quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nancy McWilliams, Implicações clínicas na avaliação das defesas (A tradução é de minha autoria)


 

Repercussões em curto e em longo prazo


A razão fundamental para se realizar uma minuciosa avaliação das defesas de uma pessoa em tratamento é que, em longo prazo, os padrões apresentados podem ser alterados a ponto de alargar a percepção subjetiva e de proporcionar experiências mais enriquecedoras. Os pacientes aprenderão a identificar o momento em que acionam de forma “automática” o gatilho de determinadas estratégias defensivas e poderão pensar se a resposta eleita será ou não pertinente à situação. Eles terão a chance de substituir as escolhas involuntárias, irrefletidas e, na maioria das vezes, danosas pelas ações planejadas e voluntárias. Assim, os estilos particulares de defesa assumirão versões mais maduras de si próprias (por exemplo, a completa isolação afetiva se converteria em uma espécie de digressão em torno dos sentimentos; ou, para constar, a idealização primitiva ascenderia ao caráter de idealização). O indivíduo se apropriaria de repertórios defensivos mais adaptados e efetivos, em princípio.

Mesmo que a era atual priorize a economia na duração do tratamento, os que buscam terapia intuitivamente deduzem que levarão bastante tempo para sofrer mudanças significativas. Alguns deles estão dispostos a investir o que for preciso para obter resultados; outros, não. Há, também, as pessoas dotadas de defesas tão mal adaptadas – os que dependem de forma irresoluta da dissociação, só para citar – que, no decorrer da análise, averiguam a possibilidade de ficarem mais tempo em terapia para reverterem a sua condição. Mas, mesmo em tratamentos de curto prazo, em que as intervenções visam à dissolução da crise, é de grande valia compreender as defesas referentes ao caráter. Tal conhecimento modula o tipo de intervenção que se adequará ao estilo do paciente.

Começarei pelo que a maioria dos clínicos considera uma situação ideal: o paciente foi encaminhado com ótimas referências, está motivado para tratar os conflitos atuais e os passados, pode bancar as despesas e tem disposição para esperar o tempo que for preciso para que os efeitos da terapia se manifestem. Diante dessas circunstâncias, se constatarmos que as defesas utilizadas para lidar com determinadas tensões cotidianas estão mal adaptadas ao contexto, devemos encorajá-lo a considerar novas formas de identificar o problema. Por exemplo, imagine, em contrapartida, um homem emocionalmente envolvido com a doença terminal do pai e que reage à situação com uma postura de afastamento. Seria pertinente que alguém pontuasse que é natural evitar a dor e as frustrações que advêm desse contexto, mas que, agindo assim, distanciando-se antes do tempo, ele corria o risco de se arrepender por não ter ficado ao lado do pai durante os seus últimos meses de vida. Outro analista investigaria as fantasias em torno do pai moribundo: por que o paciente não se sentiu autorizado para sofrer a dor do luto? Ou, visto de outro ângulo, se o paciente acompanhasse o pai no leito de morte, jamais conseguiria superar a perda? Talvez outro profissional explorasse as fantasias referentes à “perda de controle” das emoções. Quem sabe, poderiam avisá-lo que, mesmo que abandonasse o pai, tal ação não teria como, magicamente, prolongar a vida dele e nem tornaria mais suportáveis os dias de agonia. Em meio a isso, outro terapeuta estimularia o paciente a encontrar possibilidades de manejar o luto de modo proativo e de, em paralelo, contentar as expectativas da família e as dele mesmo. E por aí vão os pontos de vista.

Agora, se alguém enxergar que as defesas usadas pelo paciente são anômalas e cristalizadas, o desafio clínico será extraordinário. Na ilustração anterior – em que um homem íntegro se vê angustiado frente à morte do pai e, inexplicavelmente, sente vontade de se afastar do ente querido – como deveria agir o terapeuta? Em primeiro lugar, precisaria entrar em contato com a parte do paciente que contempla o afastamento à maneira de um artifício absurdo e inconsequente. Mas se uma pessoa, posta no mesmo enredo, tivesse um histórico de se afastar de tudo o que provocasse incômodo e desprazer: será que, ainda assim, existiria uma parte que “observaria” o que estava acontecendo? E nós conseguiríamos acessá-la? A resposta para ambas às perguntas é não. A tendência de se esquivar estaria tão arraigada e automatizada à personalidade do paciente, a ponto de anular qualquer concepção oposta ao que considera natural. Ele não aderiria a uma conduta alheia à já conhecida. Como o ar que respira, o seu padrão defensivo seria algo familiar e, justamente por isso, infenso a toda a tentativa de ali se instaurar o pensamento.

Em casos assim, em que o arsenal defensivo é invisível ou, se preferir, alienígena à pessoa, a análise deve se inclinar, nos primeiros meses ou anos, a tornar a sintonia do ego dissonante. De cara, as primeiras interpretações da defesa serão experimentadas de forma nociva; o modus vivendi do paciente as encarará como ataques ou como críticas, pois ele nem intui como operar de outro modo que não o habitual. O terapeuta precisará de paciência para, gradualmente, erigir perguntas e evocar maneiras diferentes de abordar os conflitos que surgirão. Não há como extirpar a defesa que estrutura e sustenta as referências de uma pessoa. Existem vários exemplares da literatura psicanalítica que sugerem o tratamento de longa duração a esses tipos de pacientes. Às vezes, o processo todo se concentra apenas em um traço de caráter específico. Os autores Mueller e Aniskiewitz (1986), por exemplo, escreveram sobre o trabalho com os pacientes histéricos que se valem da repressão, da regressão, da conversão e da atuação; Salzman (1980) empreendeu os mesmos esforços para lidar com os pacientes obsessivos que usam o isolamento, a anulação, a parcimônia, a racionalização e a dúvida; Davies e Frawley (1993) fez o mesmo em relação aos que dissociam.

E nos casos em que, independente dos motivos, só podemos realizar um tratamento de curta duração ou uma intervenção focada na crise? É claro que teremos de adaptar as intervenções a um contrato mais enxuto e, mesmo que o tempo seja limitado, ainda é relevante compreender que a defesa conserva raízes com o caráter. Imagine uma mulher com uma estrutura de personalidade masoquista – automaticamente, a partir do enunciado, já deduzimos que ela dependerá das defesas para se voltar contra o próprio self e vice-versa. Ela só é capaz de identificar as suas necessidades projetando-as nos outros; a sua satisfação se consumará na assistência; quando for a vez de ela se cuidar, inexoravelmente se anulará. Em terapias de longo prazo, é esperado que a integração de partes da personalidade da paciente ocorra e, também, que ela consiga dar um destino melhor às pulsões às necessidades que, antes, eram projetadas nos objetos e negadas em si. Em um prazo limitado de tratamento, o terapeuta simplesmente entenderá que o modo como a mulher em questão lida com os próprios objetos internos se manifesta, simetricamente, com os externos; é a forma que ela encontrou para conviver com certos aspectos considerados inaceitáveis de si mesma. Teremos de aplicar essa psicologia ao trabalhar. Então, se estamos tentando influenciar a paciente a adotar um comportamento diferente em relação ao parceiro que a humilha e a maltrata, não devemos atacar as defesa à queima-roupa e anunciar “ele abusa de você! Não há como aceitar isso. Diga que você sairá de casa se ele não parar” (Convenhamos, se esse tipo de abordagem usada pelos leigos tivesse eficácia, a procura pela psicoterapia diminuiria drasticamente, pois é assim que costumam ajudar os familiares das vítimas seviciadas).   

Ataques frontais às defesas tendem a deixar os pacientes com duas opções: (1) a abdicação das defesas, sem que tenham sido desenvolvidos mecanismos vicários para preencher os hiatos, gera uma sobrecarga de ansiedade, vergonha e culpa; ou (2) surge o ímpeto de lutar contra a pessoa que ameaça o seu estimado método de levar a vida. Grande parte das pessoas escolhe a segunda alternativa. Às vezes, os pacientes escolhem a via da idealização do terapeuta para compensar a perda das diretrizes defensivas (a legenda seria: vou concordar com tudo o que me for apresentado, pois, baseado em minha crença, o terapeuta é alguém muito superior a mim. As ansiedades ativadas pelo fato de eu agir de um modo estranho aos padrões que estou familiarizada se diluem pela convicção de que o meu terapeuta sabe melhor do que eu o que é bom para mim). Desse jeito, o problema foi deslocado, mas continua a existir: agora o terapeuta é quem domina, subjuga e dá ordens à paciente. À medida que concorda com tudo o que lhe é sugerido, ela sacrifica a sua dignidade e autonomia. O comportamento de desvalia foi aplacado; a dependência em relação ao parceiro anterior se deslocou para um objeto mais saudável e generoso, porém a predisposição da paciente de aceitar e de obedecer cegamente a todos os mandatos foi reforçada ao invés de ter sido erradicada.

As intervenções dirigidas às defesas são condenadas pela técnica e, por isso, os terapeutas – adeptos aos tratamentos de curta duração – aprenderam a usar os padrões defensivos a serviço do crescimento e não da paralisação. Com a hipotética mulher masoquista que criamos, o terapeuta teria grandes chances de convencê-la a se tornar mais assertiva, se conseguisse realizar uma intervenção cuja linguagem entrasse em ressonância com as necessidades defensivas apresentadas. No caso, ele poderia dizer:

“Eu fico a pensar se o jeito que o Bob trata você não o corrompe. Talvez isso não seja bom para vocês. Você não pensa em sair dessa posição em que a ameaça e a intimidação são constantes? Provavelmente, o Bob não queira se enxergar como um brutamonte que a domina. Acho que ele não tem orgulho de transparecer tal imagem. Será que há alguma maneira razoável, adulta e até mesmo igualitária de você corresponder às demandas dele?”.

A mulher deve ser convocada a avaliar as ações motivadas pelo inconsciente sob a perspectiva do que é bom ou não aos outros. Assim, ela será capaz de refletir sobre a sua conduta habitual e de perceber os padrões que contribuem para o adoecimento de outras pessoas.

Para fazer um contraste dramático do exemplo desse princípio que incita a apreciação das defesas sem que as formas de pensar, os sentimentos e os comportamentos da pessoa sejam violentados, imagine os desafios que teríamos com os pacientes com traços antissociais? Um psicopata não leva em conta e é incapaz de assimilar as interpretações que tentam romper o controle autoritário e onipotente das defesas. Qualquer policial experiente sabe que não basta simplesmente juntar provas para que um crime seja confessado: mesmo com todas as evidências, a necessidade de subjugar os outros e de estar no topo se mantêm. Declarações do tipo “Você estava fora de controle” têm um tom de desculpa e aludem a uma fraqueza, portanto, são contraproducentes. Nem o apelo à culpa surtirá efeito (por exemplo: “Você deve pensar nas vítimas e nas consequências de seus atos”). A onipotência não tolera falhas morais e nem imperfeições; tudo se resume ao poder. Então, ao invés de dizer ao assassino, “em consideração à família da vítima, você deve admitir o que fez”, os policiais aprenderam outro jeito: “Ora! Se você alegar que não tinha consciência do que estava fazendo, as pessoas vão achar que você tem algum distúrbio mental. É assim que você quer ser visto pelos outros?”. A maioria dos psicopatas prefere ser preso a ser tachado de fraco ou de degenerado. 

A intervenção terapêutica pode ser análoga à ilustração forense em questão, no momento em que se busca elidir as mentiras. As reflexões ou hipóteses empáticas sobre o porquê de algumas pessoas precisarem enganar às outras, não gerarão honestidade. Para quem está tentando se sentir onipotente, não haverá brechas para o conhecimento. Ele (supostamente) já decifrará tudo de antemão. Ilações morais serão igualmente menosprezadas e transformadas em racionalizações hipócritas em torno da brutalidade inerente à vida. Para não entrar nessa, o terapeuta pode replicar:

“Veja, você é bom e muito convincente. Por mais que eu o estimule a ser transparente comigo, percebo que você não resiste à tentação de mentir. Tenho certeza de que, em vários instantes, você me passou para trás. Eu sei. Mas creio que não seja interessante para você fazer isso aqui, já que contos de fada só farão com que você perca o seu dinheiro e eu, o meu tempo. Você é o perito em sua própria psicologia: então, como devo proceder para que você tenha coragem para contar a verdade?”.

Ao aceitar a referência grandiosa que a pessoa tem de si e associar a coragem à verdade, instaura-se uma posição poderosa, em que o terapeuta maximiza a possibilidade de o paciente cooperar.


Exposição sistemática versus “afundar” nas defesas

Nas circunstâncias em que temos o tempo e a responsabilidade necessários para realizar um tratamento de longa duração com um paciente que se dispõe a investigar em profundidade os aspectos de sua personalidade, ainda precisaremos acessar a estrutura defensiva vigorante para modularmos o estilo de comunicação que entrará em jogo na relação. A abordagem psicanalítica clássica para analisar a defesa segue o modelo “da superfície ao fundo” (Fenichel, 1941), que visualiza a organização mental em camadas. Cada camada protegeria conteúdos aninhados em camadas mais profundas e assim sucessivamente. O analista tateia e endereça sistematicamente à consciência os componentes que jaziam ocultos. Eis a experiência do tratamento. À medida que a confiança do paciente recrudesce e ele se sente seguro, as defesas, guardiãs das camadas, se tornam permeáveis a ponto de revelarem significados elípticos. Os conteúdos manifestos são administrados pelo terapeuta em vista de consumar a experiência do tratamento.

Por exemplo, uma pessoa com características histéricas geralmente se apresenta de um modo carismático e insinuativo. Por detrás dessa fachada se escondem a deslealdade, a hostilidade e a competição. Tais atitudes truculentas camuflam os medos e o desamparo do indivíduo. Em outras palavras, a ostentação é uma defesa contra a hostilidade e ela, por sua vez, é a defesa contra o medo e o senso subjetivo de vulnerabilidade. Ao trabalharmos com um paciente histérico que apresenta a dinâmica mencionada, podemos dizer, inicialmente, algo desse feitio: “Eu percebi que você sempre concorda comigo e, em geral, é muito educado. É claro que há circunstâncias em que você não assim tão agradável, não é mesmo?”. Esse comentário tende a desafiar o sistema defensivo do paciente, por provocar a reflexão e o desconforto, mas não é o suficiente para ameaçar as defesas em si. O paciente, a partir daí, poderá associar o que foi dito à sua maneira habitual de agradar aos outros. O analista, então, preparará a atmosfera para sondar o que as atitudes carismáticas costumam encobrir.

Caso alguém tenha tentado “afundar” a estrutura defensiva com interpretações como essas – “Eu acho que você está sendo realmente hostil comigo”; ou “Por trás dessa fachada, você está morrendo de medo de mim” – mesmo assim, grande parte dos pacientes considerará tais atribuições distantes de sua experiência consciente e, provavelmente, não ligarão a ideia ao afeto. Talvez até se sintam traumaticamente expostos e aterrorizados demais para cooperar com o processo terapêutico. Em realidade, ele assume que a interpretação é acertada, porém não consegue aceitá-la. De fato, um dos principais motivos para refrearmos o afã de migrar da superfície até o fundo é o de evitar a construção exacerbada de hipóteses a respeito das defesas, visto que o terapeuta quer, sempre que possível, trabalhar em um âmbito em que o paciente compreenda o que lhe é dito. Para tanto, o terapeuta deve suscitar a confiança e estar em sintonia com a capacidade de assimilação do paciente em relação aos conteúdos discutidos.

Outro exemplo propenso à interpretação que vai da superfície ao fundo ocorreria com um paciente com características obsessivas e compulsivas. Ele se apresentaria de forma intelectualizada e seria extremamente cooperativo; no entanto, tais condutas disfarçariam a sua verve excessivamente crítica, minuciosa e argumentativa que, a um só tempo, impediria que vergonha e o descrédito viessem à tona. O terapeuta não apontaria de cara a vergonha latente, mas aludiria ao pendor do paciente para a racionalização. A investigação desse fator tipicamente nos levaria aos componentes agressivos presentes na personalidade do paciente. Na medida em que o paciente se sentir compreendido e aceito – apesar do incômodo gerado pelas atitudes hostis –, a inimizade abrandará e cederá lugar a vergonha. Aos poucos, essas zonas ou áreas terão autorização para emergir. Se o analista não investigasse as camadas defensivas e encontrasse atalhos para chegar ao núcleo da vergonha, ele correria o risco de mortificar o paciente e de converter toda e qualquer interpretação em uma discussão intelectual estéril.

Interpretações que partem da superfície e vão até o fundo são quase sempre uma opção. Os terapeutas fazem isso de forma natural e intuitiva, pois, quer queiram ou não, foram treinados sob a égide da metapsicologia psicanalítica. “Comece de onde o paciente está” e “Não desabilite uma defesa até que a pessoa tenha algo para preencher a lacuna criada”. Os enunciados em itálico são transmitidos, a cada dia, aos estudantes por supervisores experientes. Entretanto, há padrões de defesa que exigem dos clínicos mais do que as usuais estratégias de “ir da superfície ao fundo”. Refiro-me, especialmente, aos hipomaníacos e aos paranoicos. A frase poderá soar enigmática, mas para essa categoria de pacientes é necessário que os terapeutas “afundem” ao invés de ficarem no topo da hierarquia defensiva.

