quarta-feira, 3 de julho de 2013

Como trabalha um psicanalista?, Juan David Nasio


Os mergulhadores
- Xavier Diaz: Antes de começar, pediria que respondesse às minhas perguntas com toda simplicidade, sem artificialismos ou hesitação. Como se estivesse falando estendido neste divã aqui à nossa frente.
Nasio: seria simpático me ver de novo no divã tantos anos depois de tê-lo deixado! Mas quero mesmo jogar o jogo; estou curioso por saber aonde isso vai nos levar. Em todo caso, digo-lhe de cara que o trabalho empreendido com meus pacientes é certamente uma maneira de permanecer no divã. Por quê? porque um psicanalista trabalha não apenas com seu saber prático e seu saber teórico, mas sobretudo com sua capacidade de experimentar emoções, de fantasiar e, para resumir, de fazer seu inconsciente vibrar. No fundo, ser psicanalista é nunca ter deixado o divã. 
- Pois então minha primeira pergunta dirá respeito precisamente ao divã. Por que pedir aos pacientes que se deitem?
O divã tem uma função dupla: uma referente ao analisando; outra, ao analista. Ao analisando, induz o estado de recolhimento propício ao surgimento de lembranças, imagens, sentimentos e sensações. Ao se deitar, um paciente modifica singularmente seu ponto de vista sobre si mesmo e sobre o mundo. Passa de uma visão vertical e exterior das coisas a uma visão onírica de sua vida interior. A outra função do divã é libertar o analista da obrigação de suportar durante o dia inteiro o olhar escrutador de seus interlocutores. Vigiar-se constantemente o impede de estar disponível para penetrar dentro de si e sentir livremente as ressonâncias das palavras que o paciente lhe dirige. Pedir ao analisando que se deite não é portanto um simples ritual, mas um gesto técnico essencial que suscita a fala íntima e favorece a escuta atenta.
Como curiosidade, saiba que eu mesmo projetei este divã. Na realidade, o marceneiro propunha um modelo de espreguiçadeira em couro que me agradava bastante, mas cuja cabeceira era muito alta. Submeti então ao fabricante o croquis de um canapé com espaldar mais baixo para alinhá-lo ao nível de minha poltrona. Queria suprimir uma elevação exagerada da cabeceira, o que teria me distanciado do paciente. é um móvel belíssimo, sem ostentação mas provavelmente único. Tive vontade de trocá-lo várias vezes e acaba que estou com ele há mais de trinta anos! Na parede, em cima dele, está pendurada a reprodução de um quadro de Bruegel. Meus pacientes muitas vezes comentam que o divã parece dividido em dois: do lado esquerdo destaca-se o aspecto obscuro e monacal do Bruegel isolado numa grande parede branca; do outro, o aspecto colorido que se abre para a parte mais luminosa e despojada do aposento.
 
- A atmosfera de um consultório tem assim tanta importância?
É primordial. Dou bastante importância à estética do lugar onde recebo. Você sente claramente o ambiente caloroso do gabinete com a iluminação em amarelo e laranja que torna o espaço leve e transparente. É assim que gosto dele. Certos colegas, ao contrário, preferem a austeridade de um recinto sombrio em tonalidade escuras e cheio de livros. Cada um à sua maneira torna o local o melhor possível para seu trabalho de escuta.
- E como o senhor trabalha?
Tento ser um psicanalista próximo dos meus pacientes, próximo tanto no sentido próprio como no figurado. Quando o analisando está de frente para mim sento-me habitualmente na beirada da minha poltrona para me fazer mais presente; se deitado, deslizo o assento para perto do divã para reforçar a intimidade da escuta. Contrariamente à imagem caricatural do psicanalista mudo, distante e passivo, concebo a presença plena, ativa, inteiramente focalizada na pessoa do paciente. Na minha opinião, o clínico deve ser um observador minucioso, atento não somente às falas e aos silêncios do analisando, mas também às suas manifestações corporais. De fato, uma boa escuta começa por uma boa observação. A partir do momento em que recebo o paciente na sala de espera, toda minha sensibilidade fica despertada, seja minha sensibilidade visual, auditiva, olfativa, até mesmo tátil, quando , por exemplo, aperto sua mão e a sinto fria, mole ou úmida. Da mesma forma, presto um atenção particular aos pacotes e objetos que, às vezes, traz consigo; ou ainda, reparo no hálito alcoolizado de um outro, a despeito dos chicletes de menta que mascou para camuflá-lo. Quando se trata de uma criança sentada à mesa de jogos, ou de um adulto cara a cara, fico atento às expressões distraídas do rosto e às mensagens sutis dos olhos. Em suma, um psicanalista não escuta exclusivamente com seus ouvidos, sendo receptivo a todos os sinais pelos quais um ser comunida sua vida.
No entanto, focalizar nossa sensibilidade na pessoa do paciente não basta para compreender seu sofrimento e dele livrá-lo. É preciso também experimentar em nós esse sofrimento, isto é, senti-lo vividamente, e isto sem ficar perturbado. É a única forma de o terapeuta conhecê-lo verdadeiramente e tratá-lo de maneira mais eficaz. Dito isto, ele não pode se deixar invadir por uma emoção grande demais ou sucumbir à compaixão. Isso seria um enorme obstáculo à compreensão da situação. Ao longo dos anos, o analista aprendeu a controlar sua empatia e a não se deixar desestabilizar. Decerto ele continua humano e caloroso, mas de modo algum compadecido.
- Mas por que não se compadecer?
 
