segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Problemas da técnica psicanalítica, Otto Fenichel (A tradução do artigo é de minha autoria).

Introdução É esperado e até comum que todos os assuntos referentes à literatura psicanalítica abordem o modo como é realizado o trabalho do analista durante o tratamento psicanalítico. No entanto, tal premissa não se confirma em realidade. As questões técnicas são desenvolvidas apenas em uma pequena proporção de escritos. E esse fato ocorre por vários motivos. Um deles, em primeiro lugar, se dá em função de a ciência psicanalítica ainda ser jovem e ter como objeto de estudo o fenômeno da mente humana, o que gera muitas polêmicas e coopera para que a técnica terapêutica nesse campo de saber se torne mais um problema em meio a tantos outros. Em segundo, os analistas cultivam, indubitavelmente, uma particular aversão ao detalhamento dessas dificuldades, tanto pelas incertezas que orbitam em torno do tópico em si quanto pelas limitações que tendem a se impor pela falta de objetividade. Mas temos uma terceira razão que se sobressai: a de que a multiplicidade de situações, inerentes ao processo analítico, não permite que se formulem regras ou diretrizes que possam ser aplicadas em todos os contextos, pois cada caso aninha em seu íntimo a singularidade. Não é à toa que Freud comparou, há tempo, o trabalho analítico ao jogo de xadrez, pois apenas os movimentos típicos de abertura e os de fechamento podem ser ensinados: o desenrolar da partida fica infusa em mistério. É provável que a apresentação a seguir também não dissipe as dificuldades que brotam aos montes. A transcrição do ciclo de palestras ocorridas em 1936, no Instituto Psicanalítico de Viena, transmitiu aos ouvintes a compreensão elementar da técnica analítica, assim como esboços gerais das teorias da neurose. Não havia a pretensão de que se criasse um manual técnico de intervenções que desentranhasse todas as demandas vigentes de uma época, mas se buscava algo que contemplasse as particularidades da técnica. Corro o risco de ser tachado de “teórico” ao selecionar justamente os problemas relacionados à técnica para discutir aqui. Mas eu sei, por experiência própria, uma das circunstâncias que leva a maioria dos analistas menos experimentados a sentir dificuldades: eles demonstram possuir um bom domínio dos conceitos teóricos e costumam agir de forma livre e elástica em seu ofício; entretanto, a prática e a teoria parecem ficar apartadas uma da outra, o que os impede de associar o que vivem com o paciente na hora analítica com a teoria assimilada. Essa falha na articulação prejudica a qualidade do conteúdo a ser exposto na consulta. No meu ponto de vista, tal problema, especialmente por se tratar da psicanálise, tem como ser sanado. O nexo entre a teoria e a prática dá origem a um importante fluxo de ações recíprocas. A presença delas é amplamente reconhecida e pouco estudada, o que é paradoxal, até mesmo porque Freud, ao longo de dezesseis anos, acirrou uma espécie de competição que premiaria quem definisse o exato sentido das ações recíprocas. Com o advento de uma inovação técnica (a hipnose cedeu o seu lugar à livre associação), a história da teoria psicanalítica ganhou mais consistência e, a partir da compreensão das interações econômicas dos mecanismos psíquicos, a evolução da técnica se tornou possível. Hoje, com o auxílio da ciência psicanalítica, estamos em uma fase em que não só entendemos a origem das neuroses e dos traços de personalidade, como também temos plena capacidade de avaliar teoricamente o que se sustenta ou não no processo terapêutico da análise. Eis aí a tarefa de toda a teoria no campo da ciência: imprimir melhorias na prática. Logo, tentaremos nos valer dela para cumprir tal propósito e aplicá-la em nosso cotidiano de trabalho. Antes de esquadrinhamos o plano para a empreitada, duas objeções repetidamente erigidas contra a formulação da teoria e da técnica devem ser apresentadas. A primeira engloba todos os tipos de hipóteses e dita que ‘técnica’ significa ‘prática’ e, por conseguinte, a ‘teoria da técnica’ seria equiparada à ‘teoria da prática’, o que é uma contradição em termos. A lógica é meramente formal. A nossa teoria intenta somar às leis gerais do psiquismo humano fatos que foram reunidos e aventados pelo método psicanalítico. Os fenômenos e as experiências que vêm à tona no processo analítico podem ser descritos e esmiuçados com a ajuda dessas teses. A segunda objeção, trazida especialmente por Reik , enuncia o suposto perigo inerente à ‘teoria da prática’. Reik acredita que a designação teórica do que ocorre na prática analítica é por si só possível, mas não pode ser imitada como um papel que se assume no teatro, por exemplo, apenas transmitida parcialmente a poucos, que, com muito treino, podem conquistar um estilo próprio. Ele acredita que a teoria empalidece o verdor da árvore da vida. Na maioria das ciências naturais, o excesso de teoria leva os investigadores a se perderem em especulações infrutíferas, fato que aconteceria com a psicologia, por ainda ser uma área de saber relativamente emergente. Através de sua tendência a reduzir tudo a quantificações, a compreensão científica esmaece o colorido qualitativo das experiências. A técnica psicanalítica não pode ignorar a intuição e nem descartar o manancial de sentimentos irracionais que promovem a empatia para com os pacientes: a realidade psíquica não pode ser substituída por uma imagem conceitual ou burlesca de si própria. É surpreendente (não pela nossa ótica) que o novo livro de Reik, que enfatiza tanto a sua atitude, nos dê a melhor teoria que até agora tivemos a respeito da intuição e da empatia. Quando falamos sobre teoria, não reivindicamos especulações que modelem um mundo à parte e conceitual, fora de nossa realidade, assim como o médico, ao elaborar hipóteses, não se abstrai do contexto que investiga. Temos discernimento, como nos mostra a dinâmica da neurose obsessiva, da oscilação que há entre o mundo vívido dos instintos e o reino brumoso das palavras – uma forma de defesa que tenta repelir as pulsões que frequentemente pedem passagem à consciência e que, por exemplo, transformam conflitos instintuais em dúvidas. Estamos habituados também ao oposto: à fuga do desprazer que, ao deixar em suspenso o intelecto, atrai para si propriedades mágicas. Em um método terapêutico baseado na ciência não há espaço para tais absurdos. Devido ao perigo de se filiar a um partido teórico, como se fosse um sintoma da compulsão neurótica, é que nos debruçaremos mais sobre tal tópico. Hoje, com a difusão do conhecimento psicanalítico, os pacientes nos chegam com a crença de que é necessário se reportar à infância e interpretar os sonhos. Sozinhos, eles tentam realizar o nosso trabalho de modo intelectual, sem que, contudo, haja nenhuma mudança psíquica relevante. Adiante, explorarei esse tipo de resistência e como poderemos superá-la. Alguns analistas inexperientes ficam sujeitos a cometer mais deslizes. Quando se entregam à ‘teoria da técnica’, esperam obter regras definitivas de como proceder e do que transmitir aos pacientes. Não há garantias de acertos. À maneira dos pacientes neuróticos compulsivos, certos analistas incorrem no erro de trocar ideias teóricas por realidades psíquicas, o que provavelmente denota o medo de lidar com objetos reais, justamente por despertarem emoções e sentimentos que podem aludir aos próprios conflitos pessoais. Quando enfatizamos que o analista deve constantemente fazer uso do conhecimento que tem sobre os preceitos dinâmicos e econômicos inerentes à vida psíquica, queremos alertá-lo para que não seja conivente com a resistência apresentada pelo paciente que, muitas vezes, prefere discutir e trocar experiências ao invés de analisá-las. É puro mito que qualquer esforço empreendido para tornar a técnica analítica mais sistemática se equipare a uma tentativa de substituí-la por sofismas; a mesma controvérsia vigora em torno da ideia de que a compreensão técnica, que parte de um ponto de vista dinâmico e econômico, pudesse travar a ‘atenção livre e flutuante’, porque se inclinaria a refletir