segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mas para um leitor não especialista, que leitura de psicanálise?, Antonino Ferro


Mas para um leitor não especialista, que leitura de psicanálise?

Em primeiro lugar, deve ser uma leitura que seja “compreensível”, que “evoque imagens”, que "tenha odor”, que conduza para a sala de análise, que abra para mundos inexplorados, para subterrâneos, para subsolos, para mundos paralelos e possíveis. Penso que, se um livro de psicanálise é bonito, deveria ter sobre nós o mesmo efeito que os romances de cavalaria tinham sobre Don Quixote, realmente nos raptar em uma outra dimensão. Que é o que me acontece – e creio que aconteça a muitos – com os clássicos da psicanálise de Freud a Klein, a Winnicott, a Bion. Ajuda-me a metáfora “alimentar”da leitura, muitas vezes proposta: Alberto Manguel (1996) nos diz que esta metáfora parece remontar a 593 a.C., quando Ezequiel teve uma visão em que um anjo obrigava a comer um livro – sucessivamente São João teve a mesma visão. Em seguida, esta metáfora tornou-se retórica comum. Parece que Samuel Johnson fosse um leitor tão voraz a ponto de almoçar com um livro no colo para recomeçar a ler tão logo tivesse acabado a última grafada. “O mundo que é um livro, é devorado por um leitor que é uma carta no texto do mundo”, escreve Manguel.

Faço muitas referências ao visual, porque creio que ele tenha um lugar essencial na leitura. É suficiente lembrar, uma vez por todas, que o editor Franco Maria Ricci publicou um livro de Luigi Serafini, o qual havia criado a enciclopédia – tipo aquelas medievais – de um mundo imaginário: cada página ilustrava algo específico (e insistente), e as notas e os comentários eram redigidos em um alfabeto imaginário e inventado, um livro inteiramente composto de imagens e palavras inventadas, com o prefácio de Italo Calvino, o Codex Seraphinianus. Aqui poderíamos abrir uma reflexão sobre os livros ilustrados para crianças, sobre as revistas em quadrinhos, sobre os filmes, sobre a necessidade do maravilhoso e do mágico que nos demonstra o enorme sucesso de Harry Potter. Para concluir, um livro de psicanálise, para ser lido, deve despertar “o gosto” e a “a fantasia” do leitor: portanto, deve suscitar deleite e prazer (p. 90).


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário