quarta-feira, 24 de abril de 2013

Antonino Ferro, A Rêverie e o Après-coup

Quando ouço a apresentação de um caso clínico, é como se ele estivesse precedido por: "Tive um sonho sobre este paciente". Essa modalidade de escuta não é muito diferente da que eu adoto nas sessões de análise: o início da sessão contém sempre um implícito "tive um sonho" por parte do paciente, qualquer que seja o contexto da narração. Isto, naturalmente, se refere ao meu trabalho de "cozinha analítica"; no "restaurante analítico", na parte em contato com o paciente, o prato interpretativo poderá ser apresentado de maneiras muito diversas, inclusive – na eventualidade – com o molho de um compartilhar do conteúdo manifesto. A operação que eu faço é a de desconstrução da narração do paciente e de reconstrução de uma cena através das transformações que eu realizo. A desconstrução acontece também por meio de uma escuta cada vez mais irrealista e "resonhando" o que é dito, organizando o sentido segundo "organizadores oníricos" que são espontâneos e, de certa forma, arbitrários, e dão origem a uma cena que necessita, continuamente, encontrar uma sucessiva validação (p. 114). FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução: Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Melanie Klein, Amor e conflitos em relação aos pais

Como procurei mostrar, a luta entre amor e ódio, com todos os conflitos que ela provoca, começa no início da infância e continua ativa pelo resto da vida. Ela se origina da relação da criança com os pais. Na relação do bebê de colo com a mãe já estão presentes sentimentos sensuais, que se expressam através das sensações agradáveis na boca relacionadas ao processo de sugar. Logo sensações genitais ocupam o primeiro plano e o desejo pelo bico do seio da mãe diminui. No entanto, ele nunca chega a desaparecer por completo, permanecendo ativo no inconsciente e, em parte, também na mente consciente. No caso da menina, a preocupação com o bico do seio é transferida para um interesse - em sua maior parte inconsciente - pelo órgão genital do pai, que se torna o objeto de seus desejos e fantasias libidinais. À medida que prossegue seu desenvolvimento, a menina passa a desejar ao pai mais do que à mãe. Ela passa a ter fantasias conscientes e inconscientes de tomar o lugar da mãe, conquistando o pai e se tornando sua mulher. Também tem muita inveja dos outros filhos que a mãe possui e deseja que o pai lhe dê bebês que possam ser seus. Esses sentimentos, desejos e fantasias são acompanhados de rivalidade, agressividade e ódio contra a mãe, somando-se ao ressentimento que sente contra ela, oriundo de frustrações anteriores no seio. Mesmo assim, fantasias e desejos sexuais em relação à mãe permanecem ativos na mente da menina. É sob sua influência que ela deseja tomar o lugar do pai ao lado da mãe - em alguns casos, esses desejos e fantasias podem se desenvolver com mais força do que aqueles relacionados ao pai. Assim, o amor que sente pelos dois se mescla a sentimentos de rivalidade, mistura que se estende à sua relação com os irmãos. Os desejos e fantasias associados à mãe e irmãs formam a base de relações homossexuais diretas mais tarde, assim como de sentimentos homossexuais que se manifestam indiretamente na amizade e afeição entre duas mulheres. No curso normal dos acontecimentos, esses desejos homossexuais são relegados ao segundo plano, são desviados e sublimados, e a atração pelo sexo oposto torna-se predominante. Um desenvolvimento correspondente ocorre no menino, que logo sente desejos genitais em relação à mãe e sentimentos de ódio contra o pai, encarado como rival. Entretanto, nele também surgem desejos genitais voltados para o pai, que são a raiz do homossexualismo nos homens. Essas situações geram muitos conflitos: a menina, apesar de odiar a mãe, também a ama; o menino ama o pai e gostaria de poupá-lo do perigo criado pelos seus impulsos agressivos. Além disso, o principal objeto de todos os desejos sexuais - no caso da menina, o pai, no do menino, a mãe - também provoca ódio e a vontade de vingança, pois esses desejos são frustrados. A criança também tem um profundo ciúme dos irmãos, pois estes são rivais na disputa pelo amor dos pais. Ela, no entanto, ao mesmo tempo as ama, o que gera mais uma vez fortes conflitos entre os impulsos agressivos e o amor. Isso leva ao sentimento de culpa e ao desejo de oferecer compensações: uma vez que nossas relações com as pessoas em geral são moldadas a partir desse mesmo padrão, essa mistura de sentimentos é muito importante não só na nossa relação com nossos irmãos, mas também na nossa atitude social, nos sentimentos de amor e ódio, e no desejo de fazer compensações pelo resto da vida (p. 350 e 351). KLEIN, Melanie. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Com uma nova introdução escrita por Hanna Segal. Tradução de André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1996. (Obras completas de Melanie Klein; v. I).