quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Uma transformação ulterior: a regulação superegoica do analista, Antonino Ferro

Daniele, após alguns meses de análise, conta um sonho: esperava receber de mim e-mails muito detalhados; ao contrário, recebe breves e-mails com anexos em que há imagens e rápidas histórias. Proponho-lhe uma leitura do sonho (que depois eu senti como superegoica): eu não lhe dou aquilo que espera receber. “Ao contrário”, me responde, “nesta sala eu me sinto como um balão a gás, e as imagens, as breves histórias que o senhor me conta são como breves toques no balão que assim flutua pela sala, descobrindo sempre novos pontos de vista” (p. 35). FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

Um tipo de transformação: o trabalho onírico, Antonino Ferro

Stefano tem um sonho em que está em um museu e vê, de cima de uma sacada, algumas múmias egípcias se levantarem e caminhar. Pensa que precisa encontrar uma forma de “fazê-las sair”. Na mesma sessão, tinha visto coisas que pensava que nunca haviam estado em meu consultório (e que, ao contrário, sempre estiveram), e, ao mesmo tempo, diz que não sabe se prefere uma vida tipo Dipardieu ou uma vida “com o mínimo de turbulências possíveis”. É claro que o sonho coloca em imagens a desmumificação, o despertar de novos sentimentos e emoções dentro dele, e que coloca a questão de fazer sair, de manifestar estas emoções que antes estavam segregadas no sarcófago do museu egípcio (p. 33). FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Calcinha ou Cruz Vermelha?, Antonino Ferro

Após anos de análise, Nando está falando algo, quando me sinto deslizando em um estado de sonolência do qual desperto repentinamente, consciente de ter perdido um pedaço de seu relato. Procuro intervir utilizando algo que eu tinha ouvido, mas Nando me parece pouco convicto. De repente, me diz: “Pareceu-me que o senhor estava com uma respiração regular, muito regular”. Não sei o que fazer de fato, é verdade, eu tinha adormecido. Neste ponto, digo-lhe que talvez temesse uma ausência minha e um não recordar os fatos importantes sobre os quais estamos trabalhando, e retomo os fios principais de todos os temas do último período. Nando me parece ausente. Terminada a sessão, fico descontente, penso não ter sido honesto. Ao mesmo tempo, percebo que eu havia adormecido, como se tivesse recebido uma injeção de penthotal diante de algo doloroso, um salva-vidas diante de uma tensão excessiva. Depois, eu havia feito o mesmo, dando uma interpretação excessiva que havia feito com que Nando se retirasse. Digo-me: “Talvez não seja a qualidade negativa das emoções (ciúme, raiva, inveja) o verdadeiro problema, e sim sua intensidade”. No dia seguinte, Nando está bastante reticente em falar e diz ter tido, na sessão do dia anterior, uma imagem que o havia angustiado: um homem que se mostrava com os genitais descobertos, um exibicionista, e ele tentando afastar-se. “É evidente”, lhe digo, “que ontem aconteceu exatamente isso, fui excessivo na segunda parte da sessão, fui exibicionista ao lhe dizer tudo o que eu disse”. Acrescento que era verdade que, no início da sessão, eu tinha me ausentado, adormecido por um breve momento, como se tivesse recebido uma injeção de penthotal. Talvez o mesmo tenha acontecido com ele, quando eu havia me excedido ao dizer tudo aquilo, ele havia se retirado. Mas, não foi justamente em virtude de um excesso de emoções que nós nos retiramos? Aliviado, Nando diz que ontem – quando me percebeu ausente – estava me contando de uma emoção muito intensa que tivera ao reencontrar (vínhamos de uma semana de suspensão da análise) uma antiga namorada: tinha quase fugido, tinha ficado vermelho... Foi isso que eu não ouvi. A cena acontecera em uma pista de patinação no gelo. Pergunto: “Mas por que, quando percebeu que minha respiração havia se tornado regular, não me perguntou se eu estava acordado?” Nando diz que temeu ser cansativo e responsável pelo meu distanciamento. Digo que é como se sua companheira adormecesse a seu lado e ele, ao invés de se zangar, pensasse que é pouco interessante. A sessão prossegue com a liberdade de falarmos, de forma explícita e direta, sobre o que havia acontecido, a ele e a mim, diante de emoções muito intensas, quando o gelo parecia derreter. No dia seguinte, Nando conta dois sonhos: no primeiro, tem uma experiência de forte exclusão, no segundo, há uma médica muito atraente, que fala com ele de forma franca e sincera; por um instante entrevê a calcinha vermelha da médica, que depois o coloca deitado e realiza um exame objetivo. A calcinha vermelha lembra também a Cruz Vermelha. Depois, a médica se aproxima e faz nele uma massagem muito benéfica (p. 24-25). FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Crônica psicanalítica de um silêncio, Juan David Nasio



