segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Ego e a análise da defesa (1995) (A tradução é de minha autoria).

Por Paul Gray. Northvale, NJ: Jason Aronson. 1994. Pp. 254 + xxvi. International Journal of Psycho-Analysis 76: 646-648. Resenha feita por Steven Levy Na obra de intitulada O Ego e a análise das defesas, temos uma compilação dos pilares teóricos e das contribuições técnicas de Paul Gray à literatura psicanalítica. O principal objetivo da abordagem clínica de Gray é a de ampliar a capacidade de auto-observação do analisando, especialmente quando se trata da eclosão das defesas frente aos conflitos intrapsíquicos. O trabalho do autor tem exercido uma influência cabal na consolidação do manejo técnico dos mecanismos de defesa. De acordo com a ótica de Gray, a atividade terapêutica realizada pelos profissionais merece um cuidadoso escrutínio a partir do que até agora vem sendo debatido sobre o tema. Os analistas diminuíram o afã de colocar em prática os preceitos técnicos do modelo estrutural, presentes nas seguintes obras de Freud: O Ego e o Id e Inibições, sintomas e angústias. Em uma série de manuscritos, realizados ao longo das duas últimas décadas, Gray, inspirado pelas ideias da aplicação da teoria estrutural de Freud, buscou adaptar e reelaborar as hipóteses e os conceitos referentes ao que chama de “atraso no desenvolvimento”. Simultaneamente, o autor demonstrou, de forma sucinta, como a técnica centrada na análise das defesas pode ser mais eficaz e vantajosa do que a contemplação do ponto de vista estrutural na dinâmica do funcionamento mental. O analista se empenha para que o paciente monitore a sua própria atividade intrapsíquica, ficando atento à defesa precipitada pelos conflitos internos. Gray traz à baila a maneira pela qual os analistas podem proporcionar aos pacientes a identificação, no momento em que emergem no processo de associação livre, das atividades defensivas. Ele nos mostra como reconhecer a defesa e as motivações ocultas em sua manifestação e, também, aponta o elo existente entre a inibição e a tentativa, por parte do paciente, de, aos poucos, revelar os conteúdos do mundo interno. No capítulo reservado ao “atraso no desenvolvimento”, Gray detalha as tendências, em voga entre os analistas, para explicar o porquê de o modelo estrutural de Freud e da segunda teoria da angústia não terem sido de todo operacionalizados na prática clínica. Ele alude à fascinação que o Id atrai para si e delata a preferência dos analistas e dos analisandos de seguirem um esquema baseado na compreensão dos instintos e de seus derivados e não o de procurar os mecanismos defensivos que inibem a expressão plena dos mesmos. Em seguida, Gray retoma a predileção dos analistas por uma postura analítica autoritária, papel particularmente benigno para a conservação do enquadre e para a investigação das experiências e defesas do analisando. Em capítulos subsequentes, Gray relatará como funciona essa tal postura benigna perante uma variedade de projeções do superego que, caso não sejam examinadas, põem em marcha a resistência e uma série de defesas obscuras que são contraproducentes às capacidades do ego de suportar e de elaborar os intensos efeitos derivados das pulsões. O autor explora o papel da realidade externa usada como um meio defensivo e enfatiza, durante o trabalho analítico, a existência de uma “referência interna”. Isso faz com que o foco se polarize no discurso e nas atividades mentais emergentes do paciente, que se esforça em transmitir ao analista a imagem acurada de si mesmo. Em uma abordagem do aqui-e-agora, o analista se torna mais propenso aos impulsos e à transferência das fantasias agressivas do paciente. Toda essa pressão dirigida ao analista nos leva ao quarto princípio, talvez o mais importante dentre os fundamentos descritos por Gray e que se refere ao atraso no desenvolvimento, a chamada resistência às intensas mobilizações provocadas pelas demandas imediatas da transferência. São elas que, geralmente, por via de interpretações genéticas, fazem com que o analista e o analisando divirjam dos propósitos do tratamento e se liguem aos elementos que conservam proximidade com a vida fora do consultório, por exemplo. É importante ressaltar que o objetivo principal de Gray é o de enfocar a emergência in loco do processo defensivo no paciente. É necessário ficar atento ao que se produz e ao que é omitido no diálogo circunstancial do aqui-e-agora e, também, é preciso observar, especialmente, os danos subjacentes à ativação dos mecanismos defensivos do ego, que cerceiam a autonomia do paciente a ponto de impedi-lo de lidar de uma forma adulta e realista frente à vida. Ao examinar o superego, Gray pega de empréstimo o método e a perspectiva que Anna Freud (1936) usou para lidar com a transferência de defesa. De acordo com o autor, o paciente percebe o analista como uma figura autoritária, acolhedora e tolerante a um só tempo, ou como uma força reguladora das precipitações instintuais. Visto assim, o superego, que é o herdeiro do complexo de Édipo, se equipara a um mecanismo de defesa. Ao se contemplar o fenômeno do superego na transferência como sendo uma atividade defensiva do ego, a ênfase técnica visa a ajudar o analisando a reconhecer, em face às angustias geradas no decurso da sessão, a sua procura ativa por refúgio nas experiências de transferência superegoicas. É aí que reside a marca singular do trabalho de Gray, na agressão e nas inibições do superego. O último capítulo do livro é dedicado ao ensino e à supervisão. Ele menciona o papel crucial da sugestão como artifício de manutenção da imagem autoritária, acolhedora e tolerante do analista e, também, aponta as intersecções e existentes entre a psicoterapia de orientação psicanalítica e a psicanálise. Foram feitas, nessa parte, importantes distinções entre os dois campos de saber. O autor compartilha o seu jeito de auxiliar os supervisores a observarem e a entenderem, nos relatos dos casos clínicos, os gatilhos de ansiedade que acionam as manobras defensivas nos pacientes. O que foi priorizado no diálogo que revela a vivência intrapsíquica do paciente é o modo tático de abordar a manifestação das defesas e os perigos inerentes a elas. Gray vê a confirmação dos materiais genéticos como secundária e encoraja o processo de auto-observação para que a necessidade de erigir defesas diminua no decurso da análise. O Ego e a análise das defesas apresenta o minucioso trabalho de operacionalização dos conceitos de Freud em relação ao modelo estrutural do funcionamento da mente. A persistência na interpretação das defesas e na investigação dos elementos sugestivos são as principais contribuições de Gray. Ele deu mais organicidade e clareza à unidade teórica e técnica da psicanálise e da psicoterapia, e isso é algo digno de nota. E é por esse motivo que, por si só, o livro em questão deve embasar a prática de muitos analistas e de psicoterapeutas de orientação psicanalítica. Trata-se de uma oportunidade de prestigiar uma das obras mais criativas feitas por um psicanalista. Referências Freud, S. (1923). The Ego and the Id. S.E. 19.[à]SE.019.0001A Freud, S. (1926). Inhibitions, Symptoms and Anxiety. S.E.20[à]SE.020.0075A Freud, A. (1946). The Ego and the Mechanisms of Defense. New York: Int. Univ. Press

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