sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A metamorfose de Piktor, Hermann Hesse


 
            Mal Piktor entrara no paraíso, parou diante de uma árvore que era ao mesmo tempo homem e mulher. Piktor saudou a árvore com respeito e perguntou:

            - És uma árvore da vida?

            Quando, porém, em vez da árvore quem quis responder foi a serpente, ele virou as costas e continuou andando. Ele era todo olhos, tudo lhe agradava. Sentiu claramente que estava em sua terra e na fonte da vida.

            E viu de novo uma árvore, que era ao mesmo tempo o sol e a lua.

            Piktor falou:

            - És uma árvore da vida?

            O sol assentiu e riu, a lua assentiu e sorriu.

            As flores mais maravilhosas o olharam, com toda espécie de cores e luzes, com toda a sorte de olhos e faces. Algumas assentiram rindo, algumas assentiram sorrindo, outras não assentiram nem sorriram; calaram-se embriagadas, em si mesmas mergulhadas, bêbadas do próprio perfume. Uma cantou a canção lilás, uma cantou a canção de ninar azul-escura. Uma das flores tinha grandes olhos azuis, uma outra fazia-o lembrar-se de seu primeiro amor. Uma cheirava ao jardim da sua infância, seu perfume doce soava como a voz da mãe. Uma outra riu para ele e estendeu-lhe uma língua curva e vermelha. Ele a lambeu, tinha um gosto forte e selvagem, de resina e mel, e também do beijo de uma mulher.

            Entre todas as flores Piktor parou cheio de saudade e temerosa alegria. Seu coração, como se fosse um sino, batia forte, batia muito; ele queimava no desconhecido, num encanto pressentido, ardia o seu desejo.

            Piktor viu um pássaro sentar, viu-o na grama sentar e em cores brilhar, todas as cores parecia ter o lindo pássaro. Perguntou ao lindo pássaro colorido:

            - Ó pássaro, onde está a felicidade?

            - A felicidade? – falou o lindo pássaro, e riu com o seu bico dourado. – A felicidade, amigo, está em toda parte, na montanha e no vale, na flor e no cristal.

            Com essas palavras o alegre pássaro sacudiu sua plumagem, virou o pescoço, agitou a cauda, piscou os olhos, riu de novo, e então ficou sentado impassível, sentou-se quieto na grama, e vede: o pássaro transformou-se agora numa flor multicolorida, as plumas em folhas, as garras em raízes. No brilho de cor, no meio da dança, ele virou-se em planta. Piktor viu isso admirado.

            E logo em seguida a flor-pássaro moveu suas folhas e estames, cansou-se de ser flor, não tinha mais raízes, moveu-se facilmente, ergueu-se devagar, transformou-se numa brilhante mariposa que se balançava no ar, sem peso, toda luz, toda um rosto luminoso. Piktor abriu bem os olhos.

            A nova borboleta, porém, a alegre e colorida mariposa-flor-pássaro, o luminoso rosto colorido voou em círculos ao redor do espantado Piktor, cintilou ao sol, pousou suave como um floco de neve, parou bem perto dos pés de Piktor, respirou delicadamente, tremeu um pouco as asas brilhantes, logo se transformou num cristal colorido, de cujas arestas se irradiava uma luz vermelha. A pedra vermelha reluzia maravilhosamente na grama e nas ervas, clara como um carrilhão de sinos em dia de festa.

            Mas seu lar, o interior da terra, pareceu chama-la; rapidamente ela diminuiu, torceu-se para penetrar no chão.

            Aí Piktor, levado por uma necessidade imperiosa, estendeu a mão para a pedra que diminuía e segurou-a. Olhava com encanto a sua luz mágica, que lhe parecia irradiar no coração todo pressentimento de bem-aventurança.

            De repente, sobre o galho de uma árvore morta apareceu a serpente e ciciou-lhe:

            - A pedra te transformará no que quiseres. Rápido, dize-lhe teu desejo, antes que seja tarde demais!

            Piktor assustou-se e temeu perder sua felicidade. Disse rapidamente a palavra e transformou-se numa árvore. Pois ele já havia desejado ser uma árvore, porque as árvores lhe pareciam cheias de tranquilidade, força e dignidade.