sobre ‘a coisa certa a ser feita’. Não há dúvidas de que muitos analistas desejariam deixar de lado o conhecimento para priorizar a experiência, o que acarretaria na falta de dissolução das repressões. Nesses casos, os analistas seriam peritos em propor charadas aos pacientes. Em igual medida, há analistas que cometem outros erros tão sérios quanto os que citamos. Eles distorcem a ideia de que o inconsciente seja um instrumento de trabalho e, sentados em suas poltronas, aproveitam para 'boiar' pelas associações do paciente sem que o conteúdo seja aprofundado. É como se apenas colhessem fragmentos vindos do inconsciente e os comunicassem à maneira de um catálogo indistinto de percepções. Ademais, a falta de oscilação entre intuição, compreensão e conhecimento cooperam para que se instaure uma atmosfera dissociada, em que o inconsciente do analista parece estar alheio ao processo. Mesmo que a natureza psíquica do paciente seja provisória, o que nos traz uma imagem fidedigna da estrutura do indivíduo é o fato de podermos usar o nosso próprio inconsciente para identificar o que permanece constante em suas alterações. Logo, as novas experiências analíticas sugerem que mudemos as nossas interpretações. O que chamamos comumente de ‘tato’, ou seja, a delicadeza ao tocar em determinados assuntos com o paciente, não parece, ao menos para mim, ter raízes ou pertencer ao ramo da biologia, como professou Reik. Eu considero que seja uma característica que pode, em algum grau, ser ensinada e interpretada a partir das manifestações ou dos sinais apresentados pelo paciente ao analista na sessão. Eis aí o que eu desejo tentar demonstrar. É incorreto afirmar que o papel do inconsciente como um instrumento de trabalho mude em seu princípio ou varie em outras ciências naturais que não a psicanálise. Tal diferença se reduz a termos quantitativos (uma diferença significante, é claro), mas se alguém lembrar como foi feita a descoberta do anel de benzeno na química, poderá entender o quanto o inconsciente contribuiu para a realização do feito. Uma das principais tarefas do analista é a de encontrar um canal de comunicação que passe por Cila ao invés de Caríbdis . Ao evitar a desornada torrente do ‘acting out’ (Caríbdis), a ‘associação livre’ (Cila) pode guardar o dado escondido no ato. Adiante, antes de realizar as considerações sobre a técnica, tecerei mais comentários a respeito de Cila e Caríbdis. Darei primazia aos perigos de conversar em vez de experienciar. As palavras, em geral, são o melhor meio de transmitir experiências. No entanto, sabemos que elas podem nos desvirtuar desse propósito, quando o paciente opta por ‘conversar indiretamente sobre isto’, por exemplo. ‘Trabalhar no reino da realidade psíquica’ significa prevenir o mal-entendido. Devemos enfatizar que a prevenção não se dá através de gritos ou de atitudes moralizantes, mas sim por intermédio da busca pela origem da necessidade que o paciente tem de tergiversar ou de evitar alguns temas. Eu escolhi um exemplo extremista. Um paciente que nos foi encaminhado se queixa de uma inibição ao dirigir carros. Por ter um medo de se acidentar, ele costuma virar um pouco o volante e dirigir como se estivesse fazendo curvas em uma linha reta. Ele diz: ‘eu sei o porquê de agir assim: inconscientemente o meu sadismo desejaria passar por cima de todo o mundo’. Essa interpretação não nos parece acertada; a causa de seu conflito reside na excitação em dirigir. Virar o volante representaria uma vontade de se jogar do carro e ficar estatelado na estrada. A imprecisão aí é imaterial, abstrata; a interpretação pode ou não estar correta. Diante disso, não consideramos que ele tenha tido um insight. Devemos perguntar: ‘como você sabe disso?’ Assim, poderemos mostrar facilmente que o seu sadismo não está ocorrendo em realidade, apenas em fantasia. No caso das interpretações dadas pelos pacientes neuróticos compulsivos sobre si mesmos, o que nos interessará é a tendência do inconsciente de antecipar, em pensamentos e em palavras, experiências que possam ameaçá-lo; com isso, devemos induzir o paciente a ter consciência do que ainda é ignorante, ou seja, do medo que tem de surpresas e do que foge ao seu suposto controle. No caso do motorista de carro, os problemas se desenrolaram da seguinte forma: em um primeiro momento, a aparente prontidão analítica do paciente, ao invés de ajudar, se converteu em uma variante sintomática de resistência que visava, às avessas, protegê-lo contra os temores que o afligiam. Então, ele encontrou esta fórmula para se justificar: ‘mas é exatamente disso que padeço, de não admitir o fato de que tais sentimentos existem. Você deve me curar e, para tanto, você exige de mim o requisito de que, para melhorar, eu precisarei contatar os meus sentimentos durante a análise’. Tive de esclarecer para ele que não se tratava de uma ‘demanda’ ou de uma ‘exigência’ pessoal e pontuei que a falta de sentimentos da qual se queixava nada mais era do que um desejo voluntário de não ter sentimentos ou, em outras palavras, um boicote. Esse tipo de clarificação tem mais eficácia quando o analista alfineta os pontos fracos do sistema defensivo do paciente – esses pontos são formas distorcidas e deslocadas de perceber o mundo e a si mesmo, o que chamamos de preconceitos. Pela iniciativa do analista, o paciente tende a voltar-se para esses pontos, e isso favorece a exploração dos sentimentos cristalizados ali. Foi realmente um grande triunfo quando o paciente, depois de uma sessão particularmente trivial, insincera e artificial conseguiu dizer: ‘Durante toda a sessão, eu senti uma leve pressão no meu abdômen’. O mais importante aí é mostrar ao paciente que a sensação na região abdominal se configurou como uma modalidade ‘associativa’ do que ele não conseguiu articular em palavras – temos, com o episódio em questão, uma verdadeira prévia do que é uma derivação do inconsciente. - ‘Não era medo’, ele comenta, ‘apenas uma leve pressão’. - ‘Como se fosse uma dor de estômago?’ - ‘Acho que não. Foi algo mental, mas nada equivalente à ansiedade. Era como um pesadelo em que se supõe que alguma coisa se alojou sobre o seu peito’. Aqui nos foi dado um bom exemplo do mecanismo de defesa conhecido por negação; pois o pesadelo nada mais é do que a experiência virtual de sentir medo. Chegamos a um ponto da análise em que se espera progredir e, para tanto, o paciente deve perceber que, ao falar de si, parece assumir a postura de um médico ao descrever um caso clínico sobre um enfermo e não como alguém que está a se queixar do sintoma. A vinheta é crua, porém emblemática, pois nos joga à cara o significado do tema central de ‘Cila, que era o de falar ao invés de experimentar’. O estudo da teoria da técnica nos convida a especular, junto ao paciente neurótico compulsivo, as divagações surgidas na sessão e, às vezes, a não analisá-lo. O critério para trabalhar com a ‘realidade psíquica’ não é nada mais do que ‘atiçar’, a partir das declarações do paciente e das interpretações acertadas do analista, a capacidade genuína de sentir. O que entendemos por ‘genuíno’ na vida psíquica exigiria investigações à parte. Por ora, é suficiente afirmar o seguinte a respeito disso: ‘Passar do impulso à ação sem que haja o protesto da defesa do ego’. De acordo com Reik, a análise bem-sucedida – a abolição da defesa, em um ponto de vista dinâmico – só é alcançada com certa surpresa e opera como se reordenasse automaticamente o arranjo dos conteúdos trazidos à consulta, produzindo insights. Em meio à combinação dos diferentes assuntos, surgiriam pontes que estreitariam semelhanças onde só existiam diferenças; e o que parecia desconexo e destituído de sentido acabaria adquirindo, com a síntese, coesão e relevância. Mas tal dedução não foi sempre entendida ou esmiuçada assim. A ‘surpresa’ não pressupõe, em minha opinião, que nada tenha sido elaborado ou pensado anteriormente. A surpresa se torna mais convincente quando descortina o que já habitava o imaginário do paciente e, ao fazê-lo, agregou aos pensamentos e às palavras novos significados. É sempre gratificante quando um paciente ou um aluno, candidato à análise, nos diz, depois de uma hora bem aproveitada de reflexão, o que sabia há tempo sobre a teoria do Complexo de Édipo, da castração ou da resistência: ‘Finalmente, consigo perceber que tais conceitos são coerentes com o que esboçam ou com as experiências que tive, em se tratando do Complexo de Édipo (da castração ou da resistência)’. Citarei um exemplo corriqueiro a respeito disso. Quando uma mulher manifesta abertamente o conflito que sente entre o desejo de se exibir e a vergonha de tentar, o que aparece aí – conforme as prerrogativas da experiência analítica sobre a inveja do pênis – é o medo de que a sua inferioridade se deflagre ao espectador e, assim, com a nudez, a castração se torne explícita. Mas há um hiato entre o conceito e o que é experimentado por trás disso na realidade psíquica. Seguindo o exemplo, uma paciente deste tipo sofreria, principalmente, com a possibilidade de estar enlouquecendo. Gradualmente, ela reclamaria de ter tido episódios alucinatórios; em outras palavras, uma dúvida compulsiva se instalaria em sua própria percepção a ponto de fazê-la acreditar que o que apreendeu pelos órgãos sensoriais poderia ter sido apenas imaginado. Então, entenderíamos, mais adiante, que ela havia desejado que tudo se sucedesse desse jeito. Ela gostaria que o que realmente tivesse acontecido fosse apenas fruto da imaginação. Por conseguinte, o significado presente no medo de enlouquecer acaba por mudar. Agora, ser louca equivaleria a perder a autonomia e o controle dos movimentos ou, de repente, perceber que ela já fez algo que, na verdade, não queria ter feito. Reconhecemos que a motivação do medo poderia ser algo assim : ‘Impulsionada pela loucura, fiz o que deveria ter permanecido preso à minha imaginação. Desde então, tenho tido cuidado para não me exceder em nada. Estou mais contida’. Que tipo de ação foi essa? Aos poucos, a resposta vem à tona. Por ter medo de perder o controle de si mesma, supõe que poderia se jogar na frente de um carro ou através de uma janela. O ato adquire uma conotação violenta, trágica. Em seguida, a ansiedade aumenta exponencialmente e incrementa o medo das desgraças: agora, se transformou em uma grave aversão social. A paciente passa a se sentir marginalizada, a não ‘pertencer’ a coisa alguma, e, por usar roupas comuns em comparação às das outras pessoas, começa a se menosprezar. A ansiedade se pronuncia com menos intensidade quando ela tem dinheiro no bolso. Se não vestir roupas bonitas ou se lhe faltar dinheiro, teme o desprezo; imersa nesse panorama, está prestes a infligir a si mesma uma pena. Deste ponto em diante, a nossa compreensão se assemelhou a um carrossel: girou em torno do próprio eixo e não saiu do lugar. Um distúrbio obsessivo relacionado à leitura se evidenciou quando ela quis decifrar se o autor havia escrito o livro com uma máquina de escrever, uma caneta-tinteiro ou com um lápis. Desenvolveu uma aguda curiosidade pelo método aplicado pelos homens bem-sucedidos em seus trabalhos, e tentou em vão se identificar com eles. Empenhou-se nisso e descobriu que a observação de homens produtivos tinha uma finalidade. O fascínio pelo tema fez com que formulasse a hipótese de que deveria fazer algo com eles: quando tivesse dinheiro, não precisaria se esforçar para nada; quando não tivesse dinheiro nenhum, o tiraria de homens produtivos, pois eles são ricos. A ação terrível que cometeu, sem ao menos ter desejado, foi a da masturbação infantil, fato que foi delido de sua consciência por obra da negação e do intolerável discernimento de que jamais poderia se satisfazer como um homem; daí surgiu as fantasia de roubar um pênis. Pela primeira vez, a paciente reconheceu, com ‘surpresa’, o que, teoricamente, já sabia: sim, invejava o pênis. Era essa a sua realidade psíquica. Agora, tecerei as considerações sobre Caríbdis. A realidade psíquica deve ser trabalhada com zelo. O medo de Cila, na discussão teórica, foi de uma extremidade à outra: da supervalorização das erupções emocionais à falha na detecção de ‘abreações’ que se camuflam como resistências. São elas que preparam a cortina de fumaça para que os derivados do inconsciente venham à baila e mantenham os reais conflitos intocáveis. Além de criarem ‘erupções emocionais espúrias’ (destituídas de afeto), também impedem que, com a quebra das defesas, surjam as emoções ‘genuínas’. Vale lembrarmo-nos do poder que o pensamento mágico exerce sobre a humanidade. Existe uma aura mística e dramática em torno de certos eventos e cerimoniais que provam ser, no fim das contas, ineficazes; devemos ter viva a ideia de que artifícios mágicos, de qualquer natureza, são contraproducentes à análise. E por quê? Porque a ‘surpresa leva à cura’. Essa fórmula é ineficaz ou mal aplicada por muitos pacientes resistentes que depositam as esperanças em soluções feéricas. E o pior de tudo, é que um fator perigoso na psique do analista coopera na fomentação dessa crença insólita: a tentação de brincar de profeta ou de xamã. O conceito de ‘pensamento autista’, elaborado por Bleuler, tem tomado grandes proporções no campo da medicina e consiste em pegar, aleatoriamente, um artigo científico de uma revista clínica e compará-lo com outro vindo de um periódico da área da química ou da física; então, alguém, em nome da medicina, deve se prostrar primeiro diante de um químico ou de um físico. Essa é uma tradição da medicina que teve início com os primeiros curandeiros, os padres. A psiquiatria e psicopatologia são domínios do reino da medicina relativamente jovens para combaterem os sortilégios. Há pouco tempo, os anatomistas não tinham sequer autorização para dissecar cadáveres humanos. Grande parte da evolução se deu por rebeldia: os humanos não queriam integrar-se à natureza. Depois que o homem se aventurou nas instâncias corporais, a psicanálise não se encarregou de livrar o psiquismo das garras da magia para alojá-lo na esfera da investigação científica. No entanto, os apelos feitos com o advento da psicanálise eram por si só pseudomaterialistas: ‘A psique nada mais é do que uma secreção do cérebro’ ; em contrapartida, havia rumores, na época, de que a ‘psicologia experimental’ isolava, em seus estudos, a função dos comportamentos a ponto de adquirir resultados extremamente distantes da maneira em que vivíamos. Quase um achado alienígena. Frequentemente, o oposto era colocado em xeque: em contraste ao racionalismo de Virchow, Freud foi o primeiro a ser reconhecido pelo irracionalismo, ou seja, pela psicogênese. E é verdade; mas em que grau? Será que ele conquistou um novo reino da ciência natural ou será que ele rejeitou, de forma injustificada, a presunção de uma ciência natural? Ambas as questões estão corretas. A era Virchow talvez não tenha sido tão científica quanto se pressupôs. Fechar os olhos à existência do psiquismo não pode ser considerado ciência. A psique, naquela época, ainda pertencia ao universo da magia e da religião; e nenhum cientista se incomodava com isso. Omitir a psique era um requisito que impedia os investigadores de serem cientistas. Eles eram pesquisadores cônscios e, ao mesmo tempo, ínscios do que significava a psicologia. Freud atraiu novamente a atenção para a psique e fez com que ela adentrasse na esfera da ciência de um modo muito mais criativo e honesto do que as ‘secreções dos materialistas’. Se isso tudo é verdade, a psicologia e a psicoterapia têm um grau de parentesco com a magia, e não é à toa que ainda hoje perdure um quê de sobrenatural em sua técnica. A tentação de ser um bruxo se equipara à de ser curado por um mago. A técnica psicanalítica é um terreno espinhoso. Sua principal ferramenta é o inconsciente que se inclina a compreender o inconsciente do paciente. O objetivo é o de dissipar qualquer resquício de intuição para, assim, receber os louros da ciência. A terapia analítica exige do analista ‘o fluxo de associações e de fantasias, assim como a indulgência para com o seu próprio inconsciente; e por outro lado, ele deve submeter a um escrutínio lógico e rigoroso as suas intervenções e as comunicações do paciente para, então, guiar-se exclusivamente pelos resultados vindos de seu esforço mental’. A atividade crítica antes citada é dispensável quando ocorre o que se chama de ‘perda do sistema’; ‘a falta de qualquer plano estipulado’ é algo recomendado, e é em razão disso que esse instrumento é ‘completamente inadequado para investigar os processos mentais inconscientes’. Tais formulações vão contra os propósitos da psicanálise, pois se reduzem a artimanhas do intelecto. O assunto principal, e não o método, da psicanálise é por si só irracional. A comparação entre a psicanálise e a técnica cirúrgica é recorrente. Mesmo que alguém domine completamente a ‘anatomia’ topográfica não será capaz de realizar uma cirurgia. Nem o cirurgião terá como operar no psiquismo sem ter um conhecimento prévio do que seja o seu instrumento. O talento não é algo que se ensine ou se transfira, mas o conhecimento sobre topografia sim. Em um curso sobre técnica psicanalítica, a ‘anatomia’ topográfica da psique pode e deve ser ensinada. Temos um ponto de vista dinâmico e outro econômico sobre a vida psíquica. Então, a técnica que se esforça para provocar mudanças dinâmicas e econômicas no paciente e precisa, consequentemente, portar em seu cabedal princípios dinâmicos e econômicos. No tocante a isso, o pensamento psicanalítico se articula por meio de critérios racionais e não tanto pela intuição. Encontramos na literatura psicanalítica várias discussões a respeito da técnica e percebemos que a maioria delas diverge radicalmente uma da outra, assim como as opiniões sobre os fatores que predispõe ou não a eficácia terapêutica difere muito entre si – como nos revelaram as contribuições vindas do Congresso de Marienbad. Isso, sob a minha perspectiva, não ocorre apenas pelo fato de muitos analistas se expressarem de formas distintas na prática, mas também, independente das diferenças de personalidade dos analistas, porque há incertezas em torno dos princípios que regem o método que chamamos de analítico, se assim ainda podemos considerá-lo. A situação destacada alude à questão de que a técnica psicanalítica não foi, em certo grau, suficientemente desenvolvida e, para remodelá-la, seria necessária uma teoria que fosse estritamente racional. Nesse artigo, tentamos facilitar esse desenvolvimento, tanto que levantamos tópicos que, constantemente, se referiam à prática. Notamos, por conseguinte, que a experiência é o que nos possibilita aplicar correções à técnica. Para se adquirir insights que levem aos nossos objetivos, será necessária uma visão sistemática do que estamos inclinados a examinar. Mesmo que, historicamente, a prática analítica não tenha sido originada de forma dedutiva da teoria analítica, hoje, com o progresso da metodologia, os alunos podem realizar deduções por conta própria. Franz Alexander comentou acertadamente que a maioria das propostas feitas para que se reformasse a técnica veio dos autores que se dedicaram à função heurística e polissêmica dos meios de salvação e dos mecanismos envolvidos no processo analítico. Quem sabe, em algum momento, poderemos discriminar o que é essencial do que simplesmente consideramos acidental; o meu palpite é que deveríamos começar com uma pesquisa que investigasse a natureza da terapia analítica. Então, seríamos capazes de analisar as formas com que se chega ao inconsciente e como os tornamos acessível, especialmente com interpretações do ponto de vista dinâmico e do econômico. As descobertas a respeito disso constituiriam as bases para a nossa exploração em relação à transferência e, também, apontariam respostas para as perguntas ainda nebulosas sobre a análise do ego e do id. A partir daí, discutiríamos o modo como o ‘trabalho se conduz’, tendo como referência a ‘atividade do analista’, ou seja, quais são as questões específicas que criam elos entre a realidade atual e a infância e que critérios são averiguados para se estabelecer prognósticos etc. E tudo poderia convergir em um trabalho que englobasse o tema da técnica psicanalítica e, finalmente, poderíamos apresentar, de forma versátil e crítica, o que aprendemos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário