quinta-feira, 4 de julho de 2013

Quais as características para o analista?, Antonino Ferro



Um jovem colega, fazendo a formação, me surpreendeu com a pergunta: quais os dotes de base que um analista deveria ter? Não respondi em teoria (teria podido percorrer, novamente, dezenas de textos sobre o assunto), mas de impulso: a benevolência, a confiança no método, a capacidade de se cegar para qualquer realidade que não seja a da sala de análise.

Benevolência quer dizer entrar em contato com o sentimento de que mesmo o mais “horrível” dos pacientes corresponde a um nosso torrão análogo, comumente não integrado. Não existe paciente que não nos fale das nossas terras perdidas e, frequentemente, mudas. Benevolência quer dizer tanto capacidade de querer bem quanto, especialmente, capacidade de ter um olhar tipo frei Cristovão, omnia munda mundis[1], ou, melhor ainda, um olhar tipo o do bispo de Os Miseráveis, que defende Jean Valjean, réu por ter-lhe roubado a prataria depois de ter sido hospedado e acolhido. Bispo que diz aos guardas que haviam capturado Jean Viljean para deixá-lo livre, porque ele mesmo lhe dera a prataria de presente.

Confiança quer dizer fé em que o método funciona, que serão necessários meses ou anos, mas no final, algo de útil, mesmo com o mais terrível dos pacientes, conseguiremos fazer, agarrando-nos a algo que sabemos: “Que a análise funciona”.

E, finalmente, o fato de que nos cegarmos para qualquer realidade externa permite ver cenas na sala de análise cujo reflexo da realidade externa apagaria. Em uma sessão, somos “as entraîneuses russas” que salvam o paciente da depressão, em outra “aquele monstro do meu marido que me submete a um extremo insulto, pedindo-me para fazer amor quando estou exausta” (isto após uma interpretação de transferência), mas somos também a “bolsa de quente que queima”, “a prima que continua me rejeitando mesmo que eu não deixe de pensar nela dia e noite”, “o cachorro que me mordeu”, e assim por diante. Não existem cenas externas: se escurecemos tudo à nossa volta, a dramatização da cena analítica ganha espessura, vida, corpo e nela podemos ter realmente uma função transformadora; podemos nos sintonizar na “esposa ciumenta”, na “dor de ser rejeitado”, em síntese, a sala de análise torna-se o palco em que todo Shakespeare, Pirandello, Molière, Ibsen, etc. ganha vida em uma infinidade de tramas afetivas que perdem espessura e vitalidade se permitimos que entre luz do “fora”: em uma sala cinematográfica, eu dizia, é necessário deixar as luzinhas acesas, mas deve estar escuro. Na sala de análise, permitimos a vida e a luz, se fizermos escuro total sobre o que está fora. Certamente, isto não quer dizer tirar espessuras da realidade histórica ou existencial que seja, mas permitir que se encarne ali, único lugar onde pode ser transformada: e se o noivo não responde ao celular, viver a dor dessa falta de resposta com o paciente, sabendo que somos nós que não respondemos, e que seria simples demais interpretá-lo, antes temos que responder. Pensar pensar no objeto interno que não responde, a mãe que não respondeu na história, impede que o drama ganhe vida com plena espessura na sala de análise, conscientes nós, inconsciente a paciente, que continuará a nos chamar de “o noivo”. E, se uma paciente perguntar o que pensamos sobre as relações homossexuais e nos relatar a contínua briga com o marido, eis que está colocada em cena a nossa relação homossexual com a paciente, na qual nenhum dos dois ouve as razões do outro e nós dominamos, querendo ser ouvidos. Somente o que pensamos que viva ali pode ser visto e transformado (p. 112 e 113).

 
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.



[1] N. de T. Para os puros tudo é puro.

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