segunda-feira, 29 de julho de 2013

Eu, leitor de psicanálise, Antonino Ferro

 
Eu, leitor de psicanálise
 
Os livros sobre os quais formei o meu núcleo de grande leitor, devo confessar, foram os de Emilio Salgari. Consola-me ler as linhas de Claudio Magris (1982) nas quais diz que “o romance de aventura é uma espécie de saída ao ar livre e, ao mesmo tempo, uma volta para casa [...]. O ciclo da Malásia é uma versão toscamente ingênua e infantil da aventura que a Odisséia e a Fenomenologia do Espírito contam com as palavras mais altas e maduras da poesia e do pensamento”, para depois prosseguir: “Ter amado Salgari, na idade dos primeiros encontros com o livro, significa ter orientado a própria paixão pela fantasia em uma direção ou em outra”. Aventuras, lutas, injustiças, viagens, tempestades, perdas, vitórias, paixões, mistérios, Tremal-Naik, os Tigres da Malásia, Mompracem... O prazer indissociável do gosto pela leitura.
Não mencionarei meus gostos literários sucessivos para chegar a como comecei a “saborear” a psicanálsie. Iniciei a (fui iniciado na) na leitura da psicanálise pela A Psicopatologia da Vida Quotidiana (eu tinha 15 anos), para depois passar às Conferências introdutórias à Psicanálise, na velha edição da editora Astrolábio. O que é que me capturava? A clareza do texto, a visibilidade dos exemplos, a estrutura de certa forma do tipo de romance policial, em que as “pequenas células cinzas” do leitor eram constantemente colocadas à prova. Passam os anos, prossegue a leitura de Freud, mas o que me apaixona a ponto de se tornar também leitura de verão na praia? Os Casos Clínicos. Evocações visuais das narrações, estimulação de associações, construções de cenografias. Mesmo os textos mais teóricos, foram depois estudados sempre com o prazer de descobrir as evocações e a apresentação de imagens e de metáforas. Desde então, sempre usufruí de uma leitura aventurosa das exemplificações clínicas (e dos mundos criados por todos os teóricos da psicanálise), como acontece com a Klein e os dias infernais das fantasias mais primitivas, ou com o Bion dos Seminários ou de Uma Memória do Futuro (p. 89 a 90).  

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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