“Hipomaníaco” ou “Ciclotímico” são terminologias psiquiátricas que descrevem os padrões de personalidade em que a negação é o pilar das defesas. Em termos de humor, as pessoas hipomaníacas geralmente estão em “alto astral”, são charmosas, efusivas, espirituosas e adoram a pulsação das festas. Em contrapartida, a história delas atesta dificuldades de espontaneidade e de intimidade. Ademais, eles têm a tendência de boicotar um relacionamento em que tenham se tornado uma figura importante. Estão sujeitos a abruptas oscilações depressivas e, por isso, se valem da negação, porque não conseguem lidar com a dor, com a perda, com a fragilidade, com a mortalidade e com outras questões das quais não estamos preparados de todo para encarar. Eles chegam à terapia quando estão mergulhados em depressão. São famosos pelo abandono precoce do tratamento: ao conseguirem uma melhora no humor, interrompem o processo. Os entrevistadores costumam achar tais pessoas felizes e atraentes e reagem com surpresa ao saberem que elas travam uma batalha contra o desespero.

Os hipomaníacos são virtuosos na arte de negar. Em função de a negação ser uma defesa rígida e polar (tudo ou nada) não há como aplicarmos, como em outros casos, a técnica de perfuração das camadas superficiais até às mais profundas. Qualquer um que tenha experiência com dependentes químicos, condição em que a negação está notoriamente envolvida com o abuso das substâncias, sabe que, às vezes, é preciso minar a defesa. O terapeuta que jamais atacaria uma pessoa portadora de uma defesa que a impede de nunca discordar do outro, poderia exclamar: “Você está tentando me agradar. Pare com isso!”. O mesmo terapeuta, em outras circunstâncias, ao descobrir que o seu paciente estaria agindo de forma autodestrutiva, anunciaria: “Você está negando. Encare a realidade!”. Qualquer intervenção menos explícita e direta do que as anteriores e que pudesse ser esboçada em linhas menos contundentes – “Você não está preocupado com o exagero de bebidas que você consome? Isso está saindo do controle!” – somaria mais força à negação existente.

Com os hipomaníacos, a natureza de sua negação (uma oposição ao modo de operar de uma determinada área, como na adição) exige do terapeuta formas criativas de abordar os conflitos. Os pilares defensivos não podem ser destruídos; o paciente não deve ficar inerme e nem se sentir um fracassado. A experiência clínica preconiza que ir direto ao fundo – desviando da superfície e ignorando a camada da negação – é, frequentemente, a técnica a ser eleita. Por exemplo, uma mulher ciclotímica, na véspera das férias do terapeuta, começou a se comportar de forma autodestrutiva. O terapeuta esclareceria o seguinte: “Você provavelmente não tem consciência disso, mas eu estou convencido de que você está reagindo às minhas férias com muita ansiedade. Acho que você está se baseando nos medos inconscientes de que eu não voltarei mais para cá e a abandonarei”. Como qualquer outra intervenção, poderá ser rejeitada ou não, no entanto, terá um impacto, penetrará. Se o terapeuta fosse por outra via, a que faz mais sentido à maioria dos pacientes e a que chamamos de perfuração das camadas superficiais até às mais profundas, ele falaria “Eu suponho que o seu repentino consumo de bebidas e o fato de você estar saindo com vários parceiros têm a ver com as minhas férias”. A paciente, ao ouvi-lo, negaria tudo e se sentiria sem referências, em princípio.

O tratamento de pacientes paranoicos também averigua a motivação da defesa, o porquê de ter surgido e para quê, assim como o que se opõe a ela. Todos esses são alvos de escrutínio. Ao desviar da defesa, busca-se do que ela está se defendendo. As pessoas paranoicas são terrivelmente assombradas, em um nível inconsciente, pelo poder que presumem ter. O uso primitivo e inflexível das defesas, tais como a negação, a formação reativa e a projeção para lidar com o sentimento interno de ameaça e de pestilência criam a sensação de que, a qualquer instante, todo mal virá para fora. São duas as razões de eles precisarem do terapeuta para despistar a estrutura defensiva e irem contra os sentimentos e as necessidades que os fazem se defender: (1) Eles precisam enxergar o terapeuta como uma pessoa forte e inteligente, por temer, inconscientemente, que o seu poder maligno possa danificá-lo ou aniquilá-lo; (2) ao longo do tempo, eles fizeram tantas transformações nos sentimentos que, ao manifestarem o que há em suas mentes – o que vai da superfície ao fundo –, acreditam que nunca será um conceito palatável ou inteligível aos outros.

Para ilustrar o segundo ponto, imagine uma mulher paranoica que expressa com convicção ao terapeuta o ultraje que sofreu do marido ao saber que ele a traiu. Temos aí algo sem evidências. O terapeuta será capaz de identificar que a preocupação começou com um simples arroubo de solidão e com o desejo da paciente de se tornar mais próxima de uma amiga. Isso desencadeou uma série de rígidas defesas, como veremos:

“Desde que me tornei má, a minha necessidade pelo amor de uma mulher reflete a minha depravação. A necessidade é tão intensa que eu a experimento com erotismo. É inaceitável. Talvez seja ela a autora desses desejos que povoam a minha mente. Talvez ela os tenha colocado em minha cabeça. Ela é que é má; não eu. E não sou eu que a desejo – é o meu marido que a quer”.   

Então, a partir da negação, da formação reativa, da projeção e do deslocamento, uma simples necessidade é transformada em uma preocupação paranoica. O terapeuta que tentou trabalhar da superfície ao fundo (“O que lhe vêm à cabeça quando você imagina que o seu marido tem uma amante?”) provocará mais ruminações paranoicas.

Mas um terapeuta seria capaz de entrar em contato com essa mulher dizendo algo assim: “Eu acho que, ultimamente, você tem estado muito sozinha, e isso faz com que você se preocupe com a fidelidade daqueles de quem você depende”. Isto poria um fim às discussões relacionadas à normalidade da solidão e às opções que a paciente tem de se encontrar com as amigas. Outro tipo de intervenção que incitaria o desvio seria: “Eu tenho a forte impressão de que, inconscientemente, você tem a convicção de que há algo terrível e nocivo em você. Talvez, em alguma instância irracional, você acredite que o seu marido consiga ver a sua maldade e, por isso, tenha rejeitado você e se interessado por outra pessoa”. Novamente, uma pessoa paranoica se sentiria atraída por essa formulação. Por conseguinte, ambos, terapeuta e paciente, teriam um alívio dos conceitos paranoicos implacáveis engendrados pelas defesas.

Resumo


Nesse capitulo, eu fiz alguns apontamentos sobre o conceito psicanalítico de defesa, enfatizando a importância da prática clínica na compreensão do mundo interno e subjetivo das pessoas que se protegem do sofrimento. Eu tentei ajudar o leitor a diferenciar as defesas de caráter das que são provocadas por situações particulares de estresse e, para tanto, designei algumas das implicações clínicas ao se realizar tais distinções. No momento em que as defesas se cristalizaram, podemos nos assegurar de que se trata de um distúrbio de personalidade. Também expus as técnicas de observação e de escuta utilizadas nos tratamentos de curta e de longa duração, respectivamente. Por fim, destaquei as condições em que a tradicional aplicação do método de analisar as defesas “da superfície ao fundo” não é o mais adequado.

Como Vaillant e McCullough (1998, p. 154) observaram: todos nós dispomos de dinâmicas maduras quando nos sentimos compreendidos. Entender o modo que a pessoa se defende do sofrimento e das emoções dolorosas é fundamental para decifrar a psicologia íntima dos pacientes que nos chegam. Aprender como transmitir tal compreensão sem que as defesas se alvorocem e distorçam a realidade é essencial à arte da psicoterapia.    
 
MCWILLIAMS, Nancy. Psychoanalitic case formulation. New York: The Guilford Press, 1999.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Instinto de nacionalidade, Machado de Assis




NOTÍCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA  — Instinto de nacionalidade
1873

(Escrito por encomenda para a revista O Novo Mundo, publicada em Nova York em português)

 

            Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro. As tradições de Gonçalves Dias, Porto Alegre e Magalhães são assim continuadas pela geração já feita e pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de José Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Escusado é dizer a vantagem deste universal acordo. Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional.

            Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.

            Sente-se aquele instinto até nas manifestações da opinião, aliás mal formada ainda, restrita em extremo, pouco solícita, e ainda menos apaixonada nestas questões de poesia e literatura. Há nela um instinto que leva a aplaudir principalmente as obras que trazem os toques nacionais. A juventude literária, sobretudo, faz deste ponto uma questão de legítimo amor-próprio. Nem toda ela terá meditado os poemas de Uruguai e Caramuru com aquela atenção que tais obras estão pedindo; mas os nomes de Basílio da Gama e Durão são citados e amados, como precursores da poesia brasileira.

            A razão é que eles buscaram em roda de si os elementos de uma poesia nova, e deram os primeiros traços de nossa fisionomia literária, enquanto que outros, Gonzaga por exemplo, respirando aliás os ares da pátria, não souberam desligar-se das faixas da Arcádia nem dos preceitos do tempo. Admira-se-lhes o talento, mas não se lhes perdoa o cajado e a pastora, e nisto há mais erro que acerto.

