quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fred Pine, O Ego na sessão (a tradução é de minha autoria)



O Ego na sessão
 
Para alguns analistas, falar em psicologia do Ego é como evocar um nome feio, sejam pelas políticas vigentes na psicanálise (embasadas na postura clássica da renúncia aos desejos), seja pela crença de que as “profundezas” da mente acabam sendo deixadas de lado, seja por considerarem o “ego” um conceito racional ou esquemático demais – destituído das principais paixões – tais como os imperativos sexuais, a agressividade, os estados subjetivos e afetivos, assim como os repetidos modelos de relação de objeto. No entanto, o “ego” é o pilar indispensável para a realização dos atendimentos clínicos de forma geral. É um conceito que, no mínimo, nos ajuda a avaliar as aptidões e as capacidades pessoais de um candidato à análise. Mas muitos acréscimos foram feitos à ideia de “ego”. Neste capítulo, usarei vinhetas clínicas para ilustrar três diferentes modos de manifestação do ego ao longo das sessões: o primeiro, em termos de sucessos e fracassos no transcorrer de sua história; o segundo, a respeito da participação do ego no processo analítico; e o terceiro, em sua acepção corrente que está ligada às defesas e aos distúrbios psíquicos. Cada excerto oriundo das sessões será discutido e avaliado sob o vértice clínico.

Empregarei o conceito de “ego” como gatilho da defesa, da adaptação e do teste de realidade: a defesa em oposição às possíveis ameaças dirigidas ao mundo interno, a adaptação à realidade externa, seguida das expectativas e das frustrações e, por fim, o teste de realidade que lidará com as dimensões internas e externas e emitirá um juízo acerca do que percebe. O termo ego é telegráfico; em virtude disso, carece de mais atribuições; sempre alude ao manejo da vida psíquica e do mundo.

Se não dispuséssemos de uma psicologia do ego, seria importante que a inventássemos, e foi exatamente o que Freud (1923, 1926), seguido por Anna Freud (1936) e por Heinz Hartmann (1939), no caso, fez. Hartmann expandiu de forma esplêndida o conceito de ego, tanto que algumas de suas contribuições embasarão a minha discussão clínica. Mas o estilo pragmático e pouco ortodoxo de Hartmann também afastou adeptos à psicologia do ego, assim como embaralhou o foco da técnica. A caracterização do ego não poderia divergir ou escandalizar os paradigmas clínicos, e foi esta a brecha em que Anna Freud encontrou fôlego para estreitar as concepções do ego à vivência clínica. Aqui, em meu escrito, tentarei me alijar dessa tradição.

A psicologia do ego teve uma serventia excepcional para Freud e, logo, esteve presente em vários fragmentos de sua obra, tanto que foi neles que uma enormidade de teorias ganhou a chancela de autenticidade. Freud formalizou em larga escala muitas definições que compõem a psicologia do ego. As inferências sobre a defesa e a repressão aparecem, em estado nascente, desde 1894 no pensamento de Freud. Anos depois (1926), houve outra observação que corrobora o mencionado: trata-se da ansiedade, que, de acordo com ele, precederia a defesa e estaria acompanhada de um bloqueio da libido. Foi aí que os indícios sobre a teoria da ansiedade começaram a se somar e a se ligar à ideia de um ego capaz de gerenciar os conflitos da pulsão, evitar a dor e, ainda assim, estar em consonância com o que chamamos de princípio do prazer. Ademais, como destaquei no capítulo 2, Freud inaugurou, a partir da teoria topográfica e, mais tarde, com a das instâncias psíquicas, a psicologia do ego. No entanto, ainda existem reivindicações para que a psicologia do ego evolua e atinja um maior número de candidatos a estudá-la. Como bem sabemos, não estamos à margem da evolução, já que ela não poderia ter produzido criaturas destituídas de habilidades adaptativas; claro que essa assertiva não se aplica às espécies que não sobreviveram.

Como demonstrarei no decorrer deste livro, a minha identidade clínica foi deveras influenciada pelas atuais teorias e técnicas psicanalíticas. Insistirei na proposta de que a psicologia do ego, não a que despontou na contemporaneidade, mas sim a outra, a clássica, é de extrema relevância para que se tenha a noção dos problemas técnicos que enfrentamos. A temática em que concentrei os meus exemplos clínicos se deu no campo da teoria estrutural. Acredito que a conceituação do ego é relevante para qualquer estudo que se faça sobre a mente; mesmo que existam divergências, as questões diretamente associadas à defesa, à adaptação, ao teste de realidade e às experiências intrapsíquicas são de suma importância para o estudo da psicologia.

Conquistas e fracassos no desenvolvimento

Aos sete anos, Billy começou o tratamento comigo. A preocupação dele girava em torno do asseio. Os sintomas da criança estavam levando os pais à loucura. Três anos depois, aos 10 anos, o paciente deixou de ser obcecado pela sujeira, e isso, pelo jeito, se deveu aos esforços empreendidos em terapia. Eu descreverei três incidentes ocorridos no espaço de três anos que me levaram às seguintes questões: será que eu me deparava com uma expressão vicária (deslocamento) de um sintoma ou será que o conflito se domesticou ou foi sublimado? Quanto “trabalho” o ego teve para chegar a esse resultado? E, dependendo das respostas que eu obtivesse, será que eu deveria ou não intervir? Caso a resposta fosse afirmativa, como eu procederia, então?

Um dia, próximo ao término do primeiro ano de tratamento, Billy estava triste. Por terem lhe privado de brincar com uma arma que atirava bolinhas de papel, reclamava dos pais. A família comentou que Billy estava infestando a casa com bolinhas de papel. Ele disse que estava apenas se divertindo; ora, a arma servia para isso mesmo, para atirar bolinhas de papel. É claro que notei a confusão no que foi contado (a mim). Entendi que havia momentos em que Billy se envergonhava e se deprimia em relação à sujeira; em outros, sentia prazer em “bagunçar” e em provocar, especialmente quando virava de costas e se inclinava para soltar um ruidoso flato em minha direção. A brincadeira com a arma explorava as diferentes camadas do prazer que o paciente sentia no ato de provocar, e isso poderia ser compreendido como um ganho, um passo à frente – mesmo que infantil e deslocado. Logo, era melhor que brincasse com as bolinhas de papel ao invés de sujar as calças. Mas como eu abordaria isso com ele e com os pais? Eu não sabia ao certo.

Na consulta seguinte, Billy deu fim à minha incerteza. A família havia lhe devolvido a arma; ele a trouxe para me mostrar. Em nenhuma ocasião, o meu consultório ficou repleto de bolinhas de papel. O mais curioso nisso tudo foi o fato de que, em cada disparo, depois que a bolinha ricocheteava no chão, Billy emitia um som onomatopeico, e sua fisionomia – o sorriso arteiro e o brilho nos olhos – era a mesma de quando lançava gases em mim. Parece que, em algum grau, o “trabalho com o ego” promoveu um deslocamento, mas não foi o suficiente. Eu não tinha dúvidas de que ele estava defecando em meu piso, era óbvio. Àquela altura, eu possuía elementos para realizar uma interpretação. Estava claro. E a resposta de Billy à intervenção foi instantânea (ele a reconheceu de pronto), pois eu lhe disse que a brincadeira era, no caso, outra forma de evacuar. Tal atitude deu margem para que abordássemos a satisfação que sentia em atormentar os pais. O paciente também pôde analisar o quanto ficava dividido entre o prazer e a culpa.

Um ano mais tarde, depois de ter progredido na meta de reter as fezes – apesar de ainda manchar as cuecas e se considerar um cagão inveterado – Billy retornou com novidades. Naquela semana, ele havia se encontrado duas vezes com um colega de aula. Ele confiou a mim o “ótimo jogo” que desenvolviam durante as tardes. No colégio, eles pegavam uma grande quantidade de rolos de papel higiênico e os encharcavam. Em seguida, compactavam a massa de papel e a jogavam pela janela. A ideia era acertar em algum transeunte. Era muito divertido, ele fez com que eu soubesse. Novamente, fiquei dividido diante do que me havia sido exposto. Os paralelismos existentes na brincadeira e no ato de defecar eram evidentes para mim; para Billy, essas conexões, atinentes ao deslocamento, permaneciam obscuras. Billy costumava se isolar, a sua vida social sempre foi empobrecida, mas, agora, arranjara um amigo. Não vi nenhum perigo na travessura; pelo contrário, a atividade dos dois carregava um componente benéfico, em princípio. E os riscos? Quase nulos. Afinal, os projéteis de papel higiênico não acabariam com a vida de ninguém. Decidi, na ocasião, apenas escutar o conteúdo e investigá-lo. Para tanto, mantive-me em silêncio.

