domingo, 16 de junho de 2013

Psicanálise e Pós-Graduação: notas, exemplos, reflexões (outubro de 1999), Renato Mezan

 
Num artigo publicado na revista Percurso em 1998, tive a oportunidade de comentar um fenômeno alvissareiro: a acolhida da Psicanálise nos cursos de pós-graduação de diversas Universidade brasileiras(1). Ela já estava presente nos cursos de Psicologia desde quando estes foram inaugurados, na década de sessenta; a partir dos anos oitenta, porém, ela se expandiu para a pós-graduação, primeiro no Rio de Janeiro e em São Paulo, depois em outras escolas.
Ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, este fato não é isento de conseqüências, nem para a Psicanálise nem para a Universidade(2). Entre suas causas, conta-se o desejo de muitos analistas de se revigorarem no ambiente acadêmico, freqüentemente mais arejado do que o que se respira nas instituições psicanalíticas. É certo que a Universidade – por não visar à formação analítica stricto sensu – representa um espaço mais neutro, menos carregado transferencial e politicamente, mais apto a aceitar e mesmo a estimular a pluralidade de pontos de vista do que a instituição psicanalítica típica, por natureza voltada para a transmissão e perspectiva de um determinado estilo de praticar e de pensar a Psicanálise. Não me parece mau que assim seja; há lugar para todos sob o céu de Alá, e, assim como a Universidade se beneficia por receber como alunos profissionais experientes e interessados no que fazem, as instituições analíticas também podem ganhar algo com a repercussão, entre seus membros, daquilo que alguns deles puderam produzir no meio acadêmico.
Para os psicanalistas, costuma ser uma surpresa o primeiro contato com este ambiente, não tão clínico quanto aquele ao qual estão habituados, e por vocação mais próximo das questões teóricas e da pesquisa sobre temas de psicanálise "aplicada". Contudo, nada impede – como veremos mais adiante – que sejam propostas e realizadas teses acerca de temas propriamente clínicos, do tradicional estudo de caso até pesquisas sobre os mais diversos aspectos da prática analítica.
Há uma dimensão do trabalho universitário, contudo, que é efetivamente diferente do que estamos acostumados a encontrar em trabalhos apresentados no âmbito das associações profissionais: a preocupação com o rigor intelectual. A própria palavra "rigor" é um pouco assustadora, com suas conotações superegóicas e um tanto castradoras; mas ela recobre um fator efetivamente característico da produção universitária, seja ela em Psicanálise ou em outra disciplina qualquer. Trata-se da preocupação em fundamentar e em contextualizar as afirmações que constituem o núcleo de cada tese, o que implica recorrer à teoria de um modo um pouco diferente do tradicional. Neste aspecto, os psicanalistas não costumam estar especialmente bem equipados, pois nada na sua formação anterior os preparou para a redação de uma tese acadêmica. Para compreender bem este ponto, convém explicitar o que se pode esperar de um trabalho deste gênero, e mencionar algumas questões que não concernem especificamente às teses de Psicanálise, mas vêm sendo levantadas, em escala nacional, no âmbito de toda a Pós-Graduação.
Contra o "minimalismo" no mestrado
Com efeito, vêm circulando nos últimos tempos propostas tendentes a reduzir as exigências para obter o grau de Mestre. Estas exigências seriam excessivas, ao que se diz, no tocante à extensão e à complexidade da dissertação; especialmente na área de ciências humanas, ela necessitaria demasiado tempo para ser concluída, onerando o candidato e tornando vagarosa a sua passagem pelo circuito da Pós-Graduação. Com uma dissertação mais "simples", o tempo de realização dos cursos diminuiria; os orientadores poderiam ter mais vagas, os alunos ficariam menos sobrecarregados, e os escassos recursos públicos destinados às bolsas poderiam ser melhor repartidos. Assim, diversas vantagens aconselhariam a modificação dos padrões atualmente em vigor, no sentido de um texto mais curto, mais enxuto e mais "fácil". Esta seria, aliás, a tendência internacional; na Europa e nos Estados Unidos, os mestrados estariam sendo feitos rapidamente, e em algumas instituições até mesmo eliminados, ou pelo menos desprovidos do valor que até há pouco anos lhe era atribuído.
Discordo dessa posição "minimalista", por diversos motivos que exporei a seguir. Antes de enumerá-los, porém, cabe uma reflexão geral. Nos últimos vinte ou vinte e cinco anos, montou-se no Brasil uma estrutura de Pós-Graduação que, lentamente, veio a se constituir numa das poucas áreas da vida nacional em que se pode vislumbrar alguma continuidade e algum resultado em termos de qualidade. Órgãos como a Capes e o CNPq adquiriram legitimidade e tornaram-se funcionais, estabelecendo critérios de avaliação razoavelmente justos e inteligentes. Isto custou um enorme esforço de todas as partes envolvidas – universidades, agências de fomento, estudantes, professores, etc. – e acabou por criar uma rede, em escala nacional, relativamente operativa. Sem ilusões quanto aos seus possíveis equívocos, o fato é que se investiram milhões de dólares num projeto conseqüente e de longo alcance, cujos efeitos benéficos sobrepujam largamente os problemas e enganos que possam ter ocorrido. Ora, num movimento que também se pode notar em outras esferas da vida do País, aparece agora a tendência a mudar o que existe. Mudar, diga-se logo, não no sentido de aprimorar o existente e corrigir suas falhas, mas – característica da ciclotimia nacional – mudar no sentido de inverter a direção que se tomou, o que me parece destrutivo.
Pouco importa qual é a tendência nos Estados Unidos e na Europa, que contam com sistemas educacionais muitíssimos melhores do que o nosso. Talvez lá seja útil apressar o mestrado, ou quem sabe eliminá-lo. Não tenho informações exatas sobre isto, e não vejo o que se ganharia em copiar uma decisão baseada numa realidade muito diferente daquela com a qual convivemos aqui. Esta, como se sabe, é calamitosa. A destruição do ensino primário e secundário no Brasil assume proporções alarmantes, e se reflete na degradação do ensino universitário, em boa parte oferecido por instituições cujo desempenho precário é por demais conhecido para que seja necessário estender-me sobre o assunto. Esta triste situação, aliás, foi um dos fatores que conduziram à institucionalização da Pós-Graduação.
Mas, ainda que todos os cursos de graduação fossem bons, e ainda que todos os inscritos na Pós-Graduação fossem estudantes excelentes, o mestrado continuaria a ter características próprias, e a meu ver são estas características que devem determinar o grau de exigência adequado para a avaliação das dissertações. No caso das ciências humanas, e em especial da Psicologia, é a natureza da pesquisa e os problemas específicos que ela apresenta que devem ser considerados, sob pena de legislarmos para condições quiméricas e não para a realidade existente.
Quais são as condições relevantes? A primeira delas diz respeito ao fato de que o texto da dissertação não é, como nas ciências de laboratório, a apresentação dos resultados de uma pesquisa realizada exteriormente à sua redação. Uma fórmula de duas linhas, num texto de química, pode expressar de modo condensado correlações minuciosa e criteriosamente estabelecidas por experimentos de laboratório; ora, isto é impossível na área em que nós trabalhamos. O texto da dissertação pode ter referentes externos, por exemplo a clínica, ou fenômenos sociais, ou outros textos: mas ele deve construir seu universo de significações em ato, partindo da descrição por escrito e por extenso daquilo que será discutido. A construção do problema ocupa portanto um espaço considerável nas dissertações, e este espaço não pode ser excessivamente subdimensionado, sob pena de superficialidade ou de ininteligibilidade do texto.
Esta é uma questão central. Os alunos de nossos cursos - psicanalistas ou não - não estão habituados a este tipo de trabalho, nem à redação de um texto de maior fôlego, que nada tem em comum com os trabalhos escolares ou com os artigos e comunicações que possam ter apresentado anteriormente. Em sua maioria, enfrentam problemas consideráveis já no nível da escrita, arte para a qual não foram preparados e cujas regras elementares lhes são no mais das vezes desconhecidas. O doloroso aprendizado da escrita é um dos percalços mais significativos que o estudante encontra na Pós-Graduação, e uma das funções essenciais do mestrado é proporcionar-lhe a oportunidade de aprender a escrever em português. Esta tarefa deveria talvez ser realizada pelo curso primário, mas não o é – nem pelo secundário, e na maioria das vezes tampouco pelo curso superior. Diante deste fato bruto, nu e cru, o mestrado assume um valor fundamental: ele é ao mesmo tempo o locus de dois aprendizados, o da escrita e o da pesquisa.
Aprendizado da pesquisa, sim, porque esta é outra grande ausente da formação dos nossos alunos. Pesquisa significa aqui identificar um problema, armá-lo com os instrumentos conceituais adequados, trabalhar com a literatura pertinente, e procurar resolvê-lo, ou ao menos avançar na sua formulação. O jovem pesquisador – jovem independentemente da sua idade cronológica e da sua experiência profissional, porque esta é quase sempre a sua primeira pesquisa – encontra-se diante de uma tarefa hercúlea. Ele necessita mais do que ler e refletir: necessita adquirir o que Kant chamava de Urteilskraft, a capacidade de julgar. A todo momento, da elaboração do projeto à seleção da bibliografia, da arquitetura da dissertação à análise do material, o que o pesquisador faz não é somente buscar informações empíricas ou teóricas: ele é chamado a decidir se e por que elas são relevantes para seu tema. Evidentemente, conta com o auxílio do orientador, mas este não pode realizar o trabalho que compete ao mestrando. A aquisição desta capacidade é um processo lento, difícil, de certa forma anti-natural, que exige esforço, concentração e tenacidade por parte do estudante: muitas são as situações de frustração e mesmo de desespero, quando a meta parece inalcançável com os recursos de que dispõe (3).
A redação da dissertação é, por este motivo, uma experiência transformadora cujo valor dificilmente pode ser exagerado. Ela induz a um amadurecimento acelerado do estudante, confrontado com a tripla tarefa de montar seu problema, de formular uma tese que equivale à sua solução ou à sua elaboração, e de expor todo este movimento na forma de uma prosa científica de padrão aceitável. Neste processo, a capacidade de discriminação intelectual melhora consideravelmente; aprende-se a criticar de modo consistente as posições contrárias à proposta a ser defendida, a montar um argumento e a seguir suas implicações, a selecionar exemplos congruentes com os argumentos, e, last but not least, a expressar idéias de modo razoavelmente claro e organizado. Estes resultados positivos dependem, como é óbvio, de um padrão de exigência que, sem ser inatingível, não seja por outro lado trivial. E é justamente contra a trivialização do mestrado que estou argumentando: seria absurdo privar o estudante da oportunidade de adquirir ou de aprimorar sua condição de pesquisador, rebaixando e banalizando o nível esperado de sua dissertação.
Por que esta função deve permanecer vinculada ao nível do mestrado? Porque, se ela for atribuída ao doutorado – o que viria a ocorrer, caso a dissertação de mestrado fosse relegada ao nível de um "artigo mais extenso" – os prejuízos seriam enormes. Em primeiro lugar, do doutorado deve-se esperar alguma originalidade, uma contribuição relevante ao campo de trabalho. O mestrado também deve ser uma contribuição, mas não vejo por que exigir dele originalidade no sentido forte da palavra. As dificuldades que descrevi, e que são o pão cotidiano dos mestrandos, não precisam ser acrescidas desta outra, ao menos nesta primeira pesquisa. Em segundo lugar, o doutorado traz consigo a habilitação para formar outros pesquisadores – doutores orientam, mestres não – e isto já é sério demais para que se pense em conceder tal habilitação a quem realizou apenas uma pesquisa de algum fôlego. O doutorado deve permanecer como um grau segundo, não necessariamente ao alcance de todos os que escrevem um mestrado; ele implica em avaliar uma vocação de pesquisa e de ensino que não é justo nem possível exigir de todos os que se inscrevem numa Pós-Graduação.
Por estes motivos, penso que o mestrado deve continuar como uma etapa marcante na vida acadêmica, e que sua especificidade deve ser respeitada. Suas páginas não estarão preenchidas com resumos ou com digressões desnecessárias, mas com a construção, com a exposição e com o desenvolvimento até onde for possível de uma questão, seguida em suas raízes e em suas ramificações, ilustrada com material clínico, empírico ou retirado de obras da cultura em quantidade e diversidade adequadas ao escopo do trabalho, referenciada ao estado da bibliografia – e sobretudo pensada até onde o autor tiver condições de fazê-lo, com a ajuda do seu orientador. Este é o padrão que, em meu entender, deve-se exigir de uma dissertação de mestrado. Ele não é impossível de ser atingido; muito pelo contrário, há numerosos exemplos de trabalhos excelentes que o materializam das mais variadas formas.
Escrever um trabalho deste gênero demanda tempo, esforço e investimento, eventualmente investimento público sob a forma de bolsas aos alunos e de financiamentos aos programas que os acolhem. Este dinheiro não é desperdiçado, mas certamente o será se for aplicado em atividades que não resultem nos primeiros passos da formação de um verdadeiro pesquisador. Por isto, a dissertação de mestrado deve continuar a ser um texto de fôlego, sem que dele se espere a cada vez um ovo de Colombo, mas amplo o suficiente para permitir que, ao redigi-lo, o estudante possa adquirir ou aprimorar (se já dispuser delas) as capacidades de raciocínio, de discriminação e de expressão sem as quais não seria legítimo considerá-lo como um pesquisador – iniciante, mas capaz, se assim o desejar, de ir além.
A função do orientador
Para realizar sua pesquisa e transformá-la numa tese, o estudante de Pós-Graduação conta obrigatoriamente com um orientador. Esta figura inexiste no âmbito da formação do analista tomada em sentido estrito, e só longinquamente se aparenta à do supervisor clínico. Com efeito, o orientador intervém no trabalho intelectual do orientando de forma mais direta e mais específica do que o supervisor no trabalho clínico de seu supervisionando. Há várias maneiras e estilos de orientar; aqui posso falar apenas em nome próprio, buscando extrair de uma prática já bastante extensa algumas características e, se possível, alguns ensinamentos.
Trata-se de um trabalho gratificante, porém extremamente espinhoso. O orientador tem um poder real de crítica e de veto, que lhe é conferido pela instituição universitária e aceito pelo orientando como parte do "contrato". Esta posição de autoridade, administrativamente legítima, costuma ser ainda mais enfatizada pela autoridade intelectual, dado que o orientador é de fato mais experiente na área da pesquisa do que o orientando (defendeu pelo menos um mestrado e um doutorado, e muitas vezes tem um currículo respeitável em termos de publicações). Temos aqui, portanto, uma combinação potencialmente explosiva de poder real e de idealização, de respeito bem fundado pelas realizações do orientador – que, ao menos na superfície, justificam a escolha dele pelo orientando – e de um novelo de fantasias extraordinariamente complexo. Nele podemos discernir condensações entre a figura empírica do professor escolhido e as imagos infantis do aluno que o escolheu; sentimentos de rivalidade e de inferioridade encontram-se mesclados a outros, de gratidão ou de admiração; há a expectativa de ser estimulado, aprovado e amado, juntamente com ansiedades de tipo persecutório – enfim, um coquetel em larga medida inconsciente e cujos ingredientes vão muito além do simples pedido de ajuda para executar uma tarefa difícil.
O fato é que se trata de uma relação sui generis, de grande intimidade por um lado e de necessária distância por outro; às vezes o orientador é o ombro amigo, às vezes o confidente das divagações do orientando; às vezes precisa ser firme e restaurar a disciplina da pesquisa – mas é sempre o interlocutor privilegiado, o primeiro leitor de escritos que significam bastante para seus autores e sobre cujo valor estes têm dúvidas muitas vezes justificadas. O tato e a capacidade de julgamento são as qualidades requeridas deste personagem, bem mais do que o conhecimento do assunto específico sobre o qual versa a pesquisa do orientando, embora este tampouco possa ser excessivamente pequeno. Tato quer dizer aqui possibilidade de avaliar quais críticas podem ser ouvidas pelo aluno, e quais outras teriam o efeito de desestimulá-lo ou de humilhá-lo.
Por todos estes motivos, o trabalho do orientador se desenvolve sempre sobre uma estreita faixa de manobra. Um bom guia para realizá-lo é manter em mente que o orientando deve ser auxiliado a desenvolver as suas idéias, a realizar a sua pesquisa, e não aquela que o orientador produziria se estivesse estudando o mesmo tema. Uma primeira etapa, ao menos em minha experiência, costuma ser a de pensar com o orientando qual o caminho geral que a tese deve tomar, que leituras são adequadas, em qual campo da teoria convém se apoiar para fundamentar e contextualizar o problema a ser investigado, se e de que modo a experiência clínica deve estar presente – casos completos ou fragmentos? casos próprios ou da literatura? – ou seja, desenhar algo equivalente à planta geral da construção, antes mesmo de qualquer texto escrito, ou, por vezes, com base num projeto que nesta fase é geralmente ainda vago e indeterminado.
Em seguida, vem a redação propriamente dita, capítulo por capítulo, e não necessariamente na ordem em que constarão na versão definitiva. Aqui o trabalho consiste em ler e corrigir, apontando os trechos bem feitos e os que apresentam problemas, quer de conceituação, quer de argumentação, quer de estilo. É o momento do tato, sobre o qual falei acima, pois cada caso é um caso: há alunos que entregam textos muito bons, e outros que precisam de uma crítica mais precisa e detalhada.
Neste vaivém, chega-se à etapa da qualificação, para a qual costumo propor que o aluno apresente um texto contendo o plano geral da tese, mais ou menos um terço dela em versão razoavelmente avançada, e indicações claras sobre como pretende desenvolver as partes apenas esboçadas. A finalidade deste critério é simples de compreender: os membros da banca de qualificação precisam poder formar uma idéia clara do o que o aluno quer fazer, e de sua capacidade para fazê-lo (daí a exigência de um trecho grande já semelhante ao que deverá ser quando pronto); mas o mesmo tempo, para que as críticas e sugestões possam ser aproveitadas, o trabalho não pode estar tão adiantado que mexer nele implicasse desfigurá-lo ou fazê-lo de novo. Mantendo a metáfora da construção, o exame de qualificação é como a visita a uma obra na qual já se ergueram as paredes e se colocou o telhado, sabe-se que em parte está a cozinha e onde ficam os quartos de dormir, mas ainda falta colocar o piso, os azulejos e a pintura. O exame de qualificação costuma ser, no Programa de Psicologia Clínica da PUC/SP, uma ocasião para que leitores atentos avaliem o trabalho em curso, apontem eventuais méritos e inconsistências, façam reparos, indiquem bibliografia útil, etc. – e isto num clima informal, tanto quanto possível respeitoso e não-persecutório.
A dimensão pública
Realizada a qualificação, o aluno está na reta final do seu trabalho. Mais alguns meses, e chegará à defesa pública, último vestígio do caráter medieval da instituição universitária. A solenidade da cerimônia evoca aquelas em que se armavam os cavaleiros andantes ou se admitia na corporação de ofício um novo membro: certamente há algo disso no ritual da defesa de tese, já que, após sua conclusão, o candidato se torna membro de uma confraria, a dos mestres ou doutores, com os direitos e prerrogativas a ela atinentes. O caráter público da defesa incorpora ainda uma outra tradição, esta iluminista: a do "uso público da razão", como dizia Kant, para argumentar e fundamentar um ponto de vista – uso que, a rigor, remonta à praça em que primeiro os gregos e depois os habitantes das cidades da Itália renascentista debatiam seus problemas e questões.
A apresentação e a discussão dos resultados da pesquisa, no momento da defesa, é muitas vezes a primeira etapa da sua divulgação, que pode tomar depois a forma de um livro ou de artigos em revistas especializadas. A sólida implantação da Psicanálise no sistema nacional de Pós-Graduação trouxe consigo uma importante mudança na paisagem editorial desta disciplina: se há dez ou doze anos a grande maioria dos livros psicanalíticos disponíveis em português era formada por traduções, atualmente uma boa parte deles é de autores brasileiros. Existem duas categorias de livros em disciplinas como as nossas: os de um único autor e as coletâneas, que por sua vez podem ser reuniões de trabalhos de um mesmo pesquisador ou enfeixar contribuições de diversos autores, por exemplo participantes de um colóquio sobre determinado tema. Em ambas as categorias, o material originado na e pela Universidade comparece em proporção importante, certamente com mais da metade do que se publica atualmente.
Cabe aqui uma observação: ao classificar a produção de um autor ou de um programa de pós-graduação, as agências de fomento à pesquisa costumam avaliar como mais importante a publicação de um artigo em revista (de preferência estrangeira) do que a publicação de um livro. No que se refere a disciplinas como a Psicanálise, trata-se de um equívoco grave, que falseia por completo a avaliação. Nas ciências exatas ou biológicas, produção e circulação do conhecimento são por natureza dinâmicas: nelas, o saber avança em geral através de resultados muito específicos e parciais, obtidos por experimentos dos quais interessa a todos tomar conhecimento o quanto antes, porque servem de base para outros trabalhos. A agilidade do formato revista, passível de ser publicada até semanalmente (por exemplo o New England Journal of Medicine e outras revistas médicas), ou, quando muito, quarterly (trimestralmente), é condizente com as necessidades e características do campo. Como as novidades são muitas e rapidamente se incorporam ao acervo dos pesquisadores da área, só raramente se justifica a publicação de um livro que não seja um textbook ou anais de congressos.
Já as disciplinas humanísticas freqüentemente obtêm seus conhecimentos através do estudo aprofundado de situações ou de obras específicas; esta especificidade tem um valor próprio, porque é através dela (e não apesar dela) que se podem vislumbrar aspectos mais gerais. Dito de outra forma, as disciplinas exatas ou biológicas estudam o que há de universal em seus objetos de pesquisa: tanto faz utilizar esta ou aquela parcela de sangue deste ou daquele macaco para estabelecer a diferença entre os fatores Rh positivo e negativo. Nada de semelhante ocorre na teoria literária, na qual a categoria "romance realista" só pode ser construída através do estudo de obras singulares; para tanto, L’Assomoir de Zola não é nem mais nem menos importante do que O Cortiço de Aluísio Azevedo, e certamente não é possível substituir um pelo outro, porque cada um deles apresenta interesse intrínseco. Por este motivo, os estudos deste gênero perdem pouco de sua atualidade, e lhes convém o formato livro, mais perene e mais acessível do que o formato revista, apesar do tempo e do custo maiores para ser escrito e publicado. Ainda que muitas obras destas disciplinas consistam em reuniões de artigos e conferências, o padrão universal é o texto monotemático e uniautoral, e a prova disto é que décadas após sua primeira edição continuam a ser consultadas e citadas, o que é bem mais raro nas áreas exatas e biológicas. A Dupla Hélice de Watson e Crick é aproximadamente contemporânea de Tristes Trópicos de Lévi-Strauss: este é ainda uma referência indispensável para os antropólogos, enquanto o interesse do primeiro é apenas histórico.
