terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dois diferentes métodos de analisar a defesa, Monroe Pray (A tradução é de minha autoria)

Introdução Antes dos recentes e detalhados artigos de Paul Gray sobre a análise do ego (1973, 1982, 1986, 1987, 1988, 1990, 1992), não havia descrições melhor apuradas a respeito das defesas dos que as de Anna Freud e as de Charles Brenner. E se incluíssemos as contribuições sistemáticas de Fenichel em relação à análise das defesas, teríamos uma espécie de compêndio de influências que apresentaria o desenvolvimento da técnica analítica do ego pertencente à década de 50. Ao lançar um olhar para trás, não poderíamos imaginar que a técnica de analisar as defesas de Anna Freud, despontadas em meados de 1930, ganharia maior destaque a partir do foco de Gray (1973, 1982) na capacidade do ego de observar os conflitos intrapsíquicos. Não que atualmente essa visão seja de todo difundida, mas ela é considerada tão verdadeira e original quanto o método exposto na obra intitulada O Ego e os mecanismos de defesa (1936), cuja análise das defesas era feita de forma “microscópica” no momento em que o conflito atingia a superfície da consciência. A mentalidade analítica daquela época não adotou as ideias de Anna Freud, embora tenham sido comedidamente incorporadas ao pensamento de alguns teóricos, tais como Rapaport (144-1948), Hartmann e Kris (1945). O interesse pelo método de Anna Freud se extinguiu aos poucos da literatura, e isso a inibiu. Então, no início de 1970, Gray recauchutou algumas das premissas da autora com o que chamou de “processo de análise das defesas visto de perto”. Mesmo que Anna Freud tenha parado de escrever sobre tal técnica, isso não a impediu de acreditar na existência de uma “janela” para o inconsciente. Até porque podemos notar que ela veio a se tornar mais convicta e veemente em relação à presença dos conflitos na superfície da consciência, enquanto, na Hampstead Clinic, discutia e “revisitava” o livro O Ego e os mecanismos de defesa ao lado do colega Joseph Sandler (1980-1984-1985). Anna não teve progressos e nem expandiu a sua metodologia. O objetivo deste artigo é o de ir além do que já temos. É sabido que as formulações estruturais de Freud (1923, 1926) ofereceram novas possibilidades de identificar e de representar a gama de conflitos mentais. O seu modelo estrutural favoreceu a compreensão dos conflitos de nossos pacientes. Os teóricos reverdeceram as esperanças em se tratando da evolução da técnica do atendimento clínico. A era de 30 deflagrou a hegemonia do Ego sobre o Id e, em paralelo, a importância das defesas e dos traços de caráter, em uma constelação sintomática neurótica, crescia gradativamente. Fenichel enunciou que todos deveriam analisar as defesas, mas ninguém sabia ao certo como proceder – uma dificuldade que ele mesmo teve de enfrentar e que a superou com enorme habilidade e perícia. A sua abordagem sistemática foi construída a partir dos cânones clássicos da técnica e da tradicional análise das defesas que vigoram até os dias de hoje, como nos trouxeram os escritos de Brenner. Fenichel estava empenhado em livrar o trabalho psicanalítico da influência da sugestão, pois tal visão enfraquecia o Ego a ponto de deixá-lo passivo e vulnerável a uma figura autoritária investida de poderes mágicos (1944a). Ele afirmou que o juízo crítico do paciente se inclinaria a combater a ânsia natural por uma “proteção mágica” e por um “engajamento onipotente”. Isso significava que as intervenções do analista, apresentadas à percepção e ao julgamento do paciente, precisariam assumir um caráter elucidativo e, logo, não necessitariam da submissão à autoridade para que as interpretações se tornassem mais “eficientes ou críveis” (1941,1944b). Quando Anna Freud inaugurou a perspectiva do “conflito presente na consciência”, Fenichel, cuja intenção era a de minimizar os efeitos do legado da “hipnose” na técnica, quase que simultaneamente, asseverou que o objetivo da interpretação seria o de trazer – o mais próximo possível – à consciência o conflito: “quando as trivialidades pedem passagem e se transformam em obstáculos, não há sentido algum em proferir ‘interpretações profundas’ (mesmo que elas tenham afinidades com o contexto em questão)” (1934, p.334). O analista, por conseguinte, “atrai a atenção dos pacientes para os conteúdos pré-conscientes ainda despercebidos (e, também, o alerta para ‘algo a mais’)” (p. 342). Mesmo que existam convergências entre as inferências de Fenichel e as de Anna Freud, ainda assim, há diferenças prementes. Ele nos trouxe que o que o paciente fala e manifesta acaba por disfarçar ou encobrir os conflitos inconscientes. E também que: “A psicanálise é a psicologia que desvela os disfarces” (p. 320). Nós “deduzimos o que o paciente realmente quer exprimir” e transmitimos o que nos foi confiado a partir do que chamamos de “interpretação” (1935, p. 322). Para descobrir o que as palavras que recebemos significam é importante que se instaure “uma intensa empatia para com a personalidade de nosso interlocutor e, para tanto, o analista se vale de sua principal ferramenta, o próprio inconsciente” (p. 324). “As forças que a um só tempo se se opunham uma à outra se encontram agora perdidas e inutilizadas em prol da manutenção das atitudes defensivas do ego; conflito permanece em estado latente” (1940, p.190). “A interpretação dinâmica” serve para buscar algo que continua cifrado ou que não foi mencionado espontaneamente no discurso do paciente e – mesmo que venha a se “deflagrar involuntariamente” – o foco é o de “localizar a geografia onde se aninham os conflitos”. Fenichel deu ênfase ao interesse do analista pelas formas em que o inconsciente influencia e se traduz nas condutas e “nas atitudes defensivas do ego”. Fenichel não considerou úteis as formulações de Anna Freud. Ele supôs que o analista deveria “pilhar o instinto rejeitado” (p.189) e desmascarar o disfarce em conluio com o ego defensivo. O ponto de vista de Anna Freud sobre o conteúdo manifesto na superfície não foi alinhavado com clareza ou, mesmo que fosse de todo inteligível, poderia ser relegado ao desuso. Os méritos do capitulo: por que tias comparações são relevantes? O capítulo anterior esboçou, sob a ótica de Anna Freud (1936), as tradicionais ideias da análise das defesas, assim como aludiu à obra de Charles Brenner, datada de 1992, A mente em conflito, em vista de comparar tais perspectivas com as de outros analistas. Anna Freud e Charles Brenner concordam com Ernst Kris (1938) ao afirmar que “a psicanálise é o comportamento humano observado como um conflito”, mas diferem fundamentalmente a respeito de como reconhecer esse conflito intrapsíquico e em como mostrá-lo aos pacientes. Primeiro, vamos averiguar as posturas de cada um e as formas como intervêm. Segundo, utilizaremos um detalhado exemplo clínico vindo do autor Martin Silverman (1987), que publicou O Inquérito psicanalítico. Terceiro, discutiremos as diferenças entre essas duas abordagens e entenderemos os motivos pelos quais as formulações de Anna Freud chamaram a atenção de poucos analistas. Por último, a discussão nos levará a avaliar os dois pontos de vista, assim como os seus potencias de pesquisa e de validação. Na conversa de Anna Freud com Joseph Sandler teremos como contemplar o panorama a respeito da superfície da consciência, que, aos olhos de Sandler, parece negar as vantagens advindas da teoria estrutural moderna, provedora da ideia de ubiquidade do inconsciente e de suas influências em relação às formações de compromisso. Anna responde que a teoria moderna pode servir para o que Sandler se propõe a fazer, mas que, em realidade, tal modelo leva à perda do ponto de urgência na análise e, também, tende a negligenciar a "experiência" de poderosos confrontos com os traços de personalidade do paciente, assim como esfria o interesse pelos modos em que os processos do pensamento realmente se articulam no trabalho analítico. Anna Freud considera que o seu estilo é o "clássico" e ultraja a teoria moderna por relegar ao segundo plano as considerações topográficas. Na Conferência Clínica de Hampstead, em 1972-1973, as discussões com Sandler (1980-1984, 1985) giraram em torno da obra O Ego e os Mecanismos de Defesa, e foi aí que Anna Freud tentou deixar claro que usou os conceitos topográficos para detectar os conflitos. Ela cresceu acompanhando o desenvolvimento da teoria topográfica e, gradualmente, passou a incorporar os paradigmas estruturais: "Eu pertenço definitivamente ao grupo dos que se sentem à vontade em ir e voltar aos aspectos topográficos quando as circunstâncias são convenientes... A propósito, esse meu péssimo hábito de viver entre os dois modelos de referência – o topográfico e o estrutural – é muito recomendado, pois clareia os pensamentos e, quando necessário, simplifica os relatos e as descrições clínicas” (pp. 31-33). Na medida em que aprendeu a se sentir confortável com a teoria estrutural, Anna passou a usar os dois aportes teóricos como ferramentas de trabalho: “Pensar o inconsciente, o pré-consciente e o consciente em termos de qualidades ao invés de lugares ou áreas, não os relega ao segundo plano; pelo contrário, os fatores qualitativos parecem ser a única explicação real para a luta travada entre as partes da mente” (Trecho extraído da carta que A. Freud escreveu para Lawrence Kubie, em 1955, e que foi citada por Young- Bruehl, 1988, p. 162). Ela aponta que o ego se importa apenas com os impulsos ameaçadores no momento em que se tornam conscientes. A bifurcação: conflito consciente e conflito inconsciente O excerto clínico, retirado da obra de Silverman (1987), será útil à discriminação dos dois pontos de vista: Sexta-feira A chuva me acordou cedo. Os pingos repicavam na unidade de meu ar-condicionado de forma contínua, e isso me tirou o sono. Eu olhei para o relógio e eram 5h30min. Pensei no momento em que teria de vir aqui. Eu não queria tido esse compromisso hoje. Ao longo de toda a semana, estava me sentindo irritada contigo. Na verdade, não estou assim tão irritada. É que queria ter uma folga desse negócio de pensar. Ontem, em meio a isso, também senti raiva de R. (a sua companheira de quarto). No banheiro, ela dependurou as toalhas em todos os ganchos e só me sobrou um lugar para colocar a minha toalha. Durante bastante tempo, não falei. Depois, criei coragem e disse para ela que precisaríamos reorganizar o banheiro. Isso pareceu idiotice. Eu acabo ficando tão preocupada com tais trivialidades. Eu sinto tanto ódio. “Em apenas poucos segundos”, comentou Anna Freud (1936; veja também o diálogo entre Sandler e Anna Freud, 1985), “o analista consegue identificar o ‘conflito em estado nascente’”. Ele observa o impulso instintual, a pulsão derivada do inconsciente que se expressa e se oculta quase que simultaneamente. O analista percebe o trauma, a dinâmica de oposição que se instaura, enquanto o ego tenta, em um movimento defensivo, inibir o mal-estar provocado pela manifestação do instinto. “Ao longo de toda a semana, estava irritada contigo. Na verdade, não estou assim tão irritada”. “Depois, tomei coragem e disse para ele que precisaríamos reorganizar o banheiro. Isso pareceu idiotice. Eu acabo ficando preocupada com tais trivialidades”. Se o esforço da defesa tem êxito, Anna Freud explicou, é porque uma formação de compromisso se estabeleceu: “a paz volta a reinar no psiquismo – o que é infrutífero observar na situação em evidência” (1936, p. 10). Essa afirmação define claramente a diferença entre as duas posições a respeito da defesa. Charles Brenner (1982)comenta que o analista que assume o ponto de vista de Anna Freud ao investigar o conflito tende a ter “uma visão muito limitada do fenômeno psíquico, pois tenta descrevê-lo e entendê-lo ao mesmo tempo” (p.111). Por exemplo, mais do escutar o que é trazido à superfície da consciência, ele deve perscrutar a raiva e a indignação que estão a serviço da defesa. No caso, o interesse sexual em relação ao analista ficou reprimido, e é aí que as intervenções mostraram à paciente o fato de que sentirá falta do analista quando ele tirar férias. Charles Brenner disse que o id, o ego e o superego encontram-se envoltos em uma complexa interação de conflitos inconscientes. Há diversas formas de expressão da satisfação e da restrição, assim como diferentes graus de desprazer. O “princípio norteador é o de: alcançar o máximo de prazer com o mínimo possível de desprazer” (p.111). Brenner centraliza o interesse analítico nas formações de compromisso oriundas dos conflitos infantis inconscientes. A visão detalhada de Anna Freud sobre o conflito na superfície Em 1936, Anna Freud apresentou quatro novas ideias. A primeira, como já indicamos, foi a de que o analista pode observar, na superfície da consciência, os conflitos intrapsíquicos, no instante em que o ego se opõe a eles e os reprime. Em uma discussão feita com Sandler (1985), ela disse: É claro que toda a terapia psicanalítica é fundamentada a partir da reconciliação entre as tendências que se opõem à consciência e as que conseguem autorização para emergir á superfície. Por que temos de nos esforçar tanto para torná-los conscientes, se, em realidade, eles estão em harmonia nesse estado inconsciente? Uma de nossas pressuposições básicas na terapia analítica é a de que o conflito existe apenas na consciência do ego (p.301). A segunda ideia foi a de que as vinhetas clínicas exercem um grande efeito no aprimoramento do processo técnico do analista, pois gradualmente desbravará, por intermédio da transcrição do que fez e da leitura de casos, o reino misterioso dos elementos inconscientes. Ela complementou que quando os conflitos são analisados, não se descobre apenas que um impulso emergiu até a superfície, mas também que o paciente regrediu e, por conseguinte, assumiu antigos meios de se defender. Tias momentos concedem oportunidades para que estudemos a transferência de defesa. O repertório de defesas e os motivos que causam a sua erupção – a razão de existirem – nos reporta ao passado e nos ajuda a restaurá-lo. A terceira ideia da psicanalista alude ao fato de que, enquanto meios de averiguar o funcionamento do ego, a investigação das soluções dos conflitos (as formações de compromisso) não é produtiva. O quarto ponto de partida do pensamento vigente naquela época era o de que a instância observadora do analista exigia uma modalidade de atenção tenaz ligada às variações no discurso dos pacientes, não se tratando, no caso, da atenção-flutuante e nem da escuta feita pelo terceiro ouvido. Anna Freud, naquela ocasião, aparentemente acreditava que não havia novidades em seu interesse pelas camadas superficiais da mente, mas, mais tarde, ela comentou com Sandler (1985): Eu estava inclinada a escutar que repercussões teriam as minhas acepções nos analistas mais ortodoxos, pois o valor dos analistas era aquilatado, por muitas pessoas, pela área que exploravam e pela distância que os separava da superfície. Então, a hipótese que erigi naquele tempo era de a que o analista deveria se posicionar de forma equidistante em relação ao id e ao ego, ou seja, faria o sentido oposto: das funduras às superfícies, o que não era de todo uma atitude popular, porque a tendência nos conduzia a explorar cada vez mais as profundezas do inconsciente. No início, senti que isso poderia difamar a psicanálise, que primava tanto pela investigação do conflito, o exame das neuroses de defesa... Sozinho, nenhum abismo conseguiria produzir uma neurose. Isso só aconteceria com uma interação com a superfície (p.523). Em contrapartida, ela estava ciente de que os seus fragmentos clínicos poderiam transmitir aos poucos uma forma nova de decifrar o passado. Anna explicou que o conceito de transferência de defesa “por alguma razão, não foi reconhecido e nem difundido na época” (Sandler e Anna Freud, 1985, p.41). Ao voltar às vinhetas clínicas, Anna Freud “escutou” o conflito intrapsíquico, e o seu método foi o de interceptar o derivado instintivo no instante de sua expressão e, depois, assistir as colisões entre as forças do ego e as do objeto catexizado. “Depois, tomei coragem e disse para ele que precisaríamos reorganizar o banheiro. Isso pareceu idiotice. Eu acabo ficando preocupada com tais trivialidades”. Nesse exemplo, o paciente dá vazão à agressividade e se queixa ativamente. Em seguida, uma “voz” em paralelo (depois da indicação da seta ) amortiza (controla) o impulso ao julgar-se ridícula. Essas duas vozes representam partes da mente relativamente próximas ao id e do ego/superego. Anna Freud vê esse diálogo interno como uma "forma normal" de associar o pensamento e de expressar o resultado do trabalho. Em vista de identificar o conflito, ela tenta fazer distinções entre as partes da mente, as vozes do "id" e do "ego", que são facilmente reconhecíveis e familiares. A parte que alude ao id volta-se à realização do desejo a qualquer custo e sem medir as consequências. É algo centrado em si mesmo, impassível e, quando deseja o que for, precisa que seja "imediato". O ego é descrito pela autora como "a disposição inata que luta contra os instintos". E acrescenta que "é por isso que o ego existe desde o início com as seguintes atribuições: administrar, controlar e barrar o id" (Sandler e Anna Freud, 1985, p. 61). É capaz de governar, dominar, frustrar e conceder um destino "menos perigoso" aos impulsos instintuais, tudo isso com algum grau de gratificação posterior. A interpessoalidade é vital ao ego e à desenvoltura do id. O ego inventa mapas pessoais e determina o que é nocivo e o que é inócuo tanto nos discursos e "pensamentos" (quando o pensamento leva ao impulso) quanto nas ações. O desenvolvimento do ego lida com ameaças vindas do ambiente e, também, com as que residem nas pulsões (ou instintos). Valendo-se do método de tentativa e de erro, a criança, à maneira de um cientista experimental, cria referências das quais passará a depender cada vez mais. Tais referenciais cimentarão as bases de um vínculo interpessoal, autônomo, adaptativo e defensivo. Cada pessoa, inevitavelmente, terá um jeito singular, a partir das ideias e dos ideais, “de resolver os conflitos e de conceder um destino às pulsões, e será isso que possibilitará que o indivíduo viva de forma civilizada nas comunidades” (Anna Freud, 1974, citada por Young-Bruehl, 1988, p. 457, em uma carta para J.C. Hill). Um mapa, entretanto, só é confiável dentro de suas fronteiras. Anna Freud lembrou-se de um comentário feito por Freud sobre como podemos encorajar as crianças – fornecendo-as os mapas dos lagos italianos – a agirem como adultas ao se deslocarem para o Polo Norte (Sandler e Anna Freud, 1985, p. 343). No processo analítico, o nosso estudo sobre o “mapeamento” do ego é extremamente importante. Rapapport escreveu: Os seres humanos, ao interagirem entre si, tendem a reproduzir ou a evocar os padrões desenvolvidos em contato com “pessoas significantes em sua vida”; tais padrões de relacionamento, finalmente, voltam-se àqueles nos quais o indivíduo se “envolveu desde o início”: pai, mãe, irmãos, babás, enfermeiras etc. As repetições e as convergências na forma de estabelecer elos acabam por se transformar nos referenciais empíricos dos conceitos de transferência. As transferências são ubíquas no cotidiano, mas até agora o método psicanalítico foi o único a se deter a elas, justamente para traçar as suas origens de modo sistemático (p. 25). Anna admitiu que a simplificação da imagem da mente, dividindo-a em “partes”, incomodou muitas pessoas, mas ela, por si só, aceitou essa personificação quase caricata. O seu objetivo de propor um novo modelo estrutural para substituir a formulação topográfica foi corroborado por Freud; foi aí que a descrição dos conflitos ganhou vida e passou a se encaixar aos relatos das pessoas que supunham ter experiências ou sentiam que as partes de suas mente “se digladiavam”. O ponto de vista da autora se presta à observação “cotidiana”, se resgatarmos o que Grossman e Simon escreveram a respeito do diálogo interior que se articula em todos nós. Eles dissertaram acerca da “linguagem natural da introspecção” e esboçaram a utilidade do “antropomorfismo”. As pessoas naturalmente vivem a experiência dos conflitos internos e as transmitem em termos de “vozes ” que se opunham. As metáforas introduzidas pelo modelo estrutural trazem “uma compreensão imediata... O antropomorfismo equivale à experiência humana”. (Hartmann ET al. 1946). Agora, nos dois exemplos clínicos (Silverman, 1987, Dahl ET al. 1988) escutaremos a “voz emanada do id” que, arrazoada e balanceada pelos “comentários do ego”, sofreu uma mudança de perspectiva e passou a ser controlada: 1. “-Eu pensei em dizer ‘obrigado por perguntar’, porque me senti muito agradecida por ele ter me indagado, mas decidi não falar. Porque eu poderia ter chamado a atenção para o fato de que eu nunca me interesso em perguntar nada” (Silverman, p. 152, o grifo é do autor). 2. “- E ele não costuma perguntar ou falar qualquer coisa, só percebo a sua respiração ou algo como um resmungo. E foi por isso que senti muita raiva dele e (começa a fungar), de certa forma, imaginei que o que eu fazendo com ele, se igualava ao que o meu pai costumava fazer” (O pai dela foi descrito como um menino fraco na infância) (Dahl ET al., p.21, o grifo do autor). Ao aplicar o modelo estrutural, Anna Freud conseguiu realizar o objetivo de esclarecer tudo o que se passa no psiquismo de uma forma lógica e compreensível – até mesmo para os pacientes que identificam os próprios aspectos de sua psicodinâmica. Ela personificou e concretizou as partes da mente. A autora proferiu que o id e o ego “não são apenas antípodas; ambos são dotados de linguagens peculiares, têm intenções distintas e agem por meios totalmente diferentes um do outro” (excerto de uma carta remetida a Lawrence Kubie, em 1º de janeiro, 1955, e que foi citado por Young-Bruehl, 1988, pp. 161-162). Anna Freud fez da consciência manifesta um “estágio” operacional, em que é possível visualizar as partes da mente à maneira de atores que falam e se confrontam. No modelo que elaborou, o ego tem uma predisposição inata a se opor, a supervisionar e a regular o id. A expressão de um impulso, nesse caso, poderia ser entendida, em quantidades variáveis de tempo, como uma “consciência-sintônica” (mas não egossintônica). Ao se voltar ao conflito, Anna Freud prefere não pensá-lo como um impulso "egossintônico", porque deseja ter em mente que essas duas instâncias, o ego e o id, buscam objetivos totalmente diferentes (Sandler e Anna Freud, 1985, p. 48). Entretanto, é claro que, quando o acordo é cumprido e o conflito não é de todo evidente, o ego arranja um meio de dar um destino "seguro" aos impulsos vindos do id. Nisso, ela redigiu: O ego fornece um auxílio enorme aos instintos. Ao se manifestar no mundo externo, essa instância pode guiar os instintos a terem uma gratificação adequada à demanda. O ego leva em consideração a realidade e não se governa a partir do princípio do prazer. No entanto, por insistir na realização do desejo de uma forma segura, conivente com a realidade e com o bom senso, o ego tende a inibir, com os processos de pensamento, a gratificação total do instinto. Então, por um lado, o ego é, em algum grau, parceiro do id e por outro, se mostra como adversário (1952, p. 34). Ao avaliar a sua instância observadora, Anna Freud discorda de Fenichel (1940, 1941), que apontou que, para se desbravar o inconsciente e as defesas do ego, “seria preciso, em primeiro lugar, encontrar um aliado acessível a nós, um ego arrazoado, que estaria livre de elementos defensivos” (1940, p. 189). Ao acompanhar as expressões prévias do inconsciente, a autora entendeu que não há necessidade de se ter um álibi. (Aqui temos a origem da famosa máxima de que o analista, ao analisar os pacientes, deve assumir uma posição “equidistante” diante do ego e do id: ele tem de esperar que as duas instâncias aflorem à superfície). Olhando atentamente, percebemos que a visão da autora é claramente pautada na ideia de que o ego se esforça para controlar o id. Em paralelo, ela faz referência a um ego racional que luta contra defesas “irracionais” e que encontra a influência do superego na empreitada de confrontar os impulsos infantis (como Freud havia sugeriu, me princípio). Adiante, em um exemplo clínico, veremos o uso de tal “influência”. Tecnicamente, Anna Freud passou a reconstruir a consciência – ou o que recentemente entendemos por consciência – como se fosse uma sequência de pensamentos e não elaborou, como via de complementação teórica, uma interpretação ou um ensaio a respeito dos conteúdos inconscientes em geral. Mais do que interpretar, ela enfatizou as nuances do conflito (1936, p. 15). Charles Brenner: resoluções de conflitos/ formações de compromisso Em oposição ao interesse pelo “conflito em estado nascente”, o que está em jogo agora é o conflito inconsciente infantil; o analista presta atenção nos compromissos aventados e nas diversas facetas dos conflitos que estão por vir. Ele interpreta as forças do inconsciente e realiza inferências sobre as tendências do id, ego e do superego. A tarefa envolve uma dissecação interpretativa dos possíveis compromissos formados. O analista, enquanto estuda o funcionamento psíquico, observa as formações de compromisso. As formações de compromisso se tornam importantes no momento em que o método psicanalítico é aplicado para investigar os desejos, as fantasias, os humores, os planos, os sonhos e os sintomas dos pacientes. Cada um desses itens se configura como uma formação de compromisso, à medida que os fenômenos psíquicos são arrolados e compreendidos como matéria de análise (Brenner, 1982, p. 109). Toda a atividade psíquica, incluindo os traços de caráter e os sintomas neuróticos, tem relação com as defesas, com o superego e é vista como pactos feitos entre os instintos e os seus derivados, afetos atinentes à ansiedade e à depressão etc. Então, assim dito, não podemos dizer: “Isso se trata de uma defesa? Será que há algum elo entre a castração ou à perda de amor? Estamos testemunhando uma gratificação? Ou temos um exemplo vivo de autopunição?”