E, na próxima sessão, tudo havia mudado. Billy chegara ansioso e aturdido por não ter conseguido dormir. Passara a noite em claro, preocupado por não ter praticado, durante o dia, o “jogo” do papel higiênico. Então, ele se sentia impelido a acordar e a “jogar”. Obviamente, não se tratava mais de uma brincadeira, mas sim de alguma moção compulsiva disfarçada. E, nesse caso, a brincadeira não parecia se caracterizar como uma fase específica do desenvolvimento social na infância. Estávamos lidando com outra coisa. Enquanto eu me inteirava dos detalhes e percebia o quanto Billy se descompensara pelo fato de não ter jogado as buchas de papel higiênico, eu optei por dizer o seguinte: “Eu acho que, para você, jogar papel higiênico é o mesmo que dar uma cagada. Apesar de você ter encontrado uma maneira de se divertir à custa dos outros, o meu palpite é o de que a bagunça toda servia para encobrir o desejo de borrar as calças. Em função disso, é que a preocupação em jogar ou não os papéis surgiu. Acho que você queria provar que era como todos os rapazes, mas, no fundo, as suas motivações para brincar eram outras. Eu acho que você está estranhando o fato de não estar mais borrando as calças como antes”. O paciente olhou para mim com ares de reconhecimento e de alívio. Ao compreender o que foi transmitido, o sintoma que ganhava forma (a compulsão que o deixara acordado) desapareceu e, logo, demos seguimento ao trabalho.

Então, passado um ano, outro incidente ocorreu. Billy começou a colecionar moedas de um centavo; ele possuía várias delas. Eu pensei ter reconhecido aí o velho sintoma que, às vezes, dá às caras através das bolinhas de papel e dos rolos de papel higiênico empapados. No entanto, ele parecia, com essa coleção, estar agindo de forma diferente. O nosso trabalho foi frutífero: houve uma mudança intrapsíquica. Talvez ele tenha sublimado a libido, pensei.

Poucas sessões depois, a minha opinião foi abalada. Eu abri a porta e enxerguei, na sala de espera, Billy e um adolescente, que seria atendido pelo meu colega de consultório. Sobre o colo do meu paciente, repousava uma sacola amassada e de cor marrom. Presumi que as moedas da coleção estivessem guardadas ali. Quando o chamei, parecia triste. Assim que entrou, me disse com a voz embargada: “Doutor Pine, eu trouxe a minha coleção para mostrar a você, mas a sacola começou a rasgar e quase perdi algumas moedas. Seria uma grande bagunça se eu as deixasse cair. Aquele cara na sala de espera deve ter me achado um idiota!”. Bem, pelo jeito, houve uma regressão; cá estamos novamente. Baseado na avaliação do contexto e no funcionamento do ego, intervi de um modo diferente. Dessa vez, julguei que Billy não fazia ideia da ligação existente entre a sujeira e o que havia mencionado no início da sessão; considerei apropriada para a idade a ideia de colecionar moedas e vi nessa atitude uma tentativa de sublimação; percebi, ademais, que qualquer elo que eu propusesse em relação à coleção de moedas e à sujeira, por melhor intencionada que fosse, poderia arruinar o que havia sido conquistado até então. Apesar da vergonha que Billy sentira, limitei-me a dizer: "Tenho certeza de que o rapaz da sala de espera não pensou mal de você. De qualquer forma, estou feliz por você ter trazido a coleção de moedas de que me falou. Quero vê-la. Mostre-me". Depois, eu lhe dei um recipiente para que carregasse as moedas em segurança até em casa. Terminada a sessão, deduzi que as ideações em volta da sujeita e da evacuação culminavam na coleção de moedas. Essa descoberta poderia ser útil para o manejo técnico das funções do ego posteriormente. Mas, para a minha surpresa, o conteúdo não chegou a se tornar consciente.

Com alguns pacientes, dependendo do material clínico – e isso não é passível de generalizações, portanto – costumo me basear no conceito de desenvolvimento do ego para realizar as intervenções. No caso de Billy, acabei de ilustrar como procedo e como me guio. A partir de três incidentes, tive pistas para questionar e erigir hipóteses sobre os afetos associados à sujeira e consegui, em seguida, ter um vislumbre das repercussões disso na vida social do paciente. Também fui capaz de identificar o mecanismo de defesa, o deslocamento, e de interceptar o possível destino da pulsão que estava se esboçando pelo trabalho empreendido pelo ego. As conquistas e os fracassos do desenvolvimento do ego se manifestam de inúmeras formas. Aqui, mostrei resumidamente algumas delas.

Questões parecidas com as de Billy, relacionadas à sublimação, também são expressas por adultos em análise. Escritores, pintores, assim como a feitura das monografias e das dissertações dos alunos ou mesmo as atividades cotidianas podem ser exemplos de que, em cada cenário ou campo de saber, é possível adquirir um aprendizado sobre as pessoas. O que atrai a atenção, em um tratamento, é o momento em que qualquer uma dessas ações é interrompida ou bloqueada e dá lugar à ansiedade, à vergonha ou à dúvida. Eis aí os indícios de que algo aconteceu e, consequentemente, pode ser interpretado. Para alguns indivíduos, a interpretação é experimentada como intrusiva ou como uma intervenção reducionista; às vezes, se a pessoa envolvida for frágil, tal intervenção pode desestabilizar um modo de operar que, há muito, fazia parte da personalidade do sujeito e que jamais havia sido questionado. É o que chamamos de uma ruptura com um ego em sintonia com o sintoma. Só que nem sempre é isso o que ocorre, como podemos imaginar.

Este ponto de vista tem muito em comum com a interpretação do jogo no tratamento de crianças. Ao brincar, a criança não tem a intenção deliberada de comunicar algo oriundo de sua vida psíquica. Portanto, as interpretações podem assumir um caráter de intromissão, e a consequência disso é a suspensão da brincadeira. A interpretação do brinquedo pode ser feita, seguramente, quando mobiliza afetos negativos ou mesmo quando favorece uma cadeia associativa em relação ao que gerou o desconforto. Nesse caso, a intervenção age em prol do ego e em vista do alívio da ansiedade. Foi o que podemos ver na brincadeira de Billy com o papel higiênico e, também, de forma reversa, (sem que eu o interpretasse) quando me mostrou a coleção de moedas. A integridade do ego e de suas funções modelará o tipo de interpretação que efetuaremos.  

As vinhetas do tratamento de Billy podem ser pensadas em termos de uma espécie de construção da sublimação. Assuntos iguais aos descritos aqui também aludem à conquista da autonomia secundária em se tratando dos conflitos do passado que se instalaram no presente. Ao enfocarmos apenas a gênese dos conflitos e nada mais, perdemos o contato com o paciente. Darei um exemplo fora da clínica para embasar o que mencionei. O excerto é de um artigo da New Yorker (Seabrook, 1996).

Steve Redgrave é um remador olímpico do time inglês que recebeu a medalha de ouro. Essa modalidade competitiva, pelo desgaste físico, é uma das mais excruciantes. Quando perguntaram ao atleta a respeito disso, ele comentou que costumava negar a dor. A indagação foi feita no momento em que Redgrave, aos trinta e cinco anos, se aposentaria com o término das olimpíadas de 1996. A esposa dele, que era médica da equipe dos remadores britânicos, duvidou da resposta que o marido dera aos repórteres. Mas, então, o que o impulsionava?

“Ora, eu não sei”, ela disse. “Creio que a dislexia, a sua incapacidade de aprender, o ajudou, no fim. O período escolar foi extremamente frustrante para ele, até que descobriu o prazer em remar. As outras crianças, portadoras do mesmo diagnóstico que o dele, encararam desde cedo o problema. E o Steve, só pensava em remar. Agora, por ter deixado de lado essa questão por tanto tempo, ele terá de se deparar novamente com a dislexia. As remadas que deu ao longo dos anos não reverteram a sua condição”.

