quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Calcinha ou Cruz Vermelha?, Antonino Ferro

Após anos de análise, Nando está falando algo, quando me sinto deslizando em um estado de sonolência do qual desperto repentinamente, consciente de ter perdido um pedaço de seu relato. Procuro intervir utilizando algo que eu tinha ouvido, mas Nando me parece pouco convicto. De repente, me diz: “Pareceu-me que o senhor estava com uma respiração regular, muito regular”. Não sei o que fazer de fato, é verdade, eu tinha adormecido. Neste ponto, digo-lhe que talvez temesse uma ausência minha e um não recordar os fatos importantes sobre os quais estamos trabalhando, e retomo os fios principais de todos os temas do último período. Nando me parece ausente. Terminada a sessão, fico descontente, penso não ter sido honesto. Ao mesmo tempo, percebo que eu havia adormecido, como se tivesse recebido uma injeção de penthotal diante de algo doloroso, um salva-vidas diante de uma tensão excessiva. Depois, eu havia feito o mesmo, dando uma interpretação excessiva que havia feito com que Nando se retirasse. Digo-me: “Talvez não seja a qualidade negativa das emoções (ciúme, raiva, inveja) o verdadeiro problema, e sim sua intensidade”. No dia seguinte, Nando está bastante reticente em falar e diz ter tido, na sessão do dia anterior, uma imagem que o havia angustiado: um homem que se mostrava com os genitais descobertos, um exibicionista, e ele tentando afastar-se. “É evidente”, lhe digo, “que ontem aconteceu exatamente isso, fui excessivo na segunda parte da sessão, fui exibicionista ao lhe dizer tudo o que eu disse”. Acrescento que era verdade que, no início da sessão, eu tinha me ausentado, adormecido por um breve momento, como se tivesse recebido uma injeção de penthotal. Talvez o mesmo tenha acontecido com ele, quando eu havia me excedido ao dizer tudo aquilo, ele havia se retirado. Mas, não foi justamente em virtude de um excesso de emoções que nós nos retiramos? Aliviado, Nando diz que ontem – quando me percebeu ausente – estava me contando de uma emoção muito intensa que tivera ao reencontrar (vínhamos de uma semana de suspensão da análise) uma antiga namorada: tinha quase fugido, tinha ficado vermelho... Foi isso que eu não ouvi. A cena acontecera em uma pista de patinação no gelo. Pergunto: “Mas por que, quando percebeu que minha respiração havia se tornado regular, não me perguntou se eu estava acordado?” Nando diz que temeu ser cansativo e responsável pelo meu distanciamento. Digo que é como se sua companheira adormecesse a seu lado e ele, ao invés de se zangar, pensasse que é pouco interessante. A sessão prossegue com a liberdade de falarmos, de forma explícita e direta, sobre o que havia acontecido, a ele e a mim, diante de emoções muito intensas, quando o gelo parecia derreter. No dia seguinte, Nando conta dois sonhos: no primeiro, tem uma experiência de forte exclusão, no segundo, há uma médica muito atraente, que fala com ele de forma franca e sincera; por um instante entrevê a calcinha vermelha da médica, que depois o coloca deitado e realiza um exame objetivo. A calcinha vermelha lembra também a Cruz Vermelha. Depois, a médica se aproxima e faz nele uma massagem muito benéfica (p. 24-25). FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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