É isto que explica o fato de que trabalhos psicanalíticos de origem universitária venham sendo cada vez mais objeto de interesse por parte das editoras, que neles vêem uma fonte preciosa de bons originais. Não disponho de números exatos, mas uma visita a qualquer livraria comprovará facilmente que uma fração significativa - provavelmente sessenta por cento ou mais – dos livros de Psicanálise atualmente editados no Brasil são fruto de pesquisas realizadas nos diferentes cursos de Pós-Graduação. A título meramente informativo, um terço das teses que eu mesmo orientei na PUC/SP já saiu em forma de livro: sinal de que seu conteúdo não interessa apenas aos autores e a seus amigos, pois, se assim fosse, ninguém investiria seu capital para as editar, e elas permaneceriam gloriosamente entregues ao que Marx chamou certa vez de "crítica roedora das ratazanas".
Os temas
Sobre o que escrevem os psicanalistas na Pós-Graduação? A título meramente indicativo, procedi a um levantamento das teses defendidas por meus alunos desde 1986 (4). Elas se distribuem em algumas grandes categorias, que pode ser útil descrever com algum pormenor:
I - Teses predominantemente teóricas, focalizando em especial questões metapsicológicas:
Miriam Debieux Vargas, "Parece uma mancha de tinta: o Rorschach e a Psicanálise" (1986);
Arthur Gonçalves, "O conceito de Eros como pulsão de amor no pensamento de Freud" (1986);
Maria Claudia Tedeschi Vieira, "O narcisismo: estruturas e manifestações clínicas" (1990);
Bernardo Tanis, "Memória e temporalidade: um estudo sobre o infantil em Psicanálise" (1993);
Nelson Coelho Jr, "A força da realidade na clínica freudiana" (1994);
Felipe Lessa da Fonseca, "O pesadelo nas tranças da censura" (1998);
Luís Alberto Hanns, "As pulsões na obra de Freud e na técnica psicanalítica" (1998);
Wilson Klain, "A herança do desamparo na gênese da identidade" (1999).
II - Teses sobre questões de psicopatologia e sobre fenômenos específicos a certos grupos:
Marisa Cintra Bortoletto, "A condição feminina na maternidade" (1991);
Carmen Foot Guimarães, "Estudo preliminar das fantasias que conduzem o homem à vasectomia" (1991);
Maria Lúcia Violante, "A potencialidade melancólica" (1992);
Ana Cleide Guedes Moreira, "A depressão em Freud e em Conrad Stein" (1992);
Suzanne Robell, "Anorexia nervosa e os limites do seu tratamento" (1996);
Delia Catullo de Goldfarb, "Corpo, tempo e envelhecimento" (1997);
Valéria Yida, "O gozo do sintoma" (1998);
Cassandra França, "Ejaculação precoce e disfunção erétil: uma abordagem psicanalítica" (2000);
Elisa Maria de Ulhoa Cintra, "A depressão" (2000).
III - Teses sobre fatores operantes no processo terapêutico:
Maria Luíza d’Ávila Pereira, "Da angústia, ou de quando indicar análise a uma criança" (1987);
Sarah Plotnik Yaroslavsky, "Como chegar a ser o que se é" (1990);
Lilian Darzé Goes, "O amor na transferência" (1992);
Myriam Uchitel, "Além da interpretação" (1995);
Helena Kon Rosenfeld, "Palavra pescando não-palavra: a metáfora na interpretação psicanalítica" (1996);
Paulina Cymrot, "Elaboração psíquica" (1996);
Mauro Pergaminik Meiches, "A travessia do trágico em psicanálise" (1998);
Joyce Kacelnik, "Psicanálise em língua estrangeira" (1998);
Eliana Borges Pereira Leite, "A figuração na teoria psicanalítica" (1998);
André Gaiarsa, "O entre: a objetividade da subjetividade" (2000);
Camila Pedral Sampaio, "A literatura na gênese da interpretação psicanalítica" (2000)
IV - Teses sobre a atividade terapêutica em âmbito institucional:
Teresinha Maria Gonçalves, "Estereotipia na relação paciente-terapeuta em uma instituição psiquiátrica" (1989);
Katia Albuquerque, "Impasses na comunicação com o psicótico" (1995);
Rubens Hazov Coura, "A Psicanálise no hospital geral" (1995);
Yanina Otsuka Stasevskas, "Contar histórias no hospital-dia do Butantã: a circulação do sentido e o efeito da palavra" (1998);
Juliana dos Santos Ruiz, "A Aids e suas representações" (2000);
Rúbia Mara dos Santos Nascimento, "A vontade de não saber: reações emocionais ao câncer de mama" (2000);
Claudio Mello Wagner, "A transferência em Freud e em Reich" (2000).
V - Teses sobre a interface psique/sociedade, em esferas como a educação geral ou específica, a prática política, a ideologia da juventude, etc.:
César Augusto de Oliveira, "Adolescentes reagentes: identificação e amor fanático" (1989);
Maria Cecília Pereira da Silva, "A paixão de formar" (1991);
Maria Auxiliadora da Cunha Arantes, "Pacto re-velado: abordagem psicanalítica de fragmentos da vida militante clandestina" (1993);
Adriana Rangel, "Diamba, prazer e poder" (1994);
Sandra Maria da Silva Costa, "Pulsão de morte: possibilidades de rastreamento no crime e na clínica" (1996);
Márcia Neder Bacha, "Psicanálise e educação: laços refeitos" (1996);
Eliane Kogut, "O uso do cinema no ensino da psicanálise" (2000).
VI - Teses sobre obras ou práticas artísticas e suas raízes pulsionais:
Mauro P. Meiches, "Psicanálise e teatro: uma pulsionalidade espetacular" (1992);
Ana Maria Lino Rocha, "Escolha da paixão: o caso de Camille Claudel" (1997).
VII - Teses sobre autores ou momentos importantes da história da Psicanálise:
Elisa Maria de Ulhoa Cintra, "Os primeiros trabalhos de Melanie Klein: 1919-1926" (1992);
Claudio Mello Wagner, "Freud e Reich: continuidade ou ruptura?" (1994);
Cristiane Sammarone, "A implantação do movimento lacaniano em São Paulo" (2000).
Esta simples relação dá o que pensar. Antes de mais nada, impressiona a variedade dos temas: do estudo aprofundado de uma história de vida (Camille Claudel) à análise de fenômenos que afetam em especial um determinado grupo, selecionado por faixa etária (adolescentes, pessoas idosas) ou por alguma condição comum (militantes políticos clandestinos, mães, homens vasectomizados, consumidores de drogas, pacientes terminais, mulheres com câncer de mama). Algumas teses se detêm em conceitos centrais da teoria psicanalítica (narcisismo, angústia, pulsões, o infantil, o estudo da realidade psíquica e material); outras focalizam aspectos da prática clínica, do lado do analista (critérios para indicação de análise, impasses na condução de um tratamento, a gênese da interpretação), ou do lado do paciente (transferência, adesão ao sintoma, elaboração psíquica, dificuldades de análise numa língua que não a materna, a dimensão trágica). Há trabalhos sobre relações socialmente determinadas (professor/aluno, médico/paciente), sobre diversas estruturas e manifestações psicopatológicas (depressão, anorexia, disfunções eréteis), sobre psicanálise com crianças e psicóticos, sobre a atividade terapêutica em instituições (hospital geral, hospital psiquiátrico, hospital-dia, prisão). Encontramos textos de Psicanálise aplicada à cultura (teatro, cinema, literatura), outros sobre autores importantes (Klein, Reich), outros ainda sobre momentos significativos da história da psicanálise (a ruptura entre Reich e Freud, o debate entre Freud e Rank, a implantação do movimento lacaniano em São Paulo). Naturalmente, não é possível falar em detalhe de cada dissertação; limitar-me-ei a ressaltar certos aspectos gerais, que me parecem importantes, e a ilustrá-los com referências a um ou outro trabalho, sobretudo os já publicados.
Teses de psicanálise stricto sensu
Uma opinião que se ouve com freqüência é que teses acadêmicas em Psicanálise podem ser úteis para esclarecer questões teóricas, supostamente mais apropriadas à vocação da Universidade, porém pouco acrescentariam do ponto de vista clínico. Nada mais distante da realidade! Boa parte dos trabalhos que tive ocasião de orientar tratam de questões "psicanalíticas" no sentido mais convencional, isto é, de problemas que se colocam para o analista na sua atividade cotidiana: diagnóstico, interpretação, transferência, resistência. elaboração – em suma, o processo analítico em suas várias dimensões.
Tais textos são psicanalíticos no sentido mais estrito: poderiam perfeitamente ser apresentados nas associações psicanalíticas como trabalhos para obter algum título, ou como relatórios de base para congressos. Que tenham sido elaborados na Universidade, obedecendo às regras próprias desta instituição, não lhes retira o caráter psicanalítico: antes o acentua, porque as exigências de rigor e de qualidade a que me referi atrás obrigam o pesquisador a ir fundo no seu tema, a colocar questões relevantes, e a explorá-las tanto na dimensão conceitual quanto naquela propriamente clínica. Aliás, se do ponto de vista das exigências da Pós-Graduação o analista típico é um amador, freqüentemente inseguro e hesitante (ao menos nas fases iniciais do curso), quando se trata da sua prática ele é um profissional. Sabe do que está falando; sua dificuldade não se encontra no plano da prática – se estiver, procurará um supervisor, não um orientador – e sim na transposição do acontecer clínico para o plano da escrita narrativa e reflexiva. Superada esta dificuldade, a redação da tese se revela como excelente oportunidade para pensar a clínica a partir de um recorte específico. Alguns exemplos, creio, farão com que o leitor tenha uma idéia mais clara de por que penso assim.
Em Além da Interpretação (5) , Myriam Uchitel se situa na intersecção da prática e da teoria, a partir de uma constatação que certamente terá sido feita por mais de um psicanalista: nem sempre a interpretação que tudo indica ser correta produz o efeito que dela se espera, a saber uma mudança na economia psíquica capaz de se traduzir por um alívio do sofrimento, por um insight ou pela resolução de um conflito. Situação constrangedora, que obriga a refletir sobre a própria natureza do psíquico, em sua dependência das pulsões e da simbolização; e a penetrar na essência do ato analítico, que em geral se materializa na interpretação, mas que pode se situar aquém ou além dela, na tentativa de atingir o que se mantém em regime de repetição cega, infenso a intervenções mais tradicionais.