            Dado que as condições deste escrito o permitissem, não tomaria eu sobre mim a defesa do mau gosto dos poetas arcádicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas literaturas portuguesa e brasileira. Não me parece, todavia, justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados daquele mal; nem igualmente justa a de não haverem trabalhado para a independência literária, quando a independência política jazia ainda no ventre do futuro, e mais que tudo a metrópole e a colônia criara a história a homogeneidade das tradições, dos costumes e da educação. As mesmas obras de Basílio da Gama e Durão quiseram antes ostentar certa cor local do que tornar independente a literatura brasileira, literatura que não existe ainda, que mal poderá ir alvorecendo agora.

            Reconhecido o instinto de nacionalidade que se manifesta nas obras destes últimos tempos, conviria examinar se possuímos todas as condições e motivos históricos de uma nacionalidade literária, esta investigação (ponto de divergência entre literatos), além de superior às minhas forças, daria em resultado levar-me longe dos limites deste escrito. Meu principal objeto é atestar o fato atual; ora, o fato é o instinto de que falei, o geral desejo de criar uma literatura mais independente.

            A aparição de Gonçalves Dias chamou a atenção das musas brasileiras para a história e os costumes indianos. Os Timbiras, I-Juca Pirama, Tabira e outros poemas do egrégio poeta acenderam as imaginações; a vida das tribos, vencidas há muito pela civilização, foi estudada nas memórias que nos deixaram os cronistas, e interrogadas dos poetas, tirando-lhes todos alguma coisa, qual um idílio, qual um canto épico.

            Houve depois uma espécie de reação. Entrou a prevalecer a opinião de que não estava toda a poesia nos costumes semibárbaros anteriores à nossa civilização, o que era verdade, — e não tardou o conceito de que nada tinha a poesia com a existência da raça extinta, tão diferente da raça triunfante, — o que parece um erro.

            É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre as tribos vencidas os títulos da nossa personalidade literária. Mas se isto é verdade, não é menos certo que tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo ou os elementos de que ele se compõe. Os que, como o Sr. Varnhagen, negam tudo aos primeiros povos deste país, esses podem logicamente excluí-los da poesia contemporânea. Parece-me, entretanto, que, depois das memórias que a este respeito escreveram os Srs. Magalhães e Gonçalves Dias, não é lícito arredar o elemento indiano da nossa aplicação intelectual. Erro seria constitui-lo um exclusivo patrimônio da literatura brasileira; erro igual fora certamente a sua absoluta exclusão. As tribos indígenas, cujos usos e costumes João Francisco Lisboa cotejava com o livro de Tácito e os achava tão semelhantes aos dos antigos germanos, desapareceram, é certo, da região que por tanto tempo fora sua; mas a raça dominadora que as freqüentou colheu informações preciosas e no-las transmitiu como verdadeiros elementos poéticos. A piedade, a minguarem outros argumentos de maior valia, devera ao menos inclinar a imaginação dos poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas regiões, consorciando na literatura os que a fatalidade da história divorciou.

            Esta é hoje a opinião triunfante. Ou já nos costumes puramente indianos, tais quais os vemos n'Os Timbiras, de Gonçalves Dias, ou já na luta do elemento bárbaro com o civilizado, tem a imaginação literária do nosso tempo ido buscar alguns quadros de singular efeito dos quais citarei, por exemplo, a lracema, do Sr. J. Alencar, uma das primeiras obras desse fecundo e brilhante escritor.

            Compreendendo que não está na vida indiana todo o patrimônio da literatura brasileira, mas apenas um legado, tão brasileiro como universal, não se limitam os nossos escritores a essa só fonte de inspiração. Os costumes civilizados, ou já do tempo colonial, ou já do tempo de hoje, igualmente oferecem à imaginação boa e larga matéria de estudo. Não menos que eles, os convida a natureza americana cuja magnificência e esplendor naturalmente desafiam a poetas é prosadores. O romance, sobretudo, apoderou-se de todos esses elementos de invenção, a que devemos, entre outros, os livros dos Srs. Bernardo Guimarães, que brilhante e ingenuamente nos pinta os costumes da região em que nasceu, J. de Alencar, Macedo, Sílvio Dinarte (Escragnolle Taunay), Franklin Távora, e alguns mais. Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura. Gonçalves Dias por exemplo, com poesias próprias, seria admitido no panteão nacional; se excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas americanos e certo número de composições, pertencem os seus verses pelo assunto a toda a mais humanidade, cujas aspirações, entusiasmo, fraquezas e dores geralmente cantam; e excluo daí as belas Sextilhas de Frei Antão, que essas pertencem unicamente à literatura portuguesa, não só pelo assunto que o poeta extraiu dos historiadores lusitanos, mas até pelo estilo que ele habilmente fez antiquado.

            O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser impresso em terra americana e inglesa, perguntarei simplesmente se o autor do Song of Hiawatha não é o mesmo autor da Golden Legend, que nada tem com a terra que o viu nascer, e cujo cantor admirável é; e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se, entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta essencialmente inglês. Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principal- mente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam.

            O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês, sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial. Estes e outros pontos cumpria à crítica estabelecê-los, se tivéssemos uma crítica doutrinária, ampla, elevada, correspondente ao que ela é em outros países. Não a temos. Há e tem havido escritos que tal nome merecem, mas raros, a espaços, sem a influência quotidiana e profunda que deveram exercer.

            A falta de uma crítica assim é um dos maiores males de que padece a nossa literatura; é mister que a análise corrija ou anime a invenção, que os pontos de doutrina e de história se investiguem, que as belezas se estudem, que os senões se apontem, que o gosto se apure e eduque, e se desenvolva e caminhe aos altos destinos que a esperam.

 

O ROMANCE

            De todas as formas várias as mais cultivadas atualmente no Brasil são o romance e a poesia lírica; a mais apreciada é o romance, como aliás acontece em toda a parte, creio eu. São fáceis de perceber as causas desta preferência da opinião, e por isso não me demoro em apontá-las. Não se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de lingüística, de crítica histórica, de alta política, e outros assim, que em alheios países acham fácil acolhimento e boa extração; raras são aqui essas obras e escasso o mercado delas. O romance pode-se dizer que domina quase exclusivamente. Não há nisto motivo de admiração nem de censura, tratando-se de um país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos. Isto não é desmerecer o romance, obra d'arte como qualquer outra, e que exige da parte do escritor qualidades de boa nota.

            Aqui o romance, como tive ocasião de dizer busca sempre a cor local. A substância, não menos que os acessórios, reproduzem geralmente a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. Naturalmente os costumes do interior são os que conservam melhor a tradição nacional; os da capital do país, e em parte, os de alguma cidades, muito mais chegados à influência européia, trazem já uma feição mista e ademanes diferentes. Por outro lado, penetrando no tempo colonial, vamos achar uma sociedade diferente, e dos livros em que ela é tratada, alguns há de mérito real.

            Não faltam a alguns de nossos romancistas qualidades de observação e de análise, e um estrangeiro não familiar com os nossos costumes achara muita página instrutiva. Do romance puramente de análise, raríssimo exemplar temos, ou porque a nossa índole não nos chame para aí, ou porque seja esta casta de obras ainda incompatível com a nossa adolescência literária.

(...)

 

A POESIA

            A ação de crítica seria sobretudo eficaz em relação à poesia. Dos poetas que apareceram no decênio de 1850 a 1860, uns levou-os a morte ainda na flor dos anos, como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, cujos nomes excitam na nossa mocidade legítimo e sincero entusiasmo, e bem assim outros de não menor porte. Os que sobreviveram calaram as liras; e se uns voltaram as suas atenções para outro gênero literário, como Bernardo Guimarães, outros vivem dos louros colhidos, se é que não preparam obras de maior tomo, como se diz de Varela, poeta que já pertence ao decênio de 1860 a 1870. (...)

            Não faltam à nossa atual poesia fogo nem estro. Os versos publicados são geralmente ardentes e trazem o cunho da inspiração. Não insisto na cor local; como acima disse, todas as formas a revelam com mais ou menos brilhante resultado, bastando-me citar neste caso as outras duas recentes obras, as Miniaturas de Gonçalves Crespo e os Quadros de J. Serra, versos estremados dos defeitos que vou assinalar. Acrescentarei que também não falta à poesia atual o sentimento da harmonia exterior. Que precisa ela então? Em que peca a geração presente? Falta-lhe um pouco mais de correção e gosto, peca na intrepidez às vezes da expressão, na impropriedade das imagens na obscuridade do pensamento. A imaginação, que há deveras, não raro desvaira e se perde, chegando à obscuridade, à hipérbole, quando apenas buscava a novidade e a grandeza. Isto na alta poesia lírica, - na ode, diria eu, se ainda subsistisse a antiga poética; na poesia íntima e elegíaca encontram-se os mesmos defeitos, e mais um amaneirado no dizer e no sentir, o que tudo mostra na poesia contemporânea grave doença, que é força combater.

            Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e expressões adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do Sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificências de vegetação, - não há dúvida que são painéis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que são grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade.

(...)

            Há também uma parte da poesia que, justamente preocupada com a cor local, cai muitas vezes numa funesta ilusão. Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seus toques, e que estes sejam naturais, não de acarreto. Os defeitos que resumidamente aponto não os tenho por incorrigíveis; a crítica os emendaria; na falta dela, o tempo se incumbirá de trazer às vocações as melhores leis. Com as boas qualidades que cada um pode reconhecer na recente escola de que falo, basta a ação do tempo, e se entretanto aparecesse uma grande vocação poética, que se fizesse reformadora, é fora de dúvida que os bons elementos entrariam em melhor caminho, e à poesia nacional restariam as tradições do período romântico.

 

O TEATRO

            Esta parte pode reduzir-se a uma linha de reticência. Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve, raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais deste país viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem alguma obra nacional quando aparecia. Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

            E todavia a continuar o teatro, teriam as vocações novas alguns exemplos não remotos, que muito as haviam de animar. Não falo das comédias do Pena, talento sincero e original, a quem só faltou viver mais para aperfeiçoar-se e empreender obras de maior vulto; nem também das tragédias de Magalhães e dos dramas de Gonçalves Dias, Porto Alegre e Agrário. Mais recentemente, nestes últimos doze ou quatorze anos, houve tal ou qual movimento. Apareceram então os dramas e comédias do Sr. J. de Alencar, que ocupou o primeiro lugar na nossa escola realista e cujas obras Demônio Familiar e Mãe são de notável merecimento. Logo em seguida apareceram várias outras composições dignas do aplauso que tiveram tais como os dramas dos Srs. Pinheiro Guimarães, Quintino Bocaiúva e alguns mais, mas nada disso foi adiante. Os autores cedo se enfastiaram da cena que a pouco e pouco foi decaindo até chegar ao que temos hoje, que é nada.

            A província ainda não foi de todo invadida pelos espetáculos de feira; ainda lá se representa o drama e a comédia, - mas não aparece, que me conste, nenhuma obra nova e original. E com estas poucas linhas fica liquidado este ponto.

 

A LÍNGUA

            Entre os muitos méritos dos nossos livros nem sempre figura o da pureza da linguagem. Não é raro ver intercalados em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influência da língua francesa. Este ponto é objeto de divergência entre os nossos escritores. Divergência digo, porque, se alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça, outros há que os adotam por princípio, ou antes por uma exageração de princípio.

            Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos, é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há, portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.

            Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o principio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.

(...)

            Aqui termino esta notícia. Viva imaginação, delicadeza e força de sentimentos, graças de estilo, dotes de observação e analise, ausência às vezes de reflexão e pausa, língua nem sempre pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excelências da atual literaturas brasileira, que há dado bastante e tem certíssimo futuro. Aqui termino esta notícia. Viva imaginação, delicadeza e força de sentimentos, graças de estilo, dotes de observação e analise, ausência às vezes de reflexão e pausa, língua nem sempre pura, nem sempre copiosa, muita cor local, eis aqui por alto os defeitos e as excelências da atual literaturas brasileira, que há dado bastante e tem certíssimo futuro.

El escritor argnetino y la tradición, Jorge Luis Borges



 

Versión taquigráfica de una clase dictada en el Colegio Libre de Estudios Superiores y reproducida en el libro Discusión, J.L. Borges (Madrid, Alianza, 1997)


            Quiero formular y justificar algunas proposiciones escépticas sobre el problema del escritor argentino y la tradición. Mi escepticismo no se refiere a la dificultad o imposibilidad de resolverlo, sino a la existencia misma del problema. Creo que nos enfrenta un tema retórico, apto para desarrollos patéticos; más que de una verdadera dificultad mental entiendo que se trata de una apariencia, de un simulacro, de un seudoproblema.

            Antes de examinarlo, quiero considerar los planteos y soluciones más corrientes. Empezaré por una solución que se ha hecho casi instintiva, que se presenta sin colaboración de razonamientos; la que afirma que la tradición literaria argentina ya existe en la poesía gauchesca. Según ella, el léxico, los procedimientos, los temas de la poesía gauchesca deben ilustrar al escritor contemporáneo, y son un punto de partida y quizá un arquetipo. Es la solución más común y por eso pienso demorarme en su examen.

            Ha sido propuesta por Lugones en El payador; ahí se lee que los argentinos poseemos un poema clásico, el Martín Fierro, y que ese poema debe ser para nosotros lo que los poemas homéricos fueron para los griegos. Parece difícil contradecir esta opinión, sin menoscabo del Martín Fierro. Creo que el Martín Fierro es la obra más perdurable que hemos escrito los argentinos; y creo con la misma intensidad que no podemos suponer que el Martín Fierro es, como algunas veces se ha dicho, nuestra Biblia, nuestro libro canónico.

            Ricardo Rojas, que también ha recomendado la canonización del Martín Fierro, tiene una página, en su Historia de la literatura argentina, que parece casi un lugar común y que es una astucia.

            Rojas estudia la poesía de los gauchescos, es decir, la poesía de Hidalgo, Ascasubi, Estanislao del Campo y José Hernández, y la deriva de la poesía de los payadores, de la espontánea poesía de los gauchos. Hace notar que el metro de la poesía popular es el octosílabo y que los autores de la poesía gauchesca manejan ese metro, y acaba por considerar la poesía de los gauchescos como una continuación o magnificación de la poesía de los payadores.

            Sospecho que hay un grave error en esta afirmación; podríamos decir un hábil error, porque se ve que Rojas, para dar raíz popular a la poesía de los gauchescos, que empieza en Hidalgo y culmina en Hernández, la presenta como una continuación o derivación de la de los gauchos, y así, Bartolomé Hidalgo es, no el Homero de esta poesía, como dijo Mitre, sino un eslabón.

            Ricardo Rojas hace de Hidalgo un payador; sin embargo, según la misma Historia de la literatura argentina, este supuesto payador empezó componiendo versos endecasílabos, metro naturalmente vedado a los payadores, que no percibían su armonía, como no percibieron la armonía del endecasílabo los lectores españoles cuando Garcilaso lo importó de Italia.

            Entiendo que hay una diferencia fundamental entre la poesía de los gauchos y la poesía gauchesca. Basta comparar cualquier colección de poesías populares con el Martín Fierro, con el Paulino Lucero, con el Fausto, para advertir esa diferencia, que está no menos en el léxico que en el propósito de los poetas. Los poetas populares del campo y del suburbio versifican temas generales: las penas del amor y de la ausencia, el dolor del amor, y lo hacen en un léxico muy general también; en cambio, los poetas gauchescos cultivan un lenguaje deliberadamente popular, que los poetas populares no ensayan. No quiero decir que el idioma de los poetas populares sea un español correcto, quiero decir que si hay incorrecciones son obra de la ignorancia. En cambio, en los poetas gauchescos hay una busca de las palabras nativas, una profusión del color local. La prueba es ésta: un colombiano, un mejicano o un español pueden comprender inmediatamente las poesías de los payadores, de los gauchos, y en cambio necesitan un glosario para comprender, siquiera aproximadamente, a Estanislao del Campo o Ascasubi.

            Todo esto puede resumirse así: la poesía gauchesca, que ha producido — me apresuro a repetirlo — obras admirables, es un género literario tan artificial como cualquier otro. En las primeras composiciones gauchescas, en las trovas de Bartolomé Hidalgo, ya hay un propósito de presentarlas en función del gaucho, como dichas por gauchos, para que el lector las lea con una entonación gauchesca. Nada más lejos de la poesía popular. El pueblo — y esto yo lo he observado no sólo en los payadores de la campaña, sino en los de las orillas de Buenos Aires —, cuando versifica, tiene la convicción de ejecutar algo importante, y rehuye instintivamente las voces populares y busca voces y giros altisonantes. Es probable que ahora la poesía gauchesca haya influido en los payadores y éstos abunden también en criollismos, pero en el principio no ocurrió así, y tenemos una prueba (que nadie ha señalado) en el Martín Fierro.

            El Martín Fierro está redactado en un español de entonación gauchesca y no nos deja olvidar durante mucho tiempo que es un gaucho el que canta; abunda en comparaciones tomadas de la vida pastoril; sin embargo, hay un pasaje famoso en que el autor olvida esta preocupación de color local y escribe en un español general, y no habla de temas vernáculos, sino de grandes temas abstractos, del tiempo, del espacio, del mar, de la noche. Me refiero a la payada entre Martín Fierro y el Moreno, que ocupa el fin de la segunda parte. Es como si el mismo Hernández hubiera querido indicar la diferencia entre su poesía gauchesca y la genuina poesía de los gauchos. Cuando esos dos gauchos, Fierro y el Moreno, se ponen a cantar, olvidan toda afectación gauchesca y abordan temas filosóficos. He podido comprobar lo mismo oyendo a payadores de las orillas; éstos rehuyen el versificar en orillero o lunfardo y tratan de expresarse con corrección. Desde luego fracasan, pero su propósito es hacer de la poesía algo alto; algo distinguido, podríamos decir con una sonrisa.         