. Em meio a todas as perguntas, a resposta será sempre “sim”. O analista deve se propor a tentar saber qual é a resposta para tal interpelação: “o que determina a formação de compromisso e como devo interpretá-la ao paciente de forma eficaz?”. (Brenner, 1987, p. 167). A prática da “escuta” analítica para Anna Freud e para Brenner Hipóteses: Brenner tenta reconhecer (ou tolerar) as posturas defensivas que barram e ameaçam o acesso ao material inconsciente à consciência, enquanto Anna Freud observa o processo de instauração do conflito manifesto na superfície. Analisando “posturas” Sobre a análise de “posturas”, Brenner (1976) escreveu: Para esmiuçar o assunto, a defesa não é uma coisa, mas sim uma postura, especialmente uma postura mental. As perguntas – “o que ocorre com as defesas em análise? Elas desaparecem? Chegam a ir embora?” – são idênticas a estas: “o que acontece com o seu colo quando você se ergue?”. O “colo”, em comparação com a defesa, tem a mesma relevância, em linhas gerias. Ambos são conceitos úteis para se referir à postura, sendo que uma alude à postura física e a outra, à mental. Coxas são coxas, mesmo que estejam na vertical ou na horizontal. A sua função, entretanto, é (ou pode ser) diferente, dependendo da postura assumida, assim como o “colo”, na horizontal, por exemplo, evoca possíveis funções a cada um. Tal raciocínio pode ser aplicado, com igual rigor, às funções do ego. Quando elas servem a um propósito específico, executam as demandas inerentes aos instintos e aos seus derivados. No momento em que se opõem a isso, acabam por transformando-se defesas contra tais impulsos (pp. 77-78). “Sentado à poltrona”, o analista é capaz de investigar a mente, assim como identifica e até consegue explicar passo a passo as formações de compromisso: elementos instintivos, influências do superego, recrutamento das defesas, considerações acerca da realidade e de como ela é percebida. Análise das mudanças de postura – ou seja, o “processo” de analisar em si No modelo técnico de Anna Freud, o analista incentiva que o indivíduo se volte para o passado em vista de remontá-lo “no presente”. Em meio a isso, a autora descreveu, a partir dos conteúdos associados no momento, mudanças no jeito de sentar de seus pacientes. Muitas vezes, o desconforto ficava claramente visível e, ao se apontar tal diferença na postura, a tendência era de reconhecer o quanto isso mobilizava reações. Paciente: “Eu fiquei brava com você durante toda a semana.  Mas, na verdade, não fiquei tão irritada assim”. (Anna Freud provavelmente teria comentado: você está a me dizer que agora não se sente mais daquele jeito, mas o sentimento, apesar disso, estava aí há pouco tempo – algum desconforto a impediu de tocar nesse assunto?). O material clínico, de acordo com o modelo em questão, pode fazer com que, constantemente, o paciente oscile entre ficar “estagnado” ou “em movimento”, e o que define essas posturas são os instintos e os seus derivados que, na superfície, se transformam em conflitos. Tais operações ocorrem repetidamente e rapidamente. As defesas por si só Brenner (1982) indicou: “A defesa é um aspecto do funcionamento mental que se define apenas pelas suas consequências: a redução da ansiedade e/ ou o componente depressivo que se associa à dinâmica do superego ou aos instintos derivados da pulsão” (p. 73). “Não há funções específicas do ego responsáveis pelas defesas por si só e não existe nenhum mecanismo perito na habilidade de implantar ou de promover defesas” (pp. 74-75). As torções e os arranjos, os exageros e as omissões, o silenciar da atenção, a percepção, o pensamento, a memória, o afeto, que são – pura e simplesmente – os arsenais defensivos próprios das funções do ego. O ego tem a aptidão de “evocar qualquer conteúdo situado na geografia subterrânea do funcionamento normal e do desenvolvimento” (p. 75). Todas as defesas têm em comum o fato de “oporem”. A defesa, em sua acepção coloquial, é “um elemento pertencente à esfera da negação ou da contradição”. Toda a defesa voltada contra os impulsos e aos seus respectivos derivados gera ansiedade e/ ou depressão e, de certa forma, o impinge o “não” aos aspectos vindos do id (pp. 75-76). “A defesa, em geral, nega alguma coisa” (p. 75). Anna Freud (1980b) escreveu que, “em função dos impulsos perigosos... as crianças têm mais dificuldades de combatê-los quando são percebidos, conhecidos e recordados,... a defesa se volta não somente aos derivados do id, mas também para... as relevantes funções do ego, deixando-os parcialmente fora de ação” (p. 143, o destaque é do autor). Ela nota que, quando isso acontece, o paciente, por mais esperto e incisivo que seja, acaba por se tornar contraditório, passivo e confuso. Os derivados do instinto, se muito “agressivos”, às vezes, afetam a observação do ego em relação aos objetos, deixando a percepção mais limitada. No entanto, quando o impulso é reprimido, a tendência é a de acarretar “prejuízos” e bloqueios às funções do ego. A percepção, a atenção, a memória, a inteligência e o teste de realidade ficam abalados quando pelo desgaste gerado pela tentativa de controlar a pulsão. Brenner não parece empregar essa definição operacional nos estudos dirigidos às recorrentes flutuações do processo associativo, pois a sua descrição sobre as defesas são compatíveis a uma análise do conflito feita de momento a momento – justamente a técnica proposta por Anna Freud. Quando há o deslocamento do presente para o passado – ou vice-versa – o paciente tende a restituir o equilíbrio (como no exemplo seguinte: “Eu estava a pensar se realmente você está me entendo. Eu creio que menos do que costumava compreender”). Mudanças nos objetivos ou nos focos que imantavam a atenção dos pacientes indicam “perigo”. Todas as modulações sutis do tom de voz, as ênfases impressas em determinados assuntos e as atribuições dadas a eles, entre outros fenômenos, são dignos de atenção e podem demonstrar o tipo de sensações desconfortáveis que foram desencadeadas na consciência e que, de algum modo, ajudam a resgatar o “senso” de segurança no processo analítico. As simples variações no discurso do paciente, ocorridas de momento a momento, quando percebidos pelo analista, reduzem a ansiedade gerada pelo conflito. Em condições que encorajam o retorno do reprimido, Brenner traz que os derivados do id podem irromper à superfície. Mas, na escuta de Anna Freud, as irrupções dos conteúdos inconscientes são “naturais” e migram para consciência e, enquanto estão nesse estado, distanciam-se dos domínios do ego. Uma ilustração a respeito da escuta do conflito momento a momento Os excertos seguintes são transcrições feitas a partir de uma sessão de cinquenta minutos que foi gravada (Dahl et al. 1988). As flechas () indicam a manifestação das defesas: 1- No início da consulta: (Três minutos de silêncio. Ocasionalmente, ouviam-se ruídos estomacais) Tem algo que veio ao meu pensamento hoje. É sobre a minha assistente que, desde o ano passado, está comigo. Bem (suspira), eu levei um tempo para me acostumar com ela, e imagino que há muitos motivos para isso ter acontecido.  Mas, no início deste ano, eu até me sentia feliz com tudo o que ela vinha fazendo para mim. No fim, nem me aborrecia mais, apesar de minha assistente ser o tipo de pessoa que não me suscita muita empatia  eu acho. E, sim, já que a outra assistente foi embora, ela teve de assumir todas as tarefas pendentes, que se somaram às demandas existentes entre os professores. Eu pretendo fazer ajustes em minha rotina de trabalho e, talvez, ela possa me ajudar (p. 16, o grifo indica os momentos em que o ego se opunha a um impulso manifestado). Porque eu, eu (riso contido) estava pensando que, provavelmente, eu acabei fazendo a mesma coisa com o David. Na noite passada, em especial, eu falava com ele sobre  agora, não lembro. Em casa, eu estava apenas de bom humor na hora em que ele chegou. Ele chegou tarde, mas não atrasado, até porque eu sabia que o horário que ele estaria em casa. Só notei que ele não reagiu da forma que eu imaginava  não sei ao certo o que houve, mas acho que ele não percebeu que eu estava bem. – No fundo, eu estava triste em função de algo que fiz e não queria que ele soubesse. Eu esperava que ele reagisse a isso, que pudesse me aconselhar e que aprovasse ou não a minha atitude. Eu creio que seria essa a postura adequada para a situação. E, no fim, ele não disse nada, apenas resmungou e suspirou. E foi aí que fiquei furiosa com ele e  (começa fungar) eu imagino que, de certa forma, ele agiu como o meu pai costumava sempre me tratar [ou seja, sentia-se fraca, assim como o pai a fizer a sentir – “como se estivesse se reassegurando”] [Pausa, ruídos estomacais]. (pp. 20-21, o grifo é do autor). 3- [Comentários do analista] Será que há alguma conexão? É possível que o que se seguiu [o seu ruído estomacal] seja uma crítica ou um protesto a respeito do que aconteceu? [Pausa] Acho que se tivesse uma relação, eu não a admitiria [riso nervoso]. [Pigarreia, funga e faz uma pausa] Talvez tenha uma ligação, sim. Estou imaginando uma que não seja tão pessoal [riso nervoso], mas que eu tenho certeza de que, às vezes, ainda ocorre comigo. Embora não esteja funcionando como eu havia imaginado – às vezes, me ponho a pensar para onde isso tudo vai me levar e, você deve saber, chego a encarar que seja algum tipo de brincadeira.  Tem a ver com a minha criação: sempre me fizeram acreditar que eu só gerava gastos e que não fazia nada de bom.  Tenho a impressão de que isso não me acontece mais (p. 25, o grifo é do autor). A escuta de Brenner Brenner escreveu, “O equilíbrio entre a defesa o impulso que busca a gratificação é oscilante. Por exemplo, nos devaneios, sonhos e atos falhos, os derivados da pulsão geralmente chegam à consciência através de expressões verbais e, momentos depois, são repudiados ou ignorados" (1982, p. 110). O autor explica que a análise das expressões dos impulsos e das defesas pode fornecer uma imagem ampliada do que realmente se deve priorizar no tratamento. Alude à percepção do conteúdo reprimido presente no vínculo e, também, às operações mentais que levam "à consciência das condutas e das influências que caracterizam as condições do paciente". Enquanto Brenner escuta o material clínico, ocorrem – em paralelo e de forma ubíqua – a influência do inconsciente e a irrupção de conflitos infantis. São esses os alvos do trabalho analítico. Os fenômenos inerentes à nossa vida psíquica cotidiana, as fantasias, os pensamentos, os planos e as ações são compromissos estabelecidos entre as forças e as tendências vindas do ego e do id e, mais tarde, do superego. As partes do id, chamadas por Freud de conteúdos reprimidos, determinam a vida mental diária – e, na verdade, não são só responsáveis pelos sintomas neuróticos, como se poderia supor... Tais fragmentos psíquicos norteiam constantemente a qualidade dos pensamentos dos pacientes, a ponto de conseguirmos, a partir da escuta, inferir, com probabilidades grandes de acerto, a afecção que os assola (p. 114, ênfase acrescentada pelo autor). O analista tem em mente o modelo ou o padrão empregado na formação de compromisso vigorante e a deduz ou a corrobora conforme a exposição dos desejos, medos, fantasias, humores e planejamentos. Brenner (1976) escreveu: "Por exemplo, parece óbvio e até razoável que um paciente mantenha a sua raiva controlada e não a expanda a todos, pois teríamos aí uma chacina, uma catástrofe" (p. 60). Sob outra perspectiva, ele pontua, em um caso clínico, "para se defender da própria raiva, provocada por uma pessoa que o ofendeu, o paciente acabava por se difamar e por se culpar, tudo para evitar a consciência do episódio que o frustrou". (pp. 54-57). O autor indicou que, "enquanto a ênfase das interpretações se centrava no fato de que o paciente estava culpando e criticando a si mesmo, o foco de atenção se dividia, visto que a indignação e a raiva eram destinadas a outra pessoa. O fato é que cada interpretação continha referências aos propósitos da defesa e aos derivados da pulsão" (pp. 60-61). Ademais, Brenner descreve um paciente que "se defende da própria raiva para evitar a consciência do fator que o frustrou" e outro, "que está com raiva de si mesmo para não saber o que aconteceu". A seguir, Brenner essencialmente interpreta ao paciente o que se tornou "impensável", o que ficou alijado da consciência e disfarçado pela defesa: "Que componente da formação de compromisso é mais útil para ser interpretado junto com o paciente no momento em questão?" (1987, p. 167). Brenner enfatiza a importância de considerar o que o paciente vem falando durante as sessões anteriores, pois isso favorecerá a compreensão da dinâmica e dos principais conflitos em jogo no caso. Ele comenta: O entendimento dos conflitos é definido com base na história pessoal do paciente. Todos os componentes que se ligam às associações e ao comportamento – a sintomatologia atual, o material analítico, além das reações transferenciais – são a moldura, o conhecimento que formamos a partir do que é exprimido na sessão. Com esse cabedal de informações, o nosso foco é o que o paciente diz e o que faz durante a consulta analítica (p. 169). Em 1990, Arlow e Brenner escreveram: O analista identifica as contribuições específicas relacionadas aos conflitos do paciente. Desejo, prazer, defesa, imperativos morais e considerações realistas são elementos representados em diferentes graus. As intervenções do analista servem para clarificar para o paciente a interação dos vários aspectos psíquicos que o habitam e, também, para indicar o propósito de cada um deles, as suas origens, assim como as suas fontes. O que o analista comunica ao analisando serve para ampliar a consciência e desestabilizar o equilíbrio das forças geradoras dos conflitos na mente, o que facilita, por conseguinte, a evocação e a emergência dos materiais reprimidos [pp. 679-680]. Em resumo, Brenner (em companhia de Arlow) descreve as intervenções que nomeiam os componentes da formação de compromisso e que são responsáveis pelos pensamentos, pelos planos, pelas atitudes, pelas fantasias e pelas emoções. Ele coleta minuciosamente as "posturas" que vê diante de si. Os elementos que nomeia ao paciente não pertenciam à consciência, e, de certa forma, essa ideia conserva afinidade com as reconstruções e com alguns dos preceitos de Anna Freud. Nomear os conteúdos que estão alojados nas profundezas do inconsciente é o que Brenner "enxerga por detrás" da defesa presente nos compromissos, e isso se opõe à técnica de Anna Freud que visa flagrar a defesa no ato. “Tarefas técnicas” de Anna Freud As primeiras sugestões de Anna Freud são a de reconhecer o derivado da pulsão e, logo, interceptar a resistência. A próxima tarefa é a de desfazer o que foi feito em relação à defesa - reconstruir a sequência da manifestação do impulso de acordo com o contexto é um imperativo. O terceiro item é o de investigar a resistência inerente ao impulso (p.14). O quarto imperativo é o de identificar o elo entre o derivado do id e a defesa específica que foi empregada nas sessões; assim, é possível estudar a metodologia do ego (p.20). Ela complementou: "Nós preenchemos os hiatos presentes na memória instintual do paciente... Enquanto interpretamos o primeiro e o mais comum tipo de transferência – a do id – adquirimos informações que completam as lacunas referentes ao desenvolvimento do ego ou, colocado de outro jeito, temos um histórico das transformações sofridas pelos instintos” (p.21). Hartmann e Kris (1945) confeccionaram um artigo particularmente relevante ao modelo de Anna Freud (“Uma abordagem genética em psicanálise”). Eles articularam uma sequência técnica que engloba dois passos, um se caracteriza pelo reconhecimento do conflito e o outro, pela análise adaptativa/epigenética da defesa intrínseca ao conflito em questão . Brenner se vale de toda a experiência com os pacientes para estudar o que inicialmente se parece mais complexo e obscuro em se tratando do inconsciente. De certo modo, Anna Freud está tentando pegar de empréstimo a visão de William Blake, que conseguiu “ver um mundo em um grão de areia”. Em contrapartida, Brenner deduziu, com base em sua vasta experiência, o que existe no mundo do paciente, e, ao nomear tudo o que o compõe, ajuda-o a lançar um olhar em sua existência. Logo, o paciente poderá ampliar, com as associações, a compreensão que tem de si. Exemplo clínico Nem Anna Freud e nem Brenner conseguiram nos oferecer um material clínico específico e minucioso sobre o modo como trabalhavam. O que se segue aí é uma tentativa de compreensão clínica, sob o vértice de analítico de Brenner, extraído do artigo intitulado “Uma perspectiva a respeito da teoria estrutural” (1987), que é lido como uma crítica meticulosa dirigida ao artigo feito por Martin A. Silverman (1987). Nós avaliaremos o método de Silverman (e o de Brenner) a partir de dois pontos de vista: (1) Como a escuta do analista pode erigir hipóteses sobre os impulsos, as defesas e as influências do superego nas formações de compromisso? (2) Quando o analista constrói conjecturas a respeito do que o paciente não se sente autorizado a pensar, como é possível demonstrar – de uma forma que compreensível e tolerável – tal imagem mental, concebida pelo analista, ao paciente? Com as questões em suspenso, especularei sobre o modo de aplicação do ponto de vista técnico de Anna Freud para se estudar o conflito e a defesa. O “material clínico” na íntegra (Silverman, 1987) A Senhora K., 25 anos de idade, foi encaminhada por um psiquiatra que a tratou em psicoterapia na época da universidade. Ela apresentou inibições sexuais, sociais, tendências masoquistas e sintomas crônicos de uma depressão neurótica. Durante a infância e a adolescência, aparentava ser infeliz e apática, restrita em seus maneirismos e, por ser caseira demais, ficou atada aos pais. A senhora K. sempre se sentiu desvalorizada e maltratada, tanto em casa como fora dela. Os detalhes narrados eram rosários de queixas, cujos rancores e vulnerabilidades reavivavam episódios nos quais ela não poderia esquecer e sequer perdoar. Quando criança, os seus pais viajavam muito a trabalho, ignorando datas especiais. Houve uma ocasião em que estavam fora no dia do aniversário da paciente, o que a deixou furiosa. O pai e o irmão mais velho mantinham entre si um elo intelectual e, na maioria das vezes, ficavam a se divertir com jogos complexos. Ela acabava excluída por ser muito jovem para participar das brincadeiras. Isso fez com que se considerasse “burra”, mesmo que tenha obtido ótimos resultados na escola primária. O pai era emocionalmente embotado e se irritava fácil. Passava a maior parte do tempo em silêncio. Ele tinha um jeito peculiar de explicar as coisas e costumava ficar impaciente e intolerante quando ela não o entendia. Aos poucos, por não conseguir responder às simples perguntas do pai, a paciente desenvolveu uma pseudoestupidez, que a fazia chorar com frequência. Apesar de ter se sujeitado ao pai, ela o amou. Mas isso teve um preço, o de repetir no presente os desapontamentos e a dor que lhe foram infligidas no passado. Em decorrência das lembranças tristes da infância, ela descreveu os pais como pessoas raivosas, ressentidas, inseguras e que costumavam, por se sentirem inferiores e desvalorizados, humilhar e depreciar os outros. A senhora K. considera que o irmão mais velho foi favorecido e mimado pelos pais, pois aos olhos deles, ele não poderia errar. O irmão se aliava aos pais para achincalhá-la e não dava a mínima atenção para ela. A senhora sempre amou, reverenciou e odiou o irmão mais velho. A paciente sempre foi muito agarrada à mãe, a despeito de reclamar amargamente do favoritismo que havia em relação ao irmão mais velho. Muitas vezes, mostrava-se magoada e desapontada ao perceber a dependência estabelecida entre a mãe e o pai e, a partir daí, se queixava de não conseguir se sentir mulher. [pp. 147-148]. Silverman considera que o trabalho analítico se inaugura no início da consulta, se expande ao longo dos anos e, depois, se transforma em "sessões de amostra", que condensam todos os detalhes explorados até então. Os pensamentos suscitados pelo paciente e pelas suas verbalizações ficam em parênteses, assim como os afetos apresentados no curso do tratamento ficam em colchetes, como se todas as informações ficassem em suspenso, em um banco de dados flutuante. Sexta-feira A chuva me acordou cedo. Os pingos repicavam na unidade de meu ar-condicionado de forma contínua, e isso me tirou o sono. Eu olhei para o relógio e eram 5h30min. Pensei no momento em que teria de vir aqui. Eu não queria tido esse compromisso hoje. Ao longo de toda a semana, estava me sentindo irritada contigo. Na verdade, não estou assim tão irritada. É que queria ter uma folga desse negócio de pensar. Ontem, em meio a isso, também senti raiva de R. (a sua companheira de quarto). No banheiro, ela dependurou as toalhas em todos os ganchos e só me sobrou um lugar para colocar a minha toalha. Durante bastante tempo, não falei. Depois, criei coragem e disse para ela que precisaríamos reorganizar o banheiro. Isso pareceu idiotice. Eu acabo ficando tão preocupada com tais trivialidades. Eu sinto tanto ódio. Ela me contou que iria se arrumar toda, porque a convidaram para sair. A minha colega nem escutava o que eu tinha para lhe dizer. Às vezes, eu a vejo tão autocentrada. O namorado dela chegou e conversamos por dois minutos: ele me perguntou sobre o meu primo. A minha amiga nunca me perguntou sobre o meu primo. R. pensa somente em si mesma. Eu senti vontade de agradecer por ele ter perguntado, mas, por mais que eu quisesse, não o fiz. No momento, pela falta de curiosidade em relação a mim, fiquei brava com R. Eu pensei em outra coisa, enquanto dirigia para cá. Fui cortar o cabelo às sete horas e, quando cheguei, descobri que estavam todos ocupados e que teria de esperar até às nove horas. Eu fiquei cada vez mais irritada. E quando fui efetuar o pagamento, eu disse à garota que estava com raiva (ela terá de pagar os honorários das consultas daqui a poucos dias para mim. Estamos na véspera do final de semana e ela terá de esperar dois dias para me ver na segunda-feira – e isto é muito parecido com o que ela me contou sobre as duas horas de espera no cabeleireiro. Além disso, daqui a duas semanas, eu sairei de férias e ela só poderá me reencontrar após um mês). Eu comentei com a atendente que poderia ir a outro lugar cortar o cabelo ou esperar pelo cabeleireiro. Nenhuma das alternativas me agradava. Na verdade, eu nem sei o motivo de eu ter ido lá. Eu me senti deslocada. É um ambiente repleto de mulheres mais velhas. No entanto, não disse nada a ele. Sinto-me intimidada por ele da mesma forma que fico com M. (o professor de tênis). Eu não sei bem o porquê. Ele não é tão alto e forte como o M. Eu o acho atraente, mesmo que não faça o meu tipo. Pelo que sei, é casado e tem filhos (assim como o pai dela). Carrega as fotografias deles consigo. Com o M., eu acho que fico intimidada pelo fato de que ele sabe muito sobre tênis e eu não entendo quase nada do esporte. Tanto que não compreendo tudo o que ele me diz para fazer. "Segure deste jeito" e "vire-se desta forma". Na maioria das vezes, não faço ideia do que ele está a falar. É como se eu estivesse diante do meu pai durante toda a minha vida. O meu pai acreditava que conduzia tudo com maestria e que tinha sempre boas explicações para tudo, mas, como trouxe na sessão de ontem, não era bem assim. Eu me sinto intimidada pelos homens em geral. Eu sempre imagino que eles detêm o poder de saber. São eles os que têm cérebro e sou eu quem faz o papel de burra. É como se eu nunca soubesse de nada e que a capacidade de saber me foi privada, e é por isso que me sinto tão desconfortável. E esse cenário descrito é o mesmo que se instala aqui, porque pareço sempre estar perguntando a você, "o que isto significa?" Sempre acredito que você sabe qual é a resposta. Percebo que estou indagando você agora mesmo. Entendo que você me diga que não sabe nada sobre mim até que eu fale, mas eu não experimento o processo dessa forma. Vejo você sempre a um passo à frente de mim. Você sabe, pois, em função de todo o seu treinamento e de sua experiência, acaba sendo mais esperto do que eu. (Eu intervenho: não acho que seja assim como mencionaste. Penso que ache que sei tudo porque sou homem e, você, por ser mulher, fica destituída de cérebro). Eu me sinto intimidada por homens. (Com visível ansiedade) Você acha que transpareço esse sentimento aos homens? Será que eles vão embora motivados pela percepção disso? Eles poderiam pensar: "quem pode desejá-la!". Creio que o início dessa sensação se deu quando o meu pai disse, "Todos os homens vão sempre querer e esperar a mesma coisa de você". Eu fiquei com muita raiva ao escutá-lo. Por quê? Por que ele esperaria isso de mim? Ora, que direito ele teria? Eu ouvi a minha colega R. e o seu namorado se beijaram na varanda. Ela sentiu prazer! Quando o meu pai fez menção ao que comentei agora, primeiro fiquei furiosa com ele, justamente por desejar ter sexo casual eventualmente. Depois, comecei a sentir raiva porque eles iriam querer me beijar nos primeiros encontros. Eu tive tanto ódio. Eu sou uma pessoa muito raivosa. (Eu me pronuncio: como você disse, por ter trazido à tona outros sentimentos, você ficou brava). Com A. (o jovem que ela conheceu em uma viagem de uma semana só com pessoas solteiras. Sentiu-se muito à vontade em companhia dele. Diferente da sua