Steve discordou das palavras da esposa. “Se eu não parei de remar foi porque eu amo essa atividade. Minha dislexia não entra em jogo” (Seabrook, 1996, p. 35).

A esposa de Steve o interpretou em termos do passado. Redgrave mostrou que, com efeito, o ato de remar portava em si metas, valores a prazeres que compõem e enriquecem o presente do atleta. Na análise, temos de ter em mente as duas perspectivas, a do passado e a do presente, para operar ou suprimir as intervenções. A bússola será o modo como o ego reagirá às intrusões que o aplicamos.

Questões em torno da perda de autonomia do ego no que tange a senso-percepção, à memória, ao pensamento, à conduta e ao afeto são alvo de observação. Passarei a ilustrar o funcionamento psíquico de dois pacientes que tiveram as funções mentais inibidas pela ansiedade e por outros fatores específicos.

Arthur era um sujeito isolado, obsessivo e embotado, que havia se graduado em engenharia. Apesar dos traços de sua personalidade, cultivava uma devoção pela análise e tentava fazer bom uso do espaço terapêutico. Certo dia, ao perguntá-lo sobre devaneios, ele se mostrou avesso a qualquer tipo de escapismo. Tal atitude se estendeu à evocação espontânea das memórias. É óbvio que o meu paciente não era um desmemoriado, pois sabia como chegar ao meu consultório e, também, articulava bem o inglês, o seu idioma, por exemplo. No entanto, qualquer manifestação natural da memória não era bem-vinda, por mais concreta que pudesse ser. Geralmente, Arthur afirmava que não tinha lembranças. As racionalizações eram patéticas: “Sou jovem. Vivo em um Bairro repleto de pessoas jovens. Nós perseguimos o futuro; não estamos interessados no passado”. Não entrarei no mérito da asserção, o meu foco será o de apresentar a reviravolta que culminou na seguinte resolução – a gradual retomada da habilidade de aflorar as memórias espontâneas e as fantasias. Certo dia, abordamos o bloqueio das memórias e, de súbito, elas começaram a irromper. Ele lembrou que, durante a faculdade, lavava pratos em uma lanchonete. Na hora do almoço, o movimento aumentava, e os pratos eram rapidamente depositados nas esteiras pelos garçons. “Eles chegavam a mim em um ritmo frenético. Eu ficava com medo de ser enterrado pela sujeira”. Era isso. Não se tratava da recordação de um trauma infantil, mas se configurava como um indicador ou como uma metáfora do que as memórias significavam para o paciente: elas poderiam vir tão rapidamente (e serem tão desagradáveis) que Arthur seria “enterrado pela sujeira”. A partir da verbalização do medo e das fantasias que o assombravam, Arthur foi capaz de contatar as memórias que tanto se esquivava. Agora, poderíamos nos valer de tais associações para a análise.

Com outro paciente, um professor universitário, o problema se concentrava nos pensamentos autônomos. O trabalho dele, por ser muito cerebral, exigia constante planejamento e a transmissão do conteúdo didático em aula. Na análise, ocorria o oposto: não contribuía com nada. Retinha os pensamentos. Mais tarde, após perceber essa dinâmica, ele confiou a mim que pensar sobre si próprio significava o mesmo que estar sozinho. A tristeza e o ressentimento em relação ao objeto perdido (a mãe morreu quando ele era criança) mantinham bloqueados os acessos à função do ego responsável pelos pensamentos autônomos.

O último exemplo que utilizarei sobre a necessidade de termos em mente um conceito de ego no decurso do tratamento vem da época em que eu supervisionava um terapeuta em treinamento. Ele atendia um menino de dez anos de idade chamado Aaron. No meu ponto de vista, estávamos lidando com um paciente neurótico com características fóbicas. Mas pude notar que os relatos sempre traziam a imagem de um rapaz que não controlava a ansiedade, por melhor que fosse o trabalho empreendido. Era como se o medo tivesse se espalhado a ponto de se converter em pânico. Em vista de averiguar o que se passava, decidi fazer algumas sessões com Aaron junto com a sua mãe. Eu optei por essa modalidade a dois com a premissa de ter mais dados sobre o caso. Não passei nem vinte minutos com Aaron e já havia me convencido de que não se tratava de uma fobia comum: a sua ansiedade era intensa e nociva demais. O curioso nisso tudo – depois pude constatar – é que os sinais de ansiedade não eram suficientes ou não se processavam de forma adequada para que as defesas locais fossem acionadas. O gatilho era falho: só “assinalava” ou anunciava tardiamente ao ego que mais angústias estavam a caminho. A enxurrada afetiva se tornava instantânea. Durante a consulta, quando a ansiedade irrompia, Aaron ficava frenético e irritado. A mãe, para dar limites, ralhava com ele. Foi aí que encontrei a brecha para intervir. Na presença de Aaron, esclareci a ela que o seu filho estava soterrado pela angústia e não tinha domínio de si. As broncas, portanto, não o ajudariam a se controlar. Em realidade, Aaron precisa de apoio e de consolo. (À parte, a reação dela foi interessante. Abruptamente, a indignação a possuiu. “Você quer dizer que não posso expressar os meus sentimentos?”, retrucou. E eu emendei: “Exatamente. Ao menos agora, pois ele precisa de socorro”. Ela, de pronto, replicou: “Eu faço terapia. Muitas pessoas com as quais convivo também. Todos falam – inclusive, eu aprendi por experiência – que é necessário pôr para fora as emoções”. “Eu concordo, mas agora não é o momento”, complementei. “Aaron está sufocado e precisa sentir que você está estável e controlada para ampará-lo. Só assim ele terá condições de livrar da situação que o oprime”. O argumento final dela foi: “Ora, eu nunca ouvi nada parecido com isso!”). Em uma sessão posterior, no momento em que a ansiedade começou a transbordar dos poros de Aaron, a sua mãe o repreendeu novamente. Em desespero, o paciente suplicou mais de uma vez: “Você ouviu o que o doutor Pine falou? Mãe, você o ouviu? Você ouviu o que ele disse, hein?”. Infelizmente, o seu apelo não surtiu efeito. Ele me escutou; ela, não.

O meu objetivo no início do capítulo foi se resume aí. Ao ilustrar o caso de Billy e ao realçar a tímida emergência de uma atividade sublimatória, o analista ou o terapeuta deve ter em mente um conceito do ego e de seu desenvolvimento. Estamos falando da evolução e das características dos sinais de ansiedade, da defesa e da sublimação, assim como da manutenção da autonomia primária e da aquisição (ou falha) da autonomia secundária. Os modos de compreender tais abstrações conceituais darão vitalidade e coerência às intervenções e às técnicas empreendidas pelos profissionais.  

A participação do paciente no intercâmbio analítico

 
Os exemplos clínicos que descrevi sobre as conquistas e os fracassos em se tratando do desenvolvimento do ego são por demais específicos e nem sempre são o foco do trabalho que realizamos. Em contraste, nessa seção, discutirei um problema comum e pouco explorado, em termos da psicologia do ego: a prontidão da pessoa à escuta e à contribuição das interpretações feitas nas consultas. Assim como da outra vez, iniciarei com uma vinheta extraída da história de uma menina de oito anos, a Sophie.

Ela chegou a mim há, mais ou menos, dois anos antes dos episódios que passarei a narrar. Filha única de pais divorciados recentemente, Sophie sentia-se sozinha e – como os familiares a percebiam – “hiperativa”. Entre si, os pais encontraram meios para cuidar dela, pois sabiam o impacto e a influência que a separação exercia sobre Sophie. Ambos expressaram as preocupações em relação aos eventos que se seguiriam ao divórcio – assuntos que eu deveria investigar, em princípio. Explicaram que a filha criara jogos de cunho sádico e masoquista com o gato e com a boneca de pano cujo nome é Ann. Ao partilharem as informações, pareciam aturdidos – é claro que sim, pensei. Em meu primeiro contato com Sophie, esclareci que a “hiperatividade” nada mais era do que um artifício para burlar qualquer manifestação de desconforto. Era essa a defesa que empregava para mitigar a angústia, a ação desenfreada.

Nos primeiros dois anos de tratamento, meu empenho convergia para que experimentasse os sentimentos, que os deixasse se desprenderem da mente. Mais uma vez, a minha aposta se resumia ao desenvolvimento do ego, como abordei na primeira parte do escrito. Fizemos progressos consideráveis, mesmo que relativos. Nos três meses anteriores ao que apresentei até agora, Sophie me contou sobre um pesadelo. Eu expliquei a ela que trabalharíamos à maneira de detetives para desvendar o que se ocultava no sonho. Nesse ponto, a paciente já estava mais cooperativa e até conseguia se sentir estimulada. Dizia: “e esta parte, o que você acha que pode significar?”. À medida que as pistas surgiam, ela se alegrava com os resultados e recebia as interpretações com expressões tais como “agora, eu acho que você acertou!” (É importante lembrar que a minha paciente tinha oito anos de idade). O sonho nos conduziu a um segredo infantil (que estava disponível à memória, mas, ainda assim, sofria a ação da negação e continuava retido, difícil de ser evocado em detalhes, e eu não sabia ao certo o porquê). Quando o destrinchamos, a ansiedade veio à tona. Tal resposta não havia se manifestado até então; era sinal de que estávamos diante do conflito em si.

A propósito do material que apresentei até agora, é bom recapitularmos o seguinte: a criança em questão, de vez em quando, recorria à excitação como meio de evitar o sofrimento. Qualquer referência aos jogos sádicos e masoquistas, aos órgãos genitais e ao corpo em geral era censurada por ela. Meu objetivo se restringia a perceber – a partir das funções do ego – a disposição da paciente para se engajar ao trabalho analítico.

Houve uma sessão em que Sophie me contou uma piada:

 

- Por que o homem decidiu nadar no oceano?

- Ora, por quê?

- Para enchê-lo de xixi.   

 

Pronto, fim da anedota, que inauguraria uma série de eventos interessantes. Ela passou o resto da sessão desenhando. No primeiro esboço representou claramente o pênis; no segundo, a temática continuou, mas, dessa vez, Sophie falou sobre a genitália masculina. Eu acompanhava as associações e as devolvia. A paciente mantinha-se atenta aos apontamentos. Por fim, tentei ligar a piada com os desenhos e com a verbalização feita sobre o pênis. Ela compreendeu instantaneamente a conexão entre os três itens e expressou um misto de curiosidade e de angústia em relação às coincidências. “Eu não sei o motivo de eu querer saber sobre isso”, disse e, embaraçada, escondeu o rosto entre as mãos, sem me perder de vista.

Nas próximas duas consultas, o conteúdo permaneceu o mesmo. Precisei me assegurar do que realmente estava sendo abordado. Acredito que ela tenha guardado tudo o que conversamos. No fim da sessão, Sophie revelou o que pensava: “Você é louco”. Perguntei em que se baseava para afirmar isso. “É que ninguém fala dessas coisas com uma garotinha”. Foi uma declaração sincera, afetuosa, porém atrapalhada. Eu sorri e expliquei: “É realmente estranho, mas, por alguma razão, isso está povoando a sua mente”.

Os pais de Sophie se alternavam para trazê-la em meu consultório. Na semana seguinte, seria a vez do pai. Na segunda-feira, às 7h30min, recebi o telefonema do pai de Sophie. Ele me informou que a filha tivera um pesadelo e queria muito contá-lo para mim. Fiquei impressionado com a atitude da paciente. Conversei com ela ao telefone. Eis o que me foi confiado: “Eu estava deitada na cama com o meu pai e, enquanto isso, um bandido entrou no quarto e atirou em mim. A bala atravessou o meu braço e ficou presa em minha roupa, entre o ombro e o cotovelo. Eu precisei dar uma cambalhota para me livrar dela e, então, acordei”. Eu comentei que havia ficado feliz com a ligação e que poderíamos explorar o pesadelo – do mesmo jeito que já tínhamos feito com outros sonhos – em nossa sessão (que seria naquele dia mesmo, só que mais tarde).

 E assim o foi. Não compartilharei as associações de Sophie e nem mesmo as perguntas e as interpretações que fiz. O meu objetivo será o de detalhar a habilidade da paciente no decurso da análise. A nossa conversa permeou os tópicos relacionados à nudez e ao sexo (“Os meus pais não fazem isso!”). As interpretações giraram em torno da sexualidade. Eu não somei nada à transferência. Deixei que tudo partisse de Sophie. No início, a paciente zombava do que eu tentava lhe transmitir, mas a reação geralmente mudava e se transformava em reconhecimento: “Você resolveu, mas eu não gostei do significado do pesadelo, no fim”. Mesmo assim, ela voltou no dia seguinte (o último da sequência) e disse: “Não descobrimos tudo ainda: por que dispararam em mim?”. Tal dúvida nos levou a abordar o componente sexual envolvido no tiro e na punição. Ela se entusiasmou: “Agora entendemos! (pausa) Oh! Eu desejaria nunca ter contado a você aquela piada” (sobre fazer xixi no oceano). A partir dessa memorável asserção, Sophie pôde mostrar que havia apreendido as sutilezas referentes à sequência do pesadelo que estávamos investigando ao longo de várias sessões. A paciente juntou os fragmentos do mosaico de associações, conferiu o conteúdo que dali brotou e resistiu ao desconforto.

Depois de um intervalo, falou espontaneamente: “Você está me torturando com esse assunto de sexo. Eu vou cortar fora o seu pinto e o do papai”. Eu comentei com Sophie que tinha percebido, pelo tom de voz, que falar sobre sexo era semelhante a uma tortura e liguei isso aos jogos que ela praticava com o gato e com a boneca de pano. Eu fiquei a imaginar se a paciente considerava o sexo um suplício (as razões para eu averiguar essa hipótese não foram embasadas aqui). E sua resposta foi: “Não! (pausa) Será? (pausa) Em quem? Em ambas ou só com um?”.

Novamente, temos aí a associação interessante feita por uma menina de oito anos de idade, que suportou o desconforto de evocar imagens e afetos ao invés de atuá-los através da hiperatividade. Tais qualidades denotam um bom funcionamento do ego e apontam para a capacidade de cooperar com o progresso do tratamento: ao reconhecer os aspectos sexuais presentes em seus desenhos (“Eu não sei o porquê”), ao verbalizar de um modo brincalhão (a despeito do incômodo que sentiu) que eu era um louco “por falar sobre esse assunto com uma menininha”, ao telefonar para me contar o pesadelo que teve à noite, ao entender que “havíamos” compreendido o que significava o sonho, ao questionar “Isso é tortura? Mas de quem?” e, claro, ao permanecer atenta e disponível, durante cinco sessões, a discorrer sobre esses temas. Tudo isso é digno de crédito. Sophie se superou.

Muitos fatores compuseram as interpretações: o conteúdo exprimido, o grau de ansiedade favorável, a presença da transferência no material. No entanto, o que enfoquei aqui se resumiu aos indicadores de quando um paciente está apto a realizar uma auto-observação e a escutar as palavras do analista dirigidas às funções do ego. O mesmo tipo de conflito poderá exigir diferentes meios de abordá-lo. É o que passarei a ilustrar daqui por diante.

Há muitos anos, tratei um homem de quarenta anos, um mediador por profissão e não por escolha. Ele atuou, ou até mesmo participou ativamente, como mediador da brutalidade que ocorria em sua família desde que era criança. Nos primeiros dois anos de tratamento, o que chamava mais a atenção era a falta da raiva nas expressões e gestos do paciente. Ele não a demonstrava. Até que, depois de meia dúzia de consultas espaçadas, no terceiro ano de tratamento, eu pude escutar referências explícitas de sua raiva, tanto a antiga quanto a atual. A cada momento em que eu pontuava a manifestação de natureza raivosa, a reação do paciente era sempre a mesma: criticava-me de forma acerba e, em seguida, se tornava evasivo. Quanto mais eu tentava endereçar questões e comentários sobre o que estava acontecendo, mais ele me ignorava. Às vezes, ele costumava arrancar de minha mão a agenda em que eu escrevia o que me era contado para ler em voz alta as anotações. Só mais tarde uma compreensão da situação se desenvolveu entre nós. Em um nível semiconsciente, ele percebeu o pacto que fizera consigo mesmo na infância e que ainda vigorava: o de que sobreviveria aos conflitos e às brigas mediando-os, nunca os vivendo diretamente. Estaria sempre à margem e arredio. A condição para que ganhasse existência seria a de manter-se à sombra. As comunicações indiretas que eu emitia a respeito da raiva e do desejo de controle eram experimentadas pelo paciente como intervenções perigosas e intimidadoras. Somente quando esgotamos o tema do pacto consumado na infância – que se configurou como um aspecto defensivo da personalidade que o mantinha sempre no papel de um mediador – é que o paciente passou, a partir da observação de si mesmo e do engajamento ao processo analítico, a associar a raiva à sua condição.