Porque o paciente não demanda que nos apiedemos de sua sorte, mas que o ajudemos a compreender suas angústias e sobretudo a se livrar delas. Se cedêssemos à compaixão, estaríamos longe do estado de atenção e lucidez indispensável para descobrir a origem dos distúrbios. Temos de escolher: ou bem nos compadecemos e, como faríamos com um amigo, partilhamos sua dor; ou bem, sem excluir a simpatia, mobilizamos nossos esforços para descobrir, por trás das manifestações do paciente, a verdadeira causa de sua doença. Causa que, o mais das vezes, é um choque emocional ocorrido na infância.
Eu dizia então que, para se livrar o analisando de seu sofrimento, é preciso compreender o sofrimento e, para compreendê-lo, é preciso experimentá-lo, quer dizer, senti-lo em si e isso, sem se deixar afetar. Ora, para ser preciso, não se trata de sentir o sofrimento atual que leva o paciente ao consultório, mas antiga dor de seu trauma infantil: sentir em si o que o outro esqueceu. Toda a nossa dificuldade de psicanalista depende do êxito dessa operação mental: sentir em si todas as primeiras emoções dolorosas vividas outrora pelo outro que atualmente as esqueceu; não se deixar perturbar; imaginar uma cena com personagens que sentiriam tais emoções; e fazer o paciente viver a intensidade de tal cena descrevendo-a para ele em termos significativos. É um delicado exercício de percepção psicanalítica que leva o analista a reviver em si próprio as emoções esquecidas do analisando e transmiti-las a ele. Estou convencido de que só conseguimos conhecer bem um paciente conhecendo-o em nós mesmos, no mais profundo de nós mesmos.
Mas gostaria de ser mais concreto. Quando, depois de vários meses de análise, em um momento agudo de uma sessão, escuto o paciente exprimir o seu mal-estar, faço um esforço para imaginá-lo criança ou adolescente em uma cena de conflito marcante de sua história. Saiba que toda pessoa que sofre encerra uma criança desamparada, ferida, que busca em vão dizer a sua dor. Pois bem, é justamente essa criança em sofrimento, impotente, quase sem palavras, que tento representar mentalmente para mim. Sinto então não o que sente o adulto que me fala, mas o que sentiria o garotinho ou a garotinha do drama infantil ao qual dou vida. Caso, durante o tratamento, a cena imaginada não se confirme como mero devaneio de minha parte, e, ao comunicá-la ao analisando, este se veja aliviado de sua angústia, terei certeza de ter extraído finalmente um dos conflitos principais na origem dos sintomas.
Penso aqui em Lea[1], uma mulher jovem que veio me consultar em função de uma grave fobia da rua que a condenava a se enclausurar em seu apartamento. Deslocava-se o mínimo possível e era sempre acompanhada por um amigo quando se dirigia ao meu consultório. Depois de um ano de análise, ocorreram diversas sessões decisivas, entre as quais uma em que vimos o nó sufocante de sua fobia se afrouxar. Enquanto ela me contava chorando a traição de sua melhor amiga, me lembrei de uma cena dramática de sua infância. No dia em que fazia cinco anos, seu pai a acordara para lhe anunciar, desvairado, a inexplicável partida de sua mãe para um país distante. Um ano mais trade ela ficou sabendo que na verdade sua mãe morrera num trágico acidente de carro. Devo esclarecer que Lea já me pusera ao par desse acontecimento dilacerante, mas num tom frio e distante, como se lhe fosse indiferente. Ora, foi ao escutar sua queixa pelo abandono de sua maior amiga que visualizei a cena do outro abandono, o de sua mãe.
Ao me lembrar daquele acontecimento, sento o que devia sentir uma garotinha aterrada pelo anúncio desajeitado de um pai sob o golpe de um luto repentino. Senti lucidamente, no momento da sessão, o que Lea tinha experimentado confusamente vinte anos mais cedo: um terrível sentimento de abandono e de glacial solidão.
Com um tato infinito, descrevi-lhe então a cena traumática e evoquei o desespero que a prostrou. Depois da minha intervenção, Lea ficou transtornada como revivesse no presente a perturbação de uma separação cuja dor ela havia recalcado. Nos meses que se seguiram a essa sessão de revivescência, tivemos a satisfação de ver pouco a pouco suas angústias fóbicas desaparecerem.
Gostaria de acrescentar algumas palavras com respeito às fobias para apontar uma particularidade que se verifica invariavelmente em diversos pacientes e que formularei sob a forma de uma pergunta. Na presença de um analisando fóbico, é preciso sempre se perguntar: “Que trauma, que separação violenta, que perda, mais exatamente, que abandono – real ou imaginário – ele sofreu entre três e seis anos, por parte de um ou outro de seus pais?” De fato, sabemos que o medo fóbico é uma angústia provocada pela perda precoce, brutal e não simbolizada de um ser querido. Destaco que essa perda pode ter acontecido na realidade ou “na cabeça” da criança. Real ou imaginária, a perda não deixa de ser dolorosa. Tendo sofrido em sua infância, o fóbico vive em estado de alerta, na angústia permanente de uma nova separação. Mas logo esclareço que o sujeito não está consciente de tal ameaça, nem mesmo preocupado com a ideia de um novo abandono. Não, o que ele teme é um perigo externo como poderiam ser a rua, a ponte, o avião etc., perigos que, segundo ele, não têm relação alguma com o trauma da infância. Lea, por exemplo, paralisada pela fobia dos espaços abertos, ignora o quanto sua angústia foi provocada pela súbita “partida” de sua mãe. Ora, a partir do momento em que a levei a reviver a cena do abandono, e isso, graças à minha própria revivescência, seu medo da rua se atenuou. Por quê? Porque todo trauma infantil, revivido, verbalizado e significado na atualidade de terapia, perde sua virulência. Enquanto fica esquecido, o trauma é nocivo; a partir do momento em que reflui para a consciência, torna-se inofensivo.
O exemplo de Lea mostra como revivi em mim mesmo e fiz reviver à paciente a emoção de um abandono esquecido.
-Quer dizer, o psicanalista trabalha com o coração como com a razão!
Mais do que com o coração, eu diria com o inconsciente. Ao escutar o analisando e me concentrar até reviver sua emoção recalcada, invisto intencionalmente meu próprio inconsciente. O inconsciente do analista é seu mais precioso instrumento de trabalho. Para um profissional, agir com seu inconsciente significa, como você viu, deixar ressoar em si as mais finas vibrações do inconsciente do paciente. Essa imersão em si para ir ao encontro das emoções submersas do outro frequentemente me faz pensar nos mergulhadores do filme de Luc Besson, Le Grand Bleu. Na mais viva acuidade da escuta, também tenho a impressão de mergulhar sem respirar e conhecer a embriaguez das profundezas abissais. Tento então desentocar no fundo de mim mesmo as cenas conflituosas do analisando, para depois voltar à superfície e lhe dizer, chegado o momento, com palavras simples e expressivas o que percebi. Eis a intervenção mais decisiva do psicanalista, a qual, é preciso assinalar, não se repete em todas as sessões. É um ato psíquico muito exigente, mas indispensável para conhecer em si a origem do sofrimento do outro e lhe revelá-la. Acrescento que o êxito dessa descida interior exige um conhecimento detalhado da história do paciente, uma inteira disponibilidade, uma longa formação de clínico e, sobretudo, uma análise pessoal terminada.