Crônica psicanalítica de um silêncio


Optei por não lhes apresentar um texto teórico sobre o silêncio, mas um fragmento de análise que o mostra em ação. Na verdade não se trata da crônica de um único silêncio mas de três. Primeiro, há o silêncio da escuta que concentra o puro poder de ouvir, de querer ouvir, de ser obrigado a ouvir. E, no entanto, silêncio não isento de barulho nem feito de vazio mas pleno da voz do desejo do Outro, das imagens e das fantasias sonoras, dos pensamentos teóricos e das construções mentais que o psicanalista levanta e destrói em seguida. Há em seguida um segundo silêncio, o da pausa que pontua o relato do analisando e toma o valor significante de determinar em ato a posição subjetiva e, correlativamente, a do psicanalista. Há, enfim, um terceiro silêncio, do qual falarei bem no início e bem no fim desta crônica. Trata-se de um silêncio muito particular, alojado no seio da relação transferencial e que, para ser acolhido, requer uma orelha esticada até os limites do sentido. Não é o silêncio da escuta mas aquele para o qual a escuta deve abrir-se. Chamemo-lo de silêncio da transferência (p. 181).

Esta crônica abrange um período de 18 horas. Começa com o final de uma sessão, prossegue com a discussão de um escrito de Freud sobre a histeria e termina na manhã seguinte com a sessão que se seguiu.

***

Interrompo a sessão, acompanho a paciente até a porta e lhe marco o dia seguinte. Alguns minutos depois, deixando o consultório para buscar minha correspondência, surpreendo-me ao encontrá-la em lágrimas no patamar, ainda esperando o elevador. Nada na sessão fazia prever este desenlace. Olhando-nos fugidiamente e, vendo-a chorar, retenho por pudor meu gesto de partir e volto sobre meus passos. Exatamente neste momento uma viva impressão se impõe a mim, assim sonorizada: “Não vi alguém chorando, vi olhos chorando”. Mais tarde me escuto mais uma vez a repetir: “Vi olhos chorando”. Mais tarde já estava noutra, instalado nas sessões dos outros analisandos; o esquecimento veio executar sua obra rotineira de tudo apagar.

Laure é uma jovem que procurou análise há dois anos, em seguida ao suicídio de sua irmã. Naqueles tempos, uma profunda tristeza, enxaquecas e vertigens eram sinais de um luto por fazer (p. 182).

***

 

Naquela mesma noite eu devia comentar junto a colegas um artigo notável de Freud, consagrado às paralisias histéricas (1893). Eu tivera ocasião de apresentá-lo em outras circunstâncias, e todos os argumentos avançados naquele pequeno texto para explicar a origem das conversões histéricas me eram conhecidos. No entanto, por ocasião da discussão destacou-se com mais nitidez do que anteriormente uma proposição teórica que iria intervir no curso da análise com Laure. Mas, antes de me acercar dessa proposição, paremos um instante e sigamos o caminho freudiano nesse escrito.

Freud leva os psiquiatras a reconhecer que a natureza da lesão que determina a paralisia histérica não depende em nada da anatomia* do sistema nervoso, mas, ao contrário, é uma alteração bem definida, localizada numa outra anatomia muito especial, construída e reconstruída simbolicamente pela histeria. Essa anatomia recém-formada onde se localiza a lesão é um corpo bizarro, eminentemente psíquico que resulta de uma recusa e de uma criação. Recusa, primeiro, porque a histeria ignora e aferra-se em ignorar o corpo oficial canonizado pela medicina da época. Criação, em seguida, porque sobre essa recusa, esse “não querer sobre nada” do saber médico já constituído, ela erige uma concepção bem dela do que é um corpo. No lugar da anatomia dos médicos, a histeria inventa um saber sobre o corpo, organiza simbolicamente o suporte anatômico de sua lesão, impregna-se dele e impregna seu corpo vivente. Mas qual é exatamente o lugar e a natureza da lesão que produz o sintoma de conversão? Para responder é preciso compreender, por um lado, que a anatomia simbólica da histeria não é feita de órgãos reunidos mas de ideias reunidas, e, por outro lado, que um golpe no nível desse conjunto traduzir-se-á finalmente por uma paralisia efetiva. Admitindo-se que a anatomia da histeria é uma anatomia feita de ideias, aceita-se a partir daí que a lesão que provoca a paralisia é uma lesão nas ideias, uma anomalia entre as ideias: tal ideia particular, porque particularmente investida de afeto, não consegue integrar-se no conjunto das ideias. A paralisia histérica de um braço, por exemplo, explicar-se-ia pela ruptura da relação entre a ideia do braço e as outras ideias. “A lesão seria portanto a abolição da acessibilidade associativa da concepção do braço. O braço se comporta como se não existisse para o jogo das associações.

