segunda-feira, 8 de julho de 2013

Transformações, Antonino Ferro


Transformações

Naturalmente, para que possa haver uma compreensão ampla, este parágrafo pressupõe um conhecimento do que Bion escreveu a respeito (Bion, 1965), e de quanto eu mesmo desenvolvi sucessivamente (Ferro, 1944a, 1994b, 1996b).


O afeto: base das transformações narrativas

Uma paciente, Roberta, sinaliza, através da chegada de personagens variadas (o diretor do instituto de genética onde trabalha que a ironiza, a irmã que não a entende, o namorado que a critica), que a qualidade do meu interpretar, por mais adequado e suave aos meus olhos, não o é aos dela. Acolho dentro de mim este seu ponto de vista, como uma referência para poder encontrar um estilo interpretativo e um timing que possa corresponder melhor às necessidades da paciente. Próximo ao fim da sessão, encontro as palavras para lhe sinalizar que algo do que eu lhe disse – e talvez ainda mais a forma como eu o havia dito – poderia tê-la ferido e irritado.

No dia seguinte, Roberta me relata ter visto, na casa da irmã mais velha, “um enfeite de ferro escavado para conter plantinhas”, muito bonito, e de ter manifestado sua admiração. A irmã, então, o havia oferecido a ela e o cunhado relatou a história daquele objeto: na origem, tinha sido uma “balestra* de ferro”, que um tio escultor havia escavado para obter dentro espaços para plantas. A irmã e o cunhado se dizem contentes de que agora possa pertencer a ela. Ao encontrar o namorado, a paciente logo fala do objeto da história da transformação. Mas onde se deu esta transformação? Teve uma série de etapas: desde a minha escuta acolhedora do ponto de vista da paciente, da transformação que aconteceu na minha mente em relação ao estilo interpretativo, até a mudança deste último, realizada por mim, e da receptividade da paciente a esta transformação. Transformação que, iniciada comigo, terminará por pertencer também a ela como uma possibilidade mais acolhedora de me ouvir e dar lugar às minhas palavras no “espaço côncavo” que agora ela também possui.

Não interpreto tudo isso para a paciente e me limito a assinalar que há uma famosa canção que diz “coloque flores nos vossos canhões”. “Sim”, responde a paciente “era da Equipe 84, um dos meus grupos favoritos”. Reflito que 84 era também a irmã mais velha parecia mudada na forma de se aproximar dela, e somente no fim da sessão comento que parecia querer me indicar como ela havia captado também uma forma minha diferente de estar com ela (renuncio à explicação relativa à balestra de ferro e à sua transformação como sendo duas modalidades de me perceber – e de, por sua vez, ela ser ela mesma – para não suscitar novamente a irritação da paciente).

O que desejo sublinhar é que isto poderia corresponder ao que Corrao (1991) denominou de “transformações narrativas” e que eu mesmo denominei (1996a) “narrações transformadoras”. Penso que é importante sublinhar como, por trás das transformações narrativas, há basicamente “transformações afetivas” (p. 32).
*N. de T. Balestra: arma medieval.


Um tipo de transformação: o trabalho onírico
 

Stefano tem um sonho em que está em um museu e vê, de cima de uma sacada, algumas múmias egípcias se levantarem e caminhar. Pensa que precisa encontrar uma forma de “fazê-las sair”. Na mesma sessão, tinha visto coisas que pensava que nunca haviam estado em meu consultório (e que, ao contrário, sempre estiveram), e, ao mesmo tempo, diz que não sabe se prefere uma vida tipo Dipardieu ou uma vida “com o mínimo de turbulências possíveis”. É claro que o sonho coloca em imagens a desmumificação, o despertar de novos sentimentos e emoções dentro dele, e que coloca a questão de fazer sair, de manifestar estas emoções que antes estavam segregadas no sarcófago do museu egípcio (p. 33).

Aqui surge uma série de problemas: do que fala um paciente, de que tempo/ espaço? Como se interpreta um sonho? Certamente, poderíamos fazer outras leituras destas comunicações, mas eu me pergunto se não correríamos o risco de ir contra o critério de “economia” da interpretação em relação a todas as derivas interpretativas passíveis, como nos lembra Eco (1990). Além disso, não deveríamos esquecer que, a partir de um vértice inspirado em Bion, o sonho é a produção mais rica de elementos e, de certa forma, a que menos necessita de uma leitura, a não ser da forma que propõe Meltzer, quando diz que um sonho somente pode evocar um outro sonho por parte do analista: uma espécie de troca de “comunicações poéticas entre as mentes”, mesmo que, às vezes, a paráfrase de uma possa ser útil. A análise e o seu dispositivo são as mais fortes das teorias que usamos, e creio que o método psicanalítico seja a herança maior que Freud nos deixou (Tagliacozzo já dizia isso), uma espécie de Gato de Botas (Ferro, 2006h) capaz de devorar até os ogros. Podemos chegar ao paradoxo de que um campo pode funcionar de forma transformadora sem que analista e paciente o saibam (p. 33).  

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.
 

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