segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O trabalho de Paul Gray, Doutor em Medicina (A tradução é de minha autoria).

Comentários referentes à reunião do dia 16 de janeiro de 2002. Apresentador – Baer Ackerman, Medicae Doctor Transcrito por Marc L. Rathburn, PhD O problema da sugestão tem inquietado os analistas desde o início. Há os que afirmam que é justamente esse elemento que impede a psicanálise de ser científica. Em contrapartida, existem os que consideram difícil de imaginar a condução do tratamento sem a presença da sugestão. Atualmente, reconhece-se a ideia de que a sugestão não pode ser eliminada da situação clínica. E isso levou alguns a pensar que toda a esperança de desvendar a(s) verdade(s) das pessoas se perdeu. De acordo com o Doutor Ackerman, o foco se deslocou para os chamados fatores de “ambiência” na análise. E essa mudança afrontou a resignação “boba” dos construcionistas pós-modernos e transformou em blefe o que Owen Renik – apenas para nomear um dos expoentes do intersubjetivismo – trouxe sobre a cooperação do igualitarismo no processo terapêutico. Gray acredita, assim como os outros, que a sugestão não pode ser evitada. No entanto, ele aposta em sua minimização. Além disso, como o Doutor Ackerman percebeu, Gray considera que exista em nós algo como uma verdade objetiva que pode ser descoberta em análise. Ele explica que os resultados podem ser alcançados de forma efetiva a partir da análise das defesas que englobam, mais do que desviam, certas funções do ego. Ao longo dos últimos trinta anos, Gray produziu uma série de artigos memoráveis pela consistência e pela lucidez; neles, mostrou que muitas das técnicas interpretativas, consideradas infalíveis, não conseguiram acompanhar os avanços da teoria estrutural de Sigmund Freud e nem as cruciais contribuições sobre os mecanismos de defesa feitos por Anna Freud. Como consequência, as origens e as repercussões referentes à aplicação terapêutica da hipnose em psicanálise persistem obscuras e controversas. Mas o que Gray considera como sendo um fator sugestionável nos preceitos fundamentais da técnica? Eis o que Lawrence Friedman (1996) expôs: “... o grau e a intensidade empregados em uma intervenção analítica podem definir (ou escamotear) um ponto na discussão... No momento em que o assunto é identificado ou caracterizado, há a tendência de que a percepção seja modelada conforme o prestígio exercido pelo analista, que pode ou não assumir ares pragmáticos em sua postura ad hoc – o que, enfim, atrai a atenção do observador poderá influenciá-lo... Ao provocar alguém a realizar uma descrição fiel de si mesmo, enfatizando especialmente o que é refugado no discurso da maioria das pessoas, o analista, de forma tácita, cria uma situação em que há um investimento massivo de poder e de confiança em sua imagem e, como Gary complementou, é aí que surge o convite para que o paciente faça uso das representações que podem advir dessa relação...” (p. 326-327). O leitor pode considerar a assertiva um tanto desgastada, semelhante ao clichê de tornar consciente o que jazia inconsciente, não é mesmo? Mas a intenção de Gray também se concentra nisso: muito do que é feito depende da fé, ou melhor, das “transferências de autoridade”. O Doutor Ackerman, que é um membro renomado do Instituto Psicanalítico de Dallas, assevera que o método analítico de Gray é bastante rigoroso e eficaz e requer, por conseguinte, a habilidade de manter o foco e de renunciar à tentação de direcionar e de conduzir o conteúdo e a dinâmica da sessão. Os assuntos que compõem o cotidiano trazem desvios e, ao mesmo tempo, possibilidades de gratificação; no entanto, ambos – analista e paciente – devem priorizá-los tardiamente no tratamento. Vale lembrar que um dos participantes do grupo de Gray recomenda que as intervenções sejam contundentes e quase “amorfas” (Davis et al., 1991). Então, para o que devemos atentar ao longo do processo, de acordo com as acepções de Gray? Para o que se desenvolve na sessão. Gray entende que tudo o que é manifestado durante a consulta diz respeito ao funcionamento da mente do paciente, ou seja, tudo o que acontece em ato nesse instante alude à qualidade do vínculo e dos objetos que povoam o seu mundo interno. Gray não dá importância se a sucessão do relato da experiência é lógica ou coerente (ele releva as limitações e as distorções inerentes a isso) e, também, não busca o significado absoluto do que é expresso. O que se privilegia são as ambiguidades, visto que algumas conceituações podem ser arbitrárias e improdutivas aos objetivos da análise: “Quando o analista examina o discurso do paciente e percebe que os assuntos giram em torno do que aconteceu fora do consultório, no plano do que chamamos de realidades, e a narração dos eventos fica restrita à esfera cotidiana, surge o risco de que se contemple apenas o comportamento e não a gama de pensamentos evidenciados nos contextos em questão, e é necessário que se desbrave o máximo possível das camadas da mente e não tanto o oposto... A vantagem de prestar atenção aos pensamentos ao invés de estudar a conduta do paciente é a de