Não temos a intenção aqui de tirar todas as consequências da tese freudiana sobre a lesão da paralisia histérica. O que nos importa é colocar a ênfase sobre um problema bem definido que Freud se contenta tão-somente em indicar. Ele nos conduzirá precisamente à proposição que reaparecerá mais tarde na análise com Laure. Coloquemos a questão: com que material histérico ela arranja seu corpo psíquico? E respondamos: com as formas imaginárias que ela filtra através de sua superfície perceptiva sensível. Essas formas e as singularidades dessas formas, uma vez percebidas, carregarão de grande valor afetivo a ideia relativa a tal órgão particular. A ideia inacessível ao conjunto das outras ideias será inacessível porque uma forma* (p. 183) imaginária veio investi-la, isolá-la e torná-la traumática. Mas, com todo o rigor, não é a forma imaginária em si mesma que dá uma força traumática à ideia, mas a percepção sensível e inconsciente dessa forma. Tudo está lá, na percepção histérica das formas imaginárias; no fato de que é com o fálus, através do filtro do desejo sexual, que a histérica percebe os contornos, as cores e a textura dos objetos que toma emprestado ao meio ambiente imaginário. Até aqui empregamos o atributo de “simbólico” para designar o estatuto da anatomia psíquica construída pela histeria. Seria preciso na verdade discernir melhor as coisas e dizer agora que a anatomia é simbólica enquanto permanecermos na perspectiva de defini-la como um conjunto de ideias, mas que se torna fantasiosa se introduzimos a mais pregnância da percepção fálica de formas imaginárias que carregam cada uma das ideias.

Mas quais são essas formas imaginárias? Para Freud, a anatomia fantasiosa do histérico calca-se sobre a concepção popular dos órgãos e do corpo em geral, por um lado; e, por outro, funda-se em nossas percepções táteis e sobretudo visuais. O corpo popular, a representação popular do corpo que ensinou ao histérico, sem que ele o saiba, o que é um órgão, é o corpo de um figurino humano grosseiramente esboçado, primitivo, um pouco maciço, montado à maneira de uma roupa. De acordo com o corte e a arte do alfaiate, ela se veste de acordo com a moda da época e se deixa ver, tocar e palpar. Macio, maleável e desmontável como um corpo de boneco de pano, ou simplesmente como uma boneca que se abraça, sente-se e se destrói, é este o ser imaginário de que a histérica se embebe. Uma singularidade desse ser, uma expressão fisionômica, um olhar, uma ferida ou uma mancha que foi percebida e ganhou a importância afetiva de um trauma será talvez, a longo alcance, uma das causas do sintoma histérico. Desse ponto de vista, a célebre teoria do trauma da sedução na gênese da histeria deveria referir-se, indiretamente ao menos, a esse substrato material que uma boneca significa na vida de uma histérica. Se a sedução traumática por um adulto é a causa fantasiosa da histeria, seria preciso agora completar dizendo que a localização do trauma que afeta a histérica, os detalhes da cena da sedução, a região corporal traumatizada são elementos que parecem programados, já inscritos pela experiência pregnante da percepção das formas imaginárias. A histérica não pode sofrer de um trauma que a boneca imaginária de sua infância já não tenha sofrido, mesmo aproximadamente. Desatacou-se assim a proposição que iria valer no curso da análise de Laure: diante do braço paralisado, por exemplo, o psicanalista remontará não somente à ideia “braço” mas também à personagem imaginária, boneca, roupa ou desenho, na qual foi percebido um traço singular, eventualmente localizado num braço, carregando afetivamente a dita ideia.

Observemos de passagem que, se aceitamos a importância do meio das formas imaginárias na determinação de uma conversão e talvez de outros sintomas, segue-se que as modalidades e a frequência das afecções histéricas dependem intimamente do imaginário que dominava em tal época. Nossas histéricas de hoje jamais serão as histéricas de Charcot, entre outras coisas porque o imaginário de Charcot não é o nosso. As bonecas e bonecos daquele tempo desapareceram, levando consigo as histéricas de antanho.


