domingo, 25 de agosto de 2013

Historias de Diván (Capítulo 21)

Historias de Diván (Capítulo 20)

Historias de Diván (Capítulo 19)

Historias de Diván (Capítulo 18)

Historias de Diván (Capítulo 17)

Historias de Diván (Capítulo 16)

Historias de Diván (Capítulo 15)

Historias de Diván (Capítulo 14)

Historias de Diván (Capítulo 13)

Historias de Diván (Capítulo 12)

Historias de Diván (Capítulo 11)

Historias de Diván (Capítulo 10)

Historias de Diván (Capítulo 9)

Historias de Diván (Capítulo 8)

Historias de Diván (Capítulo 7)

Historias de Diván (Capitulo 6)

Historias de Diván (Capitulo 5)

Historias de Diván (Capitulo 4)

Historias de Diván (Capitulo 3)

Historias de Diván (Capitulo 2 - "Retribuyendo")

Historias de Diván (Capítulo 1 - "Infidelidad")

HISTORIAS DE DIVÁN Capítulo 1 - "Infidelidad" Unitario argentino - Telefé 2013 [Sinopsis] 26 relatos de vidas basados en casos reales de individuos que atraviesan graves situaciones pero que a la vez están dispuestos a luchar para salir del sufrimiento que éstas le causan. Manuel es el terapeuta, quien en cada uno de los episodios revelará interesantes e inesperados aspectos de su compleja vida personal, mientras tratará de brindar contención y ayuda a cada uno de sus pacientes para superar los conflictos. [Reparto] Jorge Marrale, Pablo Rago, Laura Azcurra, María Mendive, Celeste Gerez, Humberto De Vargas [Basado en] "Historias de diván", libro de Gabriel Rolón [Adaptación] Marcelo Camaño [Dirección] Juan José Jusid [Producción] Yair Dori

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A metamorfose de Piktor, Hermann Hesse


 
            Mal Piktor entrara no paraíso, parou diante de uma árvore que era ao mesmo tempo homem e mulher. Piktor saudou a árvore com respeito e perguntou:

            - És uma árvore da vida?

            Quando, porém, em vez da árvore quem quis responder foi a serpente, ele virou as costas e continuou andando. Ele era todo olhos, tudo lhe agradava. Sentiu claramente que estava em sua terra e na fonte da vida.

            E viu de novo uma árvore, que era ao mesmo tempo o sol e a lua.

            Piktor falou:

            - És uma árvore da vida?

            O sol assentiu e riu, a lua assentiu e sorriu.

            As flores mais maravilhosas o olharam, com toda espécie de cores e luzes, com toda a sorte de olhos e faces. Algumas assentiram rindo, algumas assentiram sorrindo, outras não assentiram nem sorriram; calaram-se embriagadas, em si mesmas mergulhadas, bêbadas do próprio perfume. Uma cantou a canção lilás, uma cantou a canção de ninar azul-escura. Uma das flores tinha grandes olhos azuis, uma outra fazia-o lembrar-se de seu primeiro amor. Uma cheirava ao jardim da sua infância, seu perfume doce soava como a voz da mãe. Uma outra riu para ele e estendeu-lhe uma língua curva e vermelha. Ele a lambeu, tinha um gosto forte e selvagem, de resina e mel, e também do beijo de uma mulher.

            Entre todas as flores Piktor parou cheio de saudade e temerosa alegria. Seu coração, como se fosse um sino, batia forte, batia muito; ele queimava no desconhecido, num encanto pressentido, ardia o seu desejo.

            Piktor viu um pássaro sentar, viu-o na grama sentar e em cores brilhar, todas as cores parecia ter o lindo pássaro. Perguntou ao lindo pássaro colorido:

            - Ó pássaro, onde está a felicidade?

            - A felicidade? – falou o lindo pássaro, e riu com o seu bico dourado. – A felicidade, amigo, está em toda parte, na montanha e no vale, na flor e no cristal.

            Com essas palavras o alegre pássaro sacudiu sua plumagem, virou o pescoço, agitou a cauda, piscou os olhos, riu de novo, e então ficou sentado impassível, sentou-se quieto na grama, e vede: o pássaro transformou-se agora numa flor multicolorida, as plumas em folhas, as garras em raízes. No brilho de cor, no meio da dança, ele virou-se em planta. Piktor viu isso admirado.

            E logo em seguida a flor-pássaro moveu suas folhas e estames, cansou-se de ser flor, não tinha mais raízes, moveu-se facilmente, ergueu-se devagar, transformou-se numa brilhante mariposa que se balançava no ar, sem peso, toda luz, toda um rosto luminoso. Piktor abriu bem os olhos.

            A nova borboleta, porém, a alegre e colorida mariposa-flor-pássaro, o luminoso rosto colorido voou em círculos ao redor do espantado Piktor, cintilou ao sol, pousou suave como um floco de neve, parou bem perto dos pés de Piktor, respirou delicadamente, tremeu um pouco as asas brilhantes, logo se transformou num cristal colorido, de cujas arestas se irradiava uma luz vermelha. A pedra vermelha reluzia maravilhosamente na grama e nas ervas, clara como um carrilhão de sinos em dia de festa.

            Mas seu lar, o interior da terra, pareceu chama-la; rapidamente ela diminuiu, torceu-se para penetrar no chão.

            Aí Piktor, levado por uma necessidade imperiosa, estendeu a mão para a pedra que diminuía e segurou-a. Olhava com encanto a sua luz mágica, que lhe parecia irradiar no coração todo pressentimento de bem-aventurança.

            De repente, sobre o galho de uma árvore morta apareceu a serpente e ciciou-lhe:

            - A pedra te transformará no que quiseres. Rápido, dize-lhe teu desejo, antes que seja tarde demais!

            Piktor assustou-se e temeu perder sua felicidade. Disse rapidamente a palavra e transformou-se numa árvore. Pois ele já havia desejado ser uma árvore, porque as árvores lhe pareciam cheias de tranquilidade, força e dignidade.

            Piktor transformou-se numa árvore. Cresceu com raízes para dentro da terra, esticou-se na altura, folhas e ramos surgiram do seu tronco. Estava muito contente com isso. Fez uma esteira de fios sedentos bem fundo na terra fresca, e ventava com suas folhas bem alto no azul. Escaravelhos moravam na sua casca, aos seus pés moravam lebres e ouriços, nos seus ramos, os pássaros.

            A árvore Piktor era feliz e não contava os anos que passavam. Muitos anos se passaram antes que ele percebesse que sua felicidade não era perfeita. Devagar, entretanto, aprendeu a ver com os olhos de árvore. Finalmente pôde enxergar e ficou triste.

Viu que em volta dele, no paraíso, a maioria dos seres se transformava com muita frequência, que tudo flutuava numa torrente encantada de eternas transformações. Viu flores tornarem-se pedras preciosas, ou voarem como brilhantes pássaros vibrantes. Viu ao seu lado de repente desaparecerem algumas árvores: uma desfizera-se em fonte, a outra tornara-se um crocodilo, uma outra nadara alegre e fresca, cheia de alegria, como um peixe, para uma nova forma começar novas brincadeiras. Elefantes confundiam sua roupagem com pedras, girafas confundiam sua forma com flores.

            Ele próprio, porém, a árvore Piktor, continuava sempre a mesma, ele não podia mais se transformar. Assim que reconheceu isso, sua felicidade se desvaneceu; começou a envelhecer e conservou sempre mais aquela posição cansada, séria e preocupada, que se pode observar em muitas velhas árvores. Também nos cavalos, nos pássaros, nos homens e todos os seres pode-se ver isso diariamente: quando não possuem o dom da transformação, com o tempo caem na tristeza e se atrofiam, sua beleza se perde.

Um dia então uma mocinha passou por aquele lado do paraíso, com um cabelo louro, com um vestido azul. Cantando e dançando a lourinha corria por baixo das árvores e até agora nunca havia pensado em pedir para si o dom da transformação.

Muito macaco inteligente ria atrás dela, muito arbusto roçava nela delicadamente, muita árvore atirava-lhe um botão, uma noz, uma maçã, sem que ela prestasse atenção.

Quando a árvore Piktor viu a mocinha, apoderou-se dele uma grande tristeza, um desejo de felicidade, como ainda nunca sentira. E imediatamente uma profunda meditação tomou conta dele, pois era como se seu próprio sangue pedisse: “Pensa! Lembra-te daquela hora em toda a tua vida, encontra o sentido, senão será tarde demais, nunca mais terás uma alegria.” E ele escutou. Recordou-se de todo o seu passado, dos seus anos de homem, de sua marcha para o paraíso, muito especialmente aquele instante, antes de se ter tornado uma árvore, daquele maravilhoso instante em que segurara nas mãos a pedra encantada. Naquele tempo, quando toda transformação lhe era possível, a vida ardera dentro dele como nunca! Lembrou-se do pássaro que havia rido, e da árvore com o sol e com a lua; ocorreu-lhe o pressentimento de que naquele instante esquecera alguma coisa, que o conselho da serpente não era bom.

 A mocinha ouviu um sussurro nas folhas da árvore Piktor, olhou para ele e sentiu, com uma súbita dor no coração, moverem-se dentro dela novos pensamentos, novos desejos, novos sonhos. Levada por força desconhecida, sentou-se debaixo da árvore. Ela lhe parecia solitária e triste, e com isso bela, comovente e nobre na sua tristeza muda; a canção da sua copa sussurrante soou-lhe sedutora. Inclinou-se contra o tronco rude, sentiu que a árvore se arrepiava, sentiu o mesmo arrepio no próprio coração. Raramente o coração lhe doía, sobre o céu de sua alma corriam nuvens, lentas lágrimas pesadas caíram de seus olhos. Afinal que era isso? Por que se devia sofrer tanto? Por que desejava o coração romper o peito e se fundir nele, no belo homem solitário?

A árvore estremeceu levemente até as raízes, tão violenta a força de vida que reuniu em si, num ardente desejo de unificação com a mocinha. Ah, que enganado pela serpente encantara-se para sempre numa árvore! Ah, que cego, que insensato fora! Então não soubera de nada, estivera tão alheio ao segredo da vida? Não, bem que ele o sentira antes e pressentira tristeza e profunda compreensão, e agora pensava na árvore, que era homem e mulher!

Um pássaro veio voando, um pássaro vermelho e verde, um pássaro bonito e audaz veio voando, veio voando em forma de arco. A mocinha o viu voar, viu alguma coisa cair do seu bico, brilhando, vermelha como sangue, como brasa, caiu na erva verde e brilhava na erva verde e era tão familiar, seu brilho vermelho pedia tão alto, que a mocinha se curvou e o vermelho segurou. Aí era um cristal, era um carbúnculo e onde ele está não pode haver escuridão.
 
Assim que a mocinha segurou a pedra encantada na sua mão branca, logo se satisfez o desejo de seu coração. A bela desapareceu, penetrou na árvore e tornou-se com ela uma só, brotou do seu tronco como um jovem ramo, cresceu rapidamente para cima.

Agora estava tudo bem, o mundo estava em ordem, só agora o paraíso fora encontrado, Piktor não era mais uma velha árvore preocupada, agora cantava bem alto vitória, vitória.

Ele se transformara. E porque dessa vez alcançara a transformação certa e eterna, porque de um meio, ele se tornara um todo, daquela hora em diante podia continuar se transformando, quanto quisesse. A encantadora torrente da transformação corria contínua pelo seu sangue, ele eternamente tomava parte na criação de todas as horas.

Foi rena, foi peixe, foi gente e serpente, nuvem e pássaro. Em cada forma, porém, era um todo, era um par, tinha lua e sol, tinha macho e fêmea em si, corria pelas terras como rios gêmeos, brilhava como dupla estrela no céu.


II Uma experiência de escrita analítica, Thomas Ogden



II Uma experiência de escrita analítica
 
Vou agora examinar uma passagem clínica extraída de um de meus textos recentes (Capítulo 1 deste livro) para tentar comunicar algo do processo de pensamento consciente e inconsciente que informou a escrita. A passagem que vou discutir é o parágrafo de abertura de uma apresentação detalhada de uma experiência de análise.
 
Alguns dias depois que eu e o Sr. A havíamos marcado uma hora para uma consulta inicial, a secretária dele me telefonou para cancelar o encontro por motivos vagos relacionados a assuntos de trabalho do Sr. A. Ele me telefonou algumas semanas depois para se desculpar pelo cancelamento e pedir para marcar outra hora. Em nossa primeira sessão, o Sr. A, um homem em torno de 40 anos, me disse que há algum tempo pensava em fazer análise (sua esposa estava em análise na época), mas que ficara adiando isso. Rapidamente acrescentou (como se respondesse à pergunta “terapêutica” esperável): “Não sei porque eu estava com medo da análise”. Ele prosseguiu: “Embora minha vida pareça muito boa de fora – sou bem-sucedido profissionalmente, tenho um casamento bom e três filhos que amo muito – sinto quase o tempo todo que algo está terrivelmente errado”. (A utilização do Sr. A das expressões “medo da análise”, “amo muito” e “terrivelmente errado” me pareceram ansiosos esforços inconscientes para fingir sinceridade mas, na verdade, para me dizer quase nada). Eu disse ao Sr. A que ter pedido à sua secretária para falar comigo havia me feito pensar que ele podia achar sua própria voz e suas próprias palavras pudessem lhe falhar. O Sr. A olhou-me como seu eu estivesse maluco e disse: “Não, meu telefone celular não estava funcionando, e para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas, eu mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe falasse” (Ogden, 2004, p. 11-12).
Decidir como e por onde começar uma descrição de caso não é uma questão simples. A abertura de uma descrição clínica, quando funciona, tem toda a sensação do inevitável. Ela leva o leitor a sentir: onde mais poder-se-ia começar a contar essa história? O ponto de partida, além de prover um elemento estrutural importante para a história e para o texto como um todo, faz uma declaração implícita significativa sobre o modo de pensar do escritor, os tipos de coisas que ele percebe e valoriza e, em especial, qual do infinito número de momentos críticos nesta experiência humana merece o lugar de honra na narrativa.
No parágrafo de abertura que está sendo discutido, ainda antes do aparecimento do sujeito da primeira frase existe uma cláusula introdutória – “Alguns dias depois que eu e o Sr. A havíamos marcado uma hora para uma consulta inicial” – que discretamente sinaliza o que vai acontecer na descrição clínica como um todo. É feita uma promessa (o acordo de encontrar-se a uma determinada hora e lugar para um determinado propósito) que, na parte seguinte da frase, o paciente quebra. Minha experiência com o Sr. A que está começando a ser contada é uma história de promessas quebradas (implícitas): do paciente trair a confiança da irmã menor ao “brincarem de médico”, do paciente trair a si mesmo por não enfrentar o que havia feito à irmã, e a quebra da promessa implícita por parte da mãe de que seria genuinamente sua mãe.
O sujeito da frase de abertura não é o Sr. A nem eu, mas a secretária do Sr. A: “a secretária dele me telefonou para cancelar o encontro...” Aparentemente, essa é um escolha estranha, mas ao dar a ela as linhas de abertura (ao transmitir o recado do paciente para mim), a frase está mostrando (em contraste com descrevendo) uma ausência – a ausência do paciente. O paciente, ao falar através de sua secretária, está falando de um lugar psicológico definido por sua ausência. Mesmo que o paciente não tenha comparecido à primeira sessão de sua análise – a sessão cancelada – ela não obstante aconteceu em minha mente e, suponho, na dele. Foi uma sessão na qual o paciente estava presente na forma de sua ausência da análise e (suspeito) de muitas outras partes de sua vida.
O tema do engodo aparece na frase de abertura na forma da explicação do Sr. A para o cancelamento, que eu caracterizo como consistindo de “motivos vagos relacionados a assuntos de trabalho do Sr. A”. O leitor e tampouco eu (como personagem) sabe a natureza do trabalho do Sr. A neste ponto da história. Ao referir-se ao “trabalho” do Sr. A antes de usa natureza ser revelada, existe uma fachada para outra coisa. Também fracamente cintilante nesta frase há a sugestão de que seu trabalho que o Sr. A possa estar envolvido em autoengano ao racionalizar sua ausência da primeira sessão de análise. Esta sobreposição de possibilidades – algumas manifestas, outras quase imperceptíveis – produz uma sinistra sensação de forças destrutivas em ação, uma alusão à vida secreta do paciente.
Embora a frase de abertura possa funcionar dos modos que sugeri, não quero dizer que conscientemente construí a frase com estes propósitos em mente. A frase “me ocorreu” no ato da escrita como um sonho ocorre sem convite durante o sono. Em um primeiro esboço, a história começava com meu encontro com o Sr. A na sala de espera onde ele me saudou pelo meu primeiro nome. Como aquele evento tinha sido tão inquietante, o deletei da história porque senti que o efeito criado pela frase que estive discutindo tinha mais camadas de significado (sendo por isso mais interessante). A transferência daquela frase do terceiro parágrafo da versão original para a posição de frase de abertura permitiu-lhe adquirir maior força dramática – assim criando na escrita parte do impacto emocional que o Sr. A tinha tido sobre mim já no início da análise. Somente depois de fazer dessa a frase de abertura da história é que reconheci que ela continha em forma germinal a totalidade da história que se seguiria.
Como no processo de escrita que acabei de descrever, considero importante não conhecer a forma da história desde o início, mas permitir que ela tome forma no processo no processo de redação. Não saber o fim da história durante o início preserva para o escritor, assim como para o leitor, uma sensação da total imprevisibilidade de todas as experiências da vida: nunca sabemos o que vai acontecer antes que aconteça. O equivalente na escrita é deixar que o texto “conte como puder... Ele encontra seu próprio nome à medida que avança” (Frost, 1939, p. 777).
Na penúltima frase do parágrafo que sendo discutido, eu (como personagem) falo pela primeira vez em resposta ao que aconteceu até este ponto na história: “Eu disse ao Sr. A que ter pedido à sua secretária para falar comigo havia me feito pensar que ele podia achar que sua própria voz e suas próprias palavras pudessem lhe falhar”. O que digo começa a definir para o Sr. A e para o leitor a minha concepção da psicanálise. Minha resposta verbal ao Sr. A era, a meu ver, psicanalítica no sentido de que ela constituía uma interpretação verbalmente simbolizada do que eu acreditava ser a principal ansiedade na transferência. Além disso, ela tinha algo da qualidade de “uma interpretação em ação” (Ogden, 1994b) no sentido de que a postura que eu estava assumindo ao fazer a interpretação refletia uma recusa ativa de minha parte de permitir que a forma raivosa e extremamente evasiva com que ele se apresentou – o modo como lidou com a sessão inicial (cancelada) – continuasse sendo um modo de mostrar – não de explicar – ao paciente (e ao leitor) o que significa iniciar um relacionamento psicanalítico. A psicanálise é uma experiência na qual o analista leva o paciente a sério, em parte por tratar tudo o que ele dize faz como comunicações potencialmente significativas para o analista (Ogden, 1989). No caso em discussão, os atos do Sr. A relacionados ao encontro inicial constituíram suas primeiras comunicações sobre o que ele sentia (inconscientemente) que eu deveria saber sobre ele para que pudesse o ajudar. Minha resposta constituía uma ação por si mesma que visava captar a atenção (e imaginação) do paciente. A interpretação tinha uma elegância que está presente no aspecto sensório da frase escrita: existe uma queda abrupta do nível consciente, descritivo (“ter pedido à sua secretária para falar comigo”) para o nível pré-consciente-inconsciente (“ele podia achar que sua própria voz e suas próprias palavras pudesse lhe falhar”).
As palavras específicas que utilizo ao escrever o diálogo nas frases finais do parágrafo de abertura são de grande importância para meu esforço em dar vida à minha experiência com o Sr. A na escrita. Não fiz anotações durante a sessão, assim o diálogo para esta cena exigia que eu encontrasse palavras que captassem a essência do que o paciente e eu realmente dissemos e também a voz com a qual cada um falou*. Embora o que eu disse não seja colocado entre aspas, a frase mesmo assim transmite uma ideia da voz com que fiz a interpretação. Foi uma voz que surpreendeu o paciente (o que pode ser identificado em sua resposta). O diálogo também reflete o modo como o paciente percebeu que estava encontrando neste contato inicial não apenas uma nova pessoa, mas um novo modo de pensar e falar. A voz com a qual falei era direta e evitava as regras convencionais de etiqueta (assim como o tom patriarcal do modo tradicional de um médico falar com um paciente). A voz não é arrogante, nem reclama onisciência, mas é a voz de alguém que acredita que tem alguma familiaridade com um nível de relacionamento humano que é novo e um pouco mais do que assustador para o paciente.
O Sr. A não disse o que o assustava sobre começar a fazer análise, mas seu medo estava perceptivelmente presente em sua resposta ao que eu disse: “Meu telefone celular não estava funcionando, e para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas, mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe telefonasse”. Nesta parte da sessão, o Sr. A estava expressando muitos sentimentos ao mesmo tempo. Minha tarefa como escritor é utilizar palavras de um modo que de alguma forma captem essa simultaneidade. As palavras “O Sr. A olhou-me como seu eu estivesse maluco” servem para expressar (com ligeira ironia) a rebeldia raivosa e temerosa do paciente contra o modo como eu enquadrei os fatos em torno do telefonema e da secretária. Em seu protesto, ele invoca o bom senso em defesa não apenas de seu ponto de vista, mas também de sua sanidade**. (Meu uso da palavra “maluco” para descrever como o Sr. A olhou para mim visa sugerir seu medo do aspecto psicótico em si mesmo).
Ao redigir cada elemento da resposta do paciente, a linguagem que utilizo visa transmitir uma ideia da pressão do inconsciente quase explodindo através das palavras faladas: “Meu telefone celular não estava funcionando” – isto é, ele se sentiu impedido por minha interpretação de falar e pensar do modo como estava acostumado. “Para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas” – isto é, ele se sentia impotente no setting analítico onde eu crio regras egoístas que, ele temia, não levariam em conta quem ele é e o que ele precisa. “Eu mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe telefonasse [para cancelar a sessão]” – isto é, ele se recusou a se submeter a mim e a meus modos de pensar e falar que ele temia  que eu estava tentando lhe impor; ele poderia comunicar-se com mais segurança sem falar (utilizando o e-mail e a secretária falando em seu nome); ele poderia tentar se proteger contra o meu poder (e o poder de seus próprios pensamentos e sentimentos repelidos) pelo uso de autoengano (ao cancelar a primeira sessão). Nas palavras que utilizo para expressar meu entendimento da experiência emocional do Sr. A, estou tentando criar uma voz para ele na qual o leitor possa ouvir a simultaneidade de uma criança assustada suplicante, a dolorosa insegurança e bravata vazia de uma valentão, e um homem em sofrimento psicológico que está veladamente pedindo ajuda. Cada leitor vai determinar para si mesmo se estas frases conseguem dar vida a uma experiência analítica na experiência de leitura (p. 141-145).
 
Notas
* Utilizo os termos voz e tom para me referir a diferentes aspectos da fala/escrita. O tom reflete o que o falante está sentindo; a voz reflete o que o falante é, o modo como ele pensa, como organiza sua experiência emocional. Evidentemente, os dois se sobrepõem.
** Isso me faz lembrar do que o médico em A Fortunate Man de Berger(1967) disse sobre o bom senso: “Quando lido com seres humanos este é o meu maior inimigo...ele me tenta a aceitar o óbvio, a resposta mais prontamente disponível”. (p. 62).
   
OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.        

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A propósito da transferência, Antonino Ferro


A propósito da transferência

A “transferência” entra em cena também na escolha do objeto: na presença de situações mentais não elaboradas, que permaneceram enquistadas, frequentemente, a única possibilidade de transformação é o repropor das mesmas em uma situação na qual podem existir mais chances em relação àquela originária traumática. A transformação que surge “naturalmente”, nos casos afortunados, permite a escolha de objetos cada vez mais novos em relação aos originais causadores de traumas. Em análise, o repropor da história esquecida, cindida, recalcada, é um dos motores da mesma. O contínuo adoecer do campo (na linguagem dos Baranger: a formação dos “baluartes”) e o contínuo curar-se (resolução dos “baluartes”) constitui a respiração do campo que, desta forma, se alarga e colapsa continuamente. Se um paciente teve uma mãe pouco disponível, deverá viver isto, mais cedo ou mais tarde, na sala de análise e no campo, não importa por meio de que personagem: isto poderá ser digerido e metabolizado pelos movimentos peristálticos do campo ou, também, por uma interpretação, contanto que não se esqueça de que a interpretação, para ser eficaz, só pode ser o ato final de um processo digestivo anterior. Mas a questão da transferência não termina aqui: sabemos que existe também uma transferência do analista sobre o paciente, que necessita de constante elaboração (frequentemente, silenciosa e automática).

Cumes tempestuosos, de Emily Bronti, mostra muito bem a transferência sobre o objeto – Heathcliff é recolhido órfão, abandonado e praticamente adotado pelo velho Earnshaw. O vínculo que o une a Catherine, filha de Earnshaw, é passional e simbiótico. Isto será fonte de dor, ciúmes, desespero, ódio. Mas é colocado em cena com Catherine, que por sua vez também é órfã. O que antes não podia ser pensado, vivido: faz viver partes da mente antes atrofiadas. Somente o longo trabalho transformador dará possibilidades aos filhos de Catherine e de Hindley (os aspectos novos de si mesmo), nascidos da digestão transformadora, de terem uma relação que contenha também alegria e não somente tragédia.

No teatro analítico, o silêncio do analista frequentemente é temido, porque não realiza aquele contínuo ajuste de pH que a sua presença, por meio do testemunho das palavras, opera. Ele é como a escuridão do quarto para as crianças pequenas: povoa-se de fantasmas e de cenas de medo. Certamente, para ouvir os barulhos e para ver o filme, é necessário atenuar sons e luzes, mas as luzinhas que permitem sempre saber que estamos no cinema, ou no teatro, deveriam ser mantidas. A única exceção são aqueles pacientes suficientemente estruturados desde o início do trabalho que sabem se lançar no escuro e no silêncio com curiosidade e paixão. Mas estes não são tão frequentes. São mais frequentes aqueles que têm necessidade das luzinhas, dos intervalos, da luz tênue, da presença do lanterninha: talvez, um dia, possam usufruir do grande salto no escuro do silêncio. O analista que “fala” dilui a crueza de certos cenários, torna-se realmente um Virgilio capaz de fazer prosseguir Dante nos percursos infernais. No momento certo, chegará Beatrice, e o paciente poderá usufruir de uma análise da qual não tem mais medo. O analista silencioso pode assumir qualquer rosto, o analista que intervém ilumina com a realidade da sua presença não fantasmática e com o som da sua vida emocional, verdadeira coluna sonora do filme-análise: poderíamos objetar que o analista silencioso polui menos o campo, e isto é verdade com pacientes que não temem o emergir dos “Nessie” (em todos os sentidos) pelos quais são habitados, mas também é verdade que a cor do silêncio, às vezes, se inscreve como um elemento impossível de ser assumido e digerido pelo paciente (p. 100-102).         


N. de T. Na Itália, a sessão de cinema tem um intervalo que marca o “fim do primeiro tempo” e depois o “início do segundo tempo”.      


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A noite escura da alma do escritor analítico, Thomas Ogden


A noite escura da alma do escritor analítico

Existem dois momentos no processo de escrita que para mim são mais difíceis e emocionalmente mais degradantes. O primeiro envolve chegar a uma ideia que estimule minha imaginação e depois encontrar um modo de desenvolvê-la. Na maioria das vezes, começo enunciando a ideia da maneira mais clara que posso no espaço de um ou dois parágrafos. Depois, escrevo de 20 a 25 páginas a Mao sobre tudo que me vier à cabeça em relação à ideia que estou experimentando. Se houver um único parágrafo que pareça promissor nessas páginas, sinto-me muito gratificado. Se houver três ou quatro parágrafos, fico exultante. Muitas vezes, as ideias nesses parágrafos bem-sucedidos guardam uma relação apenas tangencial com a ideia da qual parti. Eu então escrevo um novo enunciado de abertura para o artigo utilizando as ideias e parte da linguagem para essas ideias contidas no esboço inicial.

Escrevo entre 5 e 10 esboços (grandes reelaborações da estrutura e principais temas) e facilmente 50 reelaborações de muitas palavras, locuções e frases. Depois de cada esboço, o enunciado de abertura sobre o assunto do artigo precisa ser revisado. O segundo dos dois momentos no processo de escrita que considero mais árduos é a leitura do manuscrito depois que ele foi transcrito de meu ditado. Jamais aconteceu de eu ler a primeira versão digitada do texto e não me sentir profundamente decepcionado e desanimado. Muitas das frases e parágrafos parecem pouco mais do que pobres disfarces para a falta de profundidade do pensamento. Prosseguir escrevendo neste ponto é sobretudo um processo de enunciar mais claramente para mim o assunto que estou tentando abordar. A essência de uma ideia está ali, mas ela está tão atolada no palavreado que é difícil detectá-la. A arte de encontrar essa essência envolve cortar sem piedade frases, parágrafos e seções inteiras do artigo que sejam desnecessárias.

É minha experiência que o que acontece neste ponto do processo de escrita é o que define o sucesso ou fracasso de um texto. Quando consigo superar esta dificuldade, é como se eu tivesse chegado a uma clareira na qual sou capaz de pensar com uma clareza que até então eu não tinha sentido no processo de escrita. Vêm-me à cabeça expressões que capturam essências que, até este ponto, mal eram discerníveis. É nesta etapa da escrita que imagino que Winnicott (1956) chegou à expressão “continuar a ser” (p. 303), e Bion (1962a) escreveu “o paciente que não é capaz de sonhar não pode adormecer e não pode acordar” (p. 7), e Balint (1968) encontrou a frase “mistura interpenetrante harmoniosa” (p. 136), e Leowald (1960) escreveu “fantasmas do inconsciente são deitados... para repousarem como antepassados” (p. 249). Ao ler essas expressões e frases no contexto, é inconfundível para o ouvido do escritor e do leitor que a ideia não poderia ser expressa de outra maneira; outras palavras expressariam algo consideravelmente diferente. é aí que é gerada uma parte substancial da graça da boa escrita analítica.

     Quando um texto analítico é bom, é evidente que a intenção do autor não era ser “poético” (caso fosse, as frases pareceriam constrangedoramente artificiais). Em vez disso, as palavras e expressões possuem um equilíbrio desembaraçado. Mesmo quando a maioria dos leitores é incapaz de discernir um texto escrito às pressas de um texto que seja fruto de muitas horas de luta com as palavras, o próprio escritor é capaz de notar a diferença, e nada é mais importante do que isso para um escritor (p. 153-154).


OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.        

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O detector de bobagens e o Quixote de Menard, Thomas Ogden


O detector de bobagens e o Quixote de Menard


Cada escritor tem seus próprios hábitos de escrita. Os meus incluem escrever um primeiro esboço à caneta e papel; nunca fui capaz de compro durante a digitação. Para mim, existe uma consequência inesperada, porém altamente valiosa de escrever a mão: eu não tenho escolha (dadas as minhas habilidades de digitação) senão ditar o manuscrito quando as minhas anotações estão tão apinhadas de palavras e frases cortadas e inseridas que mal consigo ler o que escrevi. Este método – escrever a mão e ditar – me obriga a ler em voz alta o que escrevi. Em minha experiência não existe melhor detector de bobagem. Ler o que se escreveu em voz alta expõe uma linguagem que é pretensiosa ou convencida; repetitiva ou verbosa; muito presunçosa ou desoladoramente pesada; prejudicada por jargão e clichês; imitativa de outrem ou uma versão reciclada de nossos próprios escritos anteriores; soporífica por conta de uma estrutura frasal repetitiva ou desagradável como consequência de exibir como somos “letrados”.

Talvez, mais importante, ler em voz alta o que eu escrevi o que eu escrevi fornece-me uma resposta à pergunta: estou oferecendo uma perspectiva original sobre um tema psicanalítico importante? Acredito que não há nada de novo sob o sol, mas que é sempre possível ver algo de uma maneira nova e original (Ogden, 2003b). Nenhum escritor, a meu ver, precisa se preocupar com o fato de que o que ele tem a dizer já foi dito. Evidentemente, já foi dito inúmeras vezes, mas nunca foi dito da perspectiva que cada um de nós pode dar-lhe se ousarmos tentar.

Quando um escritor analítico para quem estou trabalhando como consultor protesta porque descobriu que muitos outros já esgotaram o tópico que ele pretende explorar, lembro-me da história de Borges (141b) “Pierre Menard, autor de Quixote”. O fictício romancista do final do século XIX, Pierre Menard, de Borges, propôs-se a escrever o Quixote – não uma transcrição memorizada ou uma versão moderna dele, ou capítulos adicionais para ele, mas o Quixote propriamente dito. Ele conseguiu escrever dois capítulos do livro dos quais Borges cita algumas linhas e as justapões às linhas correspondentes do Quixote de Cervantes. O leitor vê com seus próprios olhos que os dois conjuntos de linhas são idênticos, palavra por palavra, vírgula por vírgula. E, ainda assim, Borges acha o Quixote de Menard muito superior ao de Cervantes: o texto de Menard, escrito por um oitocentista, é admiravelmente livre da “cor local”, isto é, livre da decoração composta de representações detalhadas da vida espanhola do século XVI. Cervantes nada fez de especial ao omitir tais enfeites descritivos, pois seu público do século XVI evidentemente estava familiarizado com as circunstâncias de suas vidas e costumes. Para Menard, um escritor oitocentista, omiti-los é genial.

Para um escritor psicanalítico da segunda metade do século XX, é genial (re)descobrir mais uma vez a transferência (na situação total [Joseph, 1985]); chegar de novo ao conceito de ego do corpo (na noção de unidade da psique-soma na saúde [Winnicott, 1949]); deparar-se, como se pela primeira vez, com o conceito de trabalho do sonho (concebido como um processo no qual a experiência vivida consciente torna-se disponível ao inconsciente para trabalho psicológico [Bion, 1962a]), e assim por diante (p. 152-153).


OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.    

domingo, 11 de agosto de 2013

A inibição, Antonino Ferro


A inibição 

Agora, gostaria de utilizar, como exemplo, uma expressão de sofrimento ou de patologia particularmente trabalhosa de curar: a inibição, que se manifesta em múltiplos cenários, dependendo das diferentes idades. O paciente inibido inibe algo que o aterroriza. O seu “tsunami” psíquico encontrou uma forma de ser estancado. O que fazer? No fundo, rata-se de um mundo possível no qual o paciente se enfiou e encontrou uma solução. Mas indaguemos quais outros mundos possíveis gravitam à sua volta em busca de um geógrafo, astrônomo, astrofísico, pintor, poeta, trovador, que possa mapeá-los, fantasiados, de forma que o paciente possa entrar neles, libertando-se do mundo de “baixa energia” no qual caiu. Um seminarista reza e se masturba compulsivamente, expiando a culpa com extenuantes jejuns. Um dos seus duplos poderia ser um serial killer que estrangula as mulheres no trem. Um outro, em um eixo temporal diferente, um dominicano que tortura e queima a namorada, cozinhando-a depois e comendo-a em delicadas porções. Uma freira de clausura se flagela. O seu duplo poderia ser uma erotomaníaca que ama cenas de sexo extremo e sadomasoquista. Ou então, uma adolescente que mata ambos os pais, na cama, com a faca do churrasco. Um obsessivo arquivista enrubesce com as funcionárias do escritório e lê salmos todas as noites. Em um mundo paralelo, é um piromaníaco que estrangula meninas na saída da escola na qual ele ateou fogo.

O incrível é que os escritores transitam por todos esses mundos possíveis sem ficarem perturbados, aliás, extraindo deles bem-estar e fama. Mas o que somos nós, senão condutores de mundos possíveis asfixiados em direção a mundos possíveis com maior grau de energia passível de ser contida? Fantasiar não é fazer, mas como estar convencidos disso, como poder ter acesso aos filmes terríveis que um paciente gravemente obsessivo dizia que comprava sem nunca poder vê-los? Passava o dia se lavando, tinha que controlar constantemente a sua limpeza após ter “pisado num cocô”, depois que tinha sabido da traição da namorada. Em outro mundo, ele pisa aquela merda da namorada sem muitos problemas e depois se sente culpado. Mas os mundos não são sempre tão próximos, a ponto de podermos ouvir seus barulhos; são distantes, em outras galáxias, e, por isso, a meu ver, um analista deveria poder usufruir dos romances policiais, dos romances noir e dos de ficção científica, além, naturalmente, dos grandes narradores. O analista só pode ser um Shakespeare da mente, sem inibições, que saiba levar o paciente a usufruir da beleza de seus tsunami.

Uma paciente, após sete anos de análise, iniciada por uma sintomatologia gravemente inibitória no plano comportamental, sonha entrar em um quarto no qual, em uma parede, há um aquário, cheio de água sem o vidro na frente, que ocupa toda a parede até o teto, e a água vem na sua direção, a molha mais não a encharca. “Um tsunami que molha, mas que cabe dentro do quarto”, eu lhe digo. Levamos anos para construir o quarto para o tsunami. Depois de alguns dias, tem a sua primeira relação sexual com um orgasmo do qual sempre tivera terror que submergisse. Tínhamos iniciado com uma situação parecida com a síndrome de Asperger, na qual eram toleráveis somente voltagens mínimas. Decisiva havia sido a minha capacidade de continência iniciada quando, após um bom trabalho e colheita delicada e insaturada das suas comunicações, ela havia me contado que, junto com sua irmãzinha, quando eram pequenas, diziam para a tia palavras difíceis de ligar entre si, e a tia tinha que construir histórias usando-as todas, palavras do tipo: sorvete, urso, lobo, botão, ervilha, agulha. Era divertidíssimo. Enorme a minha tentação de dizer para ela que era o jogo da análise, e enorme a tentação de recolher, em uma história coerente, o material da sessão daquele dia, que continha pombos, médicos, terroristas, cadeiras elétricas e frades capuchinhos. Ali eu segurei, contive o tsunami interpretativo que pressionava dentro de mim, limitando-me a um comentário do tipo que me parecia que naquele dia eu tinha ouvido os seus relatos com o prazer que se sente ao ver filmes que iam de Pieraccioni, a Dario Argento (!), a Coppola (!).*

Naturalmente, o outro lado da inibição é a incontinência, que nas crianças tem frequentes modalidades de se apresentar na enurese, na encoprese, nos pesadelos noturnos, nas condutas hipercinéticas, no balbuciar, e assim por diante. O problema é como sair do mundo do hipercontrole e daquele do descontrole, até o da modulação das paredes de um continente suficientemente amplo e elástico, e que tenha uma espécie de saco-ruminação, no qual conservar o que deve ser, por longo tempo, regurgitado e depois novamente mastigado. Inútil dizer o quanto isso tenha pouco a ver com as interpretações clássicas, mas passa através das operações mentais e atividade de modulação e reorganização do campo, como bem descreve Claudio Neri (2006) com o exemplo do jogo da “cama de gato”.

N. de T. Diretores de cinema muito diferentes entre si.  

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nadar até o divã, Antonino Ferro


Nadar até o divã

A questão dos critérios de analisabilidade foi, por muito tempo, um conceito forte da psicanálise. De fato, media a disponibilidade do analista de se pôr à prova em situações difíceis e complexas, mais do que viagens organizadas e previsíveis de descanso completo. É necessário dizer, também, que cada paciente, mesmo o mais sofrido ou doente (segundo a maneira de nos aproximarmos ou nos defendermos dele) personifica, de qualquer forma, um nosso aspecto sofrido. Para os nossos aspectos neuróticos estamos suficientemente aparelhados e essa aparelhagem vai, passo a passo, diminuindo para os borderline, psicóticos ou autísticos (p. 125). Tudo o que se refere ao mental (e ao seu funcionamento) nos diz respeito! Mesmo os mais sadios são, de qualquer forma, um conjunto de defesas bem-sucedidas e harmonizadas em relação às partes estranhas e cindidas que se referem a aspectos psicóticos e especialmente simbióticos – na acepção de Bleger – e autísticos. O que nos é estranho nos pertence, e naturalmente nem todos nós temos a tentação de visitar todos os nossos mundos possíveis, que giram a várias distâncias do mundo possível da nossa identidade predominante. Quero dizer que não há ser humano que não esteja no centro de rotações dos próprios mundos não explorados em que se realiza como serial killer ou como catatônico, ou piromaníaco, ou pedófilo, ou nazista, e assim por diante. Mas, o quanto desejamos saber destas outras potencialidades da nossa mente? Quanto devemos fugir delas por medo, ou quanto somos curiosos de ir explorar, para além da cantina, como num livro de Carla Muschio, La cantina di Isabella, no qual Isabella encontra, justamente na cantina, uma porta escondida que lhe permite o acesso a uma infinidade de mundos possíveis, que estão, pela sua natureza, em expansão? Mas retornemos ao tema principal, se não nos distraímos e isto constituiria aquela deriva discursiva do nosso caminho contra a qual nos alerta Diderot em seu Jaques.

Hoje, muitos acreditam que, frequentemente, se trata (parafraseando um belo livro de alguns anos sobre crianças que sofrem de disgrafia, Nadar até a linha) de poder nadar até à análise. Obviamente, com a condição de que paciente e analista sintam motivação para esta viagem. Assim, é possível chegar aos poucos até o setting mais consensualmente analítico. Comumente, a partir das dificuldades nascem novas aberturas: a modalidade de encaminhar progressivamente o paciente em direção à análise, às vezes começando por um certo período com uma sessão, depois passando para duas, depois talvez ao divã, e depois para as três/quatro sessões regulares, nasceu, frequentemente, por causa da dificuldade que se encontra, em muitos países, de se ter pacientes dispostos, desde o início, ao divã e às três/quatro sessões para os candidatos. Portanto, tornou-se praxe iniciar como é possível, e acompanhar o paciente em direção a à pensabilidade da análise, em direção à possibilidade de estruturar um setting mais “comprometedor” do ponto de vista emocional, como o psicanalítico clássico. É incrível constatar quantas vezes é possível acompanhar o paciente, com paciência e disponibilidade, em direção a algo que antes teria sido para ele excessivo e por demais persecutório. Uma outra motivação de necessidade tem sido, no polo oposto, a de que um paciente tenha urgente necessidade, e não há “lugar” de imediato por parte do analista: começar com o que é possível, e depois incrementar, revelou-se uma escolha humana e construtiva. Inútil dizer que muitas destas flexibilidades derivam das experiências com crianças e adolescentes, em que, frequentemente, nos vemos obrigados a “fazer da necessidade uma virtude”.* é comovente o momento da passagem ao divã que, mesmo entre mil ansiedades, é vivido pelo paciente como uma “promoção” no campo, da qual tem também temor, mas da qual está orgulhoso: parte-se do West Point do vis-à-vis** para as pradarias dos índios ou para os pântanos do Vietnam. Uso estas metáforas de guerra porque, com certa frequência, se passa de emoções herbívoras a emoções carnívoras que implicam sofrimento e dor, ainda que eu creia que o analista, na maior parte das vezes, possa ser capaz de modular a entrada em cena de aspectos cindidos, ou nunca pensados, à medida que capta o desenvolvimento da capacidade de contensão por parte do paciente. creio que nestas fases de transição tudo o que acontece não deve ser considerado como fase preparatória para a análise, mas como a análise que é possível naquele momento, aguardando poder transitar até o clássico setting. Penso que o omnia munda mundis de frei Cristovão seja a melhor receita em relação à rigidez superegóica, pessoal ou institucional, que alguns analistas podem ter que enfrentar.

A aproximação progressiva, o respeito pela distância, o passar o método são todos instrumentos que irão possibilitar o desenvolvimento de ♀ e da própria função a. Tolerância, paciência, confiança no método são as capacidades negativas que permitem aliviar a persecutoriedade, até mesmo promover aquela mudança de orbital, que é o aumento de sessões ou a passagem para o divã que, de um outro ponto de vista, são os motores necessários para dar início à decolagem em direção a mundos desconhecidos, e para descongelar experiências que aguardam a possibilidade de serem pensadas (p. 125-127).  

N. de T. Região de origem de Ferro.
*N. de T. Expressão italiana que significa “aceitar com um sorriso algo que somos obrigados a aceitar”.
N. de T. Vis-à-vis = face a face.   

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Great Minds, Slavoj Žižek

Modern radical thinker Slavoj Žižek spoke on the 1st July as part of the 'Great Minds' series, and affirmed his status as a great mind of modern philosophy and social, cultural and political theory. Starbucks, social solidarity and self-commodification were among the varied and enlightening topics touched upon by Žižek, all grounded by his interpretation of ideology and its continuing importance. One of Europe's foremost Marxist theorists, Žižek criticised modern leftist groups who, he argued, didn't really know how to cope with the upheaval of the 'sublime' moment (revelation that an assumed state of total happiness is actually nonexistent). The question of 'what happens next' has been asked since the dwindling exhaustion of modernism into postmodernism. Žižek asks us to put ideological pressure on modern life, confirming the presence of ideological symbolism even in blatant popular culture (such as two Oscar-winning films, The King's Speech and Black Swan [2010]). His manner was sometimes serious, sometimes comic and vaguely apocalyptic (he is a self confessed pessimist), which all together made for an engaging talk, dense in historical, anecdotal and political references. The combination of issues allowed the modern audience member to examine their own behaviour alongside Hegelian optimism, Freudian self-commodification and Marxist ideas of social roles, in a non 'academic' sense, referring to the purchasing of Starbucks coffee as a subconscious purchasing of social solidarity built into the price. An audience member asks 'isn't it the case that people know that what they're doing is buying a coffee that will then, in some sort of self-serving way, make them feel better about themselves?', thus showing that ideology is no longer a 'smokescreen' of sorts. Žižek answers by claiming that we follow things, knowing that they are ideologies, and this does not necessarily make them 'right' or true. This is where the notion of ideology seems to be headed; to a total self consciousness -- as with a Hegelian resolution of the 'Zeitgeist' (Žižek is actually close to the publishing of an 800 page book on Hegel). In his relatively brief talk, Slavoj Žižek managed to expose our susceptibility to certain ideologies, thus proving their ever present role in modern society - not bad for a Friday night in West London, perhaps the capital of the British bourgeoisie.

On Melancholy, Slavoj Žižek

http://www.egs.edu/ Slavoj Žižek, philosopher and author, talking about melancholy as the loss of the object cause of desire. In this lecture Slavoj Žižek discusses the zero level of dialectics, the death of God, Christianity, the symbolic order and the Freudian distinction between mourning and melancholy in relationship to Jacques Lacan, Karl Marx, Alenka Zupančič, Mladen Dolar, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Judith Butler, Daniel Dennett, Gilles Deleuze and Georg Wilhelm Friedrich Hegel focusing on lamella, suture, big Other, commodity fetishism, fantasy, object a, desire, death drive and the unconscious. Public open lecture for the students and faculty of the European Graduate School EGS Media and Communication Studies department program Saas-Fee Switzerland Europe. 2012. Slavoj Žižek. Slavoj Žižek, Ph.D., (born March 21, 1949), is a senior researcher at the Institute of Sociology, University of Ljubljana, Slovenia, and a returning faculty member of the European Graduate School. He has also been a visiting professor at a number of American Universities (Columbia, Princeton, New School for Social Research, New York University, University of Michigan). Slavoj Žižek recieved his Ph.D. in Philosophy in Ljubljana studying Psychoanalysis. He also studied at the University of Paris. Slavoj Žižek is a cultural critic, philosopher and film theorist who is internationally known for his innovative interpretations of Hegel, Marx and Jacques Lacan. Slavoj Žižek has been called the 'Elvis Presley' of philosophy as well as an 'academic rock star.' Slavoj Žižek is the author of The Sublime Object of Ideology (1989), For They Know Not What They Do (1991), Looking Awry: an Introduction to Jacques Lacan Through Popular Culture (1991), Everything You Always Wanted to Know About Lacan (But Were Afraid To Ask Hitchcock) (1992), Enjoy Your Symptom! Jacques Lacan In Hollywood And Out (1992), Tarrying With The Negative (1993), Mapping Ideology (1994), The Indivisible Remainder (1996), The Plague of Fantasies (1997), The Abyss Of Freedom (1997), The Ticklish Subject: The Absent Centre of Political Ontology (1999), Contingency, Hegemony, Universality: Contemporary Dialogues on the Left (with Judith Butler and Ernesto Laclau) (2000), The Art of the Ridiculous Sublime, On David Lynch's Lost Highway (2000), The Fragile Absolute or Why the Christian Legacy is Worth Fighting For (2000), On Belief (2001), The Fright of Real Tears (2001), Did Somebody Say Totalitarianism? (2001), The Puppet and the Dwarf (2003), Organs Without Bodies: On Deleuze and Consequences (2003), Iraq The Borrowed Kettle (2004) Violence (2008), First As Tragedy, Then As Farce (2009), Living in the End Times (2010), Less Than Nothing: Hegel and the Shadow of Dialectical Materialism (2012), and most recently, The Year of Dreaming Dangerously (2012).

Year of Distraction, Slavoj Žižek

Lecture given by Slavoj Žižek - Slovenian continental philosopher and critical theorist working in the traditions of Hegelianism, Marxism and Lacanian psychoanalysis. He has made contributions to political theory, film theory, and theoretical psychoanalysis.

Historicizing Melanie Klein's concept of "projective identification", Dr. Joseph Aguayo

Historicizing Melanie Klein's concept of "projective identification". In the second Open Seminar video, from our Centre for Psychoanalytic Studies, Dr Joseph Aguayo speaks on the subject of "Historicizing Melanie Klein's concept of "projective identification"". To find out more about the Centre for Psychoanalytic Studies go to http://www.essex.ac.uk/centres/psycho/

Jornadas Académicas: una perspectiva del pensamiento de Melanie Klein, Dr. Bernadro Alavarez (parte 2)

Jornadas Académicas: una perspectiva del pensamiento de Melanie Klein, Dr. Bernadro Alavarez (parte 1)

Jornadas Académicas: una perspectiva del pensamiento de Melanie Klein. Dr. Bernadro Alavarez.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

As defesas e a técnica psicanalítica, Anthony Bateman e Jeremy Holmes


 
O tópico clínico de como lidar com as estruturas defensivas do paciente é alvo de discussões acaloradas entre os psicanalistas. Isso se dá, em partes, pela diversidade de visões teóricas sobre o tema e, sobretudo, pela relevância das defesas para o campo de estudo da psicanálise. Logo, as aplicações clínicas sobrepujam os desacordos teóricos, pois, no fim, o que mais importa é o efeito que elas têm no encontro entre o analista e o analisando. O debate foi inaugurado por duas formidáveis senhoras – ambas sucessoras de Freud e pioneiras da psicanálise infantil – Anna Freud e Melanie Klein.

Anna Freud desenvolveu uma abordagem específica sobre a investigação da defesa. Ela definiu as defesas como entidades separadas. Argumentou que as defesas do paciente aludiam aos impulsos do id. A manifestação seria, portanto, um meio de explorar o inconsciente. Anna Freud se opunha às interpretações precoces na análise, já que, em primeiro lugar, um elo de confiança deveria se estabelecer entre o analista e o paciente. É o que a autora chamava de “fase introdutória”, que se equiparava ao desenvolvimento infantil em que a criança se sentia segura e acolhida pelos pais ou pelas figuras que exercem os cuidados essenciais. Só assim, de acordo com ela, uma “análise real” teria início. Durante anos, a autora apostou nessas premissas, mesmo que, depois, as tenha abandonado. Contudo, ela manteve a ideia de que as manifestações da transferência não ocorriam no início da análise e, assim, a transferência negativa, em particular, não deveria ser interpretada no despontar do processo analítico. Anna Freud não estava convencida de que as crianças poderiam desenvolver plenamente a transferência e, ademais, não sabia se a análise da transferência em si seria uma estratégia apropriada ou não. Por exemplo, ela pensava que certos conflitos internos da criança, reencenados externamente com o analista, não eram passíveis de interpretações baseadas na transferência. As batalhas com o analista não eram fruto da transferência, mas tinham de ser explicadas à criança como algo que brotou de seu mundo interno. Anna Freud também acreditava que a análise deveria seguir os preceitos clássicos de Freud em relação às etapas do desenvolvimento (os elementos pré-edípicos precisariam ser examinados primeiro, no caso). Também conservava um grau de ceticismo a respeito do tratamento de crianças recém-nascidas ou de tenra idade.

Melanie Klein discordava disso. Pensava diferente de Anna Freud. Klein supunha que as defesas não se configuravam como entidades distintas e separadas, mas sim como partes integrantes da constelação psíquica. Logo, as ansiedades e as defesas teriam de ser interpretadas de forma simultânea. Ela não tinha objeções em relação ao tratamento de crianças recém-nascidas ou na tenra idade, pois acreditava que a transferência já se fazia presente desde o início da análise. Tal transferência, Klein pontuava, era o principal agente que promoveria mudanças terapêuticas. A transferência – seja ela negativa ou hostil – condensa as defesas e as ansiedades (de fato, para os pós-Kleinianos, a transferência é fundamentada na identificação projetiva) e deve ser interpretada no início da análise. Isso, por si só, aliviava o paciente e favorecia o trabalho analítico. Klein pensava que o analista tinha o compromisso de mostrar ao paciente que havia entendido as suas angústias recônditas e que não o abandonaria nessa jornada em direção ao que o amedrontava.

Os críticos de Klein argumentavam que havia algo de hostil no ato de interpretar as defesas no início do tratamento. Para eles, as intervenções assumiriam conotações perturbadoras ou até mesmo traumáticas, no momento em que desmantelariam abruptamente o equilíbrio das estruturas defensivas, responsáveis pela manutenção psíquica – ainda que precária – do paciente. Dito de uma forma menos dramática, as interpretações feitas no início da análise poderiam causar um fortalecimento das estruturas defensivas ao invés de miná-las aos poucos, visto que o paciente as encararia como ataques ou as registraria como algo fora de seu alcance mental. Em resumo, é bem possível que algumas interpretações deixariam os pacientes com a pulga atrás da orelha, como se diz popularmente. Entretanto, Klein consideraria uma inaptidão não interpretar as ansiedades profundas e nem as defesa logo de início (conforme o trabalho dela, no momento em que tais elementos se manifestam, eles tem de ser interpretados; a ideia de aguardar que a imagem oculta do mosaico se evidencie, não funciona para Klein). Na visão da autora, não devemos comprometer o potencial da análise com o prolongamento desnecessário do sofrimento apresentado pelo paciente. O analisando não precisa sentir-se sozinho e nem angustiado por não se sentir compreendido.

Desde os debates e confrontações iniciais, muitas formulações em relação às defesas ganharam forma. Winnicott (1965) colheu dessas divergências a matéria para fomentar a sua abordagem. Ele se valeu de aspectos teóricos e técnicos tanto de Anna Freud quanto de Melanie Klein. Criticou algumas posturas e adotou outras tantas. Em seu construto sobre o falso self, Winnicott argumentou a respeito da necessidade de trabalharmos, nem que seja por um tempo, com as estruturas defensivas, pois foi o próprio falso self que trouxe o paciente à análise. Mas ele nos alertou que essa prática não deve se estender e que ela só existe para que a aliança com o verdadeiro self se processe depois. Como assinalou Winnicott, o objeto que exerce a função de cuidar, eventualmente, sairá da sala de atendimento e deixará o seu filho ou filha em companhia do analista, e é aí que o paciente experimentará a chance de ser quem ele realmente é. Uma das críticas de Winnicott à Anna Freud é a seguinte: se o analista se concentrar muito nos elementos presos às superfícies do ego, talvez ele comece a negligenciar massivamente as camadas mais profundas do self. Ademais, o excesso de intervenções “suaves” tende a incrementar um conluio do analista para com o falso self do paciente. A análise adquirirá tons corruptos ou burlescos do início ao fim, caso isso ocorra; ou poderá se tornar interminável, porque o verdadeiro self estará sempre à margem da terapia.

A pluralidade das visões e das opiniões sobre a análise das defesas tem como emblema os psicanalistas norte-americanos. Primeiramente, eles – influenciados pelos estudos de Anna Freud sobre o ego – realizaram abundantes publicações em torno da defesa, no contexto da Psicologia do Ego. Naquela época, havia a insistência de que a análise da defesa se conduziria de acordo com os moldes paradigmáticos indicados por Anna Freud. Mas os ventos subsequentes influenciaram os pensamentos dos psicanalistas norte-americanos em relação à análise das defesas. O que ilustra essa mudança de rumo é a visão contrastante entre Heinz Kohut (1971) e Otto Kernberg (1974). Na Psicologia do Ego de Kohut é dada uma importância crucial para a análise das defesas narcisistas; o progresso do paciente dependerá, entre outros fatores, da tolerância e do bom convívio do analista com tais traços de caráter e com a defesa, especialmente – e aí residem inúmeras controvérsias – com a idealização do analista. Para Kohut, as defesas narcisistas não se configuram como resistências e, por conseguinte, não precisam ser interpretadas. Elas vão se dissolver sozinhas, sem interpretações, ele pensava. Em contrapartida, Kernberg, inspirado em Klein, entende a sugestão de Kohut como uma receita para o fracasso. Ele insiste que para os pacientes bordereline e narcisistas é essencial que haja um confronto interpretativo direto das defesas em jogo.

Então – o leitor poderia perguntar –, o que realmente está acontecendo nos consultórios hoje em dia? Não tenho evidências cabais para embasar uma resposta, mas, ao escutar as apresentações informais dos meus colegas psicanalistas (geralmente, são indicadores mais confiáveis do que as publicações em periódicos, pois destacam melhor as técnicas que estão em voga), eu consegui traçar um panorama da prática clínica na Inglaterra.

Muitos psicanalistas continuam a seguir as orientações técnicas de uma escola que elegeram em particular. De resto, as diferenciações entre os cabedais teóricos e técnicos das escolas já não são tão acerbas e tumultuadas quanto antes. Cada escola conquistou a sua identidade, ou seja, desenvolveu métodos específicos para tratar os pacientes, e isso só foi possível pelas críticas e as rixas existentes. Foi esse o modo de aprimoramento das falhas. Houve, também, uma revolução generalizada em nível internacional e, claro, na Inglaterra – a ênfase na importância da interpretação da transferência e o monitoramento da contratransferência. Todos esses aspectos provocaram um grande impacto na análise das defesas. Muitos analistas estão menos inclinados a aderir uma abordagem clínica tradicional ou ortodoxa. Há uma tendência à flexibilidade e à integração das diferenças. Os psicanalistas estão mais abertos a viver a atmosfera singular criada através das vicissitudes da transferência e da contratransferência. Eles sentem-se mais autorizados a experimentar novas situações. Isso, em algum grau, demonstra que a imagem complexa da mente humana está longe de ser constituída pelas descobertas referentes ao campo da psicanálise. Não existem privilégios de uma só escola ou de um único pensador: todos acabam se unindo em prol do bem-estar do paciente. Nenhum paciente é igual ao outro. Qualquer analista responsável e apto a escutar as flutuações psíquicas compreenderá que é preciso contemplar as particularidades de seus pacientes. Uma abordagem apropriada para um paciente (ou para o estágio em que se encontra o analista) poderá ser inapropriado para outro. As distinções entre as escolas analíticas certamente não desapareceram, mas a minha impressão é a de que se encontram mais flexíveis e versáteis. Talvez, no futuro, surja um denominador comum, não o sabemos. Ainda há muito trabalho pela frente; no entanto, eu acredito que a psicanálise está mais generosa e aberta às novidades. No fim, há mais recompensas e ganhos para os analistas e para os pacientes desse jeito do que em outros tempos. Parece que está démodé filiar-se rigidamente a um conjunto de normas específicas na psicanálise.

BATEMAN, Anthony; HOLMES, Jeremy. Introduction to Psychoanalysis: Contemporary Theory and Practice. New York: Taylor e Francis e-Library, 1995.