terça-feira, 30 de julho de 2013

Perguntas para esclarecer, Antonino Ferro


Perguntas para esclarecer

Existe um mental não pulsional?


Esta é uma pergunta extremamente importante. De um lado temos Freud, os desenvolvimentos da “psicanálise francesa”, a noção de “fantasia inconsciente” como “representante psíquico da pulsão”. Tudo o que sabemos dos vários níveis das pulsões, de seu destino, sua genealogia, sua imbricação e desimbricação, e que fazem parte do nosso patrimônio psicanalítico comum e compartilhado. Depois, temos as relações com o objeto e as qualidades do mesmo. O sexual, entendido como movens* do pulsional, está presente de forma significativa. No modelo em que me inspiro, e que, ao mesmo tempo, tento desenvolver, a categoria do mental (thinking-feeling-dreaming) é diferente e mais complexa. O mental deriva da transformação do que é sensorialidade em elemento a, no recém-nascido, com a passagem desta sensorialidade através função a da mãe, sucessivamente com a passagem da sensorialidade através da própria função a, uma vez que esta tenha sido introjetada e funcione de forma suficientemente eficiente. Mas, a categoria do sensorial não se sobrepõe à área do pulsional, é muito ampla. A área do sensorial abraça qualquer fonte de estímulo, portanto estímulos proprioceptivos (fome, sede, etc.), mas também estímulos esteroceptivos (luz, calor, cores, etc.), isto é, tudo aquilo que chega à mente como experiência a partir de dentro e de fora, incluídos os estados de obstruções protoemocionais que acontecem, e os que acontecem no Outro. Portanto, a psique seria algo que nasce não da transformação da pulsão, mas da transformação de tudo aquilo que é percebido como perturbador e que, consequentemente, torna-se o “percebido evacuado”. Uma vez que este percebido evacuado é acolhido e transformado por uma mente que tenha uma função a que funciona, inicia-se o processo que leva ao elemento a e à introjeção progressiva da função a. Portanto, uma mente que funciona tem a seguinte composição:

Sensorialidade – VS. – função a – VS. – elementos a

O conceito de sensorialidade é extremamente mais amplo do que o conceito de pulsão. O conceito de elemento b também o é. Mas, ao definir a mente, é obrigatória a passagem através da mente do outro e a introjeção da função pensante, por meio da transmissão do método para pensar (para thinking-feeling-dreaming). Creio que Bion nos indica claramente este caminho e nos assinala como o grande problema da espécie seja justamente “a mente” e todos os seus disfuncionamentos. O mental de cada um depende também da qualidade das funções a que introjetou e de como se uniram. Em outra linguagem, estou incluindo o transgeracional da Faimberg (1998, 1993) (p.45 a 46).    

N. de T. Movens = impulso, movente.

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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