***

  Na manhã seguinte retomei a poltrona de analista, um pouco influenciado pelas reflexões sobre o texto de Freud. Minha escuta, minha disposição para a escuta naquele dia estava, como toda escuta, parcialmente saturada: não se escuta senão o que se diz em nós, e escutar bem o outro significa afinal dizer justamente o que é preciso para que ele deixe vir seu próprio dito. Eu tinha ficado com a conclusão tirada da discussão da noite, que, diante de um sintoma, era necessário remontar às bonecas originárias e a seus significantes que poderiam ter intervido na formação desse sintoma. E na observação de que a incidência dessas bonecas traumatizantes não deveria limitar-se exclusivamente à histeria mas talvez à produção de todo sintoma em geral.

Naquela manhã, com tal disposição, recebi Laure e, ao vê-la instalar-se sobre o divã, recordei-me subitamente da impressão da véspera por ocasião do encontro no patamar: “Vi olhos chorando”. Desde o início a analisanda evocou, sem nenhuma nota dramática, as lágrimas que se seguiram ao fim da última sessão. Apesar da alusão à cena do patamar, eu não pensava no momento em lhe falar do olhar que me tocara. Enquanto ela falava, meu pensamento já não estava nas bonecas da teoria com a qual me dispusera a ouvi-la; eu estava muito tomado pela lembrança de minha impressão. E, no entanto, escutando-a e me escutando dizer – em silêncio – que eu tinha visto olhos chorarem, reapareceu meu interesse teórico pelas personagens imaginárias portadoras de um significante que intervém na formação de um sintoma. Esse interesse traduziu-se então em uma pergunta que eu formulava a mim mesmo da seguinte forma: e se os olhos de bonecas que se impuseram a mim, destacados da pessoa da analisanda, autônomos e ocupando todo o campo de minha visão, remetessem a olhos de bonecas que Laure pequena tivesse talvez amado? Numa virada da sessão, avanço minha pergunta e, retirando qualquer referência aos olhos, peço-lhe simplesmente que me fale de suas bonecas da infância. “Minhas bonecas? diz ela, eu quase não tinha; eram mais bonecos homens, bonecos duros e não macios e doces como os bebês de hoje. Ah! Agora me lembro, havia também um boneco diferente. Não era verdadeiramente uma boneco mas uma criança pintada numa tela. Uma criança triste, com grandes olhos tristes e uma pomba na mão”. Antes mesmo que ela terminasse essas frases, estava tocado por ouvir dizer precisamente o que eu tinha decidido calar: os olhos tristes do menino de que falava talvez fossem os mesmos que vi chorando. Essa relação entre os olhos do menino imaginário de sua infância e os seus próprios me parecia uma convergência tão flagrante, um intrincamento tão cerrado, que não havia mais obstáculo a que eu lhe comunicasse minha impressão da véspera.

No mesmo instante em que eu ia intervir, inseriu-se imediatamente uma outra lembrança: os olhos de sua irmã, pouco antes do suicídio. O intrincamento dos olhos tristes tornava-se então uma espécie de encadeamento inexorável: à tristeza do olhar que me tocara seguia-se a tristeza do olhar do menino, depois a do olhar de sua irmã morta. Involuntariamente, eu estava estabelecendo uma reconstrução que respondia à teoria que havíamos depreendido do texto de Freud: os olhos do menino no quadro, reanimados pelos olhos que *eu tinha visto chorarem, me pareciam o traço significante de uma personagem imaginária que, uma vez percebida, poderia ter sido uma das causas da doença que conduzira sua irmã ao suicídio. Eu tinha começado a sessão procurando as bonecas da paciente e estava agora cativo do laço entre um menino triste pintado numa tela e a tristeza de sua irmã. A reconstrução descentrava-se da relação dual com Laure e, em vez de me interrogar sobre seu próprio olhar, eu me virava para um terceiro, representado por sua irmã, e me dizia que esta havia percebido inconscientemente o olhar triste do quadro. Entre os olhos da analisanda e os de um ser imaginário que tinha contado em sua vida, instalou-se no momento os olhos do Outro.

