e analista. Pensando nessa noção e observando como se conclui a análise de Piggle, nosso leitor passa então a saber que, de acordo com os princípios winnicottinos, a meta última da ação do psicanalista é criar no analisando, ao final de seu tratamento, a certeza de que ele pôde amar e agredir seu terapeuta de maneira simbólica, isto é, sem tê-lo realmente possuído nem destruído. A partir da experiência concreta da Pequena Piggle, nós, leitores, acedemos ao conceito de “mãe suficientemente boa” e, partindo desse trampolim, saltamos para um novo conceito mais amplo, que denominarei, parafraseando Winnicott, de “analista suficientemente simbolizável”. Suficientemente simbolizável para sobreviver, como representação psíquica, às projeções pulsionais do analisando; um analista que trabalhou, na realidade da análise, de maneira suficientemente pertinente para imprimir no psiquismo do paciente a imagem simbólica de um terapeuta inalterável, condição essencial para que o analisando termine sua análise sem culpa em relação àquele que se prestou à dominação da transferência. Em suma, o valor didático de um caso reside no poder irresistível da história clínica para captar o ser imaginário do leitor e conduzi-lo sutilmente, quase sem que ele se aperceba, a descobrir um conceito e a elaborar outros. *** Dramatizar o conceito. Entretanto, devo esclarecer aqui – ainda no tema da função didática do caso – que existe uma outra maneira de pôr um conceito em cena, mas sem recorrer ao testemunho de um caso clínico. Como? Já não se trata de uma ilustração na qual o conceito empregado numa cena humana, mas de ver o próprio conceito tornar-se humano e vivo, de antropomorfizá-lo, de fazê-lo falar e agir como falaria e agiria um ser que quisesse fazer-se entender. Assim, movido por meu pensamento visual, ocorreu-me imitar as ideias mais abstratas e formais. Quando tenho que lecionar num contexto restrito como o de meu Seminário fechado, às vezes sou levado a exprimir a significação de uma ideia através de gestos, mímicas ou entonações. Mas, fora dessas situações particulares, quando tenho que expor por escrito uma entidade formal, esforço-me por apresentar suas articulações, sinuosas* e amiúde complicadas, à maneira de um diretor cênico que fizesse do conceito teórico o personagem central de uma trama, que tem um começo, atinge um clímax e tem um desfecho; um diretor que procurasse criar em seu espectador uma tensão tão cativante quanto o suspense de um drama. Tomemos o exemplo do conceito de complexo de Édipo no menino. Quando tive que expô-lo, recentemente, quis que o estilo de minha exposição se coadunasse o mais perto possível com o movimento psíquico que ele designa. Como o Édipo é, antes de mais nada, a travessia de um prova, a passagem brusca de um estado a outro, era preciso que minha formulação refletisse a mesma tensão que antecipa o salto, a mesma emoção da transposição e o mesmo relaxamento que se segue à crise. Assim, como enunciar o conceito, permanecendo fiel a um processo tão móvel e fluido? Ocorreu-me a ideia de forjar um artifício de exposição que desse voz ao inconsciente do menino edipiano. Falando na primeira pessoa, o inconsciente dele nos contaria as peripécias de sua crise edipiana. Eis o que ele nos confiaria: “Eu, o inconsciente, falo: sinto excitações peniana > Tenho o falo e me acredito onipotente > Desejo, ao mesmo tempo, possuir e ser possuído por meus pais, além de eliminar meu pai > Sinto prazer em fantasiar > Meu pai ameaça me castigar, castrando-me > Vejo a ausência do pênis-falo numa menina e em minha mãe > Angustio-me > Paro de desejar meus pais e salvo me pênis > Assim, supero a angústia > Esqueço tudo: desejo, fantasias e angústia > Separo-me sexualmente de meus pais e faço minha a moral deles > Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe é uma mulher, e, aos poucos, começo a me aperceber de que também pertenço à linhagem dos homens (...).” São essas as emoções sucessivas que pontuam o movimento dramático da fantasia edipiana masculina. Cada frase enunciada na primeira pessoa encerra uma vasta rede de conceitos, que