Um segundo tipo de situação envolve a observação das funções intactas do ego e sugere ao analista a postura blasé. A ideia é a de não se mostrar tão disponível para as possíveis explorações dos conflitos. Tal postura ocasiona, em alguns casos, o amortecimento das defesas. Há anos, quando a indústria farmacêutica encontrou meios de lidar com a psicose e adentrou nos domínios dos hospitais psiquiátricos, não houve quem não se interessasses pela complexa arquitetura do pensamento psicótico. As bizarrices fascinavam e atraíam os terapeutas. Em contrapartida, quando os pacientes institucionalizados restituíam o controle das atividades, acabavam se tornando apáticos e áridos. Levavam uma existência anódina. Os analistas que empreendiam forças para buscar a origem da psicose comumente acionavam nos pacientes a cólera, o pavor e, na pior das hipóteses, estimulavam o regresso ao estado psicótico, ou seja, à entropia do pensamento. Com que os terapeutas se deparavam? Com uma camada intacta das funções do ego – indene ao arsenal analítico – que se esforçava ao máximo para se livrar de qualquer ameaça mental. Por quê? Porque muitos pacientes temem o possível retorno à psicose e são avessos às intervenções exploratórias que possam desestabilizá-los, ao invés de clarificar a sua afecção psíquica.

O terceiro exemplo se destina aos eventos turbulentos em que os fenômenos da transferência, tais como a raiva, a inveja ou até mesmo a sexualidade, paralisam o tratamento. A transferência catalisa e torna efervescente o processo analítico, mas se ela esquentar demais o vínculo, o trabalho se torna impossível. Nenhum resultado será obtido, caso o ego observador perca a autonomia em frente às paixões emergentes. Em momentos assim, o mais prudente é o desvio (em torno do mesmo foco), seja ele para o passado ou para o futuro, em vista de esfriar a situação a ponto de permitir que a auto-observação se instaure. O que temos aí é a variante de algo que escrevi, tempos atrás, sob o título de “Golpear em ferro frio” (Pine, 1984). Lá, me referi aos pacientes fragilizados, em qualquer estágio do tratamento, pelas experiências afetivas intensificadas pelas intervenções. Havia instantes em que nenhum tipo de interpretação surtia efeito. E qual o motivo? É que as funções do ego preservadas corriam perigo. O manejo em estilo pedagógico pode, nessas circunstâncias, clarificar – voltando-se para o passado – a tempestade de emoções. A estratégia de mover a interpretação para fora da transferência é o que chamamos de golpear em ferro frio. Em todos os exemplos, tentei mostrar como monitorar as funções do ego, particularmente no quesito da capacidade de observação, pois assim teríamos indícios de como conduzir as intervenções.

Por fim, o ponto mais geral na teoria da técnica, que é o de se dirigir à função observadora do ego. O trabalho de Paul Gray (1994) sustentou a importância de arranharmos a superfície da camada intacta das funções do ego e de agirmos no local em que o paciente pode ter consciência sobre o que está acontecendo. Primeiro, o autor interceptava e escutava as derivações da pulsão na associação livre dos pacientes; depois, tomava notas sobre o que se sucedia nas flutuações. Dava ênfase tanto ao que impedia o fluxo do diálogo quanto ao que se opunha, à maneira da resistência, à análise. O que estou evocando aqui é o mesmo aporte técnico de Gray. A única divergência entre nós é a de que o autor considera as defesas e as suas relações entre os derivados da pulsão os principais conteúdos mentais. Fred Busch (1995), adepto às ideias de Gray, ampliou o campo de análise ao propor que devemos manter os olhos voltados para a superfície das funções do ego com o intuito de detectar qualquer sinal de aflição, sem presumirmos que tal moção seja uma resposta à emergência dos derivados da pulsão. Essa visão abre espaço, penso eu, para as relações objetais compulsivas que surgem nas tensões traumáticas oriundas da infância e, também, contempla os estados subjetivos e as fantasias em torno dos cuidados – deficitários ou não – recebidos pelos pais, assim como abarca os sentimentos de desamparo e de humilhação que afetam as funções do ego. O que impulsiona a discussão é o feixe que se concentra nas funções mentais que norteiam o que o paciente apreende da realidade e as repercussões disso em seu mundo interno.

A controvérsia entre Gray e Busch foi reencenada no palco do Congresso Internacional de Psicanálise, em 1993, por dois novos representantes: Theodore Jacobs e André Green. Jacobs apresentou as notas que fez ao longo das sessões. Green, o participante do debate formal, criticou o interlocutor por não ter ido mais fundo e não ter interpretado várias nuances associativas implicadas no discurso do paciente. A resposta de Jacobs foi certeira. Ele disse, com efeito, que “ir mais fundo” significaria alienar o paciente do que estava sendo dito (destituindo-o da capacidade de auto-observação); a proposta do doutor Green de fazer interpretações “profundas” foi entendida por Jacobs como mero artifício retórico; palavras sem “profundidade”, na verdade.

 

Defesa intrapsíquica

 

Johnny, um menino de onze anos de idade, frequentava a clínica hospitalar local. Apresentava uma conduta compulsivamente jocosa e debochada, fato que contribuiu para o seu fracasso escolar. A terapeuta que o atendia era supervisionada por mim duas vezes por semana. O comportamento trapalhão acompanhado de outros sintomas eclodiu depois de separações intercorrentes. A primeira delas ocorreu na infância. O motivo, de acordo com as autoridades que o removeram da seara familiar, se caracterizou pela negligência materna e pelo abuso por parte do pai. Ele foi encaminhado para um lar adotivo. Depois, passou temporadas intercaladas na casa dos parentes, mas nenhum deles o suportou; as suas maiores queixas se relacionavam ao hábito de Johnny revirar o lixo nas ruas em busca de latas de alumínio para a coleção (estocada embaixo da cama) e aos sintomas de encoprese. Agora, ele vivia com a avó materna que estava prestes a ser despejada de casa por outro neto. Logo, Johnny estaria à deriva novamente. O incidente que passarei a esboçar ressalta a conduta chistosa e a questão da separação.   

Johnny crescia rapidamente junto à terapeuta e, em inúmeras vezes, demonstrou o desejo de fazer do consultório a sua morada definitiva. Ele já estava em tratamento há muitos meses. Selecionei um fragmento em que a terapeuta incentivou Johnny a rememorar as ocasiões em que havia se mudado. Ela queria investigar em quais lugares o paciente ficara e como se sentira neles. Johnny falou de forma articulada e, surpreendentemente, parecia disposto à tarefa; vale lembrar que até então, ele se manteve inexpressivo. Johnny privilegiou em seu relato o contato com a mãe e com o pai. Os detalhes são secundários ao nosso objetivo, exceto pela expressão emotiva: “Eu daria qualquer coisa para ter a minha mãe de volta!”. Tal afirmação contundente foi seguida, a terapeuta me disse, por uma piada, por uma atitude anedótica. O ápice das trapalhadas se deu no instante em que ele sacou dos bolsos todas as bugigangas contidas ali, enquanto falava: “Eu daria qualquer coisa – até mesmo esses clipes de papel, esses carretéis e essas balas!”. A terapeuta me comunicou que imediatamente percebera que as palhaçadas eram uma tentativa de anular a nostalgia acionada pelos ecos da vida em companhia da mãe e, também, a expressão do desejo de torná-la presente. O interessante foi que essa terapeuta iniciante escolheu manter-se em silêncio (o que foi muito difícil), pois (como ela reconheceu) estava incomodada com a intensidade da dor e de nostalgia de Johnny.

