terça-feira, 16 de julho de 2013

A transferência e o transferir de uma mente a outra, Antonino Ferro



A transferência e o transferir de uma mente a outra

Em análise, o repropor da história (Freud, 1914) esquecida, recalcada, cindida é um dos motores da mesma, assim como o é o repropor das fantasmatizações do mundo interno (Klein, 1948, 1952). O positivo é que isto permite a transformação e a mudança, o risco é que o analista caia na armadilha de assumir um papel (Sandler, 1976) e que o campo adoeça da doença do paciente (como é normal que aconteça), mas que depois não se cure. Se o paciente teve uma mãe pouco disponível, mais cedo ou mais tarde, deverá viver esta mesma situação na sala de análise e no campo, não importa por meio de qual personagem, e poderá ser digerida e metabolizada através dos movimentos peristálticos do campo, ou também por uma interpretação, para ser eficaz, só pode ser o ato final de um processo digestivo inicial. Se uma paciente teve uma mãe fria, necessitará encontrar um noivo frio para repetir e narrar o trauma, no campo deverá viver este “noivo frio” que deverá ser transformado, e, neste ponto, ou o noivo adquirirá novas características, ou então, tornando-se não essencial em relação à história que urge para ser narrada, sairá de cena para dar lugar a outros eventos-emaranhados aguardando um “contador de histórias”. E, de certa forma, o analista deverá também adoecer (ou permitir que o campo adoeça) desta frieza, e para fazer isto deverá ser também um analista suficientemente ruim (Gabbard, 2004) – mas, frequentemente, para realizar isso é suficiente um rigoroso respeito do setting.

O paradoxo da espécie é que, para a nossa mente, a tragédia é melhor do que a irresponsabilidade muda. Não é por acaso que o teatro, o cinema, a literatura, mas também o esporte, nos narrem e voltem a narrar os narremas enquistados da nossa espécie, que pertencem o mental ainda não experimentado, e não ao biológico estrutural. Nas situações psicossomáticas, o grande trabalho da análise consiste na possibilidade de dar novamente caráter de tragédia ao que foi evacuado no sintoma, que, de qualquer forma, é um memento em direção a uma esperança de personalidade. Também as microtragédias do cotidiano colocam continuamente em cena aquilo que urge para ser representado. Às vezes, há um bloqueio da cena e permanece em cartaz sempre a mesma ópera, nestes casos o analista é chamado na qualidade de empresário/diretor com condições de variar o programa do período.

Voltando ao nosso tema, gostaria de sublinhar o quanto considero fundamental o funcionamento profundo que se estabelece entre duas mentes, funcionamento que também é continuamente narrado de novo: o analista só pode ser um virtuoso de mudanças de vértice. Aquilo que o campo assinala tem a ver com o funcionamento atual, mas, ao mesmo tempo, o campo trabalha e avança em seus sucessivos movimentos de assumir-digerir-transformar. É como se um condutor tivesse que prestar atenção a toda a instrumentação de bordo de uma máquina muito complexa, digamos um avião, mas, ao mesmo tempo, isso fosse somente funcional para o proceder da viagem com suficiente segurança. Caso contrário, teríamos o risco do “fora de rota” (ou grave acidentes), ou então os riscos de uma análise que se desdobra sobre si mesma, sem avançar na viagem que é o nosso objetivo. Constante é a atividade de revêrie de base, que é a maneira como a mente do analista continuamente acolhe, metaboliza e transforma “o que” chega por parte do paciente como estímulo verbal, para-verbal, não verbal. A mesma atividade de revêrie está operando no paciente em resposta a todo estímulo, interpretativo ou não, proveniente do analista. Esta atividade de revêrie de base é o fulcro da nossa vida mental e de seu funcionamento/não funcionamento depende a sanidade, a doença ou o sofrimento psíquico. A mesma ideia vale para a existência de uma atividade de identificações projetivas de base, que são o ativador indispensável de qualquer atividade de revêrie. Há situações em que há uma manifestação de revêrie explícita e significativa, mais frequentemente no registro do visual, mas naturalmente não de forma exclusiva.

A transferência, escreveu para mim Jim Grotstein (2006), em relação ao meu livro Fatores de doença, fatores de cura, é para nós, hoje, mais útil em seu significado de transferência – como costumava dizer Meltzer – de mental pain de uma mente a outra. Esclareço: não no sentido que nos ocupamos somente da dor, mas de todos aqueles novelos que, enquanto estão emaranhados, provocam dor, de todos aqueles teares que, enquanto não estão funcionando bem, não tecem adequadamente as protoemoções/novelos que permanecem emaranhados e obstruem, da ausência de teares que dá origem ao caos mental. Portanto, são centrais as contínuas transfer(ências) (sim exatamente como os ônibus dos grandes aeroportos) que, alem de ir do passado para o campo, do mundo interno para o campo (do qual o analista é um dos lugares), vão continuamente do campo para o mundo interno, do paciente e do campo para a sua história. Este contínuo vai e vem de fragmentos emaranhados de sensorialidade, de protoemoções, permite a tessitura transformadora dos mesmos e a neoformação de habitantes do mundo interno e da história. A imagem poderia ser a de um sótão cheio de novelos emaranhados e mofados que provocam cheiros ruins, a presença de parasitas (os sintomas), e que necessitam ser levados para uma lavanderia/tinturaria/tecelagem onde possam ser limpos, coloridos e tecidos. E, a partir daí, poderão voltar a habitar as gavetas da casa onde estiveram ou deveriam ter estado. A metáfora (Ferruta, 2000, 2001) não é completa, porque há algo fora e para além do sótão que urge para ser admitido no próprio sótão: são detritos, fumaças, material inorgânico que necessita de um processo ainda mais complexo de tratamento para se tornar algo que se refira ao mental. Além de fazer estas operações, uma análise tem sentido quando, com o tempo, é capaz de fornecer ao paciente os instrumentos para fazer tais operações.

O que é necessário para que haja esse transferir?

- Em primeiro lugar um paciente capaz de projetar, de evacuar, de usar o canal comunicativo de base para esta operação. Este é o ponto de partida para muitos pacientes, é o ponto de chegada para muitos outros, ou para partes, ou funcionamentos, da mente dos outros; basta pensar nas zonas bidimensionais da mente, para as quais a tridimensionalização e a passagem das modalidades de identificação adesiva para a de identificação projetiva é uma enorme mudança (Meltzer, 1974). (p. 157-159).

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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