postura rígida habitual, K. conseguiu relaxar, sorrir e fazer piadas. No fim, A. se interessou pela paciente e, com a intenção de passar dois dias com ela, arranjou uma maneira de vir do interior para a cidade). Eu disse a ele que poderia se hospedar em meu apartamento, o que o deixou bastante excitado com a possibilidade de vir à cidade. Só que, na mesma hora, fiquei receosa com o que eu havia falado, e continuei: "espere aí um minuto". Tentei esclarecer que ele dormiria no sofá e não em minha cama, comigo. (Emocionada). Você acha que foi em razão disso que ele não apareceu? Será que eu o coloquei para correr? Os homens me intimidam. É como se eu estivesse com o meu pai. É uma mistura de excitação, dor, mágoa e medo. Mas, espere um minuto. Não são apenas os homens que me intimidam, eu também me sinto assim em relação ao dinheiro. Pagamentos e gorjetas me intimidam. Evito qualquer uma dessas situações, quando posso. Aqui, recentemente, eu tentava pensar nas coisas que costumo evitar. Quando saí do cabeleireiro, olhei para a moça que passou xampu em meu cabelo para lhe dar um dólar. No entanto, eu teria evitado a circunstância, se eu pudesse. Se eles tivessem uma lata para se depositar as gorjetas, eu teria posto ali o meu dinheiro sem problemas. Eu me senti muito intimidada pelo cabeleireiro e, também, por ter dado gorjeta à moça que passou xampu em meu cabelo. Por quê? (Breve pausa) Não consigo entender. Não existe nenhum motivo ou sentido aparente. É difícil de compreender. (Eu comento: Enquanto você manter essa atitude, não encontrará motivo ou sentido...). Bem, ele cortou o meu cabelo. Ele me cortou. A moça, em contrapartida, apenas pôs as mãos nos meus cabelos. Não entendo. (Eu digo: ele enfiou tesouras no seu cabelo e ela enfiou as mãos neles. Antes, você falava sobre como evitar a excitação sexual. Tesouras e dedos cravados em seus cabelos podem ter assumido uma conotação sexual, erótica. Você evitou a excitação, a dor e a mágoa com os homens e, quando você se distanciou de todos os homens de uma vez só e se voltou para uma mulher, o medo surgiu novamente). Sim, mas há algo que não se encaixa aí. Não tive nenhum problema em dar a gorjeta à manicure. Quando ela massageou os meus dedos, não senti nenhuma ansiedade. Eu até gostei. Foi relaxante. Pensei em uma coisa. Contei isso a você há muito tempo e, depois, me esqueci. É sobre uma fantasia que uso ao me masturbar [A voz da paciente mudou agora: ficou monocórdia, como se toda a emoção tivesse sido drenada. Ela fala dessa maneira – pausada e hesitando entre uma palavra e outra – ao lembrar-se de outras sessões. A minha paciente parecia lenta e metódica ao transferir a sua agonia, quase como se tentasse me convencer de que as pausas nada mais eram do que parênteses ou variantes que pudessem despistar o assunto que tratava]. É sobre um doutor – um cientista louco – que, acompanhado da enfermeira, me amarra e começa a me operar. Não consigo encontrar nenhum nexo entre tudo isso: a minha fantasia sexual, o fato de ter me sentido intimidada com o cabeleireiro, a questão de ter ficado inibida por dar gorjeta à mulher que lavou os meus cabelos e, por último, a situação em que tive vontade de pagar à manicure. Simplesmente, não tem sentido. (Eu esclareço: você parece ter bloqueado a si mesma para não escutar a resposta que deu: o cabeleireiro meteu a tesouras nos seus cabelos e cortou você; a moça que havia preparado você para o corte de cabelo; eles se transformaram no cientista louco e na enfermeira). A fantasia tem a ver com – algo – isto tem relação com a minha vontade de ter seios maiores. Trata-se de uma besteira [pausa] Sinto-me envergonhada (a palavra sheepish foi usada pela paciente no texto) É tão idiota [pausa] (Eu explico: não há nenhuma besteira no que você disse; a represália que você aplicou a si própria serviu para evitar a compreensão de sua fantasia, assim como os sentimentos ligados a ela). Eu gostaria de não pensar em tal fantasia. Não quero investigá-la ou mesmo escarafunchá-la. Você está certo. Eu me sinto envergonhada (sheepish) por repudiá-la. (Eu questiono: e o que houve com a ovelha [sheep/sheepish])? Ela foi tosquiada, teve o pelo raspado. (E digo: assim como a "mulher que caiu"). Nos velhos tempos, elas caíam. Eu sei disso. O cabeleireiro estava a cortar o meu cabelo. Talvez tenha sido um momento de "coroar ou consagrar a minha glória". E a ovelha certamente teve o seu pelo cortado. Quando eu estava na Nova Zelândia, eu vi uma ovelha sendo tosquiada. Uma delas era marrom, eu me lembro. Eles a agarraram e a tosaram, enquanto empilhavam a lã e tudo o mais. (A emoção se esvaiu de sua voz; ela tosquiou a ovelha e empilhou a lã diante dos próprios olhos). (Eu prossegui: você está se esvaindo em vista de evitar o contato com sentimentos que geram desconforto). Você está certo. A fantasia que mencionei me deixa muito desconfortável. O cientista louco faria algo comigo, em troca de aumentar os meus seios. Eu queria muito ter seios fartos [pausa]. (Eu digo: você notou que está interrompendo o fluxo de sua fala, interrompendo a si mesma?) É que não quero falar sobre isso, pois penso que você achará que sou uma idiota. Eu me submeti ao cientista louco como se eu fosse a sua escrava e ele, o meu líder. Quando me sinto intimidada pelos homens, é como se eu tivesse de me despojar de tudo e colocá-los acima de mim. O que o analista pode deduzir, a partir da escuta, sobre os conflitos inconscientes cifrados nas formações de compromisso? Às vezes, os conteúdos que manifestam uma preocupação com as pessoas que fazem parte do cotidiano do paciente são alusões e referências "inconscientes" aos objetos significativos de sua vida (o analista, o pai etc.). A teoria analítica entende tais ideias em termos de deslocamentos inconscientes que operam para manter a paciente, nesse caso, apartada dos sentimentos e das (raízes) de suas fantasias, ou seja, ela fica sem compreender a natureza de seus impulsos e sem perceber que, talvez, fossem dirigidos ao analista e a outras pessoas que considera importante. Exemplo 1: Fui cortar o cabelo às sete horas e, quando cheguei, descobri que estavam todos ocupados e que teria de esperar até às nove horas. Eu fiquei cada vez mais irritada. E quando fui efetuar o pagamento, eu disse à garota que estava com raiva (ela terá de pagar os honorários das consultas daqui a poucos dias para mim. Estamos na véspera do final de semana e ela terá de esperar dois dias para me ver na segunda-feira – e isto é muito parecido com o que ela me contou sobre as duas horas de espera no cabeleireiro. Além disso, daqui a duas semanas, eu sairei de férias e ela só poderá me reencontrar após um mês). Exemplo 2: Pelo que sei, é casado e tem filhos (assim como o pai dela). Exemplo 3: Eu me senti muito intimidada pelo cabeleireiro e, também, por ter dado gorjeta à moça que passou xampu em meu cabelo. Por quê? (Breve pausa) Não consigo entender. Não existe nenhum motivo ou sentido aparente. É difícil de compreender. Analista: Você parece ter bloqueado a si mesma para não escutar a resposta que deu: o cabeleireiro meteu a tesouras nos seus cabelos e cortou você; a moça que havia preparado você para o corte de cabelo; eles se transformaram no cientista louco e na enfermeira. Paciente: A fantasia tem a ver com – algo – isto tem relação com a minha vontade de ter seios maiores. Trata-se de uma besteira [pausa] Sinto-me envergonhada. É tão idiota [pausa]. Analista: não há nenhuma besteira no que você disse; a represália que você aplicou a si própria serviu para evitar a compreensão de sua fantasia, assim como os sentimentos ligados a ela. Paciente: Eu gostaria de não pensar em tal fantasia. Não quero investigá-la ou mesmo escarafunchá-la. Você está certo. Eu me sinto envergonhada por repudiá-la. Analista: E o que houve com a ovelha? Paciente: Ela foi tosquiada, teve o pelo raspado. Analista: Assim como a "mulher que caiu" [Silverman, 1987, pp. 151-155, ênfases adicionadas pelo autor]. Há indícios clínicos de que a paciente nega o conhecimento de algo que Silverman chama de – impulsos subjacentes, desejos ocultos, e fantasias. As formações reativas, os bloqueios, a ingenuidade, a tentativa de ignorar o conteúdo e a sensação de estar enlouquecendo – são todas expressões evidentes de negação. Exemplo 1: E esse cenário descrito é o mesmo que se instala aqui, porque pareço sempre estar perguntando a você, "o que isto significa?" Sempre acredito que você sabe qual é a resposta. Percebo que estou indagando você agora mesmo. Entendo que você me diga que não sabe nada sobre mim até que eu fale, mas eu não experimento o processo dessa forma. Vejo você sempre a um passo à frente de mim. Você sabe, pois, em função de todo o seu treinamento e de sua experiência, acaba sendo mais esperto do que eu. Analista: Não acho que seja assim como mencionaste. Penso que ache que sei tudo porque sou homem e, você, por ser mulher, fica destituída de cérebro. Exemplo 2: Eu tive tanto ódio. Eu sou uma pessoa muito raivosa. Analista: Como você disse, por ter trazido à tona outros sentimentos, você ficou brava. Exemplo 3: paciente: Com A. (o jovem que ela conheceu em uma viagem de uma semana só com pessoas solteiras. Sentiu-se muito à vontade em companhia dele. Diferente da sua postura rígida habitual, K. conseguiu relaxar, sorrir e fazer piadas. No fim, A. se interessou pela paciente e, com a intenção de passar dois dias com ela, arranjou uma maneira de vir do interior para a cidade). Eu disse a ele que poderia se hospedar em meu apartamento, o que o deixou bastante excitado com a possibilidade de vir à cidade. Só que, na mesma hora, fiquei receosa com o que eu havia falado, e continuei: "espere aí um minuto". Tentei esclarecer que ele dormiria no sofá e não em minha cama, comigo. (Emocionada). Exemplo 4: Por quê? (Breve pausa) Não consigo entender. Não existe nenhum motivo ou sentido aparente. É difícil de compreender. Analista: Enquanto você manter essa atitude, não encontrará motivo ou sentido... Paciente: Bem, ele cortou o meu cabelo. Ele me cortou. A moça, em contrapartida, apenas pôs as mãos nos meus cabelos. Não entendo. Analista: ele enfiou tesouras no seu cabelo e ela enfiou as mãos neles. Antes, você falava sobre como evitar a excitação sexual. Tesouras e dedos cravados em seus cabelos podem ter assumido uma conotação sexual, erótica. Você evitou a excitação, a dor e a mágoa com os homens e, quando você se distanciou de todos os homens de uma vez só e se voltou para uma mulher, o medo surgiu novamente [Silverman, 1987, pp. 151-155, ênfases adicionadas pelo autor]. Esquema técnico – análise das formações de compromisso Brenner (1987) escreveu: Silverman e eu entendemos a análise essencialmente da mesma maneira. Tentamos compreender os sintomas e os traços de caráter, assim como as formações de compromisso... [que], acreditamos, tiveram origem na infância e, ao longo do tempo, tendem a se manifestar na vida do paciente (p. 169). Enquanto li o protocolo, percebi que a paciente é sexualmente inibida e tem traços de caráter masoquistas. Nas sessões com Silverman, desejou restituir o vínculo que teve durante anos com o pai: era um elo de submissão que fomentava gratificações inconscientes masoquistas (“Você me ensina; você me diz o que devo fazer ou como posso proceder”) e, a um só tempo, esterilizava qualquer possibilidade de excitação sexual consciente. Com efeito, Silverman nos transmite que ela evitava o contato com homens disponíveis e tendia a fazer escolhas inadequadas e, quando conseguia arranjar alguém, dava um jeito de eliminá-lo de sua vida. Muitas vezes, arquitetava fantasias em que se encontrava totalmente sem atrativos e acabava rejeitada pelos homens, o que a incentivava a odiá-los ou a desistir para sempre de qualquer possibilidade de se entregar a um parceiro. A sua raiva, como averiguamos, tinha uma função defensiva importante. Ademais, Silverman acredita que a iminência de tirar férias trouxe à baila uma série de emoções, assim como potencializou as associações da paciente: ela ficou com receio de perdê-lo e achou que o analista fosse abandoná-la e – vale dizer – ambos os sentimentos foram varridos de sua consciência (p. 168). Silverman e Brenner veem dois principais temas que permeiam esse material clínico: (1) a paciente estava com raiva do analista por ele estar prestes a tirar férias e, inconscientemente, proibiu a si mesma de ter consciência desse fato e (2) ela teve, durante o tratamento, impulsos sexuais ativos em relação aos homens, incluindo o analista, mas se defendeu de forma enérgica de tais percepções. Essas complexas articulações, tais como os conflitos e as "gratificações inconscientes" presentes aí, estão além de um reconhecimento na superfície [nota de pé: pela tradição, para inferir ou "destrinchar" o conflito psíquico e a atividade defensiva, o analista deve ter em mente três perguntas: (1) Qual é o desejo secreto da paciente? (2) Qual