segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ler a psicanálise: o prazer e a aventura da exploração, Antonino Ferro


Ler a psicanálise: o prazer e a aventura da exploração


Galeotto fu ‘l libro e chi ló scrisse”* está entre os versos da Divina Comédia que ficam na memória. Os leitores do livro – como sabemos – são Paolo e Francesca, nos quais a leitura conjunta acende na alma uma paixão arrebatadora e irresistível. Eis uma das características de um verdadeiro livro, e de um verdadeiro livro de psicanálise: acende na alma curiosidade, paixão, faz com que à noite, na cama, nos digamos muitas vezes “Daqui a pouco desligo a luz”. Todo verdadeiro livro é substancialmente um livro de psicanálise, e Freud nos disse que escritores e poetas, muitas vezes, precedem a psicanálise. A escrita e a leitura são, e foram, instrumentos privilegiados de investigação da profundidade da alma humana: Tolstói, Dostoiévski, Proust, Mann, Flaubert, e não prossigo se não utilizaria todo o espaço citando nomes e obras.

Portanto, qualquer livro pode ser um livro de psicanálise. Este é o próximo assunto que vou desenvolver só parcialmente. Se pudesse desenvolvê-lo, de forma extensa, olharia para Joyce, especialmente o de Finnegans Wake, depois para Balzac e os escritores de teatro desde Shakespeare a Molière, a Ibsen, a Pirandello. Se me for permitida uma hipérbole, gostaria de afirmar que três belos livros de psicanálise, entre os lidos nos últimos anos, são: Dragão Vermelho, O silêncio dos inocentes e Hannibal, os três de Thomas Harris (Ferro, 2002a, 2004a). Por que digo de psicanálise? Porque entram em contato e descrevem, de forma psicanalítica, estados muito profundos da mente que somente a psicanálise – além da literatura – pode alcançar.

*N. e T. “Alcoviteiro foi o livro e quem o escreveu”.

O primeiro tem o seguinte enredo:

- em linguagem psicanalítica: a inversão do fluxo das identificações projetivas de uma mãe, incapaz de rêverie, impede um adequado desenvolvimento da função a e causa a evacuação de angústias impossíveis de serem contidas através de atuações violentas. O encontro com uma pessoa capaz de receptividade por um momento acende a esperança de uma mudança, mas a destrutividade prevalece mais uma vez;

- em linguagem compartilhada: um serial killer, Francis Doharhyde (!), a cada terceira lua, mata famílias inteiras com rituais que preveem a humilhação das vítimas, a fragmentação dos espelhos, a disposição dos cadáveres de forma que olhem para ele. A história infantil do protagonista foi trágica: abandonado pela mãe, rainha de beleza, que quando o vê pela primeira vez grita por causa da grave deformação que ele tem no rosto, jamais conseguirá se olhar no espelho. Uma tentativa de voltar para a mãe e para a nova família dela fracassa miseravelmente e, após a morte da avó, a única que havia cuidado dele, começam suas chacinas. Até que encontra uma moça cega (portanto, que não fica horrorizada com o aspecto do seu rosto), que tem com ele uma relação de terno afeto, com uma aceitação plena. Isto lhe causa uma espécie de cisão entre um aspecto que deseja, sem possibilidade de renunciar, a vingança (Dragão Vermelho), e um outro aspecto que quer salvar a moça e a terna relação que começou entre eles. (Estamos, assim, na sala de análise com um paciente borderline ou piscótico).

 

O segundo tem o seguinte enredo:

- em linguagem psicanalítica: a busca de um continente estável, na ausência da introjeção de uma pele psíquica, faz com que o protagonista (incapaz de simbolizar) utilize fetiches que lhe dão a ilusão de uma possibilidade de autoconcentração.

- em linguagem compartilhada – Jame Gumb, ele também um serial killer que mata mulheres robustas, tem nas suas costas uma história precoce de abandonos e de ausência de cuidados maternos. Mata porque quer confeccionar para si um vestido de pele humana que lhe sirva de nova pele e identidade. Mata jovens mulheres para construir – exatamente como um alfaiate – este invólucro. Nos dois romances, uma figura que retorna é do Dr. Hannibal Lecter, um psiquiatra, por sua vez também serial killer, prisioneiro dentro de uma jaula em um cárcere de segurança máxima. A partir do segundo romance, a agente Starling é a heroína que se lança à caça do serial killer, com mil aventuras.   

 

O terceiro, Hannibal, tem o seguinte enredo:

- em linguagem psicanalítica: a parte psicótica da personalidade é capaz de seduzir a parte sadia, e o ser devorado pelos sentimentos de culpa por não ter podido salvar a parte terna infantil se transforma no canibalismo; na ausência de alimento para a mente – a rêverie materna – as partes ternas são destruídas pelas partes violentas, que acabam por canibalizar a própria mente;

- em linguagem compartilhada: Hannibal, após conseguir fugir do cárcere, é novamente capturado pela polícia. Nesse meio tempo, é revelada sua perversão canibalesca e também a matriz infantil da mesma: quando era pequeno perdeu uma irmãzinha muito amada, vítima de atos de canibalismo. Foi comida por bandidos que, esfomeados, irromperam na fazenda em que viviam e, não tendo encontrado comida, tinham devorado, além de um pequeno veadinho, companheiro de brincadeiras de Hannibal, também a menina. Hannibal desejaria uma temporalidade não linear e, por intermédio dela, inverter o curso do tempo e fazer reviver a irmãzinha através da agente Starling, que ele conseguirá hipnotizar... (p. 86 a 88).

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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