Um primeiro momento da pesquisa apresenta uma retrospectiva da evolução da técnica psicanalítica, acompanhando as rupturas conceituais que irão possibilitar a emergência e a consolidação do método interpretativo. No momento seguinte, examina-se a idéia de interpretação – recurso por excelência da prática analítica – a fim de delimitar seu alcance, e apontar assim para o que poderiam ser os seus limites. Por último, partindo de fragmentos clínicos, são ilustrados alguns momentos de impasse no trabalho analítico. Solidamente apoiada em sua experiência clínica e num amplo conhecimento da literatura psicanalítica, a autora busca construir um esquema de referência capaz de fundamentar este outro tipo de intervenção, e demonstrar seu argumento central: "o limite da interpretação não é o limite da análise".
Se a tese de Myriam Uchitel se concentra no problema da eficácia da interpretação – eventualmente nula, dependendo das condições transferenciais ou da estrutura defensiva do paciente – outros trabalhos focalizam o processo que, no analista, conduzem à formulação da interpretação. Neste processo, misto de primário e secundário, têm especial relevo a metáfora, a figuração e as reminiscências literárias, trabalhadas respectivamente por Helena Kon Rosenfeld, Eliana Borges Pereira Leite e Camila Pedral Sampaio. Helena constrói seu texto (6) a partir de uma convicção que só é formulada por extenso no final dele: "a experiência psicanalítica tem uma afinidade com a experiência estética e poética: é um tornar-se outro, perder-se no outro e reencontrar-se consigo mesmo." Esta idéia, na verdade, orienta desde o início o desenvolvimento do texto. E não sem razão: se muitos foram os que assinalaram o parentesco entre a Psicanálise e certos processos artísticos (a começar por Freud, na Gradiva), a originalidade deste livro consiste em tomar o problema pelo avesso, e tentar investigar certas facetas da experiência psicanalítica a partir da Estética. Diálogo que implica ponderar, a cada passo, os riscos de fundir um no outro os dois campos em presença; que exige portanto fineza na análise e uma clara consciência de "até onde se pode ir longe demais", para usar uma expressão consagrada entre os franceses. Helena sai-se muito bem deste desafio. Seu texto, límpido e fluente, revela uma psicanalista sensível às ressonâncias tanto das palavras quanto dos afetos, e uma prosadora talentosa, que sabe dosar os argumentos e as imagens, os ritmos e as idéias."
Esta característica se reencontra nas teses – por enquanto inéditas – de Eliana e de Camila: a impregnação pela literatura parece produzir textos que se lêem com facilidade e prazer, ricos em achados verbais, construídos com cuidado e com elegância. A tese de Eliana – "A Figuração na Teoria Psicanalítica" (7)– apóia-se nas pesquisas de Pierre Fédida sobre a função da figura na linguagem e no sonho, e num estudo pouco conhecido de Erich Auerbach sobre o próprio termo latino figura e suas vicissitudes. Já a de Camila (8) propõe a idéia de uma "terceira margem da escuta" (imagem tirada da freqüentação de Guimarães Rosa) como horizonte no qual se inscreve a atividade associativa do psicanalista. E se alguém julgasse que as referências literárias nestes três trabalhos são apenas ornamentais, mascarando com miçangas eruditas a eventual pobreza da escuta "propriamente clínica", estaria redondamente enganado: os argumentos são entremeados por relatos clínicos extensos e detalhados, que servem simultaneamente como ponto de partida para formular as questões e como ilustração das teses sustentadas.
Ainda sobre o processo analítico, podemos tomar como exemplo o livro de Bernardo Tanis, que trata da presença do infantil na transferência (9). Aqui, outra referência literária captura em poucas palavras o essencial do argumento: "sem as pedras, o arco da ponte não existe." A resposta de Marco Polo ao Grande Khan, em As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, vale como metáfora para muitos aspectos da Psicanálise – a delicada arquitetura do aparelho psíquico, o mosaico dos padrões transferenciais, e aquilo que ambos comportam não só de estrutura fixa, mas também de possibilidades para o movimento e para a travessia. Ao escolher como epígrafe a frase do viajante veneziano, Bernardo Tanis nos dá a entender que os traços deixados pelo processo de construção sustentam a configuração atual da obra, ainda que, no caso das pontes psíquicas, a obra continue a ser edificada durante toda a existência do arquiteto, que é igualmente a sua própria construção.
Nesse contexto, a noção de "infantil" ocupa uma posição privilegiada. Sem se confundir com o que nos aconteceu quando éramos pequenos, nem com os comportamentos pueris do adulto, ela é uma invenção original de Freud, que cunhou na língua alemã o termo das Infantile. O infantil resulta da inscrição no psiquismo dos sedimentos daquilo que nos é dado viver na aurora da existência; por isso, circunscrever sua esfera implica considerar a realidade e a fantasia, os traumas e as defesas, a temporalidade, a memória ... Para além da metapsicologia, é o infantil que se atualiza na transferência; está portanto no centro do processo analítico, que pode ser compreendido como um trabalho para presentificar e eventualmente modificar o infantil.
Através dos textos de Freud e de autores como Melanie Klein, Ferenczi, Laplanche e Maurice Dayan, Tanis percorre alguns dos meandros mais sinuosos da teoria psicanalítica, norteado sua pela questão central, e sem recuar quando se torna necessário abrir o leque das interrogações para problemas laterais, mas a ela relacionados. Ao longo da trajetória, encontramos Sílvia, Rodrigo, Carla e outros personagens marcantes, que vêm enriquecer a galeria cujos primeiros retratos são os de Dora, Hans e Fritz. Combinando a perícia no manejo dos conceitos com um bem-vindo talento para a narrativa clínica, o autor nos faz adentrar o espaço no qual um analista trabalha e pensa: o resultado é um texto claro sem prejuízo da densidade, bem armado e bem escrito.
Da clínica com crianças provém um outro trabalho, a de Maria Lúcia Vieira Violante, que atendeu pacientes da clínica do Instituto Sedes Sapientiae (10). Sua atenção foi despertada por um fato intrigante, a cuja elucidação é dedicada a tese. Não é raro que, frente a uma situação de abandono precoce ou de insuficiência grave na qualidade do amor materno, a criança reaja de modo peculiar: sem desenvolver uma melancolia completa, estrutura-se na forma a que a autora denomina "potencialidade melancólica". A construção deste conceito - contribuição original à psicopatologia psicanalítica - é realizada passo a passo no decorrer do texto. Apoiando-se no pensamento de Piera Aulagnier e no confronto com as idéias de Freud sobre o narcisismo, Maria Lúcia associa o rigor teórico à sensibilidade clínica e à preocupação com a realidade social e familiar que cerca seus pequenos pacientes. Pois é na cena da realidade que ocorrem aquelas condições, excessivamente onerosas para o equilíbrio narcísico, cuja conseqüência é a "desqualificação do narcisismo infantil". Entre estas condições, a miséria e a violência ocupam lugar de destaque, sem que no entanto possam ser tidas por responsáveis diretas pela potencialidade melancólica, que não é um "sintoma social".
Para fundamentar suas idéias, Maria Lúcia recorre às teorias de Piera Aulagnier, objeto de uma ampla exposição em seu livro. Não é raro, aliás, que em sua pesquisa o mestrando ou orientando se deparem com um autor contemporâneo cujas concepções se adaptam bem ao problema que desejam pensar: é o caso de Maurice Dayan para Bernardo Tanis, de Melanie Klein e Claude Le Guen para Rúbia Nascimento, de Piera Aulagnier para Maria Lúcia Violante, de Fédida para Eliana Pereira, de Sophie de Mijolla-Mellor para Marcia Neder Bacha, etc. Tenho estimulado meus orientandos a incluir na tese uma apresentação do pensamento do autor que se converteu em seu interlocutor privilegiado, com o que ganham eles - na compreensão dos conceitos com que vão trabalhar - e o leitor - ao tomar ou retomar contato com idéias instigantes, e de pronto poder perceber o valor de que se revestem para a clínica de alguém naturalmente mais próximo de si, como é o caso de um brasileiro redigindo sua tese neste momento e neste lugar.
Na sua maioria, devido à minha própria formação, estes autores-chave são franceses; mas nem sempre. Em seu estudo sobre a elaboração psíquica (11), Paulina Cymrot aborda este conceito central para a teoria da técnica – e este processo central para o êxito de uma terapia – a partir de uma ótica mais inglesa. Rastreia-o nas obras de Freud, Melanie Klein e Bion, mostrando toda a sua fecundidade. A elaboração é aquilo que compete ao paciente realizar para que o objetivo de uma análise possa ser atingido: uma mudança nos padrões da vida emocional, que possa se refletir na qualidade das relações com os outros e com nossos próprios demônios internos. Ilustrado com vinhetas que esboçam tanto momentos de resistência quanto momentos de mutação, este livro - fruto de muitos anos de prática clínica, e de uma paciente análise conceitual – é um dos que melhor demonstram que a pós-graduação, longe de ser antagônica à reflexão clínica, pode ser ao contrário um poderoso auxiliar quando o analista decide falar do que faz sem ter medo de pensar por sua própria conta.
Uma outra tese toma por base uma extensa casuística com pacientes portadores de ejaculação precoce ou impotência: a de Cassandra Pereira França (12). Aqui o problema consistia em, não ignorando a especificidade médica de cada uma destas condições, relacioná-las com a psicopatologia analítica, e verificar por que motivo cada uma destas categorias de pacientes apresenta um comportamento tão diverso em termos de interesse pela psicoterapia. Com efeito, é uma constatação comum que os ejaculadores precoces rapidamente abandonam as sessões, enquanto os acometidos de impotência geralmente permanecem por bastante tempo e têm um prognóstico melhor. Cassandra estabelece diversas subcategorias em cada um destes gêneros, mostrando o papel do narcisismo na constituição das subjetividades respectivas e realizando uma importante contribuição para a psicopatologia, além de abrir uma frente de diálogo com a profissão médica, a quem geralmente permanece restrito o tratamento destes problemas.
Como disse atrás, não seria possível comentar um a um os trabalhos que já tive o privilégio de orientar. Vejamos outros tipos de tese, menos preocupados com o acontecer imediato da clínica, porém não menos interessantes para o analista que deseja enriquecer sua escuta ou sua compreensão da teoria. Da categoria I – teses com foco especial na metapsicologia – um bom exemplo é fornecido pelo texto de Nelson Coelho Jr. sobre o conceito de realidade (13). Esta noção tem, na Psicanálise, um estatuto curioso. Está presente em termos que se tornaram conhecidos para além de suas fronteiras, como "princípio de realidade", "dado de realidade", "prova de realidade", e outros: significa então a cena na qual o sujeito age e sofre a ação dos outros, e na qual encontra tanto um limite para a onipotência dos seus desejos quanto os meios para, justamente, "realizá-los", ou seja, torná-los reais. Freud se referia a esta cena como realidade "exterior", isto é, realidade "material", ou às vezes realidade "histórica." A ela se opõe a realidade psíquica - o universo do inconsciente, dos desejos e das fantasias que o povoam - para sujeito tão ou mais "reais" quanto o que os sentidos percebem do mundo à sua volta. A realidade psíquica é aquilo sobre o que se trabalha na situação analítica, que aliás é um dispositivo calculado para evidenciá-la exatamente através da exclusão sistemática da realidade "exterior".