            La idea de que la poesía argentina debe abundar en rasgos diferenciales argentino y en color local argentino me parece una equivocación. Si nos preguntan qué libro es más argentino, el Martín Fierro o los sonetos de “La urna”, de Enrique Banchs, no hay ninguna razón para decir que es más argentino el primero. Se dirá que en La urna de Banchs no están el paisaje argentino, la topografía argentina, la botánica argentina, la zoología argentina; sin embargo, hay otras condiciones argentinas en La urna.

            Recuerdo ahora unos versos de “La urna” que parecen escritos para que no pueda decirse que es un libro argentino; son los que dicen: “…El sol en los tejados / y en las ventanas brilla. Ruiseñores / quieren decir que están enamorados”. 

            Aquí parece inevitable condenar: “El sol en los tejados y en las ventanas brilla”. Enrique Banchs escribió estos versos en un suburbio de Buenos Aires, y en los suburbios de Buenos Aires no hay tejados, sino azoteas; “ruiseñores quieren decir que están enamorados”; el ruiseñor es menos un pájaro de la realidad que de la literatura, de la tradición griega y germánica. Sin embargo, yo diría que en el manejo de estas imágenes convencionales, en esos tejados y en esos ruiseñores anómalos, no estarán desde luego la arquitectura ni la ornitología argentinas, pero están el pudor argentino, la reticencia argentina; la circunstancia de que Blanchs, al hablar de ese gran dolor que lo abrumaba, al hablar de esa mujer que lo había dejado y había dejado vacío el mundo para él, recurra a imágenes extranjeras y convencionales como los tejados y los ruiseñores, es significativa: significativa del pudor, de la desconfianza, de las reticencias argentinas; de la dificultad que tenemos para las confidencias, para la intimidad.

            Además, no sé si es necesario decir que la idea de que una literatura debe definirse por los rasgos diferenciales del país que la produce es una idea relativamente nueva; también es nueva y arbitraria la idea de que los escritores deben buscar temas de sus países. Sin ir más lejos, creo que Racine ni siquiera hubiera entendido a una persona que le hubiera negado su derecho al título de poeta francés por haber buscado temas griegos y latinos. Creo que Shakespeare se habría asombrado si hubieran pretendido limitarlo a temas ingleses, y si le hubiesen dicho que, como inglés, no tenía derecho a escribir Hamlet, de tema escandinavo, o Macbeth, de tema escocés. El culto argentino del color local es un reciente culto europeo que los nacionalistas deberían rechazar por foráneo.        

            He encontrado días pasados una curiosa confirmación de que lo verdaderamente nativo suele y puede prescindir del color local; encontré esta confirmación en la Historia de la declinación y caída del Imperio Romano, de Gibbon. Gibbon observa que en el libro árabe por excelencia, en el Alcorán, no hay camellos; yo creo que si hubiera alguna duda sobre la autenticidad del Alcorán bastaría esta ausencia de camellos para probar que es árabe. Fue escrito por Mahoma, y Mahoma, como árabe, no tenía por qué saber que los camellos eran especialmente árabes; eran para él parte de la realidad, no tenía por qué distinguirlos; en cambio, un falsario, un turista, un nacionalista árabe, lo primero que hubiera hecho es prodigar camellos, caravanas de camellos en cada página; pero Mahoma, como árabe, estaba tranquilo: sabía que podía ser árabe sin camellos. Creo que los argentinos podemos parecernos a Mahoma, podemos creer en la posibilidad de ser argentinos sin abundar en color local.

            Séame permitida aquí una confidencia, una mínima confidencia. Durante muchos años, en libros ahora felizmente olvidados, traté de redactar el sabor, la esencia de los barrios extremos de Buenos Aires; naturalmente abundé en palabras locales, no prescindí de palabras como cuchilleros, milongas, tapia, y otras, y escribí así aquellos olvidables y olvidados libros; luego, hará un año, escribí una historia que se llama “La muerte y la brújula” que es una suerte de pesadilla, una pesadilla en que figuran elementos de Buenos Aires deformados por el horror de la pesadilla; pienso allí en el Paseo Colón y lo llamo Rue de Toulon, pienso en las quintas de Adrogué y las llamo Triste-le-Roy; publicada esa historia, mis amigos me dijeron que al fin habían encontrado en lo que yo escribía el sabor de las afueras de Buenos Aires. Precisamente porque no me había propuesto encontrar ese sabor, porque me había abandonado al sueño, pude lograr, al cabo de tantos años, lo que antes busqué en vano.

            Ahora quiero hablar de una obra justamente ilustre que suelen invocar los nacionalistas. Me refiero a Don Segundo Sombra, de Gûiraldes. Los nacionalistas nos dicen que Don Segundo Sombra es el tipo de libro nacional; pero si comparamos Don Segundo Sombra con las obras de la tradición gauchesca, lo primero que notamos son diferencias. Don Segundo Sombra abunda en metáforas de un tipo que nada tiene que ver con el habla de la campaña y sí con las metáforas de los cenáculos contemporáneos de Montmartre. En cuanto a la fábula, a la historia, es fácil comprobar en ella el influjo del Kim, de Kipling, cuya acción está en la India y que fue escrito, a su vez, bajo el influjo de Huckleberry Finn, de Mark Twain, epopeya del Misisipi. Al hacer esta observación no quiero rebajar el valor de Don Segundo Sombra; al contrario, quiero hacer resaltar que para que nosotros tuviéramos ese libro fue necesario que Gûiraldes recordara la técnica poética de los cenáculos franceses de su tiempo, y la obra de Kipling que había leído hacía muchos años; es decir, Kipling, y Mark Twain, y las metáforas de los poetas franceses fueron necesarios para este libro argentino, para este libro que no es menos argentino, lo repito, por haber aceptado esas influencias.

            Quiero señalar otra contradicción: los nacionalistas simulan venerar las capacidades de la mente argentina pero quieren limitar el ejercicio poético de esa mente a algunos pobres temas locales, como si los argentinos sólo pudiéramos hablar de orillas y estancias y no del universo.

            Pasemos a otra solución. Se dice que hay una tradición a la que debemos acogernos los escritores argentinos, y que esa tradición es la literatura española. Este segundo consejo es desde luego un poco menos estrecho que el primero, pero también tiende a encerrarnos; muchas objeciones podrían hacérsele, pero basta con dos. La primera es ésta: la historia argentina puede definirse sin equivocación como un querer apartarse de España, como un voluntario distanciamiento de España. La segunda objeción es ésta: entre nosotros el placer de la literatura española, un placer que yo personalmente comparto, suele ser un gusto adquirido; yo muchas veces he prestado, a personas sin versación literaria especial, obras francesas e inglesas, y estos libros han sido gustados inmediatamente, sin esfuerzo. En cambio, cuando he propuesto a mis amigos la lectura de libros españoles, he comprobado que estos libros les eran difícilmente gustables sin un aprendizaje especial; por eso creo que el hecho de que algunos ilustres escritores argentinos escriban como españoles es menos el testimonio de una capacidad heredada que una prueba de la versatilidad argentina.

            Llego a una tercera opinión que he leído hace poco sobre los escritores argentinos y la tradición, y que me ha asombrado mucho. Viene a decir que nosotros, los argentinos, estamos desvinculados del pasado; que ha habido como una solución de continuidad entre nosotros y Europa. Según este singular parecer, los argentinos estamos como en los primeros días de la creación; el hecho de buscar temas y procedimientos europeos es una ilusión, un error; debemos comprender que estamos esencialmente solos, y no podemos jugar a ser europeos.

            Esta opinión me parece infundada. Comprendo que muchos la acepten, porque esta declaración de nuestra soledad, de nuestra perdición, de nuestro carácter primitivo tiene, como el existencialismo, los encantos de lo patético. Muchas personas pueden aceptar esta opinión porque una vez aceptada se sentirán solas, desconsoladas y, de algún modo, interesantes. Sin embargo, he observado que en nuestro país, precisamente por ser un país nuevo, hay un gran sentido del tiempo. Todo lo que ha ocurrido en Europa, los dramáticos acontecimientos de los últimos años de Europa, han resonado profundamente aquí. El hecho de que una persona fuera partidaria de los franquistas o de los republicanos durante la guerra civil española, o fuera partidaria de los nazis o de los aliados, ha determinado en muchos casos peleas y distanciamientos graves. Esto no ocurriría si estuviéramos desvinculados de Europa. En lo que se refiere a la historia argentina, creo que todos nosotros la sentimos profundamente; y es natural que la sintamos, porque está, por la cronología y por la sangre, muy cerca de nosotros; los nombres, las batallas de las guerras civiles, la guerra de la independencia, todo está, en el tiempo y en la tradición familiar, muy cerca de nosotros.