o leitor não necessariamente discerne, mas que ainda assim assimila. Ele lê apenas os “eu sinto”, “eu desejo”, “eu me angustio” ou “eu esqueço” com os quais se identifica, e, ao fazê-lo, integra espontaneamente entidades abstratas. Numa palavra, dramatizar um conceito significa personalizá-lo e pô-lo em jogo numa unidade de lugar, tempo e ação, a fim de captar o leitor e levá-lo ao cerne da teoria. *** Função Metafórica. Voltemos agora ao caso clínico e a seu valor metafórico. É frequente – e estou pensando sobretudo nos casos célebres da psicanálise 0 a observação clínica e o conceito que ela ilustra estarem tão intimamente imbricados, que a observação substitui o conceito e se torna uma metáfora dele. O recurso repetido dos psicanalistas a alguns grandes casos, sempre os mesmos, para exemplificar um dado conceito, acarretou, ao longo dos anos, um deslizamento de significação. O sentido inicial de uma ideia tornou-se, pouco a pouco, o próprio sentido de seu exemplo, a tal ponto que basta a simples menção do nome próprio do caso (Joey, irmãs Papin, Dominique etc.) para fazer com que o jorre instantaneamente a significação conceitual. Por exemplo, em vês de estudar a psicose em termos abstratos, sucede-nos evocar espontaneamente um dado episódio da história do delirante presidente Schreber, e, ao fazê-lo, teorizamos sem saber que estamos teorizando. Penso aqui no momento exato em que eclode o delírio paranoico do célebre presidente. Eis a cena: ainda mal despertado de uma noite de sono, Schreber imagina que seria belíssimo ser uma mulher vivenciando um coito. Já essa simples evocação presentifica a hipótese freudiana que faz da paranoia masculina a expressão mórbida de uma fantasia infantil e inconsciente, de conteúdo homossexual: a de ser sexualmente possuído pelo pai e gozar com isso. Em seu devaneio erótico, Schreber é uma mulher inebriada com a volúpia da penetração, mas, em sua fantasia subjacente é, na verdade, um garotinho que goza ao se entregar ao desejo sexual do pai. Por isso, o fato de um psicanalista evocar esse chavão, esse episódio marcante da doença de nosso presidente neuropata, equivale a afirmar uma das principais proposições que explicam a origem da paranoia: o amor inconsciente pelo pai é projetado para fora, na pessoa de um homem perseguidor a quem se odeia e de quem se tem medo. A causa da paranoia é a reativação aguda de uma fantasia homossexual edipiana. Como vemos claramente, o conceito de projeção paranoica apaga-se diante do exemplo que se tornou seu substituto. É até possível que o caso-metáfora seja estudado, comentando e incansavelmente retomado, na comunidade dos praticantes, a ponto de adquirir um valor emblemático, ou mesmo de fetiche. Que são Schreber, Dora, e Hans, senão histórias consagradas pela tradição psicanalítica como os arquétipos da psicose, da histeria e da fobia? Será preciso acrescentarmos que as numerosas observações clínicas que povoam a teoria analítica lembram a impossibilidade de o pensamento conceitual dizer a verdade da experiência, unicamente por meio do raciocínio formal? *** Função heurística. Sucede, além disso, o caso ultrapassar seu papel de ilustração e de metáfora emblemática, tornando-se, em si mesmo, gerador de conceitos. É a isso que chamo “função heurística de um caso”. Às vezes, a fecundidade demonstrativa de um exemplo clínico é tão frutífera, que vemos proliferarem novas hipóteses que enriquecem e adensam a trama da teoria. Retomando a figura do presidente Schreber, foi justamente graças às espantosas Memórias de um doente de nervos, comentadas por Freud, que Lacan pôde conceber pela primeira vez a ideia de significante do Nome-do-Pai e a ideia correlata de foraclusão, noções que desde então renovaram a compreensão do fenômeno psicótico. Para completar, não nos esqueçamos do papel desempenhado pelo célebre caso do Homems dos Lobos (episódio da alucinação do dedo cortado) no nascimento do conceito lacaniano de foraclusão (da página 12 à 17). NASIO, Juan David. Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

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