domingo, 28 de julho de 2013

Chegando a algumas conclusões, Antonino Ferro

 
Chegando a algumas conclusões
 
Somente no final posso dizer ter compreendido, pelo menos em parte, porque, para mim, foi tão difícil destrinchar o conceito de transferência, visto que eu o utilizo – mesmo usando implicitamente os conceitos compartilhados em suas diferentes formulações – de forma diferente, exatamente como aparece no título: como motor de uma psicanálise que olha para o desenvolvimento de funções. Não me proponho, como ponto de partida habitual (talvez para evitar o naufrágio nas encostas do já o havia dito por Freud!), buscar confirmações da teoria, mas tento usar as narrações clínicas para abrir hipóteses provisórias em perene devir, e assim tentei fazer também desta vez, para oferecer amplas margens de discussão e de discordância possível.
 Do meu ponto de vista, trabalhamos constantemente na presença de um sonho contínuo e de um sonho descontínuo de segundo nível. Sonho contínuo que é fornecido pelas funções a de paciente e analista que procuram continuamente transformar as cotas de impensabilidade que as transferências trazem para o campo. Sonho descontínuo, o da noite, que reorganiza continuamente a enorme quantidade de elementos a (além de fornecer uma segunda possibilidade de transformação das cotas de sensorialidade que ficaram não digeridas durante o dia) estocados durante a vigília. A transferência, no sentido clássico, parece-me que não é suficiente, o analista tem de permitir que o campo adoeça da patologia do paciente, um analista defendido deixa muitos aspectos da mente do paciente não narrados. O paciente chega com a necessidade de encontrar uma narração que lhe dê paz, ainda que não saiba a respeito de quê e por quê. Para mim, no conceito clássico de transferência, há algo que tem sabor de amanhecido, de cantina, inclusive nos anseios reconstrutivos dos vários tipos de memória, aprece-me que prevalece o olhar voltado para o passado no lugar de estar voltado para o futuro.
A relação atual (Schachter, 2002) me aparece como instrumento de transformação da transferência e produto das transformações que a transferência teve (por exemplo, não acho que seja central reconstruir “o trauma”, e sim alfabetizar o trauma, decompondo-o antes nas suas subunidades narrativas, transformando a protossensorialidade inexprimível ligada a ele, desenvolvendo, às vezes, como operação preliminar, os aparatos para realizar isso). Concordo com Fonagy (2003), ainda que com vértices completamente diferentes, em dizer que é mais importante o processo de reconstrução/narração do que seus conteúdos, e eu iria mais além, até a criação da lembrança de fatos nunca acontecidos (Ferro, 2006c) ou, como mais elegantemente disse Bion, até chegar a ter Memória do Futuro. O que me parece fundamental é pensar que a transferência (também a do analista sobre o paciente, quanto isto acontece) é o combustível bruto da análise, mas isto não de uma forma linear, não de uma forma feita por repetições (o que também pode acontecer), mas feita de cadeias transformadoras e imprevisíveis que a mente do analista e paciente, através dos movimentos do campo, saberão gerar e co-pensar (Wildlöcher, 1996).
Em última instância, a transferência é tudo aquilo que o paciente traz, é invasiva, difusa e permeia todos os espaços, todas as fendas. Ela é também a força que leva cada um a colocar em cena o drama que deverá ganhar vida para depois ser diluído de formas imprevisíveis. Fico triste em não poder mostrar situações clínicas longitudinais por questões de descrição, mas podemos considerar as várias vinhetas clínicas como significativas de vários momentos da análise.
A mente do analista presta-se para a plena realização cênica da transferência, o drama deve se desenvolver em feuilleton (Luzes, 2001), deve viver, pulsar, tornar-se carne, encontrar uma saída. Para alguns analistas, a qualidade da relação analista-paciente desperta a transferência, pra outros a transferência (de certa forma pré-confeccionada pelo paciente por suas experiências existenciais anteriores ao encontro com o analista) influencia a qualidade da relação, como bem nos lembra Bordi. Em uma teoria do campo analítico, os dois elementos se influenciam e se criam reciprocamente. Se Green diz que a análise é um processo em que o avançar em direção ao objeto mobiliza todas as transformações do passado significativas para a situação presente (Green, 2005), eu acrescentaria que as qualidades do objeto codeterminam estas transformações e, especialmente, que elas são não processuais.