            ¿Cuál es la tradición argentina? Creo que podemos contestar fácilmente y que no hay problema en esta pregunta. Creo que nuestra tradición es toda la cultura occidental, y creo también que tenemos derecho a esa tradición, mayor que el que pueden tener los habitantes de una u otra nación occidental. Recuerdo aquí un ensayo de Thorstein Veblen, sociólogo norteamericano, sobre la preeminencia de los judíos en la cultura occidental. Se pregunta si esta preeminencia permite conjeturar una superioridad innata de los judíos, y contesta que no; dice que sobresalen en la cultura occidental, porque actúan dentro de esa cultura y al mismo tiempo no se sienten atados a ella por una devoción especial; “por eso — dice — a un judío siempre le será más fácil que a un occidental no judío innovar en la cultura occidental”; y lo mismo podemos decir de los irlandeses en la cultura de Inglaterra. Tratándose de los irlandeses, no tenemos por qué suponer que la profusión de nombres irlandeses en la literatura y la filosofía británicas se deba a una preeminencia racial, porque muchos de esos irlandeses ilustres (Shaw, Berkeley, Swift) fueron descendientes de ingleses, fueron personas que no tenían sangre celta; sin embargo, les bastó el hecho de sentirse irlandeses, distintos, para innovar en la cultura inglesa. Creo que los argentinos, los sudamericanos en general, estamos en una situación análoga; podemos manejar todos los temas europeos, manejarlos sin supersticiones, con una irreverencia que puede tener, y ya tiene, consecuencias afortunadas.

            Esto no quiere decir que todos los experimentos argentinos sean igualmente felices; creo que este problema de la tradición y de lo argentino es simplemente una forma contemporánea, y fugaz del eterno problema del determinismo. Si yo voy a tocar la mesa con una de mis manos, y me pregunto: ¿la tocaré con la mano izquierda o con la mano derecha?; y luego la toco con la mano derecha, los deterministas dirán que yo no podía obrar de otro modo y que toda la historia anterior del universo me obligaba a tocarla con la mano derecha, y que tocarla con la mano izquierda hubiera sido un milagro. Sin embargo, si la hubiera tocado con la mano izquierda me habrían dicho lo mismo: que había estado obligado a tocarla con esa mano. Lo mismo ocurre con los temas y procedimientos literarios. Todo lo que hagamos con felicidad los escritores argentinos pertenecerá a la tradición argentina, de igual modo que el hecho de tratar temas italianos pertenece a la tradición de Inglaterra por obra de Chaucer y de Shakespeare.

            Creo, además, que todas estas discusiones previas sobre propósitos de ejecución literaria están basadas en el error de suponer que las intenciones y los proyectos importan mucho. Tomemos el caso de Kipling: Kipling dedicó su vida a escribir en función de determinados ideales políticos, quiso hacer de su obra un instrumento de propaganda y, sin embargo, al fin de su vida hubo de confesar que la verdadera  esencia de la obra de un escritor suele ser ignorada por éste; y recordó el caso de Swift que al escribir Los viajes de Gulliver quiso levantar un testimonio contra la humanidad y dejó, sin embargo, un libro para niños. Platón dijo que los poetas son amanuenses de un dios, que los anima contra su voluntad, contra sus propósitos, como el imán anima a una serie de anillos de hierro.

            Por eso repito que no debemos temer y que debemos pensar que nuestro patrimonio es el universo; ensayar todos los temas, y no podemos concretarnos a lo argentino para ser argentinos: porque o ser argentino es una fatalidad, y en ese caso lo seremos de cualquier modo, o ser argentino es una mera afectación, una máscara.

            Creo que si nos abandonamos a ese sueño voluntario que se llama la creación artística, seremos argentinos y seremos también, buenos o tolerables escritores

Verdade, poder e si, Michel Foucault

 
   - Por que você decidiu vir à Universidade de Vermont?
    - Para explicar com maior precisão, para algumas pessoas, a natureza do meu trabalho, conhecer os delas e estabelecer relações permanentes. Não sou um escritor, nem um filósofo, nem uma grande figura da vida intelectual: sou um professor. Existe um fenômeno social que me inquieta. Depois dos anos sessenta, alguns professores tendem a tornar-se homens públicos, com as mesmas obrigações. Não quero ser um profeta e dizer: “Sente-se, eu lhe peço, o que tenho a dizer é muito importante”. Vim para discutirmosnossos trabalhos comuns.
   - Se tem colado em você muito regularmente o rótulo de “filósofo”, mas também de “historiador”, de “estruturalista” e de “marxista”.Sua cátedra no Collège de France se intitula “história dos sistemas de pensamento”. O que isto significa?
   - Não penso que seja necessário saber exatamente o que eu sou. O mais interessante na vida e no trabalho é o que permite tornar-se algo de diferente do que se era ao início. Se você soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no final, você crê que teria coragem de escrevê-lo? Isso que vale para a escrita e para uma relação amorosa, vale também para a vida. O jogo vale a pena na medida em que não se sabe como vai terminar.
    Meu campo é a história do pensamento. O homem é um ser pensante. A maneira como ele pensa está ligada com a sociedade, a política, a economia e a história e também está relacionada com categorias muito gerais, olhares universais e com estruturas formais. Mas o pensamento e as relações sociais são duas coisas bem diferentes. As categorias da lógica não estão aptas a dar conta adequadamente da maneira que as pessoas pensam realmente. Entre a história social e as analises formais do pensamento há um caminho, uma pista – bem estreita, talvez – que é o caminho do historiador do pensamento. 
   - Na História da sexualidade vocêfaz referência a quem “vira do avesso a lei, que antecipa, mesmo que pouco, a liberdade futura”. Você também vê assim o seutrabalho?
   - Não. Durante um período bem longo, as pessoas me pediam que lhes explicasse o que ia acontecer e que lhes desse um programa para o futuro. Sabemos muito bem que, mesmo quando inspirado pelas melhores intenções, esses programas se transformam em uma ferramenta, em um instrumento de opressão. A Revolução Francesa serviu-se de Rousseau, um amante da liberdade, para elaborar um modelo de opressão social. O stalinismo e o leninismo aterrorizariam Marx. Meu papel – e este é um termo por demais pomposo – consiste em mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam; que elas tomam por verdade, por evidência alguns temas que foram fabricados em um momento particular da história; e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída. Mudar algo no espírito das pessoas: esse é o papel de um intelectual. 
   - Em seus textos você parece fascinado por figuras que existem nas margens da sociedade: os loucos, os leprosos, os criminosos, os desviados, os hermafroditas, os assassinos, os pensadores obscuros. Por quê?
   
- Tenho sido criticado, às vezes, por escolher os pensadores marginais em lugar de tomar exemplos do fundo da história tradicional. Eu darei uma resposta esnobe: é impossível considerar como obscuras personagens tais como Bopp ou Ricardo.
   - Mas e o seu interesse pelos que a sociedade rejeita?
   
- Eu analiso figuras e processos obscuros por duas razões: os processos políticos e sociais que permitiram colocar em ordem as sociedades da Europa ocidental não são mais aparentes: foram esquecidos ou transformados em habituais. Estes processos fazem parte de nossa paisagem mais familiar; e não os vemos mais. Porém, em seu tempo, a maioria deles escandalizou as pessoas. Um dos meus objetivos é mostrar às pessoas que um bom número de coisas que fazem parte dessa paisagem familiar – que as pessoas consideram como universais – não são senão resultados de algumas mudanças históricas muito precisas. Todas as minhas análises vão contra a idéia de necessidades universais na existência humana. Mostram o caráter arbitrário das instituições e nos mostram qual é o espaço da liberdade que ainda dispomos e que mudanças podemos ainda efetuar. 
   - Seus textos são portadores de correntes emocionais profundas, que são raramente encontradas em análises científicas: angústia em Vigiar e punir, desdém em As palavras e as coisas, a indignação e a tristeza na História da loucura.
   
- Cada um dos meus livros representa uma parte de minha história. Por uma razão ou por outra, pude provar ou viver essas coisas. Para tomar um exemplo simples, eu trabalhei em um hospital psiquiátrico durante os anos cinqüenta. Depois de haver estudado filosofia queria ver o que era a loucura: estive suficientemente louco para estudar a razão e era suficientemente sensato para estudar a loucura. No hospital, eu estava livre para mover-me entre os pacientes e os médicos, pois não tinha uma função precisa. Era a época de esplendor da neurocirurgia, o começo da psicofarmacologia, o reino da instituição tradicional. A princípio, o aceitei essas coisas como necessárias, mas depois de três meses (eu tenho um espírito lento!), eu comecei a me interrogar: “em que essas coisas são necessárias?”. Ao cabo de três anos, havia abandonado o trabalho e fui para a Suécia com uma sensação de mal-estar pessoal; lá, comecei a escrever a história dessas práticas.
   A História da Loucura iria ser o primeiro volume. Gosto de escrever primeiros volumes, mas detesto escrever os segundos. Têm-se visto em meu livro um gesto psiquiatricida, mas era a descrição de um modelo histórico. Você conhece a diferença entre uma verdadeira ciência e uma pseudociência. A verdadeira ciência conhece e aceita sua própria história sem sentir-se atacada. Se alguém diz a um psiquiatra que sua instituição é nascida dos leprosários, ele tem um ataque de cólera.
    - Qual seria a gênese de Vigiar e Punir?
    - Devo admitir que não tive relação direta com os cárceres nem com presos, ainda que eu tenha trabalhado como psicólogo em uma prisão francesa. Quanto estive na Tunísia vi muita gente presa por motivos políticos e isso me influenciou.
   - A Era clássica é uma idade pivô em todos os seus escritos. Você tem nostalgia da claridade dessa época ou da “visibilidade” do Renascimento, era onde tudo estava unificado eexposto?
   - Toda essa beleza das épocas antigas é antes um efeito, mais que fonte da nostalgia.  Sei muito bem que se trata de nossa própria invenção. Mas é bom manter esse tipo de nostalgia, da mesma forma que é bom ter uma boa relação com a infância, quando se têm crianças. É bom sentir nostalgia por algum período, contanto que seja uma maneira de ter uma relação reflexiva e positiva em relação ao presente. Mas se a nostalgia se transforma em uma razão de mostrar-se agressivo e incompreensivo em relação ao presente, deve ser banida.
    - O que você lê por prazer?
    - Os livros que me produzem maior emoção: Faulkner, Thomas Mann, Sob o vulcão, de Malcom Lowry.
    - Quem é que, intelectualmente, exerceu influência sobre seu pensamento?
    - Fiquei surpreso quando meus amigos de Berkeley escreveram, em seu livro, que eu fui influenciado por Heidegger
*. Era verdade. É claro que ninguém na França havia sublinhado. Quando eu era estudante, nos anos cinqüenta, li Husserl, Sartre, Merleau-Ponty. Quando uma influência se faz sentir com muita força, ensaia-se abrir uma janela. Heidegger – é bastante paradoxal – não é um autor muito difícil de compreender para um francês. Quando cada palavra é um enigma, não se está em posição ruim para compreender Heidegger. Ser e tempo é um livro difícil, mas os escritos mais recentes são menos enigmáticos. 
   Nietzsche foi uma revelação para mim. Tive a impressão de descobrir um autor bem diferente daqueles que me haviam ensinado. Eu o li com grande paixão e rompi com minha vida: deixei meu trabalho no hospital psiquiátrico e deixei a França; tinha a sensação de ter sido laçado. Por meio de Nietzsche, tinha me tornado estranho a todas essas coisas. Não estou, ainda, muito integrado na vida social e intelectual francesa. Quando posso, deixo a França. Se eu fosse mais jovem, teria emigrado para os Estados Unidos.
    – Por quê?
   – Vejo possibilidades aqui. Vocês não têm uma vida intelectual e cultural homogênea. Enquanto estrangeiro, não preciso estar integrado. Nenhuma pressão se exerce sobre mim. Existem aqui muitas grandes universidades, todas com interesses diferentes. Mas, é claro, a Universidade pode me despedir da maneira maisindigna.
   – O que te faz dizer que a Universidade te despediria?
   – Sou muito orgulhoso de que algumas pessoas pensem que eu represente um perigo para a saúde intelectual dos estudantes. Quando as pessoas começam a pensar em termos de saúde nas atividades intelectuais, me parece que algo não vai bem. Para estes, sou um homem perigoso porque sou um crítico marxista, um irracionalista, um niilista. 
   – Podemos deduzir da leitura de As palavras e as coisas que as iniciativas individuais de reformas são impossíveis porque as descobertas têm todo tipo de significações e implicações, que jamais seus criadores poderiam compreender. Em Vigiar e punir, por exemplo, você mostra que houve uma mudança repentina na cadeia de força ao encargo da polícia, do espetáculo do castigo à investidura de cargo pelos mecanismos disciplinares e a instituição. Mas você sublinha também o fato de que esta mudança que, na época, parecia reforma, não passava, no fundo, da normalização dos poderes punitivos da sociedade. Como é possível a mudança consciente?
   – Como você pode me atribuir a idéia de que a mudança é impossível, porque eu sempre vinculei os fenômenos que analisei à ação política? Todo o empreendimento de Vigiar e punir é uma tentativa de responder esta pergunta e mostrar como um novo modo de pensar se instaurou. 
   Somos todos seres que vivem e pensam. O que faço é reagir contra fato de que exista uma ruptura entre a história social e a história das idéias. Os historiadores das sociedades são censurados a escreverem à maneira das pessoas que agem sem pensar, e os historiadores das idéias, à maneira das pessoas que pensam sem agir. Todo mundo age e pensa ao mesmo tempo. A maneira como as pessoas agem ou reagem está ligadaa uma maneira de pensar, e esta maneira de pensar, naturalmente, está ligada à tradição. O fenômeno que procurei analisar, que é este bastantecomplexo pelo qual, em um período tempo muito curto, fez com que as pessoas reagissem de uma maneira muito diferente diante dos crimes e dos criminosos.
    Escrevi dois tipos de livros. Um, As palavras e as coisas tem por objeto exclusivamente o pensamento científico; o outro, Vigiar epunir, tem por objeto as instituições e os princípios sociais. A história da ciência conhece um desenvolvimento diferente do da sensibilidade. A fim de ser reconhecido como discurso científico, o pensamento deve responder a certos critérios. Em Vigiar e punir, os textos, os costumes e os indivíduos se enfrentam.
    Se eu verdadeiramente tentei analisar as mudanças por meio de meus livros, não é a fim de encontrar as causas materiais, mas a fim de mostrar a interação de deferentes fatores e a maneira com pela qual os indivíduos reagem. Eu creio na liberdade dos indivíduos. A uma mesma situação, as pessoas reagem de maneiras diferentes.
    – Você conclui Vigiar e punir dizendo: “Eu interrompo este livro que deve servir de pano de fundo histórico a diversos estudos sobre o poder de normalilzação e à formação do saber na sociedade moderna”. Que ligação você vê entre a normalização e a idéia de homem como centro do saber? 
   – Por meio de diferentes práticas – psicológica, médica, penitenciária, educativa – uma idéia, um modelo de humanidade tem tomado forma, e essa idéia de homem tem se tornado normativa, evidente e se passa por universal. É possível que o humanismo não seja universal, mas correlativa a uma situação particular.Isso que chamamos de humanismo os marxistas, liberais, nazistas e os católicos se utilizaram. Isto não significa que tenhamos de eliminar o que chamamos de “direitos do homem” ou “liberdade”, mas isso implica que não poderemos dizer que a liberdade ou direitos do homem devam ser circunscritos no interior de certas fronteiras. Por exemplo, se você perguntasse, há oitenta anos, se a virtude femininafaria parte do humanismo universal, todo mundo responderia sim. 
   O que me assusta no humanismo é que ele apresenta certa forma de nossa ética como modelo universal não importando qual modelo de liberdade. Penso que nosso futuro comporta mais segredos, mais liberdades possíveis e mais invenções do que nos deixa imaginar o humanismo, na representação dogmática quese tem dado aos diferentes componentes do espectro político; a esquerda, o centro e a direita.
   – É isto que você está sugerindo nas “Técnicas de si”? 
   – Sim. Você disse, na ocasião, que tinha a sensação de que havia algo de imprevisível. É verdade.Eu tenho vezes a impressão de que me faço muito sistemático e muito rígido. 
   O que tenho estudado são três problemas tradicionais: 1) Quais são as relações que temos com a verdade por meio do saber científico, quais são nossas relações com esses “jogos de verdade” que são tão importantes na civilização e nos quais somos, ao mesmo tempo, sujeito e objeto? 2) Quais são as relações que estabelecemos com os outros por meio dessas estranhas estratégias e relações de poder? Por fim, 3) Quais são as relações entre verdade, poder esi?
   Eu gostaria de terminar com uma pergunta: Que poderia ser mais clássico do que essas perguntas e mais sistemático do que passar da questão um à questão dois e à três para tornar à questão um? É precisamente aqui que estou.

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* Dreyfus (H.); Rabinow (P.), Michel Foucault: Beyond Stucturalism and Hermeneutics, Chicago, University of Chicago Press, 1982.  
 Verité, pouvoir et soi. (entretien avec R. Martain, Université du Vermont, 25 de octobre 1982).Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris:Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 777-783, por Wanderson Flor do Nascimento.