domingo, 14 de julho de 2013

Reflexões sobre a escrita analítica, Thomas Ogden


Reflexões sobre a escrita analítica


Nesta seção final, vou oferecer algumas observações sobre escrever no gênero analítico. Uma vez que a escrita é um acontecimento unitário, dividido em partes cria um efeito caleidoscópico artificial. Quanto mais as diferentes facetas forem vistas como qualidades de um todo, mais perto chegará o leitor de obter uma ideia de como eu vejo e experimento o processo de escrita. Alguns dos itens que se seguem são bastante breves, outros muito mais longos – procurei dizer apenas o que sinto que precisa ser dito sobre um dado aspecto da escrita, e então seguir adiante.

Muitas de minhas reflexões sobre como eu escrevo refletem modos de lidar com a escrita que são idiossincráticos a mim. Esses modos de tratar a escrita não devem ser vistos como prescrições para o modo como a escrita analítica deveria ser praticada. Cada autor deve desenvolver com o tempo seus próprios métodos para envolver-se na escrita analítica. Em contraste, outras de minhas reflexões sobre a escrita tratam do que creio serem atributos de todo bom texto psicanalítico.

“Afinal, escrever nada mais é do que um sonho guiado”

(Borges, 1970b, p. 13).

Embora a arte de escrever possa ser um sonho guiado é importante não romantizar o processo por vê-lo como uma dádiva de nossa inspiração, um estado de transe passivo. Escrever é trabalho árduo. Aprender a guiar nosso sonhar envolve uma vida inteira de leitura e escrita. Nunca consegui escrever um artigo analítico em menos do que algumas centenas de horas. O tempo necessário para escrever deve ser criado – ele não está simplesmente ali pedindo para ser usado para escrever. Eu escrevo bem cedo pela manhã. Eu não o faço com o sentimento de ser sobrecarregado pelo trabalho de escrever, mas com um sentimento de excitação (e ansiedade) sobre o que pode acontecer naquela manhã na experiência de escrever. Muitas vezes durante a escrita naquelas primeiras horas da manhã, já pensei que não havia outra coisa na vida que eu preferiria estar fazendo naquele momento.

 

Uma meditação e um combate de luta livre

 

A escrita analítica é, para mim, formada por partes idênticas de meditação e da experiência de derrubar uma fera no chão. Enquanto meditação, escrever constitui um modo de estar comigo mesmo e de ouvir a mim mesmo vindo a ser de um modo que tem comparativo com qualquer outro setor de minha vida. Este “estado de escrita” é muito semelhante a minha experiência de devaneio no setting analítico. Quando estou em um “estado de escrita”, estou em um estado de elevada receptividade à experiência inconsciente, mas ao mesmo tempo procurando incluir na experiência uma escuta sobre como eu poderia fazer uso literário do que estou pensando e sentindo.

O estado de escrita é uma experiência física na qual meu pensamento é muito mais auditivo do que o são a maioria das outras formas de pensamento. Muitas vezes pronuncio as palavras em voz alta enquanto escrevo, nunca tendo certeza sobre quais eu realmente pronunciei e quais apenas pensei. Experimento uma frase, rejeito-a, tento outra, volto para a primeira, rabiscando e cortando, ligando clausulas isoladas com setas, terminando com um palimpsesto de palavras e ideias.

Como o estado de devaneio analítico, o estado de escrita é uma forma de sonho acordado, uma experiência de viver “na fronteira do sonho” (Ogden, 2001b). quando um escritor está neste estado psicológico, a própria linguagem se infunde da cor e intensidade do inconsciente. Quando tento escrever em momentos nos quais não sou capaz de viver na fronteira do sonhar – por exemplo, quando estou cansado ou preocupado – minha escrita pode ser coerente, até mesmo poderosa em sua lógica, mas ela carece de pulsação.

