segunda-feira, 29 de julho de 2013

O escritor de psicanálise, Antonino Ferro


O escritor de psicanálise


Sempre considerei o escrever psicanálise (e o viver dentro de uma sessão de análise) muito semelhante com a atividade de um pintor: alguém empenhado em fazer quadros verbais, em constante mutação, construção, desconstrução tanto nas cores quanto nas formas. Este despertar do visual foi também a magistral peculiaridade narrativa de Freud (Petrella, 1988). Igualmente na minha maneira de pensar na pintura/ escrita, sempre considerei como fundamental tanto o “esta noite improvisa-se”* quanto o “gosto de não saber aonde vamos” (Ferro, 2006d). Dois animais perigosos e assustados em um quarto, com a única esperança de que um deles esteja um pouco menos assustado, é a pictográfica expressão com a qual Bion (1980) retrata analista e paciente, sozinhos na sala de análise. Ele sempre define a psicanálise como aquela sonda que alarga continuamente o campo que explora, e são estes os sabores fortes que deveríamos conseguir transmitir. Temos uma maravilhosa astronave, o método psicanalítico, que esperemos seja arcaica em relação às de amanhã, que poderão nos conduzir em direção a dimensões ainda mais desconhecidas da mente. A esse respeito, é extraordinário como Tolstói – em um pequeno livro recentemente organizado e traduzido por Carla Muschio – faz com que hipotéticos personagens (um professor do interior, um professor muito bairrista, um professor pedante, uma professora, ele mesmo e, finalmente, um camponês muito inteligente) relatem como um navio se movimenta graças ao vapor, colocando-se a questão, através de diferentes escritas do mesmo tema, da eficácia narrativa capaz de capturar o leitor, afim de que este possa dizer: “Mais um pouco” (p. 91).

*N. de T. No original, “Stasera si recita a soggetto” título de uma peça teatral de Luigi Pirandello.


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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