segunda-feira, 8 de julho de 2013

“O pensamento mais profundo que temos” na escrita analítica teórica, Thomas H. Ogden



III “O pensamento mais profundo que temos” na escrita analítica teórica

Embora um escritor analítico não possa dizer uma experiência, ele pode dizer como foi uma experiência. Consequentemente, ele está o tempo todo ocupado com a criação de metáforas, “não metáforas bonitas... [mas] o pensamento mais profundo que temos” (Frost, 1930, p. 719). Um escritor habilidoso usa a linguagem de uma forma tão sutil que muitas vezes ele só tem consciência subliminar de que o uso da metáfora é o meio predominante pelo qual o significado está sendo transmitido. Winnicott é mestre a esse respeito quando descreve as possíveis respostas da criança à ausência da mãe enquanto ela está fora ganhando um filho:

Quando nenhuma compreensão pode ser dada [a uma criança muito pequena sobre o nascimento iminente de um irmão], então quando a mãe está fora para ter seu novo bebê ela está morta do ponto de vista da criança. É isso que morta significa.

É um questão de dias ou horas ou minutos. Antes de o limite ser atingido a mãe ainda está viva; depois que este limite é transposto ela está morta. Neste ínterim há um precioso momento de raiva, mais isso se perde rapidamente ou talvez nunca seja experienciado, sempre potencial e carregando medo de violência (Winnicott, 1971b, p. 21-22).

Nessas frases com palavras muito claras, as metáforas residem silenciosamente dentro de outras metáforas. A declaração aparentemente simples de Winnicott: “É isso que morta significa” (composta de cinco palavras monossilábicas*) é densa de significados. Essa frase é sutilmente ambígua: quem morreu – a mãe ou a criança? A ambiguidade permite que sejam ambas ao mesmo tempo. A experiência da criança “do que morta significa” não é apenas uma experiência da mãe estar absolutamente indiferente (metaforicamente morta) para a criança (em sua ausência); é também uma experiência da criança estar metaforicamente morta/indiferente a si mesma, morta para o sofrimento da ausência da mãe. Embora a primeira (a absoluta indiferença da mãe para a criança em sua ausência) seja ao que a metáfora aparentemente se refere, a segunda (a morte da criança para si mesma) é a imagem mais silenciosamente vigorosa e o aspecto psicologicamente mais destrutivo da experiência emocional.

Winnicott continua: “É uma questão de dias ou horas ou minutos. [O que é uma questão de dias ou horas ou minutos? O leitor por um momento vive com a confusão da criança sobre o que está acontecendo.] antes de o limite ser atingido a mãe ainda está viva; depois que o limite é transposto ela está morta [e a criança está morta]”. Aqui, Winnicott está construindo uma metáfora de uma linha que separa a terra dos vivos (mãe e criança) e a terra dos mortos (mãe e criança).

A metáfora então é expandida: “Neste ínterim há um precioso momento de raiva”. Existe um espaço entre a terra dos vivos e a terra dos mortos, um espaço em que existe “um precioso momento de raiva”. A ambiguidade de “Isso é o que morta significa” se desenvolve aqui. Existe uma abertura no espaço (metafórico) em que algo que não seja a morte da criança poderia acontecer. “um momento precioso de raiva” se estabelece como o oposto da morte metafórica da criança (e secundariamente da morte da mãe). As palavras “precioso” e “raiva” colidem na frase “um momento precioso de raiva”. Desta colisão (tanto na experiência da criança quanto na experiência de leitura), surge uma união momentânea, frágil de vitalidade e destrutividade. É um momento que “se perde rapidamente ou talvez nunca seja experimentado, sempre potencial e carregando medo de violência”.

O que “morta significa” é desenvolvido ainda mais: morta significa que a criança perde (ou jamais experiencia) a vivacidade decorrente de sentir sua raiva como sua; ela também significa a perda da durabilidade de seu senso de identidade na experiência de sustentar sua raiva ao longo do tempo. Seu medo de que sua raiva transforme-se em violência real que pode danificar ou destruir sua mãe representa uma constante ameaça a sua capacidade de permanecer viva para si mesma em sua raiva. A frase “carregando medo de violência” não tem um sujeito humano – o sujeito é “momento” – assim transmitindo uma ideia do modo como este medo de violência é não experienciado pela criança como sua própria criação, como seu próprio sentimento. Em vez disso, é uma força impessoal pela qual a criança se sente habitada e sobre a qual não sente controle algum. Destruindo a si mesma, sua capacidade de sentir alguma coisa poder ser preferível ao risco de matar a mãe como consequência da violência com a qual está ocupada.

Nessas cinco frases, Winnicott utiliza uma metáfora bastante comum, na qual a ausência da mãe se assemelha a sua morte, e a transforma primeiro em uma metáfora que sutilmente sugere a morte da criança diante da ausência da mãe; e depois em uma metáfora na qual um espaço frágil no qual o estado de vivacidade emocional da criança é sustentado por raiva “preciosa”; e, por fim, a metáfora é completada pela incorporação da ideia de que a vitalidade emocional frágil da criança (que reside na colisão do precioso com o violento) poder ser extinta pela própria criança se ela acreditar que sua própria vitalidade (em sua experiência de raiva) representa uma grande ameaça à vida de sua mãe.

Como podemos ver, a metáfora (“o pensar mais profundo que temos”), quando utilizada com habilidade, permite que a escrita analítica teórica signifique muito mais do que ela é capaz de dizer (p. 145-147).        
      *N. de T.: no original, This is what dead means.


OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.      
 

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