Carregado assim dessa reconstrução, intervenho enfim e, com muito poucas palavras, limito-me a lhe dizer a impressão da véspera, de não tê-la visto chorar mas de ter visto os olhos que choravam. Sem parecer atribuir importância particular a meu dito, a paciente continua a rememorar: “A empregada, Maria, uma espanhola que cuidou de mim durante toda a infância, sempre me colocava em rivalidade com a criança do quadro e sempre me ameaçava de deixá-la tomar meu lugar se eu não obedecesse. Esse menino era importante para mim e para Maria”. Escutando essas palavras, eu persistia em ser influenciado por minha reconstrução, que acabava de orientar-me para o destino infeliz de sua irmã e, deixando-me guiar nesse sentido, eu lhe pergunto em que cômodo da casa estava a tela. E a analisanda responde: “Não estava em meu quarto, mas no de minha irmã, bem em cima de sua cama, em cima de sua cabeça”. Repito: “No quarto de sua irmã?” Laure faz silêncio; um silêncio que não era um silêncio-ato, tendo toda a força do desejo inteiramente confirmado. E como se subitamente tivesse estabelecido a mesma aproximação de minha reconstrução, ela me interroga por sua vez: “Como... você pensa que essa criança do quadro tem relação com o que aconteceu a minha irmã”... Nunca teria pensado nisso. Mas isso me lembra alguma coisa que tem relação com a mulher espanhola. Maria começou a trabalhar para nós logo depois de ter perdido sua filhinha num acidente de automóvel. Eu me lembro de substituir sua filha desaparecida. E agora que falamos do quadro da criança triste, percebo o quanto essa criança com a qual me comparava com tanta frequência devia lhe lembrar sua filhinha morta”.

Sim, a analisanda falava de si e da menina desparecida, ambas encerradas na tristeza da criança pintada na tela. E, no entanto, eu estava persuadido de que, ao evocar sua lembrança, na verdade falava de sua irmã. De sua irmã, de si mesma e do lugar do quadro na infância delas. Mais, ao falar da menininha, ela parecia buscar quase voluntariamente confirmar minha própria reconstrução: esse quadro, coisa do imaginário, de uma maneira ou de outra estava na origem de uma morte real. No instante em que, logo depois de minha observação sobre o quadro, Laure fizera silêncio, a sessão sofrera uma báscula. A analisanda não era mais a mesma, nem tampouco o psicanalista. Esse silêncio era um silêncio compacto de certeza. No momento em que compreendeu e concluiu que os olhos tristes da criança do quadro podiam estar ligados à morte de sua irmã, a paciente havia modificado a sua posição de sujeito. Antes desse instante de silêncio, ela rememorava; depois desse instante, ela fazia mais do que rememorar, ela estava dentro do olhar de sua irmã, confundida com ele. Numa lembrança encobridora, ela dizia ter ocupado para Maria o lugar da filhinha desparecida, mas na fantasia inconsciente que essas mesmas palavras e minha escuta atualizavam, ela ocupava esse outro lugar de ser os olhos de sua irmã. Talvez os mesmos olhos que eu tinha visto.

***
 
Interrompemos esta comunicação no ponto em que o desejo da analisanda e o do analista se tornam um só desejo, o da relação transferencial.

Na verdade, a analisanda não falava de sua irmã, nem da menininha desaparecida, nem da criança triste do quadro, nem mesmo de sua própria tristeza, que na véspera me tocara. Tampouco falava da morte, que no entanto a horrorizara no dia em que, antes dos outros, descobrira o corpo rígido de sua irmã. Não, durante esse fragmento de análise, não se tratava da morte nem da tristeza mas de um lugar onde se condensava em silêncio e de maneira maciça a transferência em jogo. Durante esses fragmentos de sessões, os olhos eram mais que veículos de uma tristeza ou de uma morte que encarnavam e transmitiam numa filiação estranha. A paciente só falava e o analista só escutava uma única coisa, sempre a mesma, que atravessava e ligava como um fio todos esses olhos, inclusive os meus. Esse lugar, essa coisa sem substância, muda, destacada dos seres que assim se sucederam, nós lhe damos por convenção de linguagem o nome físico de olhar. É ali, nesse olhar de ninguém produzido entre uma escuta e um dito, que a transferência se realiza e que o inconsciente existe.

Alguns dias depois, na sessão que se seguiu, a analisanda me traz uma palavra de sua mãe. Quero concluir com esta palavra: “Quando perguntei a minha mãe, ontem, o que tinha acontecido com o quadro, ela respondeu: mas sempre esteve num dos quartos! É engraçado, esse menino com a pomba tem te acompanhado por toda a vida”.

 
NASIO, Juan David (org.). O silêncio em psicanálise. Tradução de Martha Prada e Silva. Campinas, SP: Papirus. p. 181-189.