segunda-feira, 17 de junho de 2013

Verdade, poder e si, Michel Foucault

 
   - Por que você decidiu vir à Universidade de Vermont?
    - Para explicar com maior precisão, para algumas pessoas, a natureza do meu trabalho, conhecer os delas e estabelecer relações permanentes. Não sou um escritor, nem um filósofo, nem uma grande figura da vida intelectual: sou um professor. Existe um fenômeno social que me inquieta. Depois dos anos sessenta, alguns professores tendem a tornar-se homens públicos, com as mesmas obrigações. Não quero ser um profeta e dizer: “Sente-se, eu lhe peço, o que tenho a dizer é muito importante”. Vim para discutirmosnossos trabalhos comuns.
   - Se tem colado em você muito regularmente o rótulo de “filósofo”, mas também de “historiador”, de “estruturalista” e de “marxista”.Sua cátedra no Collège de France se intitula “história dos sistemas de pensamento”. O que isto significa?
   - Não penso que seja necessário saber exatamente o que eu sou. O mais interessante na vida e no trabalho é o que permite tornar-se algo de diferente do que se era ao início. Se você soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no final, você crê que teria coragem de escrevê-lo? Isso que vale para a escrita e para uma relação amorosa, vale também para a vida. O jogo vale a pena na medida em que não se sabe como vai terminar.
    Meu campo é a história do pensamento. O homem é um ser pensante. A maneira como ele pensa está ligada com a sociedade, a política, a economia e a história e também está relacionada com categorias muito gerais, olhares universais e com estruturas formais. Mas o pensamento e as relações sociais são duas coisas bem diferentes. As categorias da lógica não estão aptas a dar conta adequadamente da maneira que as pessoas pensam realmente. Entre a história social e as analises formais do pensamento há um caminho, uma pista – bem estreita, talvez – que é o caminho do historiador do pensamento. 
   - Na História da sexualidade vocêfaz referência a quem “vira do avesso a lei, que antecipa, mesmo que pouco, a liberdade futura”. Você também vê assim o seutrabalho?
   - Não. Durante um período bem longo, as pessoas me pediam que lhes explicasse o que ia acontecer e que lhes desse um programa para o futuro. Sabemos muito bem que, mesmo quando inspirado pelas melhores intenções, esses programas se transformam em uma ferramenta, em um instrumento de opressão. A Revolução Francesa serviu-se de Rousseau, um amante da liberdade, para elaborar um modelo de opressão social. O stalinismo e o leninismo aterrorizariam Marx. Meu papel – e este é um termo por demais pomposo – consiste em mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam; que elas tomam por verdade, por evidência alguns temas que foram fabricados em um momento particular da história; e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída. Mudar algo no espírito das pessoas: esse é o papel de um intelectual. 
   - Em seus textos você parece fascinado por figuras que existem nas margens da sociedade: os loucos, os leprosos, os criminosos, os desviados, os hermafroditas, os assassinos, os pensadores obscuros. Por quê?
   
- Tenho sido criticado, às vezes, por escolher os pensadores marginais em lugar de tomar exemplos do fundo da história tradicional. Eu darei uma resposta esnobe: é impossível considerar como obscuras personagens tais como Bopp ou Ricardo.
   - Mas e o seu interesse pelos que a sociedade rejeita?
   
- Eu analiso figuras e processos obscuros por duas razões: os processos políticos e sociais que permitiram colocar em ordem as sociedades da Europa ocidental não são mais aparentes: foram esquecidos ou transformados em habituais. Estes processos fazem parte de nossa paisagem mais familiar; e não os vemos mais. Porém, em seu tempo, a maioria deles escandalizou as pessoas. Um dos meus objetivos é mostrar às pessoas que um bom número de coisas que fazem parte dessa paisagem familiar – que as pessoas consideram como universais – não são senão resultados de algumas mudanças históricas muito precisas. Todas as minhas análises vão contra a idéia de necessidades universais na existência humana. Mostram o caráter arbitrário das instituições e nos mostram qual é o espaço da liberdade que ainda dispomos e que mudanças podemos ainda efetuar. 
   - Seus textos são portadores de correntes emocionais profundas, que são raramente encontradas em análises científicas: angústia em Vigiar e punir, desdém em As palavras e as coisas, a indignação e a tristeza na História da loucura.
   