Percebo que este meu trabalho (assim como o meu conceito de transferência) não tem uma estrutura linear, como, por exemplo, a que encontramos em Meltzer (1967) de O processo, mas creio que este andamento com idas e vindas, do tipo “ressaca”, ou em ondas sucessivas, traduz bem o trabalho do campo (que poderia ser assimilado a movimentos respiratórios ou peristálticos), dos contínuos movimentos de idas e vindas nos quais temos a impressão de caminhar em direção a uma conclusão e, ao contrário, partimos novamente em direção a um novo movimento, uma nova expansão, em uma espécie de incessante movimento de construção, desconstrução, reconstrução de histórias e, principalmente, de aparatos para pensá-las. Isto, em uma ótica na qual as histórias são as redes que contêm as emoções, as tramas que permitem que tessituras de cores variadas encontrem modalidades de expressão. O trabalho que me designei/ me foi designado se referia à minha operacionalidade clínica. Eis o porquê de tão frequentes referências bibliográficas aos meus trabalhos anteriores: a necessidade de mostrar o progressivo estruturar-se da identidade analítica, de qualquer forma em constante devir. Não há dúvida de que eu compartilho do patrimônio de base de todo analista: a centralidade da História, da infância, do infantil, da sexualidade, a centralidade do mundo interno do paciente e de seus objetos, mas parece-me mais útil, construtivo e potencialmente mais aberto à dialética mostrar as especificidades da minha cozinha analítica, como foi se estruturando ao longo de muitas décadas de atividade analítica plena, frequentemente com pacientes muito graves. Destas experiências deriva certamente também meu interesse pelos aparatos para pensar, sentir, sonhar mais do que pelos seus conteúdos, mesmo que, naturalmente, os primeiros sem os segundos não teriam o menor sentido. Volto a dizer que, no meu modo de trabalhar, são os próprios pacientes que fazem a parte da renarração contínua e diferente de sua infância ou de seu romance familiar, como aspectos vivos que brotam continuamente, permitindo contínuas novas Gestalt. Para mim, a História é isto: um depósito fundamental de um espaço terciário que se assemelha muito a um depósito de bagagens de uma estação, no qual, porém, os conteúdos das malas são mudados periodicamente, portanto remetem a identidades em perene devir e abertas ao futuro. Teria podido mostrar tudo o que é clássico fazer em psicanálise: o recalcamento, o aflorar de lembranças, a lembrança de traumas, a reconstrução de cenários infantis, ou a importância das memórias implícitas; preferi mostrar mais alguma arvorescência menos compartilhada e talvez alguma pequena folha original.
Na minha cozinha analítica, a História é, para mim, principalmente um dos “derivados narrativos” possíveis, sendo o meu centro de interesse “o onírico na sessão e, especialmente, os instrumentos que o produzem”. Não estou muito distante de Bion (1983) quando relata acerca de um paciente que havia lhe contado de uma operação no coração: “Não sei se a operação foi realmente realizada ou, então, se lhe foi feita simplesmente uma incisão na pele. Pelo que sei, pode ser que tenha se tratado de incisão psicológica”. Eu posso saber aquilo que é narrado e, mais ainda, aquilo do qual sou testemunha e coautor. No meu restaurante analítico, todo paciente é completamente diferente, e penso que tem o direito de desenvolver sua análise no gênero narrativo que preferir, passado, presente ou futuro. O que é importante, para mim, é como ele opera, como funciona ou não funciona a sua mente e a minha com ele: falando de si mesmo criança, da mulher ou de Star Trek.
Mas porque não fiz isto trazendo, por exemplo, o caso de uma análise, de maneira a mostrar o que eu entendo por “precipitado de microtransformações” em “macrotransformações estáveis” que vão habitar o mundo interno e depois, em contínuos après-coup, a História? Ou que mostrasse o desenvolvimento, ao longo do tempo, da capacidade de sonhar acordados (função a) ou de sonhar à noite? Naturalmente por motivos de discrição que me impedem de publicar por inteiro a história de uma análise. Tive que me conformar com pequenos flashes, nos quais é possível reconhecer somente o paciente.
Para mim, a diversidade de modelos sempre foi fonte de curiosidade, de estímulo, de crescimento. Comparar diferentes formas de trabalhar e identificar o modelo implícito subjacente foi uns dos trabalhos mais interessantes que me vi fazendo nas mais diferentes situações. É inegável que existem profundas diferenças de modelos implícitos, de técnicas, de toeorizações, mas penso também que há uma parte da análise que funciona independente da consciência que têm paciente e analista: uma parte depende de como se acasala a mente daquele analista com a mente daquele paciente, naquele determinado dia, com todas as transformações que são geradas. É justamente esta cota que funciona de qualquer forma e que, de fato, constitui o nosso Máximo Denominador Comum: ninguém demonstrou que um modelo cure melhor que outro, talvez possamos afirmar que um analista, não importa de qual orientação, goza da nossa confiança. A análise e seu dispositivo são mais fortes do que as teorias que usamos, e o método psicanalítico creio que é a maior herança que Freud nos deixou (já Tagliacozzo dizia isso), uma espécie de Gato de botas capaz de devorar até os ogros. Podemos chegar ao paradoxo de um campo pode funcionar de forma transformadora sem que analista e paciente o saibam.
Uma pergunta permanece ainda não explorada: o que eu faço com as “neuroses” ou “psicoses de transferência”? faço delas um funcionamento que muito provavelmente, num certo momento, ganhará vida em outro lugar do campo – não sei através de qual relato, ou silêncio, ou sonho –, mas ao lado de tantos outros possíveis mundos novos que não são uma pura repetição ou ritualização, mas que são aberturas de significados imprevistas e, por sorte, imprevisíveis; caso contrário, o que nos impulsionaria no nosso apaixonante trabalho se não descobrir o que há para além das colunas de Hércules da compulsão à repetição? O que há nos universos paralelos que aguardam que a Enterprise continue sua viagem? O que há não sabemos, por sorte! Dar um nome ao que fazemos sem saber o que estamos fazendo é, do meu ponto de vista, o trabalho de pesquisa em psicanálise.