é o medo da paciente ao desejar? (3) Quando ela está com medo, o que faz para reduzir ou amenizar o "perigo"? "O que a paciente faz quando está com medo" é a formação de compromisso que tem um propósito defensivo. Por exemplo, Brenner (1976) descreve que a paciente "se culpava e se irritava regularmente em vista de não se dar conta de que estava com raiva de uma pessoa que a ofendeu" (p. 60)]. Conjecturas sobre os componentes das formações de compromisso O conhecimento de Silverman a respeito das defesas e dos conflitos típicos de seus pacientes permite que ele possa fazer inferências sobre as formações de compromisso, tais como o deslocamento e a negação que serviram para: (1) barrar os impulsos inaceitáveis; (2) não saber que manobras defensivas costuma empregar; (3) reprimir a expressão dos impulsos conforme os "cânones morais" do superego; (4) distorcer o que ela vivencia como "realidade", o que, consequentemente, repercute na conduta diante da vida. O meu palpite é o de que os impulsos dela encontravam formas de se "gratificar inconscientemente". A paciente “desejou restituir o vínculo que teve durante anos com o pai: era um elo de submissão que fomentava gratificações inconscientes masoquistas (“Você me ensina; você me diz o que devo fazer ou como posso proceder”) e, a um só tempo, esterilizava qualquer possibilidade de excitação sexual consciente”. Silverman enxerga a luta de K. como um conflito sexual obscuro e "impensável". As suas exibições de inaptidão repudiam o "pensamento". Os rompantes e as discordâncias, assim como as eventuais posturas de submissão são todas manifestações de um enactment que satisfaz parcialmente os traços masoquistas da paciente. Por quê? (Breve pausa) Não consigo entender. Não existe nenhum motivo ou sentido aparente. É difícil de compreender. Analista: Enquanto você manter essa atitude, não encontrará motivo ou sentido... Paciente: Bem, ele cortou o meu cabelo. Ele me cortou. A moça, em contrapartida, apenas pôs as mãos nos meus cabelos. Não entendo. Analista: Ele enfiou tesouras no seu cabelo e ela enfiou as mãos neles. Antes, você falava sobre como evitar a excitação sexual. Tesouras e dedos cravados em seus cabelos podem ter assumido uma conotação sexual, erótica. Você evitou a excitação, a dor e a mágoa com os homens e, quando você se distanciou de todos os homens de uma vez só e se voltou para uma mulher, o medo surgiu novamente. Não consigo encontrar nenhum nexo entre tudo isso: a minha fantasia sexual, o fato de ter me sentido intimidada com o cabeleireiro, a questão de ter ficado inibida por dar gorjeta à mulher que lavou os meus cabelos e, por último, a situação em que tive vontade de pagar à manicure. Simplesmente, não tem sentido. Analista: Você parece ter bloqueado a si mesma para não escutar a resposta que deu: o cabeleireiro meteu a tesouras nos seus cabelos e cortou você; a moça que havia preparado você para o corte de cabelo; eles se transformaram no cientista louco e na enfermeira. Paciente: A fantasia tem a ver com – algo – isto tem relação com a minha vontade de ter seios maiores. Trata-se de uma besteira [pausa]... - Eles a agarraram [a ovelha] e a tosaram, enquanto empilhavam a lã e tudo o mais. (A emoção se esvaiu de sua voz; ela tosquiou a ovelha e empilhou a lã diante dos próprios olhos) [Silverman, 1987, pp. 151-155, ênfase adicionada pelo autor]. O Esquema técnico de Anna Freud Eis aí o material clínico visto sob o ponto de vista de Anna Freud. Percebemos os derivados da pulsão expressos em poucos momentos e, depois, em função da defesa, eles foram massivamente "repelidos" em vista de reduzir os perigos inerentes ao conflito (Trechos em negrito e flechas indicam "mudanças ou oscilações" das defesas): Sexta-feira Paciente: A chuva me acordou cedo. Os pingos repicavam na unidade de meu ar-condicionado de forma contínua, e isso me tirou o sono. Eu olhei para o relógio e eram 5h30min. Pensei no momento em que teria de vir aqui. Eu não queria tido esse compromisso hoje. Ao longo de toda a semana, estava me sentindo irritada contigo.  Na verdade, não estou assim tão irritada. É que queria ter uma folga desse negócio de pensar.  Ontem, em meio a isso, também senti raiva de R. (a sua companheira de quarto). No banheiro, ela dependurou as toalhas em todos os ganchos e só me sobrou um lugar para colocar a minha toalha.  Durante bastante tempo, não falei. Depois, criei coragem e disse para ela que precisaríamos reorganizar o banheiro.  Isso pareceu idiotice. Eu acabo ficando tão preocupada com tais trivialidades. - Ao longo de toda a semana, estava me sentindo irritada contigo. - Disse para ela que precisaríamos reorganizar o banheiro. - Isso pareceu idiotice. - Eu acabo ficando tão preocupada com tais trivialidades. O impulso derivado da agressividade é consciente.  Isso faz com o que o ego se defenda. As defesas nas formas de negação e de deslocamento são evidentes nos exemplos esboçados, pois percebemos a tentativa de manter inconscientes os impuslos. Ela comenta: "Eu..." e, imediatamente, "louca". Uma "voz" após a outra intentava reduzir a ansiedade e controlar a pulsão. Ela reclama abertamente de R. (para não brigar com o analista. Temos aí um deslocamento), mas, em seguida, ela complementa, "Eu não disse coisa alguma" (K. usa a memória de modo defensivo; ao recordar de como ela era crítica, tende a se assegurar de que consegue “controlar” a sua raiva e, quando comenta isso com o analista, a ansiedade costuma diminuir). Então, a paciente se torna mais livre e espontânea, ao menos por um momento, pois logo inicia as reclamações. A diferença é que K. consegue dar rapidamente nome aos seus sentimentos “idiotas e exagerados”. Observamos, primeiramente, os derivados do impulso agressivo em colisão com os conflitos. Há ainda conflitos libidinais, apesar de não serem frequentes. Com efeito, ela se põe à disposição dos interesses dos homens e, momentos depois, K. para de se exibir ou de se mostrar (como se estivesse a sufocar qualquer evidência de suas demandas "sexuais e competitivas"). - O namorado dela chegou e conversamos por dois minutos: ele me perguntou sobre o meu primo.  A minha amiga nunca me perguntou sobre o meu primo. R. pensa somente em si mesma. Eu senti vontade de agradecer por ele ter perguntado,  mas, por mais que eu quisesse, não o fiz. No momento, pela falta de curiosidade em relação a mim, fiquei brava com R (o que aparece aí é conflito em relação ao seu impulso competitivo – nessa triangulação, K. cede o lugar à amiga). O material clínico a seguir nos dá a oportunidade de acompanhar momento a momento as facetas da "agressividade e da submissão masoquista". Ela freia os seus comentários agressivos quando se volta para a auto-observação e a crítica. - E eu comentei, "Espere aí um minuto". Tentei esclarecer que ele dormiria no sofá e não em minha cama, comigo. (Emocionada). Você acha que foi em razão disso que ele não apareceu? Será que eu o coloquei para correr? Os homens me intimidam. - E esse cenário descrito é o mesmo que se instala aqui, porque pareço sempre estar perguntando a você, "o que isto significa?" Sempre acredito que você sabe qual é a resposta. Percebo que estou indagando você agora mesmo.  Entendo que você me diga que não sabe nada sobre mim até que eu fale... - Depois, comecei a sentir raiva porque eles iriam querer me beijar nos primeiros encontros. Eu tive tanto ódio. Eu sou uma pessoa muito raivosa [Nesse exemplo, K. transpõe a sua raiva aos “outros”, tornando-os, por consequência, ativos. Por fim, ela fica em um papel desvalorizado e passivo]. Anna Freud teria feito a intervenção no instante em que a paciente recuperasse o equilíbrio de suas defesas. Ela observaria onde K. se situaria para, então, “flagrar o modo pelo qual o conflito e a ansiedade começam a ser menos intensos”. - E esse cenário descrito é o mesmo que se instala aqui, porque pareço sempre estar perguntando a você, "o que isto significa?" Sempre acredito que você sabe qual é a resposta. Percebo que estou indagando você agora mesmo.  Entendo que você me diga que não sabe nada sobre mim até que eu fale... E se a Anna Freud tivesse dito, “Você está imaginando o que eu comentaria sobre isso, não é? – Será que você está tentando controlar o ímpeto de me perguntar como eu responderia para você? O que aconteceria se você deixasse as suas indagações em suspenso? E se continuasse assim, que resultado teria? – Seja o que for! Você se sente ameaçada neste ponto?”. De forma especulativa, podemos averiguar o que aconteceria a partir do que já nos foi dado no caso clínico. A paciente, ao perceber em que situação se meteu novamente, provavelmente se sentiria desconfortável. E acrescentaria: “Eu sinto estar fazendo isso agora com você, estou a perguntar de novo!”. E, assim, ela evocaria os episódios em que estava incômoda! A sua frustração se evidenciaria em uma cena em que o analista a ridicularizaria por não estar apta a pensar. Teríamos uma variedade de fantasias que englobariam as “reações” do analista frente às demandas agressivas da paciente, tais como: censura, desdém, “provocações”, julgamentos a respeito de sua falta de confiança etc. A vantagem em interceptar o conflito em estado emergente é que ambos, analista e paciente, podem explorá-lo diretamente. A consciência dos impulsos parece torná-los "perigosos". As fantasias de K. em volta de uma suposta desaprovação por parte do analista fez com que ela evitasse fazer perguntas, e isso, consequentemente, reduziu a sua "ansiedade". O terreno da submissão é um tanto familiar e seguro para a paciente. Anna Freud aponta "in-situ" a manifestação e a resolução do conflito. Através de perguntas, convida a paciente a regressar ao momento em que o impulso se tornou perigoso. A sua intenção é a de fazer com que K. "veja o impulso com os próprios olhos" e entenda o perigo associado a ele. O conflito que se repete em pequena escala e em um curto intervalo de tempo é o foco. A ansiedade gerada pelo conflito tem relação com o impulso "perigoso" que veio à consciência. A abordagem de Anna Freud lida com menos resistências e, logo, o paciente tende a tolerar o confronto com os derivados da pulsão com mais tranquilidade. Se examinarmos de perto as formas de emergência dos conflitos e as suas "resoluções", podemos demonstrar a tendência da paciente de ser submissa a fim de refrear os impulsos agressivos. Trata-se de uma solução "masoquista". Ainda assim, podemos assumir que existem gratificações inconscientes nas formações de compromisso, mas nesse modelo não temos "evidências" sustentadas pela observação de que ela "desejava manter com Silverman o mesmo tipo de relacionamento que havia sido estabelecido com o pai durante anos: tratava-se de um vínculo que satisfazia os impulsos inconscientes relacionados ao masoquismo e à submissão”. Ao invés disso, parece que estamos a observar uma incessante tentativa de aderir a um comportamento diferente. Tal imagem fragmentada, que até se parece com uma espécie de fractal (à parte: "Nesse contexto, a palavra "fractais" acaba por ilustrar a ideia de repetições que se reduplicam ao infinito em escalas maiores ou menores. A teoria nos traz que mudanças "mínimas" acarretam grandes efeitos. Um sintoma ou traço pode ser alterado por sistemáticas "interferências", que produzirão rupturas na sequência "habitual" de eventos) de tendências, atitudes, traços de caráter e de sintomas, é consistente com o que Hartmann, Kris (1945) e Rapaport (1944-1948,1951) descrevem (Duas hipóteses contrastantes (de muitas outras): (1) Conflito e resolução (regulação) ocorrem simultaneamente a todos os momentos. Quando há a "regulação efetiva" são raros os desequilíbrios ou oscilações. (2) O pensamento é gradualmente incrementado. A sucessão de conflitos seguidos de resoluções são "eventos" que favorecem tal incremento, dialeticamente falando. (Em paralelo, para não ficar tão abstrata a proposição, podemos nos valer da metáfora que alude ao funcionamento do cérebro, ou melhor, à recorrente ativação e inibição dos neurotransmissores nas fendas sinápticas). Como ouvintes, estamos sempre atentos aos impulsos que são minimamente "controlados" ou "balanceados" e que variam de acordo com o tipo de diagnóstico e da etapa de desenvolvimento. Outros fatores também são importantes, tais como: uma possível doença, fadiga, "permissão", "sedução" etc. – elementos averiguados por Arlow e Brenner (1964). Um traço de caráter visto de perto é o resultado de inúmeras resoluções de conflitos. Por instantes, a paciente demonstra domínio ativo dos comportamentos agressivos e os mantêm inócuos em sua fantasia. Se fôssemos ajudar a paciente a estudar esses momentos críticos em que o conflito se instaurou, sugeriríamos que ela apreendesse as experiências que estimularam a sensação de "perigo" (antes de reprimi-la). Talvez, assim, compreendêssemos o motivo pelo qual ela teve de reprimir as investidas agressivas, como conseguiu