Ao mesmo tempo, a escrita é uma atividade muito muscular na qual o escritor trava uma batalha com a linguagem. A linguagem, como se por vontade própria, resiste ser domada e pressionada à função de expressar uma experiência essencialmente destituída de palavras. Conrad observou que as palavras são “as grandes inimigas da realidade” (citado por Pritchard, 1991, p. 128).

 

O autor desaparece sem deixar vestígios

 

No processo de tornar-se escritor, um escritor aprende a não atrapalhar a si mesmo e ao leitor. A genialidade de Shakespeare está em sua capacidade de desaparecer no espaço entre o leitor e o escrito, entre o público e a peça. Em uma parábola, Borges (1949) descreve Shakespeare como um “homem sem ninguém dentro de si” (p. 248) e sua vida como “um sonho não sonhado por ninguém” (p. 248).

 

Diz a história que antes ou depois de morrer, ele viu-se na presença de Deus e Lhe disse: “Eu que fui inutilmente tantos homens quero ser um e eu mesmo”. De um redemoinho à voz do Senhor respondeu: “Tampouco sou eu alguém; eu sonhei o mundo como você sonhou seu trabalho, meu Shakespeare, e entre as formas em meu sonho está você, que como eu é muitos e ninguém” (p. 249).

 

Atrapalhar a si mesmo na escrita pode assumir a forma de um apaixonamento pela própria inteligência ou facilidade com as palavras; ou isso pode envolver o uso da escrita como confessionário ou como uma oportunidade de auto-engrandecimento. O tema desse tipo de escrita é o próprio autor, na o a questão que está sendo discutida. “Escrever não é estar ausente, mas tornar-se ausente; ser alguém e então ir embora, sem deixar vestígios” (Wood, 1994, p. 18).

 

“Eu tento eliminar as partes que as pessoas pulam”

(Elmore Leonard, 1991, p. 32).

 

Um bom texto analítico é esparso e despretensioso – apenas o essencial, nenhuma palavra extra ou ideia repetida. Consequentemente, a boa escrita é quase impossível de parafrasear – condená-la ou deixar fora algo essencial a seu significado. “Pois onde existe possibilidade de parafrasear, ali os lençóis nunca foram amarrotados, ali a poesia, por assim dizer, nunca passou a noite” (Mandelstam, 1933, p. 252). 

 

“Algum tipo de... forma [literária] tem que ser encontrada ou eu vou enlouquecer”

(William Carlos Williams, 1932, p. 129).

 

A forma ou estrutura de um texto analítico pode estar entre as mais originais e inovadoras de suas qualidades. Criar uma forma literária para um artigo pode ser uma das partes mais difíceis do trabalho de escrita analítica. Redigir um artigo psicanalítico envolve um ato prodigioso de coordenação no qual as partes estão constantemente no processo de criar o todo. Na melhor das hipóteses, a forma “praticamente emerge a partir de si mesma” (Mandelstam, 1933, p. 261). A estrutura de um artigo vitaliza as ideias e experiências emocionais que o escritor (juntamente com o leitor) está criando e desenvolvendo.

Existe uma forte tendência na escrita analítica de considerar a forma (caso chegue a ser considerada) como dada. Existe um formato padrão: um artigo começa com a apresentação de uma ideia; depois segue-se uma revisão da literatura; uma ou várias ilustrações clínicas são oferecidas; e o artigo é concluído com o desenvolvimento da ideia original. esta é uma forma importante que os autores analíticos devem dominar assim como os artistas começam pelo aprendizado das formas e técnicas clássicas que são fundamentais para sua arte, seja na arte da pintura, da música, da poesia ou da dança. Mas, uma vez que forma e conteúdo são inseparáveis, no curso de nosso desenvolvimento como escritores, devemos começar a tentar desenvolver formas originais para dar forma a nossas ideias.

Boa parte da genialidade de Freud reside na esfera das formas literárias. Ele inventou uma forma atrás da outra, variando desde a arrogância humorística das conferências proferidas para um público de céticos de suas Conferências introdutórias sobre psicanálise (1916-1917), o formato de conversação casual com colegas em seus “Papers on Technique” (1911-1915), as múltiplas aberturas e múltiplos finais de caso do “Homem dos Lobos” (1918), até à construção cuidadosa de uma discussão “científica” em A interpretação dos sonhos (1900). É interessante observar com respeito à forma que o primeiro capítulo de A interpretação dos sonhos é uma revisão exaustiva de 95 páginas da história da escrita sobre sonhos. Freud resume praticamente todas as teorias anteriores dos sonhos e constata que cada uma é válida; porém, cada uma captura apenas uma faceta da verdade à custa das outras. Sua própria teoria dos sonhos não refuta as outras; em vez disso, ela as abrange todas.

Em meus trabalhos recentes, fiz experiências com a forma. Um destes trabalhos, “Sobre não ser capaz de sonhar” (Ogden, 2003a; capítulo 4), é estruturado pela justaposição de três interpretações – cada uma em um meio diferente – da experiência de não ser capaz de sonhar. Os três meios nos quais a experiência é interpretada são os de uma ideia, de uma história e de uma experiência analítica. A ideia é um desenvolvimento e uma extensão do conceito de Bion de sonhar e de não ser capaz de dormir e de sonhar; a história é uma ficção de Borges na qual um personagem adquire memória infinita, mas ao mesmo tempo, perde sua capacidade de dormir e de sonhar; e a experiência analítica envolve o trabalho com uma paciente na qual eu e ela desenvolvemos a capacidade de sonhar juntos no decorrer da análise. O formato deste artigo tem por objetivo gerar um processo vivo na experiência de leitura no qual as três interpretações conversam entre si de uma forma que espelha a conversa viva conosco mesmos que constitui o sonhar. (Ela também espelha uma conversa entre três formas de expressão que são de grande importância para mim: teoria psicanalítica, literatura e prática analítica).

Em outro artigo, “Uma introdução à leitura de Bion” (Ogden, 2004a; capítulo 6), faço um experimento com a forma utilizando as diferenças entre a experiência de leitura do trabalho inicial de Bion e a de leitura de seu trabalho tardio como paradigmático das diferenças entre o modo como Bion pensa nesses dois períodos de escrita. Desse modo, incorporo à estrutura do texto o que acredito ser o aspecto mais importante da contribuição de Bion para a psicanálise: a exploração de como nós pensamos e sonhamos, como processamos a experiência (em oposição ao que pensamos, por exemplo, o conteúdo de fantasias inconscientes).  

Ainda em outro artigo, “Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos” (Ogden, 2004b; capítulo 1), procuro enunciar em dois parágrafos a essência do processo analítico (“Certamente,... o empreendimento era impossível desde o início” [Borges, 1941b, p. 40]). Ao utilizar este formato, estou aproveitando o poder da concentração de palavras para criar uma extensão do significado (que é a marca característica da poesia [Stoppard, 1999]). A seguir, “desembrulho” aquele enunciado altamente condensado cláusula por cláusula, frase por frase, como poderíamos fazer lendo atentamente um poema. Depois ilustro meu pensamento com uma descrição clínica (cujo parágrafo de abertura discuti em detalhes anteriormente neste capítulo).

É certamente discutível se minhas experiências com a forma foram bem-sucedidas ou não. Contudo, não tenho dúvida de que a experimentação com as formas literárias utilizadas na escrita analítica é parte essencial do esforço de desenvolver novos modos de pensar analiticamente. Uma nova ideia exige uma Nova forma para dizê-la. O trabalho clínico que Freud apresentou em seus estudos de caso não poderia ter sido comunicado nas formas disponíveis na literatura médica de seu tempo (p. 147-152).

OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.    

Um comentário:

  1. Olá, você poderia me informar a referência completa da citação: “Afinal, escrever nada mais é do que um sonho guiado” (Borges, 1970b, p. 13)? Obrigada!

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