terça-feira, 25 de setembro de 2012

O caso é uma ficção, Juan David Nasio

Todavia, mesmo que um caso tenha uma função didática, como exemplo que corrobora uma tese, uma função metafórica, como metáfora de um conceito, ou uma função heurística, como centelha que está na origem de um novo saber, ainda assim o relato de um encontro clínico nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua reconstituição fictícia. O exemplo nunca é um acontecimento puro, mas sempre uma história reformulada. O caso se define, portanto, como o relato criado por um clínico quando ele reconstrói a lembrança de uma experiência terapêutica marcante. Tal reconstrução só pode ser uma ficção, uma vez que o encontro com o analisando é rememorado através do filtro da vivência do analista, readaptado segundo a teoria que ele precisa validar e, não nos esqueçamos, redigido de acordo com as leis restritivas da escrita. A experiência, o analista participa dela com seu desejo, reencontra-a em sua lembrança, pensa nela por meio de sua teoria e a escreve na língua de todos. Podemos ver como todos esses planos sucessivos deturpam o fato real, que acaba por se transformar em outro. Por isso é que o caso clínico resulta sempre de uma distância inevitável entre o real de que provém e o relato em que se materializa. De uma experiência verdadeira, extraímos uma ficção, e, através dessa ficção, induzimos efeitos reais no leitor. A partir do real, criamos a ficção, e com a ficção, recriamos o real. (p. 17 e 18). NASIO, Juan David. Os grandes casos de psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

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