segunda-feira, 29 de julho de 2013

Que gênero de literatura apaixona?, Antonino Ferro



 
Que gênero de literatura apaixona?

“As mulheres, os cavalheiros, as armas, os amores/ as cortesias, as aventuras audazes eu canto” são as primeiras linhas que Ludovico Ariosto dirige ao leitor em seu Orlando furioso. Rivalidade, amor, ódio, aventura. A receita precisa ter “tempero”. O que torna a receita apetitosa, do meu ponto de vista, é também a presença de uma qualidade visual da narração. No leitor que, como sabemos, co-constrói o texto, devem surgir cenas, personagens atmosferas saborosas, e deve haver um grau de imprevisibilidade e, às vezes, de mistério, e de medo, melhor ainda se, de vez em quando, a enciclopédia que acompanha o leitor é posta à dura prova. É o que encontramos em todos os romances de sucesso e que nos explica também a frequente inclinação em direção ao gênero “suspense” ou “policial” destes últimos anos.

Todorov (1971), que eu já citava em 1992, descreve três tipos de “suspense”. No romance com enigma há uma história ausente, mas real (o crime cometido), e uma presente, mas insignificante (a atividade investigativa). Método Poirot, para exemplificar. No romance noir, as duas histórias se fundem, ou melhor, a primeira história PE suprimida em favor da segunda. Não há um crime anterior: ação e narração coincidem, a prospecção substitui a retrospecção. Intermediário entre os dois é o romance de “suspense”. Do romance com enigma ele conserva o mistério e as duas histórias, a do passado e a do presente, mas não reduz a segunda a uma mera aquisição de dados Como se indagar tanto futuro quanto sobre o passado. há a curiosidade de saber, há o suspense. Sempre achei interessante o quanto essas três descrições correspondem a três modelos de pensar o trabalho analítico, um arqueológico reconstrutivo, o outro completamente centrado no ‘aqui e agora’ e o terceiro que dá valor tanto à história passada a ser revelada, quanto ao que de novo ganha vida na história atual entre analista e paciente (Ferro, 1999a) (p. 88e 89).

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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