- Cada um dos meus livros representa uma parte de minha história. Por uma razão ou por outra, pude provar ou viver essas coisas. Para tomar um exemplo simples, eu trabalhei em um hospital psiquiátrico durante os anos cinqüenta. Depois de haver estudado filosofia queria ver o que era a loucura: estive suficientemente louco para estudar a razão e era suficientemente sensato para estudar a loucura. No hospital, eu estava livre para mover-me entre os pacientes e os médicos, pois não tinha uma função precisa. Era a época de esplendor da neurocirurgia, o começo da psicofarmacologia, o reino da instituição tradicional. A princípio, o aceitei essas coisas como necessárias, mas depois de três meses (eu tenho um espírito lento!), eu comecei a me interrogar: “em que essas coisas são necessárias?”. Ao cabo de três anos, havia abandonado o trabalho e fui para a Suécia com uma sensação de mal-estar pessoal; lá, comecei a escrever a história dessas práticas.
   A História da Loucura iria ser o primeiro volume. Gosto de escrever primeiros volumes, mas detesto escrever os segundos. Têm-se visto em meu livro um gesto psiquiatricida, mas era a descrição de um modelo histórico. Você conhece a diferença entre uma verdadeira ciência e uma pseudociência. A verdadeira ciência conhece e aceita sua própria história sem sentir-se atacada. Se alguém diz a um psiquiatra que sua instituição é nascida dos leprosários, ele tem um ataque de cólera.
    - Qual seria a gênese de Vigiar e Punir?
    - Devo admitir que não tive relação direta com os cárceres nem com presos, ainda que eu tenha trabalhado como psicólogo em uma prisão francesa. Quanto estive na Tunísia vi muita gente presa por motivos políticos e isso me influenciou.
   - A Era clássica é uma idade pivô em todos os seus escritos. Você tem nostalgia da claridade dessa época ou da “visibilidade” do Renascimento, era onde tudo estava unificado eexposto?
   - Toda essa beleza das épocas antigas é antes um efeito, mais que fonte da nostalgia.  Sei muito bem que se trata de nossa própria invenção. Mas é bom manter esse tipo de nostalgia, da mesma forma que é bom ter uma boa relação com a infância, quando se têm crianças. É bom sentir nostalgia por algum período, contanto que seja uma maneira de ter uma relação reflexiva e positiva em relação ao presente. Mas se a nostalgia se transforma em uma razão de mostrar-se agressivo e incompreensivo em relação ao presente, deve ser banida.
    - O que você lê por prazer?
    - Os livros que me produzem maior emoção: Faulkner, Thomas Mann, Sob o vulcão, de Malcom Lowry.
    - Quem é que, intelectualmente, exerceu influência sobre seu pensamento?
    - Fiquei surpreso quando meus amigos de Berkeley escreveram, em seu livro, que eu fui influenciado por Heidegger
*. Era verdade. É claro que ninguém na França havia sublinhado. Quando eu era estudante, nos anos cinqüenta, li Husserl, Sartre, Merleau-Ponty. Quando uma influência se faz sentir com muita força, ensaia-se abrir uma janela. Heidegger – é bastante paradoxal – não é um autor muito difícil de compreender para um francês. Quando cada palavra é um enigma, não se está em posição ruim para compreender Heidegger. Ser e tempo é um livro difícil, mas os escritos mais recentes são menos enigmáticos. 
   Nietzsche foi uma revelação para mim. Tive a impressão de descobrir um autor bem diferente daqueles que me haviam ensinado. Eu o li com grande paixão e rompi com minha vida: deixei meu trabalho no hospital psiquiátrico e deixei a França; tinha a sensação de ter sido laçado. Por meio de Nietzsche, tinha me tornado estranho a todas essas coisas. Não estou, ainda, muito integrado na vida social e intelectual francesa. Quando posso, deixo a França. Se eu fosse mais jovem, teria emigrado para os Estados Unidos.
    – Por quê?
   – Vejo possibilidades aqui. Vocês não têm uma vida intelectual e cultural homogênea. Enquanto estrangeiro, não preciso estar integrado. Nenhuma pressão se exerce sobre mim. Existem aqui muitas grandes universidades, todas com interesses diferentes. Mas, é claro, a Universidade pode me despedir da maneira maisindigna.
   – O que te faz dizer que a Universidade te despediria?
   – Sou muito orgulhoso de que algumas pessoas pensem que eu represente um perigo para a saúde intelectual dos estudantes. Quando as pessoas começam a pensar em termos de saúde nas atividades intelectuais, me parece que algo não vai bem. Para estes, sou um homem perigoso porque sou um crítico marxista, um irracionalista, um niilista. 
   – Podemos deduzir da leitura de As palavras e as coisas que as iniciativas individuais de reformas são impossíveis porque as descobertas têm todo tipo de significações e implicações, que jamais seus criadores poderiam compreender. Em Vigiar e punir, por exemplo, você mostra que houve uma mudança repentina na cadeia de força ao encargo da polícia, do espetáculo do castigo à investidura de cargo pelos mecanismos disciplinares e a instituição. Mas você sublinha também o fato de que esta mudança que, na época, parecia reforma, não passava, no fundo, da normalização dos poderes punitivos da sociedade. Como é possível a mudança consciente?