domá-las, como as manipula racionalmente e como as aprendeu na infância. Além disso, teríamos como investigar o porquê que alguns comportamentos sobrepujaram outros e acabaram vigorando. Por fim, tentaríamos obter a resposta para a indagação: será que soluções que a paciente dispõe hoje representam a melhor forma de lidar com os conflitos ou de se adaptar a eles? (Hartmann e Kris, 1945). Enquanto a hora de sexta-feira continua, a “negação” da paciente é interpretada por Silverman em uma variedade de contextos. Ela entende que os confrontos e as oposições com o analista se tornaram cada vez mais intensas, frequentes e perigosas. As defesas recrudesceram – as recapitulações iniciais, mesmo que sumárias, a levaram a um estado regressivo. Doravante, K. assumiu a habitual postura masoquista e submissa. Tal manifestação evidencia-se ao recobrarmos as fantasias polares em que há um líder e alguém se submete a ele. O material clínico citado neste artigo é interrompido no momento em que a regressão é desencadeada, antes mesmo que ela se consume. Discussão Na resenha crítica de Ernst Kris, publicada no International Journal of Psycho-Analysis (Vol. 19, 1938), sobre a obra O ego e os mecanismos de defesa, o enfoque se deu no “método de observação” de Anna Freud. Ele escreveu que tais inovações, em meio a vários círculos analíticos, “foram recebidas com repúdio e ceticismo... uma série de mal-entendidos criou tal resistência, o que acarretou a demanda de modificar o cabedal técnico empregado”. Diante disso, ele enunciou: “Estou inclinado a acreditar que essas oposições podem ser perigosas: no entanto, as mudanças exigidas no modo de observar passariam despercebidas”. E prosseguiu: “Não há como mensurar a magnitude das contribuições de Anna Freud em se tratando do aporte técnico e teórico”. Primeiro, ela revelou uma ampla gama de comportamentos ligados às atividades do ego e, depois, foi mais a fundo do que se esperava – camadas mais obscuras foram detectadas e exploradas (O comentário feito por Kris mostrou que a técnica de Anna Freud, em algum grau, evitou a ideia arqueológica de “penetrar” em camadas mais profundas – e trouxe a atenção para o que emerge na superfície da consciência). O método prometia nos aproximar ainda mais dos objetivos terapêuticos... mas – e eu ressalto isso simplesmente para evitar mal-entendidos – é apenas mais um passo que se somará às interpretações. O autor complementa: “É válido destacar o que significa ter um insight de acordo com a teoria psicanalítica, ou melhor, tanto na psicologia quanto na psicanálise: durante muito tempo, as camadas superficiais da mente, essas funções do aparelho psíquico que convergem no ego, permaneceram além do alcance da psicologia e da psicanálise” (pp. 347-348). As resenhas de ambos, Otto Fenichel e Ernest Jones, contribuíram para a feitura do livro de Anna Freud, em 1936, assim como embasaram, em 1938, o Jornal internacional. Só que nenhum deles viu, em realidade, o quão diferente era a proposta de “mudança dos paradigmas de observação”. Pautada na observação do que realmente o paciente está transmitindo ao falar, o método de Anna Freud se emancipa do que foi sugerido por Freud e por outros, como o próprio Fenichel, que priorizava que a atenção deveria flutuar ou ficar até mesmo “suspendida” em alguns momentos, pois o inconsciente seria a sua única ferramenta de trabalho. Anna Freud apontou que, quando os derivados da pulsão vêm à superfície, eles só o fazem, porque há um observador de prontidão. (Ela refere que temos menos problemas – menos “perigos” externos a nós mesmos – ao observar outros “ids”, pois tal ação é inerente à adaptação e à sobrevivência em si. Lançar um olhar aos “perigos” internos, aos nossos próprios impulsos, é outro assunto; por exemplo: a criança ao perceber ou ao lembrar-se de seus impulsos agressivos tem menos controle sobre eles e, logo, menos “consciência tranquila” [Anna Freud, 1980a, b]). Anna Freud assiste de perto as reações expressas pelo ego. O quanto será manifesto ou exposto do conflito? Quanto tempo durará antes que o ego tome a frente? A sua atenção se concentrava no que o paciente realmente queria transmitir, algo que passava despercebido para a maioria de seus colegas. Podemos rever o que a autora enunciou nos debates com Sandler (1980-1984-1985), em Hampstead, nos anos de 1972 a 1973. Anna Freud tentou elucidar muitas questões. Na seguinte citação transcrita, as partes controversas estão destacadas em itálico e foram omitidas na publicação em livro das discussões com Sandler, em 1985, no capítulo A análise da defesa: o ego e os mecanismos de defesa revisitados. Anna Freud: é claro que toda a terapia psicanalítica é baseada na reconciliação entre tendências opostas que ocorrem apenas quando esbarram na consciência. Por que, então, nos esforçamos tanto em trazer à consciência o que está em harmonia no inconsciente? Uma das suposições basais na análise é a de que o conflito só existe no ego e, por conseguinte, na consciência. Sandler: não ocorre na parte inconsciente do ego? [1985, p. 301]. Anna Freud: não, o conflito apenas surge dali. Os elementos de naturezas opostas residem no id, mas não há conflitos entre eles. Simplesmente existem como opostos. Sandler: Acredito que estejamos tendo um pouco de dificuldades em entender isso, senhorita Freud... Você não considera um grande equívoco afirmar que tudo o que é inconsciente é inerente ao id? [Sandler em discussão com Anna Freud 1980-1984, 1982, p. 311]. Anna Freud: sim, você está certo. A melhor forma de dizer seria esta: no funcionamento primário não há conflito, mas no secundário, princípio da realidade, sim. A partir daí, surge outra questão: onde o conflito é plenamente consciente ou pré-consciente?... [1985, pp. 301-302]. Em contraste, se o analista enfoca o conflito inconsciente, ele estará mais livre para escutar com o seu próprio inconsciente, para interpretar de forma dedutiva, para se valer da empatia ou da intuição, para tomar como guia a sua contratransferência, assim como prestará mais atenção às alusões e elisões. Os dois métodos possuem definições diferentes sobre resistência. Anna Freud (1936) comentou que “vemos” as resistências no momento em que “os mecanismos de defesa interferem o fluxo de associações”. A resistência é designada como um evento que ocorre apenas em algumas circunstâncias. No modelo que engloba a formação de compromisso, a resistência é, em larga escala, virtualmente ubíqua. Isto se refere a uma panóplia de forças que mantém os conflitos infantis e as suas respectivas solução distantes da consciência e da percepção. No exemplo clínico que segue, Anna Freud poderia considerar as discordâncias em relação ao analista como sendo “não resistências”. Ao contrário do ponto de vista que entende as objeções dos pacientes como “resistências”, Anna Freud explicaria que as resistências aparecem somente quando o paciente fica “ansioso” por estar contradizendo o analista, como se deu na situação em que K. sentiu prazer com o toque de outra mulher que a acariciou. A resistência se torna identificável à medida que a paciente para com as discordâncias e começa a regredir e a se tornar uma autocrítica inveterada. Há indicação de que Silverman precisaria empregar mais “autoridade” ou “influência” para desmanchar as resistências, pois a sua técnica exige a interpretação dos conflitos inconscientes e das formações de compromisso resultantes no processo. Um certo grau de “insistência” se mostrar importante. Nesse caso, a “resistência” à percepção ao à consciência do conteúdo inconsciente é consideravelmente maior do que o método de Anna Freud. Com base em nosso parco material, não temos como mensurar o quanto de “autoridade” do analista seria necessário para que o paciente aceitasse as interpretações. Brenner e Silverman iriam gostar de fazer uma análise minuciosa de qualquer comportamento que apresentasse tendências masoquistas. Com Silverman, quando esse tipo de coisa acontece e quando ele se dá conta de que o paciente não conseguiu alcançar ou avaliar diretamente o que lhe foi transmitido em uma interpretação, um dilema acaba sendo introduzido na sessão e, ironicamente, o paciente responde com aceitação à sua “sugestão oficial”. Quando saí do cabeleireiro, olhei para a moça que passou xampu em meu cabelo para lhe dar um dólar. No entanto, eu teria evitado a circunstância, se eu pudesse. Se eles tivessem uma lata para se depositar as gorjetas, eu teria posto ali o meu dinheiro sem problemas. Eu me senti muito intimidada pelo cabeleireiro e, também, por ter dado gorjeta à moça que passou xampu em meu cabelo. Por quê? (Breve pausa) Não consigo entender. Não existe nenhum motivo ou sentido aparente. É difícil de compreender. Analista: enquanto você manter essa atitude, não encontrará motivo ou sentido... Paciente: bem, ele cortou o meu cabelo. Ele me cortou. A moça, em contrapartida, apenas pôs as mãos nos meus cabelos. Não entendo. Analista: ele enfiou tesouras no seu cabelo e ela enfiou as mãos neles. Antes, você falava sobre como evitar a excitação sexual. Tesouras e dedos cravados em seus cabelos podem ter assumido uma conotação sexual, erótica. Você evitou a excitação, a dor e a mágoa com os homens e, quando você se distanciou de todos os homens de uma vez só e se voltou para uma mulher, o medo surgiu novamente. Paciente: sim, mas há algo que não se encaixa aí. Não tive nenhum problema em dar a gorjeta à manicure. Quando ela massageou os meus dedos, não senti nenhuma ansiedade. Eu até gostei. Foi relaxante.  Pensei em uma coisa. Contei isso a você há muito tempo e, depois, me esqueci. É sobre uma fantasia que uso ao me masturbar [A voz da paciente mudou agora: ficou monocórdia, como se toda a emoção tivesse sido drenada. Ela fala dessa maneira – pausada e hesitando entre uma palavra e outra – ao lembrar-se de outras sessões. A minha paciente parecia lenta e metódica ao transferir a sua agonia, quase como se tentasse me convencer de que as pausas nada mais eram do que parênteses ou variantes que pudessem despistar o assunto que tratava]. As duas técnicas possuem objetivos distintos. As intervenções de Brenner (como nos declarou Arlow [1985]) têm como alvo “desestabilizar o equilíbrio das forças em conflito na mente do paciente”. Seu propósito é o de provocar uma reestabilização mais saudável (Brenner, 1976, capítulo das “Análises das defesas”; Arlow e Brenner, 1990, pp. 679-680). Um resultado desejável nessa reestabilização incluiria o registro de novas possibilidades de resolução de conflitos evidenciados nas formações de compromisso. Durante a sessão mesmo, a reativação de memórias e de fantasias, assim como novas atitudes, são bons sinais do que está ocorrendo. “O que muda são as formações de compromisso e não as defesas por si só” (Brenner, 1976, p. 74). A introspecção, a familiaridade com os mecanismos de pensamento, os conflitos e as defesas, as “vozes” que referem ou representam o ego, o id e o superego podem ser indicativos de que algo se processou na análise. No entanto, não são garantias de bons resultados. Anna Freud (1980a) estava convencida das propriedades curativas do insight: “É o conhecimento do desconhecido o que favorece a cura” (p. 161). Todo o resto – a relação com o analista, a transferência etc. – são adjacentes à meta principal. “Insight” é definido como “uma extensão do conhecimento dos processos psíquicos individuais, especialmente da comunicação entre o ego e o id” (p. 139). As técnicas de Anna Freud priorizam o impulso e a defesa. O paciente é convidado a assistir as “evidências” dadas pelo analista. Sempre que o analista erigia hipóteses sobre o conflito e a defesa, K. imediatamente as refutava. Anna Freud incentiva que o paciente seja capaz de manter o ego e o id em suspenso para então lançar um olhar à interação. Assim, ela consegue inspecionar as facetas da personalidade e as estratégias reguladoras do id e do ego que promovem a dor e a privação. Tal perspectiva ajuda o ego a “encarar” impulsos derivados cada vez mais intensos. É claro que o ego, incluindo a sua parte “racional”, não abandonará as orientações fundamentais das expressões do impulso – o seu interesse básico é o de regular alguns impulsos. Eis aí diferenças dramáticas em relação às técnicas. Como sabemos – e como Kris avisou – as diferenças maiores ainda não foram notadas. Anna Freud analisou as interações dinâmicas manifestas pelo ego e pelo id. Em uma conversa com ela, Sandler (1985) reagiu ao comentário que anunciava que o analista poderia diretamente “escutar” a fala do id! [Em casos favoráveis, o ego não se opõe ao intruso, mas empreende todas as suas energias para se alienar e se restringir de percebê-lo; isso demonstra o início do impulso instintual, o aumento da tensão e os subsequentes sentimentos de desprazer e, finalmente, o alivio da tensão quando a experiência de gratificação ocorre... O ego, se tentar ceder ao impulso, não