Encontrei-me resolvendo a minha cozinha analítica, agora tenho que organizá-la novamente, mas continuo, mesmo com uma consciência maior, colocando a transferência entre os utensílios preciosos, mas de uso implícito. De fato, considerá-la de forma determinante me dá a ideia de um desejo de manter à distância algo que pulsa na atualidade da sala. Não me importa muito de onde vem, Ogden (1994), em uma entrevista, afirma que o encontro com a outra pessoa é a única forma de criar o grito que não podemos produzir sozinhos. E acrescenta: “Com a condição de não ficarmos atordoados e submersos”. No fundo, o transferir é também o transferir de uma condição defeituosa, o paciente que nos transfere especialmente a “não capacidade” de alfabetizar estes estados mentais, nos obriga a fazê-lo por ele, acende em nós rêverie, nos obriga a exercícios de contensão e de expansão do continente, leva Bion a operar, permeável ao desespero do paciente, a transformação I scream (eu grito), nos leva a transferir, desta vez nós a ele, a nossa capacidade de tecer em imagens estados protossensoriais e protoemocionais, nos obriga a lhe passar o método para sonhar de dia (desenvolvimento da função a), nos leva a lhe transferir os fios para tecer continentes mais estáveis, amplos e elásticos, nos obriga sonhando por ele, repito, a lhe passar o método para feeling, thinking e dreaming.
Uma primeira imagem poderia ser a de um espaço (campo) em que um coletor transporta letras ou fragmentos de letras do alfabeto, e neste espaço receptivo encontram-se artesões (funções elaboradoras e transformadoras) que trabalham estes fragmentos que se tornam letras e as letras tornam-se fragmentos de falas. Estes fragmentos, à medida que adquirem sentido e peso, vão, pela gravidade, se depositar em um lugar deste espaço (mundo interno), de onde depois são constantemente aspirados para um outro lugar onde as sílabas, as frases, tornam-se relatos tecidos de cores (histórias e História) que, num certo ponto, um outro coletor leva para fora daquele espaço, em outros espaços dos quais nada sabemos (realidade externa do paciente).
Uma segunda imagem, mais explícita, nos fala de um campo onde fragmentos de sentido incompletos, sensorialidade, elementos b, elementos a isolados são elaborados, alfabetizados, pelas funções oníricas, de continência, tecedoras de sentido do campo, funções que, se defeituosas no paciente, são depois por ele introjetadas ou desenvolvidas, tomando-as do próprio campo. Neste campo, temos dois tipos de funções oníricas: aquela incansável do cameraman (função a) e aquela mais de direção, de sonho dos elementos a, que acontece no sonho da noite, seja que consideremos esta segunda função como uma meta-função a, seja que a consideremos como uma função de direção e montagem por parte de um aparato para sonhar os sonhos. No fundo, em uma linguagem diferente, é o que afirma Riolo (1998) na sua introdução ao Escritos de Corrao quando, após ter afirmado que “existem sistemas simbólicos responsáveis pela decifração e comunicação do significado e sistemas simbólicos responsáveis pela produção e transformação do significado”, refere que “a ideia de Corrao era que a psicanálise pertencia a estes últimos, que era um sistema para gerar novos pensamentos”.
Valentina (Capítulo 9), na sua análise, iria dar vida aos monstros de mundos desconhecidos que estavam aguardando, monstros que eu havia fantasiado nas minhas rêverie sobre a invasão dos ultracorpos, como de forma semelhante faria Margot (Capítulo 9) com o enorme pacote que me entregou, no qual as gazes adquiriam um sentido que não tinham antes do nosso encontro. Poderia dizer algo de provocativo em relação ao primeiro sonho de Dora (Freud, 1901). Talvez Dora quisesse somente comunicar que estava tomada por um incêndio emocional, que certamente havia coisas que ela sentia como preciosas no trabalho analítico feito (as joias a serem salvas) mas, para utilizar um provérbio siciliano, “Fruiri è briogna, ma è sbardamento ‘i vita’”, isto é, fugir é um vergonha, mas salva a vida. Portanto, já prenunciava que o caminho da salvação era a suspensão do trabalho analítico através da fuga. No fundo, talvez, tivesse razão, fugindo salvou-se de uma experiência emocionalmente intensa demais para ser vivida. E creio também que Freud fosse, sem o saber, o piromaníaco que acendia na paciente emoções que a psicanálise ainda não dispunha de bombeiros e proteção civil suficiente para administrar.  Portanto, creio que um olhar sobre o que está fervendo na panela é sempre é útil e ajuda a ajustar o alimento analítico para fazer com que o paciente – para dizê-lo juntamente com Bion – tenha razões suficientes para voltar no dia seguinte (e não queimado demais!). Isto condiz com todo bom restaurante, ou pelo menos suficientemente bom (p. 170 a 175).  
 
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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