A propósito de mergulho mental, tenho sempre presente no espírito uma frase pouco conhecida de Freud, que a meu ver, define perfeitamente o uso que o analista faz de seu inconsciente. Ele escreve o seguinte: “O psicanalista capta o inconsciente do analisando com seu próprio inconsciente”. Em outras palavras, quando o psicanalista mergulha em si mesmo, ele se serve de seu inconsciente como de um órgão receptor destinado a captar os sentimentos inconscientes do paciente. Esse engajamento de uma parte de si é a mais autêntica atitude de um clínico que, embora permanecendo ele próprio, dispõe seu inconsciente como uma tela na qual se projetam cenas traumáticas infantis. Assim, no momento mais agudo da escuta, quando o analista utiliza o seu inconsciente instrumental, ele se dissocia entre aquele que controla a situação e aquele que, simultaneamente mergulha em si mesmo. Falando dessa maneira, imagino o quanto deve ser difícil para você conceber tal desdobramento. É uma experiência que é preciso viver para compreendê-la de fato: sentir-se totalmente lúcido e, ao mesmo tempo, operar um salto em seu inconsciente.
- Que diferença o senhor faz entre a técnica da psicanálise tal como a descreve e a da psicoterapia?
Existe uma grande distância entre os dois métodos. A escuta do psicoterapeuta consiste em desenredar um conflito relacional balizando os acontecimentos da vida passada e atual que o provocaram. É um trabalho de esclarecimento benéfico que permite ao paciente compreender a significação de seus conflitos e a razão de sua repetição. A escuta do psicanalista é bem diferente. Não se trata apenas de levar o paciente a compreender o encadeamento das situações que resultam no conflito, mas de incitá-lo a reviver – como acabo de lhe mostrar – o choque emocional gerador de seu sofrimento atual. Isto posto, essas duas técnicas, a despeito de suas diferenças, podem ser exercidas pelo mesmo clínico ao longo do tratamento. Um psicanalista pode legitimamente agir inicialmente como psicoterapeuta, para depois tentar, se o estado do paciente exigir, operar a técnica da psicanálise de que lhe falei, isto é, utilizar seu inconsciente para captar o inconsciente do analisando.
- Quais as vantagens de uma técnica em relação à outra?
Ao passo que a psicoterapia é uma escuta capaz de suspender provisoriamente o sintoma, a psicanálise pode não apenas obter a mesma melhora, mas sobretudo modificar a personalidade do analisando levando-o a modificar sua atitude com respeito a seu sofrimento. Quando uma análise é eficaz, ela leva o paciente a mudar a visão que tinha de si mesmo doente. Ela lhe ensina a flexibilidade de voltar a si, de aí se descobrir estranho a si próprio, de se ver de forma diferente e de sentir seu mal-estar de outra maneira. “O verdadeiro lugar de nascimento – escreve Marguerite Yourcenar – é aquele para o qual voltamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios”.
- O senhor fala em “modificar a personalidade”, mas isso não representa um risco de desestruturar o paciente?
Vou responder citando as palavras de um paciente que me escreveu recentemente logo depois de uma sessão. Ele me dizia: “No trabalho que o senhor faz comigo, o senhor não destrói, não conserta, não substitui, não acrescenta; o senhor reforça o que já existe”. De fato, o princípio, que me guia se resume nestes termos: o paciente, livre de seus conflitos nocivos deve se reconciliar consigo mesmo, se redescobrir em si mesmo, a partir do que tem e do que é. Meu objetivo não é mudar sua personalidade, mas enriquecê-la com o que ela já traz em si em estado embrionário e, se possível, ensiná-lo a se amar de maneira diferente. Se, por exemplo, um artista, por ocasião da primeira entrevista e independentemente do motivo que o levou a me consultar, me dá ciência de seu medo de ver sua inspiração secar ao longo do tratamento, tranquilizo-o imediatamente declarando que não retirarei nem acrescentarei nada ao que ele é, mas, ao contrário, tentarei estimular nele toda sua potencialidade criadora (da página 11 até a 21).


[1] Devo lembrar que o relato de uma história, por mais fiel, é sempre uma ficção, a ficção daquele que escreve. Esta observação vale para Lea e todos os casos que evocarei neste livro.
 
 
 
NASIO, J.D. Um psicanalista no divã. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

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