segunda-feira, 20 de maio de 2013

Antonino Ferro, Na Sala de análise: emoções, relatos, transformações

 
Segundo alguns modelos (os pré-campo), a introdução de imagens por parte do analista na tecedura da sessão constituiria uma infração de setting por parte do mesmo e uma falta de neutralidade. Com Bion, este ponto de vista cai pelo menos por duas razões: a primeira é que, não importa como o analista se coloque (Alvarez, 1985; Saraval, 1985; Renik, 1993; Berti, Ceroni, 1993) - mesmo do modo mais neutro - ele entrará de qualquer maneira no campo, e a sua entrada "em cinza" não é menos significativa do que uma entrada sua em outras cores. Em segundo lugar, porque a imagem visual que o analista usa - sempre naturalmente que seja fruto de rêverie em que possa dar à construção da sessão, operando na fileira "C" da grade, realizando plenamente, junto com a extensão no terreno do sentido e da paixão, aquela extensão no terreno do mito de que nos fala Bion em Os Elementos da Psicanálise (1963).*
Haveria também um terceiro motivo: já não é possível pensar o analista como alguém que decodifica o texto do paciente, fornecendo às escondidas uma conta paralela sobre os significados, mas como um co-autor do tecido narrativo que é construído em sessão com a contribuição criativa de ambos.

A imagem – falo somente e sempre de imagem fruto de rêverie em sessão – torna-se o fato por excelência, o organizador que permite definir uma nova gestalt, delinear uma nova configuração do campo rumo a uma "extensão" do mesmo, com uma contínua possibilidade de re-significação (p. 207).

*Bion diz literalmente: "Quando o analista interpreta, é possível, para o analista e para o analisando, perceberem que ele fala de algo audível, visível, palpável ou olente no momento [...] Suponhamos que o paciente esteja irritado. Mais sentido se empresta a uma formulação com este fim acrescentando-se que a sua irritação se assemelha à do "menino que quer bater na babá porque o chamaram de desobediente" [...] [isto e] asseveração do mito pessoal [...] a paixão evidencia que suas mentes se ligaram e que, para haver paixão, não se poderá talvez contar com menos que duas mentes".

FERRO, Antonino. Na Sala de análise: emoções, relatos, transformações. Trad. Mércia Justum. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998. 252p.

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