domingo, 11 de agosto de 2013

A inibição, Antonino Ferro


A inibição 

Agora, gostaria de utilizar, como exemplo, uma expressão de sofrimento ou de patologia particularmente trabalhosa de curar: a inibição, que se manifesta em múltiplos cenários, dependendo das diferentes idades. O paciente inibido inibe algo que o aterroriza. O seu “tsunami” psíquico encontrou uma forma de ser estancado. O que fazer? No fundo, rata-se de um mundo possível no qual o paciente se enfiou e encontrou uma solução. Mas indaguemos quais outros mundos possíveis gravitam à sua volta em busca de um geógrafo, astrônomo, astrofísico, pintor, poeta, trovador, que possa mapeá-los, fantasiados, de forma que o paciente possa entrar neles, libertando-se do mundo de “baixa energia” no qual caiu. Um seminarista reza e se masturba compulsivamente, expiando a culpa com extenuantes jejuns. Um dos seus duplos poderia ser um serial killer que estrangula as mulheres no trem. Um outro, em um eixo temporal diferente, um dominicano que tortura e queima a namorada, cozinhando-a depois e comendo-a em delicadas porções. Uma freira de clausura se flagela. O seu duplo poderia ser uma erotomaníaca que ama cenas de sexo extremo e sadomasoquista. Ou então, uma adolescente que mata ambos os pais, na cama, com a faca do churrasco. Um obsessivo arquivista enrubesce com as funcionárias do escritório e lê salmos todas as noites. Em um mundo paralelo, é um piromaníaco que estrangula meninas na saída da escola na qual ele ateou fogo.

O incrível é que os escritores transitam por todos esses mundos possíveis sem ficarem perturbados, aliás, extraindo deles bem-estar e fama. Mas o que somos nós, senão condutores de mundos possíveis asfixiados em direção a mundos possíveis com maior grau de energia passível de ser contida? Fantasiar não é fazer, mas como estar convencidos disso, como poder ter acesso aos filmes terríveis que um paciente gravemente obsessivo dizia que comprava sem nunca poder vê-los? Passava o dia se lavando, tinha que controlar constantemente a sua limpeza após ter “pisado num cocô”, depois que tinha sabido da traição da namorada. Em outro mundo, ele pisa aquela merda da namorada sem muitos problemas e depois se sente culpado. Mas os mundos não são sempre tão próximos, a ponto de podermos ouvir seus barulhos; são distantes, em outras galáxias, e, por isso, a meu ver, um analista deveria poder usufruir dos romances policiais, dos romances noir e dos de ficção científica, além, naturalmente, dos grandes narradores. O analista só pode ser um Shakespeare da mente, sem inibições, que saiba levar o paciente a usufruir da beleza de seus tsunami.

Uma paciente, após sete anos de análise, iniciada por uma sintomatologia gravemente inibitória no plano comportamental, sonha entrar em um quarto no qual, em uma parede, há um aquário, cheio de água sem o vidro na frente, que ocupa toda a parede até o teto, e a água vem na sua direção, a molha mais não a encharca. “Um tsunami que molha, mas que cabe dentro do quarto”, eu lhe digo. Levamos anos para construir o quarto para o tsunami. Depois de alguns dias, tem a sua primeira relação sexual com um orgasmo do qual sempre tivera terror que submergisse. Tínhamos iniciado com uma situação parecida com a síndrome de Asperger, na qual eram toleráveis somente voltagens mínimas. Decisiva havia sido a minha capacidade de continência iniciada quando, após um bom trabalho e colheita delicada e insaturada das suas comunicações, ela havia me contado que, junto com sua irmãzinha, quando eram pequenas, diziam para a tia palavras difíceis de ligar entre si, e a tia tinha que construir histórias usando-as todas, palavras do tipo: sorvete, urso, lobo, botão, ervilha, agulha. Era divertidíssimo. Enorme a minha tentação de dizer para ela que era o jogo da análise, e enorme a tentação de recolher, em uma história coerente, o material da sessão daquele dia, que continha pombos, médicos, terroristas, cadeiras elétricas e frades capuchinhos. Ali eu segurei, contive o tsunami interpretativo que pressionava dentro de mim, limitando-me a um comentário do tipo que me parecia que naquele dia eu tinha ouvido os seus relatos com o prazer que se sente ao ver filmes que iam de Pieraccioni, a Dario Argento (!), a Coppola (!).*

Naturalmente, o outro lado da inibição é a incontinência, que nas crianças tem frequentes modalidades de se apresentar na enurese, na encoprese, nos pesadelos noturnos, nas condutas hipercinéticas, no balbuciar, e assim por diante. O problema é como sair do mundo do hipercontrole e daquele do descontrole, até o da modulação das paredes de um continente suficientemente amplo e elástico, e que tenha uma espécie de saco-ruminação, no qual conservar o que deve ser, por longo tempo, regurgitado e depois novamente mastigado. Inútil dizer o quanto isso tenha pouco a ver com as interpretações clássicas, mas passa através das operações mentais e atividade de modulação e reorganização do campo, como bem descreve Claudio Neri (2006) com o exemplo do jogo da “cama de gato”.

N. de T. Diretores de cinema muito diferentes entre si.  

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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