Até agora, temos um claro exemplo da defesa contra o conflito interno. O conceito de defesa foi designado inicialmente como um recurso para evitar a manifestação dos derivados das pulsões (tais como as fantasias e os desejos). Anna Freud (1936) ampliou as perspectivas quando somou à definição já existente a hipótese de que a defesa se opunha aos afetos. Mais tarde, Arnold Modell (1984) remodelou as dimensões das ideias anteriores e incluiu o aspecto de que as defesas se voltam para as relações de objeto. Talvez a contribuição mais forte e unificadora entre as formulações averiguadas tenha sido plasmada por Jacob Jacobson (1994). Ele sugeriu que os afetos dolorosos fazem todas as teorias psicanalíticas convergirem. Diante dessa perspectiva, a psicanálise se sustenta a partir da fundamentação de que a mente é acossada por afetos dolorosos que devem ser combatidos (pelas defesas que os administram). As teorias psicanalíticas se diferenciam pela compreensão da natureza e da fonte de origem do sofrimento psíquico, assim como o indivíduo lida com os afetos dolorosos, mas, no fim, o trabalho é essencialmente o mesmo em todos os modelos psicanalíticos: a defesa contra os afetos (como conferimos no caso de Johnny, o menino de onze anos de idade).

A sessão de Johnny continuou. Passados dez minutos, ele começou a falar a respeito de fitas cassete. Assistia a filmes com a mãe. E ao “conte-me mais sobre isso” da terapeuta, ele reagiu assim: “Nós assistíamos a filmes e fazíamos piadas sobre as tramas e as personagens. Divertíamos-nos muito e nos tornávamos idiotas”. A terapeuta estudante não havia entendido a conexão dos conteúdos até que eu a apontei. Mas o que tínhamos ali? De repente, a hipótese da piada como defesa contra a saudade e a dor cedia lugar a outra premissa. Agora, poderíamos imaginar que as brincadeiras (reais ou fantasiadas) restauravam o vínculo estabelecido com a mãe. Talvez a atitude jocosa atualizasse ou repetisse a memória e a experiência de “se tornar idiota junto à mãe”. Então, se retomarmos o prumo, a sequência seria assim: “Eu daria qualquer coisa para ter a minha mãe de volta!”. Na versão anedótica: (“Eu daria qualquer coisa – até mesmo esses clipes de papel, esses carretéis e essas balas!”). Depois, o paciente se transportava (provavelmente sem o saber, apenas com uma espécie de consciência marginal – não temos como decifrar o que realmente é) ao momento em que ele tanto ansiava – o de estar feliz ao lado da mãe. Com a mecânica das trapalhadas e deboches, Johnny simultaneamente se protege da frustração e realiza um desejo. Concluímos que as piadas remontavam o contato com a mãe. Restituíam a ele o prazer daquele convívio.

Apresentei duas maneiras de interpretar o caso de Johnny. Será que há um ponto de vista mais “verdadeiro” que o outro, nesse caso? Creio que não. Eu acredito que ele responderia bem com ambas as intervenções. A experiência intrapsíquica é que “ditaria” o método mais oportuno. A enunciação de Johnny: “Divertíamos-nos muito e nos tornávamos idiotas” alude a dois vértices, um relacionado à defesa; outro, à conexão com o objeto de amor. Se eles fossem usados de forma apropriada para compreender a dinâmica de funcionamento mental de Johnny, eu suponho que não impingiríamos dor ao paciente. Eu apontaria mais intervenções para o caso, mas, primeiro, discorrerei sobre o aspecto intrapsíquico da defesa do ego na sessão.

Comumente, pensamos na defesa como algo que não é “intangível”, nem como um “mecanismo” de defesa, mas sim à semelhança de um fenômeno inerente ao processo, ou melhor, um meio em que o material clínico pode ser concatenado naquele dado momento.  E isso não quer dizer que os arranjos sejam ilimitados, é claro; “tudo o que flui” nem sempre está indo bem. No entanto, há sempre mais de uma maneira de entender o que se oculta no conteúdo associativo do paciente. A interpretação à luz da defesa e o manejo dos afetos desagradáveis são modos de levar o tratamento adiante.

Não enxergamos mais as defesas como simples sinais de “resistência” que se interpõem à “realidade”. A defesa é vista agora como o reflexo das relações dinâmicas e econômicas com o mundo interno; o seu grau de significância é equivalente ao de outros elementos da vida mental e deve ser analisada com rigor e seriedade. Breuer não soube lidar com a efusiva paixão de Anna O. Freud, ao analisar o fenômeno, descobriu a fonte valiosa de análise do psiquismo, a transferência. Os conceitos de resistência e de defesa seguem em paralelo ao desenvolvimento da teoria da técnica. No início, eram vistas como obstáculos ao afã de chegarmos ao cerne das fantasias e dos desejos inconscientes, emanados das pulsões sexuais. Com o advento da psicologia do ego, elas passaram a ser entendidas como expressões genuínas da personalidade. O trabalho de Wilhem Reich (1949), o das couraças caracteriológicas, foi embasado a partir dessa premissa citada anteriormente. Hoje, com a maioria das análises enfocando o caráter, a defesa e a sua manifestação em modos de resistência são os fatores que levam o paciente a lançar um olhar panorâmico a todas as funções e as dimensões que compõem a sua existência, tanto as conquistas quanto os fracassos na tentativa de se adaptar aos mais diversos contextos.

Quando Johnny disse, “Eu daria qualquer coisa para ter a minha mãe de volta” e imediatamente fez disso uma piada, eu teria – considerando o abandono e a negligência reais sofridos na infância – intervido de forma acolhedora e otimista: pontuaria o desejo de restaurar o vínculo com a mãe e, a um só tempo, o ajudaria a suportar a dor da perda. O desejo, por si só, era uma conexão fantasmagórica com a mãe. Tendo em vista que o paciente, no decurso do tratamento, formou uma aliança sólida com a terapeuta, eu proporia que ela se dirigisse a Johnny assim: “Eu sei que a brincadeira serviu para encobrir e para aliviar a intensidade da emoção presente na sua fala. Eu sei que você daria qualquer coisa para ter a mãe por perto novamente. É claro que você sente falta dela e gostaria que ela voltasse. Eu compreendo isso, Johnny”. É bom lembrarmos que, a essa altura, ainda não sabíamos que as “anedotas” eram o meio que o paciente encontrara para invocar a imagem materna e o elo que tinham. Farei um esclarecimento a respeito do objetivo da intervenção aventada. O comportamento chistoso e debochado o colocou em encrenca (basta saber que ele se deu mal na escola); tal estilo era problemático. Mesmo que estivéssemos lidando com uma defesa intrapsíquica contra o desespero e a solidão, ainda assim, os sintomas se configuraram como recursos adaptativos falhos. A minha intervenção buscou indicar que eu havia captado a intenção que se ocultava nas palhaçadas (que começaram como um refúgio à dor provocada pela ausência da mãe) e ofereceu a Johnny a possibilidade de lidar com os sentimentos de outra forma (mesmo com o risco de que, no lugar da defesa anterior, se alojasse outra mais perniciosa). A operação culminou com o fortalecimento da relação com a terapeuta: “Eu sei que você daria qualquer coisa para ter a mãe por perto novamente. É claro que você sente falta dela e gostaria que ela voltasse. Eu compreendo isso, Johnny”.

Quando a associação de Johnny se ligou à experiência de assistir a filmes em companhia da mãe (“Nós assistíamos a filmes e fazíamos piadas sobre as tramas e as personagens. Divertíamos-nos muito e nos tornávamos idiotas”) e revitalizou o vínculo do passado no presente, eu teria explicado ao paciente que a mãe perdida ainda se encontrava viva dentro dele. Ele a carregaria enquanto existisse. Então, quando Johnny trouxesse que “Divertíamos-nos muito e nos tornávamos idiotas”, eu me posicionaria de uma maneira que atraísse a sua atenção: “Eu acho que entendi algo mais, Johnny!”. E complementaria: “Quando você fez aquela piada, de que daria qualquer coisa para ter a mãe de volta, eu percebi que o humor foi o melhor jeito que você encontrou para realmente estar com a sua mãe, torná-la presente. Tenho a sensação de que as boas memórias vêm à tona com mais facilidade quando você brinca”. O tratamento era uma aposta para que Johnny elaborasse a compulsão às piadas – ou ao estilo anedótico de apagar o sofrimento – e pudesse aderir a um repertório mais adaptado às situações correntes.

