segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Gênero de escrita analítica, Thomas H. Ogden

Capítulo 8
Sobre a escrita psicanalítica
 
I O Gênero de escrita analítica
 
A escrita é um gênero literário que envolve a conjunção de uma interpretação e de uma obra de arte. Penso esta forma de escrita como uma conversação entre uma ideia analítica original (desenvolvida de maneira escolástica) e a criação em palavras de algo semelhante a uma experiência analítica. Toda a ideia analítica é uma interpretação no sentido de que trata direta ou indiretamente da relação entre a experiência consciente e inconsciente, e, assim, constitui uma interpretação no sentido analítico. Ao mesmo tempo, a escrita analítica envolve necessariamente a criação de uma obra de arte, pois o escritor precisa utilizar a linguagem de um modo astuto para criar para o leitor na experiência de leitura uma sensação não somente dos elementos essenciais de uma experiência analítica que o autor teve com um paciente, como também “a música do que acontece[u]” (Heaney, 1979, p. 173) naquela experiência (isto é, como era estar naquela experiência). (Bion, 1978, parece que tinha algo semelhante em mente quando disse: “Se quisermos fazer uma comunicação científica, também teremos de fazer uma obra de arte” [p. 195]. Ele não desenvolveu mais esta ideia).
O escritor está constantemente lutando com a realidade de que uma experiência analítica – como todas as outras experiências – não chegam até nós em palavras. Uma experiência não pode ser contada ou escrita; uma experiência é o que é. Não podemos contar ou escrever uma experiência analítica tanto quanto não podemos dizer ou descrever o aroma de café ou o sabor de chocolate (Ogden, 2003b). Quando um paciente conta um sonho da noite anterior, ele não está contando o sonho em si; em vez disso, ele está fazendo uma nova experiência verbalmente simbolizada no ato de (aparentemente) contar a experiência visualmente da noite anterior. De modo análogo, quando lemos uma descrição escrita de uma experiência de um analista com um paciente, o que estamos lendo não é a experiência em si, mas a criação do escritor de uma nova experiência (literária) enquanto (aparentemente) escreve a experiência que ele teve com o analisando. Com Bion coloca,
 
Eu não posso ter tanta confiança em minha capacidade de contar ao leitor o que aconteceu quanto eu tenho em minha capacidade de fazer algo para leitor [na experiência de leitura] que fizeram para mim. Eu tive uma experiência emocional [com um paciente]; eu sinto confiança em minha capacidade de recriar aquela experiência emocional [na experiência de leitura do leitor], mas não representá-la (1992, p. 219).
 
Ao criar para o leitor, na experiência de leitura, algo semelhante à experiência que ele teve com o analisando, o escritor analítico vê-se recrutado às tropas de escritores imaginativos. Entretanto, diferente dos escritores de ficção, poesia ou teatro, um autor que escreve no gênero analítico deve manter-se fiel à estrutura fundamental do que realmente ocorreu entre ele e o paciente (da forma como viveu a experiência). O autor analítico está sempre colidindo contra uma verdade paradoxal: a experiência analítica (que não pode ser dita ou escrita) deve ser transformada em “ficção” (uma versão imaginativa de uma experiência em palavras), para que a verdade da experiência seja transmitida ao leitor. Em outras palavras, a escrita analítica, ao transmitir a verdade de uma experiência analítica, “transforma fatos em ficções. É somente quando fatos tornam-se ficções [que] ... eles se tornam reais [na experiência da leitura]” (Weinstein, 1998). Ao mesmo tempo, a “ficção” que é criada em palavras deve refletir a realidade do que ocorreu. A experiência daquela realidade permanece viva no escritor analítico não apenas na forma de memória mas, igualmente importante, no modo como ele foi mudado e continua sendo mudado por ela.
Enquanto estou envolvido na escrita analítica, fico o tempo todo indo e voltando entre a experiência analítica que permanece viva em mim e os “personagens” que estou criando ao escrever. Existe uma forma característica do trabalho psicológico/literário envolvido na criação e manutenção de uma conexão viva entre as pessoas reais (o paciente e o analista) e os “personagens” na história escrita, e entre o fluxo da experiência vivida e o “enredo da história” escrita que se desdobra.
Os personagens na história dependem para suas vidas de pessoas reais (o paciente e o analista); e da vida ao que aconteceu entre essas pessoas no setting analítico depende da vitalidade e tridimensionalidade dos personagens criados na história. Manter viva sua conexão tanto com sua experiência vivida com o paciente quanto com sua experiência com os personagens da história exige do escritor analítico um delicado ato de equilíbrio. As pessoas reais e os personagens estão constantemente em perigo de desprender-se em diferentes direções. Quando isso acontece, a história perde toda a vitalidade; os personagens não são mais críveis e o que eles dizem parece artificial. A arte da escrita psicanalítica reside em conseguir sustentar um diálogo vital entre a experiência analítica vivida e vida da história escrita (p. 139-141).   
 
OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.             

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