que as associações se tornam ilimitadas (Gray, 1994, pp. 17-18)”. O que Gray observa a seguir é um movimento, uma dinâmica singular. Algo que sugere o acionamento involuntário das atividades defensivas, que são potencialmente identificadas, quando pronunciadas, pelo paciente. (Aos leitores que quiserem aprofundar a abordagem técnica de Gray, encorajamos o contato com os seus artigos (Gray, 1994) e, também, com o “Festshrift ”, editado por Marianne Goldberger (1996)). O interesse de Gray por eventos observáveis estimula no paciente a floração da consciência e da “razão”: a cooperação incita o desenvolvimento de uma espécie de sequência. Ademais, em função das típicas intervenções de Gray, que podem ser sintetizadas pelo enunciado “malhar em ferro frio”, o paciente se sente incentivado a voltar à tal sequência mencionada e “se apropriar” do desconforto produzido pelo desencadeamento inicial das reações defensivas. Gray enfatiza o fato de que é necessário encontrar vias plausíveis e compensatórias de comprometer o ego com a análise, sem que o processo subtraia os encantos da vida e nem “estupidifique” o paciente a ponto de converter a experiência do tratamento em uma obsessão. No entanto, o Doutor Ackerman “discorda” em realizar o que foi mencionado acima de uma forma mais ou menos estereotipada. É por isso que o cabedal de técnicas de Gray é considerado, por ele mesmo, como sendo inapropriado ou ineficaz para certos pacientes cujos “horizontes são por demais limitados”, ao menos isso se configura sem que se tenha uma rede de apoio que sustente e complemente a terapia. (Para satisfazer a curiosidade sobre o manejo desse tipo de paciente a partir das ideias de Gray, consulte Hutchinson, 1996). Vale notar que Gray não censura tais medidas e nem se opõe à sugestão per se. Ao contrário: acredita que esses procedimentos têm um lugar importante no campo de conhecimento da psicoterapia e da análise e que podem, dependendo da necessidade, sofrer ajustes ou alterações em vista de prover benefícios terapêuticos aos pacientes. Mas, em meio a isso, afirma de modo categórico que o essencial deve ser preservado, pois os resultados dependem do fenômeno da transferência de cura – atributo "substancial" à psicanálise. (O "essencial" se configura como um método que exige do paciente o reconhecimento de uma camada existencial – a chamada separação definitiva –, e a percepção dela é rara ou intolerável dentre os pacientes dotados de uma mentalidade estreita frente à vida. A respeito disso, lembro-me de ter sentido arrepios ao ler, pela primeira vez, o segundo artigo de Gray sobre o "superego"). É claro que há controvérsias em relação ao que, hoje, conhecemos como pacientes regressivos. Para todos os efeitos, o Doutor Ackerman, durante a apresentação de um dos seus casos, questionou a visão de Gray e acrescentou que certas medidas suplementares ou parâmetros não corrompem os resultados da análise com pacientes regressivos, desde que se investigue e se compreenda o significado e a importância da presença do analista. (Não tenho certeza se Gray discordaria ou não do Doutor Ackerman). Este foi um intrigante exemplo apresentado a partir da teoria de Gray e despertou na plateia intensas reações. Pelo que consta, o Doutor Ackerman apresentou um paciente que não "passou" pela avaliação de Gray e nem foi atendido em uma "modalidade" que conservasse afinidades com o ponto de vista do mesmo autor, ao menos foi o que se evidenciou no início do tratamento. "Ainda assim, ao contrário das expectativas, o caso trouxe à tona pontos centrais das "hipóteses" de Gray: 1) a análise da defesa é a melhor forma de se chegar ao núcleo do conflito que está em jogo; 2) ajudar as pessoas a expandir a consciência em relação aos conteúdos inconscientes proporciona que o seu modo de viver seja menos neurótico; 3) é necessário analisar qualquer espécie de modificação feita pelo paciente em se tratando do processo terapêutico". Em função de o material clínico ter sido extremamente detalhado e coeso (e, de fato, o foi), os ouvintes conseguiram ter uma experiência reflexiva e interessante, mesmo que tenham ou não concordado com os apontamentos do Doutor Ackerman. Alguns se identificaram com a proposta; outros, não. Será que o excerto escolhido pelo Doutor Ackerman documentou fielmente a relação que se estabeleceu com o paciente e será que houve mesmo uma intolerância à abordagem feita por Gray no curso da análise? O fragmento em questão mostrou com clareza o tipo de defesas que costumam se manifestar diante das intervenções terapêuticas eleitas ou foram meios de provar os efeitos salutares que advém a partir de uma transferência de autoridade? Mesmo que o Doutor Ackerman não tenha se espelhado no método de análise das defesas recomendado por Gray, será que ele não obteve êxito em contemplar as defesas que se evidenciaram? Ou não foi um modo de a sugestão se mascarar na análise das defesas? Um cordial agradecimento ao Doutor Ackerman pela riquíssima e cuidadosa apresentação clínica.

Um comentário:

  1. Ola! Tudo Bem! Me nome é Ulisses Sebrian
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