Assim como a prontidão e a disponibilidade do paciente para se engajar ao tratamento é fundamental, o mesmo ocorre em relação às defesas que entram em jogo nas etapas do processo. A defesa (a modulação da angústia, do sofrimento) é inerente à vida mental. Muitas vezes, o foco de nosso trabalho é a defesa, pois o modo como ela obstrui a análise e como descortina o conflito é de grande valia. A defesa estará sempre presente, é bom saber. A interpretação só surtirá efeito à medida que a defesa nos mostrar o afeto que devemos ou não priorizar na hierarquia de objetivos da análise.

A riqueza de questões intrapsíquicas alcançadas quando voltamos a nossa atenção à defesa seguida de sua expressão pela via da “resistência” será ilustrada no tratamento de uma paciente de trinta e cinco anos, casada e sem filhos. Ela veio se consultar porque desejava engravidar e, ao mesmo tempo, temia essa possibilidade. O medo e a ansiedade a paralisavam. Logo, as ruminações obsessivas se apossaram dela e adquiriram muitas facetas: “Será demais”, “Eu ficarei sobrecarregada”, “Eu perderei o controle e enlouquecerei” ou “Isso gerará muita confusão”. A paciente estava refém desses pensamentos, fato que a impedia de se sentir fértil e de conceber um bebê. Agora, aos trinta e cinco anos de idade, e com vontade de ser mãe, ela chegou a mim.

Duas coisas se tornaram evidentes, enquanto o trabalho progredia. A primeira delas foi o seu estilo de pensar nas sessões. As associações eram torrenciais. O manancial de ideias assumia uma dinâmica que contribuía para os insights. No entanto, o fluxo, às vezes, prejudicava a compreensão do que estava sendo transmitido. O conjunto se fragmentava, em função dos atropelos e das colisões ideativas, e a trama do discurso se transformava em maçaroca. Não posso afirmar que havia desorganização cognitiva e nem perda do conteúdo, mas a fuga dramática de um assunto a outro deveria conter um significado. Ao dar voz ao que a aterrorizava, ficava vigilante às minhas reações. Do ponto de vista dela, as informações eram emitidas sem ruídos e muito bem articuladas. A maneira autêntica e previsível de agir em situações angustiantes da paciente se resumia nisso: voos mentais. Costumava trazer várias associações relacionadas com os tópicos debatidos em encontros anteriores, mas, na maioria das vezes, eram concepções mal formuladas e de pouca valia para lidar com os conflitos (É óbvio que havia exceções, só que, aqui, o meu foco é outro). Mesmo que as ideias voltassem na sequência das sessões, a paciente não parecia “segura” do que realmente se tratava. Em certos momentos, ela “percebia” como estava se relacionando comigo e chegava a identificar o problema. Nesses casos, algo quase “acontecia”. O excesso e os voos se configuraram como defesas; foi esse o disfarce da “resistência”. Tais fatores mantiveram os progressos vagarosos.

A segunda coisa que observei foi o modo e a qualidade com que experimentava a própria história. Tudo parecia ser adornado com demasiados acessórios. Será que a maneira como ela contava os episódios de sua vida é que gerava essa impressão? É provável que houvesse algo que a influenciasse? Enquanto nenhuma dessas hipóteses se corroborava, tive de me contentar com o registro de que a paciente estava subjugada, por algum padrão interno, pela quantidade de conhecimento apreendido pelos sentidos. Ela escutava demais, ouvia demais, sabia demais. Filha única em uma casa onde vivia com os pais e com uma série de personificações de Don Juan – os tios maternos, várias governantas e serventes, assim como os avós deliberadamente exibicionistas –, ela testemunhava uma espécie de bacanal. Isso fez com que a paciente fosse sobrecarregada pela excitação e pelo conhecimento sobre sexualidade, no qual ela não tinha recursos para assimilar, desde cedo. Somando tal arranjo familiar às fantasias e aos desejos elaborados pela paciente no decorrer dos anos, podemos ter um vislumbre de sua hiperestimulação sensorial. Por conseguinte, tudo convergia – a história pessoal, o estilo de se expressar e o conflito atual – para o “excesso”, seja de confusão, de estimulação ou até de experiências que foram além do que ela poderia ter suportado. Arrisco-me a inferir que a “resistência” se metamorfoseou na sua própria história de vida; a “resistência” é o que a compõem, é ela mesma. O manejo da defesa-resistência dependerá do estágio em que está o tratamento e da abordagem do analista.

A minha paciente ainda continua em tratamento e o estilo que aderiu, o de flutuar pelas ideias (sem se firmar em nenhuma) foi entendida de inúmeras formas, tais como: (1) uma proteção contra a estimulação excessiva dos órgãos sensoriais (ver demais, escutar demais, saber demais). As constantes divagações tangenciam as memórias e têm o escopo de evitar os pensamentos em geral; é proibido se fixar em algo para refletir; (2) uma passagem do estado passivo para o ativo, em se tratando da hiperestimulação. Agora, ela inunda as sessões do mesmo modo que a sufocaram na infância; (3) a expressão, por via da ação (verbal), da sua experiência de ser hiperestimulada. O analista é o alvo de todos os assaltos à intimidade que sofreu no passado; (4) um jeito de ser estúpida, de manter-se ignorante, de não saber (isso a afeta sobremaneira a ponto de limitá-la em várias circunstâncias). A “estupidez” se manifesta principalmente quando a paciente está com raiva, fato que vem renovar a experiência de invasão que vivia no ambiente familiar intrusivo; (5) uma participação na sistemática familiar consagrada pela negação do que era revelado e comunicado. Tal negação serve como uma proteção idiossincrática contra o desejo de destruir a imagem do pai e a dela. A paciente se identificou muito com o progenitor. Por conseguinte, queria evitar que a raiva e o ciúme corrompessem a figura idealizada do pai.

Em casos como esse, não há como simplesmente resgatar o passado: é preciso analisá-lo em vista de compreender e de concatenar os fragmentos simbólicos que retratam a história de vida da paciente. Deixe-me dar o último exemplo do foco – particularmente difuso, nessa situação – voltado à defesa, partindo de um mal-entendido da analista em relação aos interesses primários da paciente em questão. Com efeito, o objetivo da analista foi o de pontuar que “você fala assim porque acredita ser seguro e porque a mantém longe de algo que você não consegue contatar”. Com o passar do tempo, a analista começou a acreditar que a paciente estava se expressando de um modo inteligível e coeso. O que aconteceu? A analista percebeu que a sua atitude contradizia os preceitos da psicanálise, pois ela estava tentando impor à paciente uma visão particular sobre os fenômenos apresentados. Era como se, no fim, a analista não estivesse fazendo o seu trabalho, ou seja, não conseguisse priorizar e nem examinar o material que emergia nas sessões (Veja mais exemplos a respeito desse tipo de equívoco no Capítulo 7).

Eu apresentei ao leitor o caso sem especificar os dados concernentes à história da paciente. Eu reconheço que, sem o material pregresso, a tarefa de emitir qualquer juízo sobre o que foi esmiuçado se torna praticamente infrutífera. Mas eu agi assim porque quero realçar um argumento e ilustrar algo.

Um homem de quarenta anos de idade, formado na Escola de Direito, nunca exerceu o ofício, pois não conseguira passar nos exames ministrados pelos órgãos de representação dos advogados, responsáveis pela regulamentação da advocacia. Em função disso, passou a trabalhar em um negócio de família. Nas sessões, costumava falar sobre os filmes que via e, também, sobre algumas lembranças que, de vez em quando, vinha à cabeça. A maioria das recordações trazia consigo os vestígios de raiva e de culpa. O que mais vinha à tona eram as experiências sexuais que teve com uma acompanhante. Sentia vergonha do que viveu ao lado dela. O conteúdo despertou a atenção do analista, embora não tivesse nenhuma relação aparente com os problemas que o trouxeram para o tratamento (e eu não os comentarei aqui). Em inúmeras consultas, o paciente demonstrava a insatisfação no ambiente de trabalho e se queixava por não ter obtido o reconhecimento e o orgulho dos membros familiares; muitas vezes, as tramas dos filmes acabavam por acionar uma enxurrada de lembranças que o levavam a confissões exasperadas. Ele emendava o assunto de forma detalhada com outros momentos em que se sentira desvalorizado. Isso se dava especialmente com as diversas namoradas com quem se relacionou. O paciente concedia uma importância superlativa ao reconhecimento: era algo precioso, em sua concepção. Não demorou em reivindicar o reconhecimento da analista. Quando o silêncio imperava, ele fazia de tudo para decifrar o que a analista poderia pensar a respeito do que havia sido dito. Tentava descobrir que imagem se construía no íntimo da analista e buscava extrair das intervenções uma fração valorosa do que pronunciava a ela (amiúde, o paciente mostrava, em um tom onipotente, que a analista deveria interpretá-lo e precisaria encontrar certo glamour em seu discurso).

A analista começou a refletir sobre as oscilações ocorridas no decurso das consultas (o movimento pendular que ia do polo da raiva para o da culpa, do da vergonha para o da sexualidade, do reconhecimento para o do orgulho) como um modo de recuar aos deveres, como um meio de procurar se sentir valorizado à medida que “confessava” tudo o que o angustiava. Ele encontrava nessa dinâmica o alívio – e essa suposta catarse se configurou como resistência. Falava tudo, mas não chegava a lugar nenhum, não conseguia “ir além” (das questões da raiva-culpa e da vergonha-sexualidade).  Gradualmente, o ponto de vista do tratamento mudou em 180º. A analista deu um passo à frente no instante em que percebeu que as questões acerca da autoestima (esboçadas pela busca desenfreada de reconhecimento e de orgulho) antecediam os relatos que envolviam os componentes sexuais e os agressivos e se dirigiam a apenas um objetivo, o de agradar a analista para, assim, ganhar o “reconhecimento” e o “orgulho” tão almejados pelo paciente.

O conceito de defesa intrapsíquica desenvolveu-se particularmente na teoria de Freud. Eu já até inferi que tal formulação deveria fazer parte de toda e qualquer teoria psicanalítica; cada uma dessas teorias tem como foco central a dor psíquica. Logo, a mente será compreendida, em partes, como o esforço para superar o sofrimento (Jacobson, 1994). Mas quando a mente é vista de maneira obstinada apenas como uma combinação das relações interpessoais e das experiências sexuais no aqui-e-agora ou como o acúmulo de objetos internalizados sem que se saiba ao certo com o que estamos lidando, corremos um grande risco de falhar em nosso afã de ajudar o paciente. O meu palpite é o de que a raiva-culpa e a vergonha-sexualidade eventualmente encontrarão pretextos para emergir e se alocar como o foco da análise. Isso pode ocorrer em qualquer estágio do tratamento. O analista, ao trabalhar com um modelo ou cabedal teórico, intenta identificar as conexões com as próprias perspectivas e as do paciente e, às vezes, ignora o significado presente no material clínico e, por consequência, a verdade de seus pacientes. Foi aí que a analista, no caso em que apresentamos, conseguiu dar-se conta de que o conteúdo relacionado com a autoestima se configurava como algo em conluio com a resistência e não como uma mera expressão do desejo de ser reconhecido. A “interpretação da defesa” é fundamental para o trabalho analítico, mas, vale lembrar, que nada mais é do que uma parte do todo.

 

Observações finais

 

O que quis mostrar foi que, depois de setenta e cinco anos da aparição formal de Freud (1923, 1926) e de sessenta anos após a difusão de sua teoria (Freud, 1937; Freud, 1936; Hartmann, 1939), o ponto de vista da psicologia do ego ainda pode – eu diria que deveria ser – uma presença viva e marcante no processo analítico. Ela provê ferramentas de compreensão do que está acontecendo e de como surgiu o conflito e, também, nos conduz ao modo de abordar e de operar os fenômenos presentes nas sessões. A psicologia do ego dá origem a conceitos do que falta no ego (Pine, 1985, 1990) e nos alerta sobre o que não devemos confiar: as distorções, os atrasos e os déficits no desenvolvimento das defesas. Também nos aponta os sinais de ansiedade, as modulações afetivas, o controle dos impulsos, o senso de discriminação (ligado ao teste de realidade), a constância dos objetos – todas as significantes conquistas e as características que pairam sob o conceito de “ego”. Ademais, a psicologia do ego nos instrui – pelas incursões na autonomia do ego – a respeito de como a afecção psíquica está organizada. Tais incursões podem ser feitas por via das necessidades do objeto (como em um paciente que teme as consequências da autonomia do pensamento) ou por via do “deslocamento” das memórias sexuais e agressivas (como em um paciente com uma resposta aversiva aos devaneios e à evocação espontânea da memória) ou de várias outras formas.

Embora eu não tenha ilustrado aqui, a psicologia do ego nos oferece o conceito de autonomia relativa do ego que conserva relação com as funções autônomas da memória, do pensamento, que podem estar presentes em dado momento e em outro, não. É um conceito de extrema importância para interceptar o tempo e o foco das interpretações. Também pode nos advertir sobre o aspecto da relatividade da autonomia (algo que não exemplifiquei aqui) que explora outras dimensões das funções do ego. Nós todos acompanhamos situações em que a “autonomia” do pensamento, só para citar, é tão completa (tão separada do afeto e das fontes do desejo) que o processo cognitivo é erodido, quase morto ou ausente (com quase toda a energia afetiva desligada – uma caricatura de autonomia); o oposto do que mencionei pode ser visto também pela intensidade da animação, pela infusão de desejos e de necessidades que acabam por distorcer o pensamento. O conceito de ego nos dá estratégias para distinguir as defesas bem adaptadas e as sublimações dos colapsos, assim como as suas implicações. Ter um conceito de ego nos guia para intervir e nos fornece múltiplas formas de reconhecer quando o paciente está preparado para receber a interpretação. O seu papel principal e mais conhecido é o de criar, no processo analítico, um esquema de entendimento das defesas intrapsíquicas e das resistências. Logo, o que é revelado e o que é eclipsado ou tangenciado possui igual valor para nós.

Trabalhar, hoje em dia, com um conceito de ego e de suas funções não quer dizer, em minha opinião, que estejamos fazendo uma análise. O que está em questão não é a interpretação da defesa antes do impulso e nem os meios criativos de lidar com as falhas do ego (Pine, 1990; Fleming, 1975). Não é a interpretação da transferência. Não é a reconstrução. Não são as reações da contratransferência e nem mesmo as interpretações dos enactments presentes na transferência e na contratransferência. O foco não está no vínculo do aqui-e-agora de duas pessoas em interação. Também não é a atual realidade psíquica ou subjetiva do paciente que está em xeque. Na verdade, é tudo isso de vez em quando; dito de outro modo: nenhum deles ou todos eles e ainda outros mais em situações singulares e, claro, dependendo dos pacientes e de suas particularidades.

A psicologia do ego condensa a pluralidades das teorias psicanalíticas, até mesmo as que, por si só, são mais herméticas. A mente é uma potência que contém as fantasias, as pulsões sexuais e as agressivas, as relações de objeto internalizadas, os estados subjetivos da dor, os problemas das defesas em confluência com a vida intrapsíquica, a adaptação ao mundo externo e o teste da realidade. Tudo isso converge e faz da mente a mente. A psicologia do ego se endereça a todos esses fenômenos psíquicos. Somos dotados de consciência, temos a capacidade de planejar, de antever e de julgar. Então, precisamos reconhecer que há algo além da profundidade; existe, também, uma força racional, fato que o nosso conceito de “ego” engloba em seus interstícios.

No panteão da psicanálise, a psicologia do ego já tem um lugar consagrado em meio às múltiplas teorias e técnicas de vanguarda. Tendo demonstrado isso aqui e previamente discutido os componentes relacionais do impacto terapêutico (nos Capítulos 3 e 4), eu agora me voltarei para um tópico que contempla esse binômio ao mesmo tempo: as considerações sobre as falhas no ego e os déficits no seu desenvolvimento, seguidos da dificuldade de tratá-los na análise. 
 

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