Esta multiplicidade de acepções é de certo modo desconcertante, até porque a realidade exterior não está tão excluída assim da sessão de análise. Dela fala o paciente em muitas de suas comunicações; condições de tempo e de dinheiro - elementos muito "reais" - circunscrevem o processo terapêutico; a realidade exterior pode irromper no trabalho analítico das mais variadas maneiras, da falta do paciente ou do analista porque o trânsito o impede de chegar ao consultório até as conseqüências dramáticas da guerra, da revolução ou do terrorismo de Estado sobre a evolução de um tratamento.
O livro de Nelson Coelho Jr. defronta-se com esta e com outras questões espinhosas. O levantamento e a classificação dos diversos conceitos freudianos que têm conexão com a idéia de realidade - e são numerosos! - ocupam o primeiro capítulo, fornecendo um inestimável instrumento de pesquisa para todos os estudiosos da obra de Freud. A seguir, o autor se detém no Caso Dora e no Homem dos Ratos, para estudar as diversas maneiras com que a realidade "exterior" intervém na prática freudiana. Por fim, duas situações tiradas de seu próprio trabalho clínico comprovam que o assunto nada tem de "acadêmico"...
Teses de Psicanálise extramuros
Sem forçar a nota, podemos utilizar o "gancho" da realidade para passar às outras categorias que sugeri: com efeito, em todas elas o assunto extrapola as quatro paredes do consultório e se inscreve, de um modo ou de outro, na cena social e cultural. Em primeiro lugar, através de instituições nas quais o analista ocupa um espaço ainda pouco definido, mas que vem se ampliando no nosso país: o de integrante de uma equipe multidisciplinar, encarregada dos cuidados a grupos por vezes numerosos de pacientes. Seja no formato mais tradicional do hospital psiquiátrico, seja sob formas mais flexíveis como a residência abrigada ou o hospital-dia, seja ainda no quadro das interconsultas em um grande hospital geral, aqui o analista se defronta com situações críticas, às vezes gravíssimas, sem dispor da rede de segurança proporcionada pelo setting tradicional.
A tese de Rubens Hazov Coura (14) focaliza a questão pelo ângulo das demandas da equipe de médicos e de enfermeiras, que apelavam ao serviço de interconsulta por ele dirigido na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo quando algum paciente apresentava "problemas emocionais". Com freqüência, como mostra Rubens neste trabalho notável, os "problemas" tinham mais a ver com o emaranhado de transferências da equipe sobre o paciente do que com a eventual "histeria" do próprio paciente. Era preciso portanto trabalhar com a equipe, e, em suma, desarmar as atuações em que ela estava prestes a incorrer, naturalmente "justificadas" pela ética médica e pelo grave estado emocional do paciente...
Outro exemplo das conseqüências acarretadas pelo dramático desconhecimento dos médicos quanto ao funcionamento emocional dos seres humanos, aí se incluindo o seu próprio, é proporcionado pela tese de Rúbia Mara dos Santos Nascimento (15), redigida a partir de sua experiência no meio hospitalar. Tanto na relação das pacientes com a sua doença quanto na relação dos médicos com elas, predomina a cisão como mecanismo de defesa, privilegiado justamente porque permite separar a pessoa da doença, o órgão do corpo, e assim por diante. Já a tese de Yanina Otsuka Stasevskas (16) parte da atividade denominada "roda de histórias", ou seja, da narração de contos provenientes de várias culturas a pacientes psicóticos do hospital-dia do Butantã. Sem ser diretamente uma prática psicoterapêutica, esta atividade produziu uma série de efeitos terapêuticos, favorecendo a circulação da palavra e das fantasias entre os pacientes, possibilitando rearranjos identificatórios e uma melhor percepção das condições gerais da vida humana.
A função do psicanalista numa equipe multidisciplinar que opera em âmbito institucional pode não ser idêntica à sua atividade no consultório, mas guarda com esta relações bastante estreitas: é no fundo a mesma escuta, o mesmo contato direto com o sofrimento psíquico, materializado em pessoas de carne e osso com seus sintomas, defesas, fantasias e transferências.
Se não cabe aqui o emprego do setting clássico, nem por isso deixa de ser indispensável o uso criterioso da sensibilidade clínica, que se concretiza numa intervenção calculada para modificar as relações dinâmicas que organizam uma dada situação. Esta é o horizonte último de todos os trabalhos que investigam questões metapsicológicas, psicopatológicas e ligadas ao processo terapêutico, em consultório ou em instituições, ou seja, as quatro primeiras categorias que mencionei no item "Os temas". As categorias V e VI – teses sobre a interface psique/sociedade, ou sobre obras e práticas artísticas – não comportam esta dimensão, o que justifica considerá-las como sendo de Psicanálise "aplicada".
A diferença entre esta e a Psicanálise stricto sensu não reside no caráter supostamente puro do trabalho clínico, nem na impureza ou bastardia da reflexão psicanalítica a partir de fatos sociais ou de obras da cultura, como se o analista somente pudesse realizar contribuições relevantes escutando pacientes em regime de atenção flutuante. Sem falar na obra de Lacan, boa parte dos escritos de Freud fazem avançar a Psicanálise tomando por tema fenômenos a que Laplanche chamou com o termo muito feliz de extramuros: pense-se na construção do aparelho psíquico na Interpretação dos Sonhos, no estudo da identificação em Psicologia das Massas e Análise do Ego, na análise da consciência moral e dos objetos edipianos em Totem e Tabu, e em outros exemplos que seria ocioso enumerar. Não: a única diferença entre o que faz o analista sentado em sua poltrona e o que faz o mesmo analista sentado à sua mesa de trabalho é que no primeiro caso sua atividade visa tanto à elucidação quanto à transformação do que ocorre entre ele e seu paciente, enquanto no segundo a dimensão prática está ausente – et pour cause, já que a situação não envolve uma dupla e os fenômenos transferenciais mobilizados nela e por ela, mas um pesquisador e um objeto a ser construído a partir de dados empíricos.
Esta afirmação pode soar estranha, porque aproxima a Psicanálise aplicada de outras disciplinas que fazem exatamente a mesma coisa, como a antropologia ou os estudos literários. Para dissipar a estranheza, convém – como no caso das teses cujo horizonte é mais diretamente clínico - deixar de lado as generalidades e examinar um trabalho efetivamente realizado. Para um orientador que, como eu, dedicou-se muito à prática deste gênero de estudos, é curioso que não sejam numerosas as teses que tomem como assunto principal obras ou práticas culturais. Em diversos casos, porém, a ilustração do argumento é feita por meio da análise de um filme ou de um conto: por exemplo, na tese de Lilian Darzé Góes o amor de transferência é estudado em dois contos de Machado de Assis (17), enquanto Ana Cleide Moreira confronta a teoria da depressão com a situação psíquica dos personagens de Ingmar Bergmann em Sonata de Outono (18), e Eliane Kogut se propõe a enriquecer o ensino de conceitos psicanalíticos, como o de perversão, através da discussão de filmes em que seja evidenciada esta organização psicossexual (19).
A rigor, o trabalho de Mauro Meiches sobre o grupo teatral Uzyna-Uzona é o único, até agora, a se debruçar essencialmente sobre um fato cultural em sentido estrito (20). Seu objetivo é "pensar, à luz da teoria das pulsões, uma trajetória que tenta se situar nos limites do código do teatro". Partindo de uma crítica à visão clássica, que pensa a arte no âmbito da sublimação e vê na obra o resultado esteticamente elaborado de um jogo de forças em última análise redutível ao conflito entre as pulsões e o ego, o autor retraça a história do grupo dirigido por José Celso Martinez Corrêa desde a encenação de Roda Viva até o projeto de realizar As Bacantes de Eurípides. Este projeto é então tomado com exemplo de uma situação em que as pulsões estariam em guerra com a linguagem que as enuncia, num regime de transgressão permanente cujo circuito seria a própria obra. Esta, portanto, se situa nos antípodas da estabilidade e da permanência; nas palavras do autor, uma obra deste tipo "tematiza os meios pelos quais opera este destino pulsional [a sublimação, R. M.], reivindicando uma maior proximidade à fonte energética que origina seu substrato.
Ou seja: o modo de presença das pulsões na obra estética não seria, neste caso, a sublimação no sentido de realização parcial e indireta – porque dessexualizada – mas o ímpeto, a mobilidade que lhes é consubstancial. Tese audaciosa, que Mauro vai tecendo em estreito contraponto com a trajetória do grupo de José Celso. Neste movimento, trabalha com documentos, entrevistas, roteiros, relatos de performances (como o "Carnaval do Povo"), e deste material vai retirando os elementos para sustentar sua posição. Com isto, as categorias psicanalíticas – especialmente as de pulsão e de après-coup – são utilizadas para colocar à mostra os lineamentos de um projeto estético de vanguarda, e, ao mesmo tempo, de certo modo conduzidas a um grau máximo de tensão. Revelam-se assim possibilidades implícitas nos próprios conceitos, como que estes se enriquecem e se aprofundam.
Já na categoria V- teses sobre a interface psique/sociedade, por exemplo na educação, na clandestinidade, no processo psicossocial do envelhecimento – a idéia de um sujeito frente a um objeto a ser construído pode parecer esdrúxula. Pois não existem pessoas a serem entrevistadas, e, com elas, não se estará diante de fenômenos bem próximos ao acontecer clínico? A resposta é sim, mas eles não são o objeto da tese. Encarnam o que denominei certa vez o suporte deste objeto, isto é, aquilo através do qual ele se presentifica ao olhar do analista: mas não são o objeto. Esta idéia ficará mais clara se observarmos de perto alguns exemplos.
Primeiramente, o livro de Maria Cecília Pereira da Silva sobre os professores apaixonados (21). Todos nós tivemos, em nossos tempos de escola, professores que nos marcaram. Deles nos lembramos com carinho, porque souberam estimular em nós a capacidade de aprender e o interesse por sua disciplina. A que se deve este efeito mobilizador? Certamente, não apenas ao conhecimento que possuíam da sua matéria. Não é pelo intelecto, mas pelo afeto, que transita a centelha que faz de um professor um grande professor. Como designá-la? Com o nome de paixão, diz Maria Cecília. Qual é a origem desta paixão? Como ela se materializa, a partir daquilo que faz de cada um de nós um ser humano - suas pulsões, suas fantasias, seus desejos, suas ansiedades? Para responder a esta questão, a autora entrevistou alguns professores conhecidos como particularmente "apaixonados". Recolheu suas palavras, seus relatos, suas questões: dissecou estes depoimentos, os fez dizer aquilo que neles se encontrava em estado latente, e construiu um texto instigante, que circula pelos meandros de experiências diversas, porém unidas pelo mesmo impulso e pelo mesmo sopro generoso e acolhedor. O resultado é um trabalho que vai fundo na análise das motivações subjacentes à atividade de ensinar, revelando alguns dos abismos em que se abebera a paixão do professor.
Este é o objeto do trabalho, que foi extraído das entrevistas como o meta precioso da ganga mineral que o envolve. Várias teses colhem deste modo o seu material, através de depoimentos que em seguida são comparados, dobrados uns sobre os outros, disso resultando o recorte do problema.
Num dos trabalhos que orientei, o de Marisa Cintra Bortoletto (22), seis gestantes foram acompanhadas até o parto e por alguns meses depois. A partir deste material empírico, a autora verificou que existiam diversas fantasias sobre o futuro bebê, e procurou correlacioná-las com o que as mulheres relatavam de suas relações com o marido, com sua própria mãe, etc. Para tanto, serviu-se de noções como complexo de Édipo, ansiedades persecutórias e depressivas, e outras que se revelaram úteis para mostrar que determinadas fantasias sobre o bebê encontravam eco em outras, ligadas a outros objetos inconscientes.
Este gênero de pesquisa não pretende a nenhuma validade estatística, até porque isso seria impossível com uma amostra tão pequena e sem qualquer correlação com a distribuição dos sujeitos na população definida. Trata-se de outra coisa: as fantasias descritas e analisadas por Marisa têm um valor exemplar, e o interesse em estudá-las consiste em apontar padrões, estruturas e correlações que, uma vez estabelecidas, podem servir de guia para a percepção de algo equivalente no trabalho clínico. Tornam-se ferramentas para a intelecção de relações relevantes entre conteúdos psíquicos, ou entre estes e os mecanismos responsáveis por sua produção.
Outro exemplo do mesmo tipo de procedimento encontra-se no estudo de Delia Catullo de Goldfarb sobre o envelhecimento (23): entrevistas gravadas e recortadas conduzem à descrição de certas constantes, por outro lado também confirmadas pela literatura, sobre atendimento a pacientes idosos. A partir delas se desenha o objeto: o "tornar-se velho", algo que ultrapassa em larga medida a perda progressiva das capacidades do corpo, porque é igualmente um processo psicológico, que afeta de muitas maneiras a percepção de si, e um processo social, pois velhice significa coisas diferentes em cada época e em cada cultura. A representação usual dos velhos está associada – inclusive por muitos deles – à decrepitude e à inutilidade. Ora, as entrevistas mostram de maneira convincente que estes atributos negativos não estão escritos nas estrelas como decreto dos deuses. Eles podem ser contestados, e muitas vezes o são - tanto pelos próprios velhos quanto por aqueles que trabalham com esta faixa etária: psicólogos, gerontologistas, assistentes sociais, enfermeiros, membros das próprias famílias...
A autora investiga questões como a imagem do corpo, o narcisismo, as tendências depressivas e auto-destrutivas, a representação do tempo, a plasticidade psíquica; e do seu texto emerge uma visão segundo a qual a consciência da finitude, do "pouco tempo que resta", não precisa necessariamente trazer consigo tristeza, paralisia e fechamento. Com exemplos e com idéias, mostra como a vivência da velhice depende também, e principalmente, da maneira pela qual a pessoa lida com as perdas, conserva ou amplia seus investimentos afetivos, participa ativamente no meio em que vive.
Se o livro de Delia se baseia em sua experiência como terapeuta de pessoas idosas, o de Maria Auxiliadora da Cunha Arantes elabora no plano do conceito uma vivência pessoal extremamente penosa: a da clandestinidade política (24). A autora participou de movimentos de resistência à ditadura, e quis falar disso, de um medo diferente do que seria o caso num simples depoimento. Colheu relatos de companheiros que viveram na mesma situação. Mas o tipo de material coletado colocava uma dificuldade precisa: com tudo o que envolve muito sofrimento e suscita identificações fortes no leitor, a tese corria o risco de ganhar um tom patético, enfatizando a dimensão emocional em prejuízo do aspecto propriamente analítico. Durante um certo tempo, orientanda e orientador patinamos nesta dificuldade - não havia meio de fazer, dessas histórias comoventes, uma pesquisa em psicanálise.
Como Maria Auxiliadora saiu deste impasse? Dos relatos de sofrimento emergia uma impressão: era muito difícil para essas pessoas manterem-se fiéis a elas mesmas, porque, se um militante estava atuando clandestinamente como operário numa fábrica, não podia de modo algum demonstrar que na verdade era um intelectual de classe média – e ele poderia se auto-denunciar pelo vocabulário, pela maneira de sentar, pela maneira de segurar o copo de cerveja. Essas pessoas tinham então que aprender a ser outras. O custo psíquico desta tarefa, nada fácil, ressaltava claramente nos depoimentos.
A transformação da impressão ainda vaga num objeto viável de estudo passou pela sua reformulação em termos de narcisismo: o que estava sendo afetado por aquela experiência era o narcisismo daquelas pessoas. Disso surge um problema: como, em condições tão difíceis, elas mantiveram uma relativa integridade narcísica? Aqui a literatura sobre o que Maurice Blanchot denominou "situações limite" poderia ser útil, pois em condições excessivamente traumáticas ou estressantes o ser humano desenvolve recursos de autodefesa surpreendentes. Uma vez identificado o problema, Maria Auxiliadora voltou ao material coletado, a fim de detectar as estratégias postas em jogo para se proteger da usura narcísica imposta pela clandestinidade. Havia um ponto interessante: o disfarce da própria identidade pelo militante clandestino parecia ser compensado por um forte investimento em outro aspecto ligado ao narcisismo, a saber os ideais coletivos. Assim, os clandestinos se sustentavam emocionalmente também por se considerarem membros de um grupo de vanguarda, por pensarem que a revolução estava próxima, que faziam sacrifícios em nome de uma causa fundamentalmente boa e justa.
Se alguém duvidasse de que uma tese elaborada com material estranho à clínica propriamente dita possa contribuir para o aperfeiçoamento desta última ou para o refinamento de um ponto da teoria, a de Maria Auxiliadora Arantes seria indicada para comprovar que isto é perfeitamente possível. Com efeito, a noção de narcisismo sai dela enriquecida pela correlação compensatória entre investimentos no ego e nos ideais do ego; conclusão inesperada, mas que pode aguçar nossos ouvidos (por exemplo na escuta da depressão).
Contudo, não é sempre que a proposta inicial se revela fecunda, ou capaz de conferir ao projeto o estofo necessário para que dele se origine uma tese. Nestes casos, se a decisão não for abandonar o tema, é preciso encontrar nele algum aspecto – diferente daquele que inicialmente se havia destacado – que possibilite a confecção de um trabalho correspondente aos padrões estipulados no início deste artigo.
Foi o que ocorreu com a tese de Joyce Kacelnik a respeito de pessoas que, como pacientes ou com terapeutas, fazem análise numa língua que não a sua (25). Isto não é raro, dado que a Psicanálise tem desde sempre um caráter eminentemente internacional. Inúmeros analistas escolheram viver em outros países, ou foram expulsos do seu por ditaduras de todos os matizes; inúmeros pacientes escolheram fazer sua análise em centros mais avançados do que seus países de origem, ou foram acolhidos nas terras de asilo por analistas que decidiram ajudá-los a superar a condição de refugiados. Como a linguagem é importante na Psicanálise, surgiu a idéia de investigar se a condição de falar e associar numa língua que não a materna representaria um fator importante para o desenvolvimento da análise. Isto é uma pergunta; não é ainda um problema.. A autora se pôs em campo atrás de informações, conversando com várias pessoas que tinham passado por esta situação, como analistas ou como pacientes. De modo geral, o comentário era que o tema era muito interessante e original. Mas chegado o momento de dizer como, exatamente, a fala em outro idioma havia provocado algum fenômeno curioso, ou precisamente o que havia interferido - se é que havia interferido – no curso da análise, quase nada surgia de aproveitável. Porque, como a autora acabou verificando, ou alguém domina a língua estrangeira o suficiente para se expressar razoavelmente nela, e nesse caso pode fazer uma análise, ou não domina essa língua, e então não pode fazer análise. Não é a análise que funciona como revelador da qualidade do controle que se tem sobre a língua estrangeira.
Ou seja: o fato de associar ou interpretar em língua estrangeira não era, finalmente, relevante para provocar fenômenos especiais, diversos daqueles que se podem observar em qualquer análise. Confirmada esta verificação, a pesquisa acabou tomando outro rumo: Joyce começou a trabalhar com a idéia de que o "estrangeiro" não era necessariamente uma língua, mas a própria condição do inconsciente, a própria situação da análise. Voltando às entrevistas, e lendo-as sob esta nova ótica, encontrou muitas pistas que apontavam nesta direção, com o que concluiu sua tese de mestrado.
Todos estes exemplos ilustram o gênero de tese que consiste em trabalhar a partir de depoimentos, colhidos por sua vez em função de uma questão que o pesquisador pressente interessante, ou na qual, por razões pessoais, investiu sua libido sciendi. Ainda no gênero extramuros, uma outra espécie é a tese que se monta a partir de textos, fazendo a história de um problema, da obra de um autor, de um fato ou de um período marcante na história da Psicanálise. Fazer a história não significa apenas narrar os acontecimentos ou descrever os dados, mas pensá-los, tentando compreender por que as coisas se passaram assim e não de outro modo. Os dois trabalhos assim concebidos que já tive oportunidade de orientar lançam uma ponte entre áreas que a história separou: um entre Freud e Wilhelm Reich, o outro entre a Psicanálise e a Educação.
O objetivo de Cláudio Mello Wagner (26) é reconstituir os fatos ligados à carreira psicanalítica de Wilhelm Reich, inclusive as circunstâncias de sua expulsão da Associação Internacional de Psicanálise, em 1934. Nos anos vinte, Reich foi um importante analista, encarregado entre outras tarefas de supervisionar o famoso "seminário de técnica" pelo qual passaram quase todos os alunos do Instituto de Viena. Escritor prolífico e clínico astuto, desenvolveu suas idéias técnicas e metapsicológicas dentro do movimento analítico, e as teve debatidas por diversos colegas - como Otto Fenichel e Franz Alexander - que as respeitavam, embora nem sempre concordassem com elas. Posteriormente, ao ser afastado da IPA, Reich tornou-se mais um dos tabus cultivados pela ortodoxia freudiana, para o que certamente contribuiu, além da pressão institucional, uma série de características do seu próprio pensamento, provocativo e por vezes expresso num tom bombástico. Mas o fato é que propôs caminhos para resolver dificuldades técnicas que, na época, ele certamente não era o único a enfrentar; ao fazer isto, trouxe importantes contribuições para o desenvolvimento da psicanálise, mesmo que elas tenham sido obscurecidas pelo clima da hostilidade que veio a cercar seu autor. Entre outras, podemos citar sua preocupação com a análise das resistências, que é uma das origens da psicologia do ego americana, e com interface psique-sociedade, que é uma das origens de todo o freudo-marxismo, hoje um pouco fora de moda, mas que teve grande repercussão, desde a Psicologia de massas do fascismo até os trabalhos de Herbert Marcuse.
O trabalho de Cláudio retoma o percurso reichiano, expondo os pontos de convergência e de divergência entre Reich e Freud até o momento em que o primeiro deixa de se considerar um membro da "horda selvagem". Levanta a questão da continuidade e da ruptura, mostrando que há um pouco desta e um pouco daquela nas concepções que o singularizavam já desde os anos vinte. Recusando deixar-se ofuscar pelo ruído da polêmica entre reichianos e freudianos, com certeza desagrada os dogmáticos de ambos os lados – porém traz os elementos necessários para que o leitor forme sua própria opinião, e, quando apresenta o seu ponto de vista, o faz de modo equilibrado e convincente.
Já a tese de Marcia Neder Bacha (27) dedica-se a o estudo de um grande mal-entendido. Freud disse certa vez que existem três profissões "impossíveis": psicanalisar, governar e educar. Como toda frase de efeito, esta também se destinava a provocar surpresa e a fazer refletir. No caso, a "impossibilidade" diz respeito ao fato de os seres humanos serem dotados de liberdade e de iniciativa, razão pela qual jamais se submeterão por completo à autoridade e sempre se sairão com alguma iniciativa que o detentor daquela autoridade não havia previsto. Assim, a frase advertia contra as pretensões abusivas do educador, do governante e do psicanalista que, tomando suas respectivas nuvens por Juno, viessem a se acreditar onipotentes e capazes de moldar o outro à sua imagem e semelhança. O que é impossível é psicanalisar alguém completamente (o inconsciente continuará a existir, com análise ou sem ela), educar alguém completamente (caso por isto se entendesse formar o discípulo para ser um ventríloquo do seu mestre) e governar de modo absoluto (sem oposição, mesmo que esta seja depreciada como "burra" ou silenciada na ponta do fuzil).
Freud foi sábio, ao não acrescentar à sua lista de impossibilidades a de que um epigrama fosse interpretado ao pé da letra e considerado como verdade indiscutível, porque formulada por um semideus. Pois o seu teve exatamente este destino, especialmente na parte referente ao educar. A Psicanálise nada teria a dizer aos educadores, dado que a atividade destes se estenderia entre o inútil e o nocivo: inútil porque "é impossível educar" (Freud dixit), e nocivo porque a educação seria, intrinsecamente, violência sobre as mentes infantis.
Este livro envereda por outra direção. Criticando tanto os psicanalistas que abandonam demasiado rápido o problema pedagógico quanto as doutrinas psicológicas que desejam orientar o educador, mas esquecem que as crianças (e ele mesmo) são dotados de um inconsciente, a autora procura "refazer os laços" entre a Psicanálise e a Educação tomando como fio condutor o seguinte problema: o que, na relação entre o educador e o educando, veicula de fato a influência educativa? Em outros termos, o que faz o primeiro, tal que o segundo efetivamente se modifique no sentido desejado (caso contrário, não há educação alguma), e, ao mesmo tempo, não se torne uma cópia borrada do mestre, preservando tanto sua individualidade quanto o desejo de aprender e de continuar sua educação? É numa exemplar análise da sedução que serão encontrados os elementos para a resposta.
Em resumo: na categoria extramuros cabem diversos tipos de trabalho, todos eles tendo em comum a característica que apontei atrás: a elucidação do problema escolhido não visa diretamente uma intervenção terapêutica. Variam os métodos de colher os dados – entrevistas, pesquisa em textos, descrição de um fato social ou cultural – mas a partir de um certo ponto a tarefa do autor é idêntica em todos os casos: construir, a partir de uma análise do material que ainda não é psicanalítica, mas formal e de conteúdo, uma questão psicanalítica. Deste ponto em diante, trata-se (como nas teses voltadas para questões mais clínicas) de buscar os conceitos para definir esta questão, de explorá-la em várias direções, de montar uma hipótese e sustentá-la, de a ilustrar com exemplos apropriados – em suma, de redigir uma tese como qualquer outra.
A natureza da pesquisa em psicanálise
Concluído este passeio por algumas das pesquisas que eu próprio orientei, o que se pode aprender sobre a pesquisa acadêmica em Psicanálise? Este tema vem sendo debatido com freqüência, à medida que, em diferentes programas de Pós-Graduação, se implantam cursos voltados para esta disciplina.
Um dos traços mais irritantes desta discussão, porém, é o caráter vago e genérico das formulações de uns e de outros. Há os puristas, geralmente encastelados nas associações psicanalíticas, que temem ver conspurcada a sacrossanta Psicanálise pela sua inserção na Universidade: seja porque temem a "intelectualização" (versão IPA), seja porque, estando na Universidade, a Psicanálise seria inelutavelmente contaminada pelo "discurso universitário" (versão lacaniana). Há os defensores do "método científico", geralmente entrincheirados nos departamentos de Psicologia, que julgam impossível realizar com seriedade uma investigação de tipo qualitativo, porque esta se apóia em poucos "casos" e deles extrai conclusões por vezes de grande alcance. Os dois grupos costumam omitir um passo a meu ver indispensável: examinar o que de fato vem sendo realizado nos mestrados e doutorados que tomam como perspectiva a Psicanálise. Com isto, acabam falando de algo que só existe em sua imaginação, e ditando ex cathedra princípios e regras sem qualquer relação com a vida real.
Foi para colocar esta discussão num plano um pouco menos abstrato que, nas páginas precedentes, quis comentar – ainda que sumariamente – algumas das teses cuja realização acompanhei de perto, e cuja qualidade me parece indiscutível, porque satisfazem plenamente os critérios apresentados no início deste artigo. Sem repetir o que já ficou dito, gostaria de concluí-lo com algumas observações mais gerais sobre a natureza da pesquisa em Psicanálise.
Quando se fala em "pesquisa", costuma-se ter em mente - e isto vale em especial para as agências federais de fomento, como a CAPES e o CNPq – o modelo das ciências exatas e biológicas; esquece-se que existem áreas do conhecimento nas quais não se trabalha com experimentos, mas que são tão legítimas quanto as chamadas "ciências duras". Nelas pode caber a pesquisa com documentos que se encontram em bibliotecas, a realização de entrevistas para medir a intensidade de um fenômeno social, o estudo de uma tribo indígena, a elaboração de um modelo matemático para acompanhar as oscilações do mercado financeiro, etc. Não há como negar que se trata de pesquisas; mas, como não têm o formato habitual, freqüentemente não são consideradas "científicas". A Psicanálise faz parte, com a História, a Antropologia, a Sociologia, a Economia, deste campo fluido das "ciências humanas", que na distribuição de verbas pelas agências de fomento costuma ficar em grande desvantagem.
Uma das características que tornam difícil perceber que aqui também se está fazendo progresso no conhecimento é que estas investigações se encaixam mal no modelo "piramidal", isto é, não se estruturam sob a forma de um grupo de trabalho liderado por um orientador e no qual a parte de cada aluno corresponde a um fragmento do conjunto. Mesmo o exame mais superficial das teses aqui comentadas mostra que este critério não tem qualquer relevância na nossa área: cada texto é um texto, e, se formam um mosaico com alguns pontos em comum, é sempre a posteriori.
Quais seriam, então, os critérios para avaliar a qualidade de uma pesquisa em Psicanálise? Eles precisam ser definidos a partir da especificidade do campo. Toda investigação psicanalítica é de tipo qualitativo, ou seja, trabalha em profundidade com casos específicos. É o mergulho na sua singularidade que permite extrair dele tanto o que lhe pertence com exclusividade quanto o que compartilha com outros do mesmo tipo: por isso, o caso ganha um valor que se pode chamar exemplar. Uma boa pesquisa em Psicanálise, portanto, deve evidenciar estes dois planos, o da especificidade e o da generalidade. Este é o primeiro critério a ser considerado, independentemente do material que serve de base à investigação (clínico, histórico, psicossocial, etc.). Os exemplos que escolhi apresentar neste artigo ilustram – espero que de forma convincente – que é perfeitamente possível satisfazê-lo.
Outro problema é o da arbitrariedade da interpretação. Diz-se com freqüência que a interpretação psicanalítica não tem como ser verificada, já que é impossível a duplicação das condições em que foi formulada. Esta crítica tem duas faces: uma se refere à interpretação no contexto terapêutico, a outra à interpretação no sentido mais usual de compreender e elucidar o problema tratado na tese.
Comecemos por este ponto: a meu ver, existe aqui um descaso pelo fato de que as pesquisas de tipo acadêmico passam por um longo e exigente processo de avaliação, das críticas do orientador ao exame de qualificação e à defesa pública. Este processo continua: muitos textos passam pelo crivo dos leitores que decidem, nas editoras, se um original deve ou não ser publicado, e, nas revistas especializadas, pelo crivo dos assessores que recomendam ou não a aceitação de um trabalho. Uma vez disponível para a comunidade, o livro ou artigo recebe resenhas que mais uma vez o avaliam e discutem; e, por fim, se depois de todas estas etapas o texto não se revelar bom, ele simplesmente não será comprado, nem recomendado como leitura a quem se interessar pelas questões de que ele trata. Ora, sem pretender que estes exames sejam infalíveis, é difícil admitir que haja tanta gente ingênua a ponto de acreditar em qualquer tolice, ou que esteja envolvida numa conspiração para fazer crer que o autor disse algo sensato quando na verdade está delirando. Disso se conclui, pelo menos, que as interpretações apresentadas nas teses de Psicanálise não devem ser tão absurdas assim, e que, ao contrário, são no mínimo tão razoáveis quanto as propostas nos programas de Pós-Graduação vizinhos.
O fato é que, nas disciplinas humanísticas, o sentido de um fenômeno ou de um processo jamais é unívoco, comportando por natureza diferentes apreciações. O que decide quais delas são válidas e quais não – e pode haver mais de uma que satisfaça os critérios de aceitabilidade – é a coerência dos argumentos entre si e com os fatos considerados, a fecundidade das hipóteses apresentadas neste caso para explicar outros do mesmo gênero, a capacidade do autor para perceber aspectos do seu tema até então pouco ou nada notados, mas que uma vez postos em evidência se encaixam com naturalidade no conjunto dos conhecimentos admitidos como válidos naquele campo - ou, em casos excepcionais, desencadeiam uma revisão deles que pode culminar na modificação dos paradigmas até então vigentes ("revoluções científicas" no sentido de Thomas Kuhn).
Por trás da crítica à "inverificabilidade" da interpretação formulada pelo autor da tese, porém, está uma crítica mais geral à Psicanálise enquanto procedimento de investigação clinica e de intervenção terapêutica. E isto é simples de compreender: uma tese de Psicanálise se apóia por definição na teoria psicanalítica, e esta, por sua vez, tem como origem a prática clínica, pois é neste âmbito que se evidenciam com mais clareza os processos inconscientes de que trata esta disciplina. É, em suma, o caráter científico ou mitológico da Psicanálise que aqui está em discussão.
Este debate acompanha a Psicanálise desde em que ela se apresentou como tendo pretensões científicas. O que significa pretensões científicas? Simplesmente, que Freud e os outros que se dispuseram a seguir seus passos pretendiam estar dizendo alguma coisa sobre o que é, sobre um objeto chamado realidade psíquica, objeto esse que tem suas peculiaridades, mas sobre o qual é possível obter conhecimentos. Não é o caso aqui de me estender sobre este ponto, que não pode ser elucidado em três linhas (28). Quero apenas dizer algumas palavras sobre o que, na prática efetiva da Psicanálise, permite ter alguma garantia de que as interpretações do psicanalista são bem fundamentadas, e também permite corrigi-las ou abandoná-las quando se revelam errôneas.
Retomemos um instante a questão da duplicação, imaginando que um paciente especialmente cético resolvesse fazer sua análise com dois analistas simultaneamente. Este paciente sai do consultório do primeiro, entra no do segundo, deita-se no divã e conta o mesmo sonho que narrou há pouco. É bastante provável que as interpretações dos dois analistas sejam parecidas, mas também que haja elementos diferentes, até porque ele pode se lembrar na segunda sessão de alguma coisa que não mencionou na primeira, ou o contrário; o analista pode ressaltar um aspecto que o primeiro não privilegiou, etc. Isto se deve ao fato bastante óbvio de que, como toda coisa com algum grau de complexidade, um sonho pode ser desmembrado de diversas maneiras, todas válidas desde que se respeitem as suas linhas essenciais de articulação. Assim, ainda que seja impossível a reprodução precisa da matéria-prima a partir da qual se obtêm os conhecimentos, isto não significa que eles sejam obtidos de maneira arbitrária. Além da necessidade de que o que dizemos respeite as características e a estrutura daquilo sobre o que falamos, duas outras razões limitam decisivamente a arbitrariedade da interpretação, e permitem utilizar alguns elementos como contraprova das hipóteses avançadas sobre outros.
A primeira razão é que os processos psíquicos são essencialmente os mesmos em todos os seres humanos, pois somos membros da mesma espécie. É isso que explica que alguém, tendo lido a Interpretação dos Sonhos de Freud, possa ouvir um sonho e se perguntar onde está o desejo inconsciente, onde estão os deslocamentos e as condensações, e assim por diante. O mesmo vale para as manifestações da transferência: na análise, os conflitos infantis reaparecem e são novamente revividos em relação à figura do analista, sejam quais forem os protagonistas de cada tratamento tomado isoladamente. Assim, o fato de o processo terapêutico ser absolutamente individual não impede, de forma alguma, que dele se tirem conclusões ou generalizações em graus variados. Neste aspecto, o analista trabalha de modo similar ao dos pesquisadores que estudam o câncer da mama nas ratas: o que aprenderam com estas ratas pode ser generalizado para outras, ou para outros mamíferos, inclusive da espécie humana (29).
A outra razão diz respeito à regularidade da vida psíquica de cada pessoa. Todos nós temos certas características que nos individualizam: temos determinadas preferências sexuais, mecanismos de defesa em número limitado, modos de reação típicos em situações análogas – e isso inclusive no plano do habitus corporal: é um fato facilmente observável pelo analista que se serve do divã que, quando as pessoas se deitam, o fazem sempre ou quase sempre da mesma maneira. É esta regularidade que permite inferir as constantes da vida psíquica. Suponhamos um paciente que fica histérico se seu analista demorar dez minutos para atendê-lo: esta reação mostra certas características daquela personalidade, que podem ser formuladas como hipóteses. Ela pode estar ansiosa, insegura, tolerar mal a frustração, ter inveja do paciente anterior... Há um leque de possibilidades, amplo porém não infinito, que vão sendo sucessivamente eliminadas até que se encontre um motivo plausível para aquela determinada reação.
Inversamente, o mesmo acontecimento pode ser interpretado de diversos modos por diferentes pessoas. Um analista compra flores e as coloca na sua mesa: as reações de cada paciente a este fato corriqueiro raramente serão idênticas. Por quê? As flores são as mesmas, mas quando cada um as vê, elas se integram automaticamente em determinados circuitos associativos, que não são os mesmos de pessoa para pessoa.
Os motivos pelos quais tal paciente reage de maneira pueril ao atraso do analista podem ser idênticos aos que o levam a não notar que há flores sobre a mesa: por exemplo, uma excessiva concentração em sua própria pessoa, ou uma incapacidade de observar o outro e se identificar com o outro. Assim é possível, a partir de indícios muito díspares na aparência, organizar um quadro relativamente fiel da dinâmica daquela pessoa, ou seja, das forças que nela atuam e que produzem os efeitos visíveis no seu comportamento. A isto se pode chamar de "generalização para a própria pessoa". A partir daí, se pode pensar numa generalização para tipos de pessoas que apresentam conflitos semelhantes. Há coisas que são absolutamente de cada um, individuais, singulares; outras que cada qual compartilha com um certo número de outros seres humanos, por exemplo defesas ou sintomas: existe mais de uma pessoa deprimida, e nem todo mundo sofre de depressão. Podemos observar uma, duas, três pessoas com este quadro, e propor hipóteses sobre o que organiza uma depressão. Em seguida, o próximo paciente que apresentar as mesmas características servirá de contraste ou de teste para que essa primeira hipótese seja verificada. E convém não esquecer que a Psicanálise é um empreendimento coletivo: existem outros analistas que, ao lerem o que um de nós escreve, se perguntarão pela pertinência do que afirmamos em relação à sua própria prática, e de maneira informal submeterão nossas hipóteses a algum tipo de teste. É evidente que só sobrevivem a este teste as idéias que mantêm com a realidade uma conexão suficientemente forte para merecerem a qualificação de adequadas, pelo menos até que outras melhores surjam para dar conta daquela questão específica.
Em suma: existe um processo de construção do conhecimento por generalização crescente, que se organiza em três níveis ou planos: para o próprio indivíduo, para um grupo de indivíduos, e, mais adiante, para toda a humanidade. Todo ser humano tem que passar por certas crises na sua vida - de nascimento, de separação dos pais, de escolha de um parceiro sexual. Estes processos são universais; o que vai variar entre as Ilhas Samoa e São Paulo, ou entre culturas e épocas diferentes, são as modalidades pelas quais uma criança se torna adulto - mas a necessidade de tornar-se um adulto funcional naquela sociedade é inescapável.
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Voltando ao problema das teses de Psicanálise: a maioria delas se ocupa de questões que podemos situar no plano intermediário entre a singularidade absoluta do indivíduo e estes aspectos que, por serem essenciais à natureza humana, encontram-se em todos os membros da espécie. É aliás preciso que assim seja, já que o candidato tem que escolher um tema e nele se concentrar: isso significa, como é evidente, deixar de lado outros tantos, e mesmo, dentro do tema escolhido, muitos aspectos não relevantes para o que deseja demonstrar. A singularidade está presente no plano empírico, através do material selecionado para a investigação; os elementos comuns vão sendo destacados deste material, a fim de constituir a questão a ser estudada. Sob este aspecto, a pesquisa acadêmica em Psicanálise está sujeita às mesmas regras que qualquer outra, em qualquer outra disciplina do mesmo gênero.
É chegado o momento de concluir. Se o leitor consentiu em me acompanhar até aqui, espero que concorde comigo no essencial do meu argumento: nada na Psicanálise é antagônico à possibilidade de que com ela se realizem pesquisas bem estruturadas e capazes de contribuir para o avanço dos conhecimentos sobre o ser humano. Tais pesquisas já existem, e o que se pode aprender com seus resultados em nada é inferior ao que se pode aprender com seus métodos: basta respeitar a especificidade do campo para discernir em seus vários segmentos inúmeras possibilidades de investigação. Aos que nelas quiserem se aventurar, meus votos de que sejam bem sucedidos, e que acrescentem um tijolo de boa qualidade ao edifício que vem sendo laboriosamente construído por seus predecessores na esfera da Pós-Graduação.
Renato Mezan
Rua Amália de Noronha , 198
05410 São Paulo
Fone/Fax: (011) 881-4651
E-mail : rmezan@uol.com.br
NOTAS
1)Renato Mezan, "Figuras e Fundo: Notas sobre o Campo Psicanalítico no Brasil", Revista Percurso nº 20, 1/1998, São Paulo, Instituto Sedes Sapientiae, p. 7-18.
2)Sendo minha prática universitária inserida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC/SP, os problemas aqui discutidos são objeto de meu interesse há muito tempo. Algumas idéias preliminares foram apresentadas nos seguintes trabalhos: "Contra o minimalismo no mestrado", Revista Psicanálise e Universidade n° 4, 1996, p. 65-70; "Sobre a Pesquisa em Psicanálise", Revista Psyché n° 2, 1998, p. 87-98; " A Psicanálise em Livros", Jornal da Casa do Psicólogo, n° 13, 1/1999, p. 1-3. Também utilizei, na urdidura deste artigo, diversos pequenos textos de apresentação para teses e dissertações de alunos meus. Nesta forma, ele é inédito.
3)A este respeito, cf. Renato Mezan, Escrever a Clínica, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1998.
4)Incluí nesta relação as 39 dissertações de mestrado e as 8 teses de doutorado defendidas ou apresentadas até o mês de março de 2000. Estão em graus diversos de elaboração outras doze, a serem apresentadas a partir de julho do mesmo ano.
5)Myriam Uchitel, Além da interpretação: indagações sobre a técnica psicanalítica, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997.
6)Helena Kon Rosenfeld, Palavra pescando não-palavra: a metáfora na interpretação psicanalítica, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1998.
7)Mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 1998.
8)Camila Pedral Sampaio, "A literatura na interpretação psicanalítica", doutorado em Psicologia. São Paulo, PUC, 2000.
9)Bernardo Tanis, Memória e temporalidade: sobre o infantil em Psicanálise, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995.
10)Maria Lúcia Vieira Violante, A criança mal-amada: estudo sobre a potencialidade melancólica, Petrópolis, Vozes, 1995.
11)Paulina Cymrot, Elaboração psíquica: teoria e técnica psicanalítica, São Paulo, Escuta, 1997.
12)Cassandra Pereira França, "Ejaculação precoce e disfunção erétil: uma abordagem psicanalítica", doutorado em Psicologia, São Paulo, PUC, 2000.
13)Nelson Coelho Jr, A força da realidade na clínica freudiana, São Paulo, Escuta, 1995.
14)Rubens Hazov Coura, A Psicanálise no hospital geral, São Paulo, Servier, 1996.
15)Rúbia Mara dos Santos Nascimento, "A vontade de não saber: reações emocionais ao câncer de mama", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 2000.
16)Yanina Otsuka Stasevskas, "Contar histórias no hospital-dia do Butantã: a circulação do sentido e o efeito da palavra", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 1998.
17)Lilian Darzé Goes, "O amor de transferência e em dois contos de Machado de Assis", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 1992.
18)Ana Cleide Moreira, "A depressão em Freud e em Conrad Stein, com uma ilustração pelo filme Sonata de Outono, mestrado em Psicologia Clinica, São Paulo, PUC, 1992.
19)Eliane Kogut, "O cinema no ensino da Psicanálise", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 2000.
20)Mauro Pergaminik Meiches, Psicanálise e teatro: uma pulsionalidade espetacular, São Paulo, Escuta/Fapesp, 1997.
21)Maria Cecília Pereira da Silva, A paixão de formar: da psicanálise à educação, Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.
22)Marisa Cintra Bortoletto, "A Condição Feminina na Maternidade", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, 1991.
23)Delia Catullo de Goldfarb, Corpo, tempo e envelhecimento, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1998.
24)Maria Auxiliadora da Cunha Arantes, Pacto re-velado: psicanálise e clandestinidade política, São Paulo, Escuta, 1994 (2ª edição, 1999).
25)Joyce Kacelnik, "A Psicanálise em Língua Estrangeira", mestrado em Psicologia Clínica, São Paulo, PUC, 1998.
26)Claudio Mello Wagner, Freud-Reich: continuidade ou ruptura?, São Paulo, Summus, 1997.
27)Márcia Neder Bacha, Psicanálise e educação: laços refeitos, Campo Grande, Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 1998.
28)A este respeito, ver R. Mezan, "Psicanálise e neurociências: uma questão mal colocada" , e "Metapsicologia: por que e para que", in Tempo de Muda, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
29)Este e outros problemas ligados à estrutura da teoria psicanalítica, bem como à sua relação com o trabalho cotidiano do analista, estão discutidos nas aulas que reuni em Escrever a clínica, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1998.



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