   – Como você pode me atribuir a idéia de que a mudança é impossível, porque eu sempre vinculei os fenômenos que analisei à ação política? Todo o empreendimento de Vigiar e punir é uma tentativa de responder esta pergunta e mostrar como um novo modo de pensar se instaurou. 
   Somos todos seres que vivem e pensam. O que faço é reagir contra fato de que exista uma ruptura entre a história social e a história das idéias. Os historiadores das sociedades são censurados a escreverem à maneira das pessoas que agem sem pensar, e os historiadores das idéias, à maneira das pessoas que pensam sem agir. Todo mundo age e pensa ao mesmo tempo. A maneira como as pessoas agem ou reagem está ligadaa uma maneira de pensar, e esta maneira de pensar, naturalmente, está ligada à tradição. O fenômeno que procurei analisar, que é este bastantecomplexo pelo qual, em um período tempo muito curto, fez com que as pessoas reagissem de uma maneira muito diferente diante dos crimes e dos criminosos.
    Escrevi dois tipos de livros. Um, As palavras e as coisas tem por objeto exclusivamente o pensamento científico; o outro, Vigiar epunir, tem por objeto as instituições e os princípios sociais. A história da ciência conhece um desenvolvimento diferente do da sensibilidade. A fim de ser reconhecido como discurso científico, o pensamento deve responder a certos critérios. Em Vigiar e punir, os textos, os costumes e os indivíduos se enfrentam.
    Se eu verdadeiramente tentei analisar as mudanças por meio de meus livros, não é a fim de encontrar as causas materiais, mas a fim de mostrar a interação de deferentes fatores e a maneira com pela qual os indivíduos reagem. Eu creio na liberdade dos indivíduos. A uma mesma situação, as pessoas reagem de maneiras diferentes.
    – Você conclui Vigiar e punir dizendo: “Eu interrompo este livro que deve servir de pano de fundo histórico a diversos estudos sobre o poder de normalilzação e à formação do saber na sociedade moderna”. Que ligação você vê entre a normalização e a idéia de homem como centro do saber? 
   – Por meio de diferentes práticas – psicológica, médica, penitenciária, educativa – uma idéia, um modelo de humanidade tem tomado forma, e essa idéia de homem tem se tornado normativa, evidente e se passa por universal. É possível que o humanismo não seja universal, mas correlativa a uma situação particular.Isso que chamamos de humanismo os marxistas, liberais, nazistas e os católicos se utilizaram. Isto não significa que tenhamos de eliminar o que chamamos de “direitos do homem” ou “liberdade”, mas isso implica que não poderemos dizer que a liberdade ou direitos do homem devam ser circunscritos no interior de certas fronteiras. Por exemplo, se você perguntasse, há oitenta anos, se a virtude femininafaria parte do humanismo universal, todo mundo responderia sim. 
   O que me assusta no humanismo é que ele apresenta certa forma de nossa ética como modelo universal não importando qual modelo de liberdade. Penso que nosso futuro comporta mais segredos, mais liberdades possíveis e mais invenções do que nos deixa imaginar o humanismo, na representação dogmática quese tem dado aos diferentes componentes do espectro político; a esquerda, o centro e a direita.
   – É isto que você está sugerindo nas “Técnicas de si”? 
   – Sim. Você disse, na ocasião, que tinha a sensação de que havia algo de imprevisível. É verdade.Eu tenho vezes a impressão de que me faço muito sistemático e muito rígido. 
   O que tenho estudado são três problemas tradicionais: 1) Quais são as relações que temos com a verdade por meio do saber científico, quais são nossas relações com esses “jogos de verdade” que são tão importantes na civilização e nos quais somos, ao mesmo tempo, sujeito e objeto? 2) Quais são as relações que estabelecemos com os outros por meio dessas estranhas estratégias e relações de poder? Por fim, 3) Quais são as relações entre verdade, poder esi?
   Eu gostaria de terminar com uma pergunta: Que poderia ser mais clássico do que essas perguntas e mais sistemático do que passar da questão um à questão dois e à três para tornar à questão um? É precisamente aqui que estou.

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* Dreyfus (H.); Rabinow (P.), Michel Foucault: Beyond Stucturalism and Hermeneutics, Chicago, University of Chicago Press, 1982.  
 Verité, pouvoir et soi. (entretien avec R. Martain, Université du Vermont, 25 de octobre 1982).Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris:Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 777-783, por Wanderson Flor do Nascimento.

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