conseguiria se integrar ou formar uma imagem completa de si” (Anna Freud, 1936, pp.6-7)]. (Isso não é possível quando só se “escuta” as formações de compromisso). Na transcrição do debate (1980-1984), Sandler, no início, pareceu “ter escutado mal” o que ela havia dito (nos trechos a seguir, as porções em itálico não estavam originalmente no livro de 1985): Sandler: eu estava intrigado com o fato de perceberem o ego como algo distanciado da consciência, profundo, cujas camadas mais profundas poderiam ser vistas como geografias em que se estampavam as iamgens de funcioanamentos anteriores. É como se as funções mais “profundas” do ego fossem associadas ao início da infãncia. Isso não parece ter serventia alguma, senhora Freud [1985, p.29]. Sobre esse tópico, trouxemos uma questão que discutimos anteriormente e que chamamos de função ou do papel do ego em relação aos impulsos instintuais. Da última vez, concordamos, por assim dizer, que o ego fica à espreita ou em silêncio e, de fato, nenhum derivativo do id poderá vir à tona sem que o ego venha a colaborar. Talvez a camada mais profunda do ego, a sua parte infantil, possiblite que alguns derivativos do id emerjam à superfície na forma, por exemplo, de um deslize, ato falho ou chiste. Será que essa proposição estaria correta? Anna Freud: quero enfatizar o que realmente eu quis comunicar em nossa última conversa: o ego pode se mancomunar com os desejos instintuais e se deixar levar pelas gratificações inerentes a eles, e será isso que definirá o modo particular de funcionamento que o ego assumirá; creio eu, que tal dinâmica não nos ajuda a observar as estruturas psíquicas. Quando há a união harmoniosa dos desejos instintuais com o ego, não sabemos, com a observação, o que pertence ao ego e o que advém do id. Apenas quando os atritos se instauram entre eles é que o funcionamento de um e de outro fica óbvio. Eu já deveria ter feito esse esclarecimento que tem afinidade com a sua pergunta. Sandler: acredito que você tenha elucidado que o conflito é quem nos mostra as instituições psíquicas e que, assim, podemos teorizá-las e conceitualizá-las. Penso que algumas das minhas afirmações ou diatribes anteriores, tais como “o ego fica de lado para permitir que a ação do id seja operada”, poderiam ser formuladas de maneiras diferentes agora [1980-1984, p. 8, ênfase adicionada]. Eu gostaria de ir direto a um ponto, pois gostaria de ouvir os seus comentários. Trata-se de um ponto que tange o pepel inconsciente do ego. Se estou certo, com a introdução da teoria estrutural, a substituição do sistema inconsciente pela dinâmica do id representou uma aletrnativa para lidar com os problemas enfrentados por Freud no modelo topográfico... [p.8; 1985, p.29]. Anna Freud parece ter aceitado a falha em sua descrição de um id autônomo, ou seja, que poderia agir sem a participação do ego, e em razão disso “poderia ser (por muitos analistas) formulada de maneiras diferentes agora”. Mas será que ela concordaria com ele sobre a ideia de que se deveriam mudar as “construções teóricas já feitas”? Eu imagino que a probabilidade é remota. Sandler insiste no modelo de formação de compromisso. Anna Freud enxerga o ego como uma instância que, inicialmente, permite a expressão dos derivados da pulsão e, depois, tenta refrear qualquer manifestação instintual. Ela centralizou todas as luzes no ego para, então, voltar-se para o id. É como se Anna Freud “simplificasse” o modelo, estudando-os individualmente para, em seguida, descrever, de modo compreensível, as atividades inerentes às instâncias psíquicas. Gray (1982) generaliza o problema que os analista enfrentavam para entender o ponto de vista de Anna Freud. Ele atribui isso à prodigiosa dificuldade que todos nós temos em tentar observar eentender o funcionamento do ego – incluisve do nosso próprio ego – e “os atrasos no desenvolvimento”. Segue outra possibilidade. Essas duas formas de ver os conflitos intrapsíquicos são cientificamente e filosoficamente pertencentes a universos diferentes e, logo, são dotados de linguagens e de cabedais teóricos e técnicos distintos. Não há meio de conciliá-los facilmente. Por que o ponto de vista de annna Freud não atraiu mais atenção – mais dos que os de Kris, Hartmann e Rapaport? Será que um dos problemas (!) foi em relação a sua abordagem francamente melhor em apreciar a dinâmica de uma situação analítica, o que pode ter ofuscado ou tornado irrelevante qualquer outro método que se empregasse para tal fim? A expectativa de compreendermos um conflito que não está, aparentemente, visível ou que se encontra em tempos distantes, foi convertida em realidade. Os analistas não tendem a (e parece que não podem) reconhecer que estão se valendo de tal legado de uma forma estranha ao enfocar as dinâmicas psíquicas como um todo. No instante em que Anna Freud tornou clara a sua posição, será que ela pagou o preço de ficar relegada ao obscurantismo? Ao tentar estimular a discussão que buscava meios de medir a utilidade dessas duas abordagens clínicas voltadas ao conflito, eu quis que pudéssemos angariar informações em vista de “peneirar o que cientificamente funciona melhor”. A abordagem de Anna Freud parece ter adquirido mais consistência no campo atual das pesquisas, das metodologias e teorias científicas? O visão de mundo de Anna Freud pode ser associada aos padrões de ciências modernas. Primeiro, ela assevera que os problemas fundamentais em psicanálise não poderiam ser compreendidos sem que aderíssemos aos preceitos da epistemologia; para tanto, os termos “dinâmica” e “conflitos intrapsíquicos” compõem as terminologias que facilitam a interlocução entre os analistas. Segundo, o modo como ela coloca em jogo o conflito tem a ver com a percepção da “realidade” e com a experiência que tem a partir dela – existe aí uma afinidade com a ideia de introspecção natural (Grossman e Simon, 1969). Terceiro, o método de Anna Freud de observar os conflitos é utilizado como um “instrumento”: ela disse para Sandler, “quero enfatizar o que realmente eu quis comunicar em nossa última conversa: o ego pode se mancomunar com os desejos instintuais e se deixar levar pelas gratificações inerentes a eles, e será isso que definirá o modo particular de funcionamento que o ego assumirá; creio eu, que tal dinâmica não nos ajuda a observar as estruturas psíquicas”. Em outras palavras, Anna Freud explicou, “se você quiser, pode perisistir na sustentação do modelo de conflito inconsciente e de formação de compromissos, mas, desse jeito, você não será capaz de “ver” o ego e o id como instâncias separadas! Você não conseguirá testemunhar a luta entre as partes da mente, que agem sem querer agir ou sem terem intenções premeditadas, e nem poderá escutar as vozes “articulando diferentes linguagens” (os modelos científicos têm domínios restritos de validação; assim, os seus valores oscilam conforme a sua utilidade. É fundamental entendermos que a “verdade científica” é algo imperscrutável e impossível de estabelecer). As difrenças essenciais envolvidas entre uma abordagem que analisa as defesas e a outra são as seguintes: (1) a análise do momento “inaugural” ou de estreia do conflito (caracteriologicamente determinado) versus a análise da formação de compromissos (soluções “infantis” de conflitos); (2) o uso de reconstruções breves versus a interpretação dos componentes da formação de compromisso; (3) a suposição de que a análise cria a “cura” a partir do insight entre as instâncias psíquicas (id, ego, superego) versus a crença fundamental na estimulação de novos meios de formação de compromissos – muitas vezes, sem que o “insight” seja um dos fatores vigorantes; e (4) a comparação fácil ou difícil que cada método tem de demonstrar os seu potencial de pesquisa e a sua utilidade analítica. Um dos assombrosos aspectos do pensamento de Anna Freud sobre o conflito é a consitência do embasamento que trespassa a sua obra de 1936. Anna Freud esquadrinhou uma linha clara e objetiva em que é possível perceber de que modo ela se posiciona. As ideias são bem coesas e sólidas, tanto que anteciparam o que viria em 1980, ou seja, a ideia de que o insight se configuraria como um veículo de cura. As possibilidades heurísticas presentes em sua obra só se destacaram em 1973, quando Gray decidiu revistitar os conceitos de Anna Freud. Agora, tivemos a chance de avaliar as duas técnicas. Tabela 2-1 – Comparação entre os dois métodos CharlesBrenner Anna Freud A. Observação [“Escuta”] Intervenção * Tipo de transferência endereçada “Método de Associação Livre” Associação Livre Interpretação * Id> defesa Não é essencial Foco Demonstração imedita a partir de reconstrução * Id = defesa Requisito que faz parte do método B. Pulsão ou instinto envolvido Inconsciente, “infantil” Intensidade reduzida com a interpretação Consciente  Pré-consciente, “Infatil-adulto” Intensidade pode aumentar ou diminuir conforme a “segurança” C. Ego defensivo Inconsciente * Trabalhado na análise, à medida que auxilia na redução da resistência, mas enfatizado em menor grau Inconsciente/ consciente, nomeado, estudado, identificado como um regulador do id/ guia * Significância não reduzida D. Ego “racional” Totalmente envolvido Nomeado; identificado como regulador do id E. Superego Aliado ou envolvido [parcialmente] Componentes nomeados [por exemplo, na externalização da defesa/ nas formas de transferência] Identificado como regulador do id a serviço do ego F. O que está por vir/ ganhos e objetivos Novo equilíbrio/ novas formações de compromisso Equilíbrio postergado [até o Insight] G. Insight a partir da estrutura, da mecânica e dos processos mentais Não é essencial Crucial para a “cura” Notas de pé Freud (1933[1932]) escreveu: “Fomos advertidos pelo provérbio que dizia para não servirmos a dois senhores ao mesmo tempo. O pobre ego passa por provações piores: serve a três senhores e faz o que for preciso para suprir as suas demandas e manter a harmonia entre os déspotas. Tais reivindicações são sempre divergentes e, na maioria das vezes, incompatíveis. Não é à toa que o ego, frequentemente, falha em seus desígnios. No fim, são os três os tiranos que entram em desavença com o mundo externo, mas, principalmente, o superego e o id. Quando acompanhamos de perto os esforços que o ego empreende para que satisfazê-los – de preferência, que os agrade simultaneamente – não sentimos nenhum remorso ou arrependimento pelo fato de termos personificado e separado o ego nos modos de um organismo independente. Ele fica espremido de todos os lados e é ameaçado por todos os tipos de perigos, o que, pela pressão, gera, consequentemente, reações de ansiedade...” (p.77). A ideia básica de Grossman e de Simon sobre a linguagem “natural” da introspecção é a de que “a experiência do conflito (em partes da mente) é transmitida ou traduzida a partir de um idioma antropomórfico e está intimamente ligada a alguns aspectos comuns, aceitos popularmente, tais como a imagem de uma mente dividida em partes: uma moral; outra, orientada pela realidade, e, por último, a parte instintiva ou animal que remete à infância (p. 97). Até agora, ao se tratar do tema coadunado ao desejo, à necessidade, à intenção e à defesa, não temos uma melhor linguagem que se exemplifique o que citamos”. Em “Uma abordagem genética em psicanálise”, Hartmann e Kris (1945) elaboraram a sua compreensão clínica e investigativa a partir de uma dinâmica pautada em causalidades (genéticas). Em um exemplo, os autores escreveram sobre “o homem que tendia a fracassar diante de qualquer pessoa que viesse a competir come ele”. (Nós podemos imaginar como isso se torna evidente com as associações feitas pelo paciente). O analista, eles comentaram, terá a oportunidade de “estabelecer um relacionamento casual entre o padrão de regressão do indivíduo diante de situações conflituosas e o seu de lidar com elas em seus primeiros anos de vida, ou seja, poderá decifrar como tal padrão se formou ao longo do tempo” (p. 12). O aprendizado da teoria aplicado na prática. O analista “irá indagar sobre como a recusa de competir acabou por se converter em uma solução ou foi adotada como uma; quando o paciente competia com o pai ou com os irmãos, por que tal embate era resolvido com a regressão? E quais foram as experiências... e os comportamentos... que, aos olhos dos pais, podem ter gerado culpa ou desaprovação. O padrão foi aprendido em função das falhas (ou se configurou como uma alternativa defensiva que visa, em algum grau, proporcionar a adaptação e o sucesso”. As proposições dinâmicas “se manifestam nas interações, enquanto os conflitos têm um nexo com as reações despertadas pelo mundo externo”. Já as proposições genéticas “se voltam para a explicação desses comportamentos e a investigações de suas origens, assim como avalia as condições em que tais condutas se cristalizaram” (pp. 11-12). Analyzing Defense: Two Different Methods (1994). Journal of Clinical Psychoanalysis, 3:87-126