            Piktor transformou-se numa árvore. Cresceu com raízes para dentro da terra, esticou-se na altura, folhas e ramos surgiram do seu tronco. Estava muito contente com isso. Fez uma esteira de fios sedentos bem fundo na terra fresca, e ventava com suas folhas bem alto no azul. Escaravelhos moravam na sua casca, aos seus pés moravam lebres e ouriços, nos seus ramos, os pássaros.

            A árvore Piktor era feliz e não contava os anos que passavam. Muitos anos se passaram antes que ele percebesse que sua felicidade não era perfeita. Devagar, entretanto, aprendeu a ver com os olhos de árvore. Finalmente pôde enxergar e ficou triste.

Viu que em volta dele, no paraíso, a maioria dos seres se transformava com muita frequência, que tudo flutuava numa torrente encantada de eternas transformações. Viu flores tornarem-se pedras preciosas, ou voarem como brilhantes pássaros vibrantes. Viu ao seu lado de repente desaparecerem algumas árvores: uma desfizera-se em fonte, a outra tornara-se um crocodilo, uma outra nadara alegre e fresca, cheia de alegria, como um peixe, para uma nova forma começar novas brincadeiras. Elefantes confundiam sua roupagem com pedras, girafas confundiam sua forma com flores.

            Ele próprio, porém, a árvore Piktor, continuava sempre a mesma, ele não podia mais se transformar. Assim que reconheceu isso, sua felicidade se desvaneceu; começou a envelhecer e conservou sempre mais aquela posição cansada, séria e preocupada, que se pode observar em muitas velhas árvores. Também nos cavalos, nos pássaros, nos homens e todos os seres pode-se ver isso diariamente: quando não possuem o dom da transformação, com o tempo caem na tristeza e se atrofiam, sua beleza se perde.

Um dia então uma mocinha passou por aquele lado do paraíso, com um cabelo louro, com um vestido azul. Cantando e dançando a lourinha corria por baixo das árvores e até agora nunca havia pensado em pedir para si o dom da transformação.

Muito macaco inteligente ria atrás dela, muito arbusto roçava nela delicadamente, muita árvore atirava-lhe um botão, uma noz, uma maçã, sem que ela prestasse atenção.

Quando a árvore Piktor viu a mocinha, apoderou-se dele uma grande tristeza, um desejo de felicidade, como ainda nunca sentira. E imediatamente uma profunda meditação tomou conta dele, pois era como se seu próprio sangue pedisse: “Pensa! Lembra-te daquela hora em toda a tua vida, encontra o sentido, senão será tarde demais, nunca mais terás uma alegria.” E ele escutou. Recordou-se de todo o seu passado, dos seus anos de homem, de sua marcha para o paraíso, muito especialmente aquele instante, antes de se ter tornado uma árvore, daquele maravilhoso instante em que segurara nas mãos a pedra encantada. Naquele tempo, quando toda transformação lhe era possível, a vida ardera dentro dele como nunca! Lembrou-se do pássaro que havia rido, e da árvore com o sol e com a lua; ocorreu-lhe o pressentimento de que naquele instante esquecera alguma coisa, que o conselho da serpente não era bom.

 A mocinha ouviu um sussurro nas folhas da árvore Piktor, olhou para ele e sentiu, com uma súbita dor no coração, moverem-se dentro dela novos pensamentos, novos desejos, novos sonhos. Levada por força desconhecida, sentou-se debaixo da árvore. Ela lhe parecia solitária e triste, e com isso bela, comovente e nobre na sua tristeza muda; a canção da sua copa sussurrante soou-lhe sedutora. Inclinou-se contra o tronco rude, sentiu que a árvore se arrepiava, sentiu o mesmo arrepio no próprio coração. Raramente o coração lhe doía, sobre o céu de sua alma corriam nuvens, lentas lágrimas pesadas caíram de seus olhos. Afinal que era isso? Por que se devia sofrer tanto? Por que desejava o coração romper o peito e se fundir nele, no belo homem solitário?

A árvore estremeceu levemente até as raízes, tão violenta a força de vida que reuniu em si, num ardente desejo de unificação com a mocinha. Ah, que enganado pela serpente encantara-se para sempre numa árvore! Ah, que cego, que insensato fora! Então não soubera de nada, estivera tão alheio ao segredo da vida? Não, bem que ele o sentira antes e pressentira tristeza e profunda compreensão, e agora pensava na árvore, que era homem e mulher!

Um pássaro veio voando, um pássaro vermelho e verde, um pássaro bonito e audaz veio voando, veio voando em forma de arco. A mocinha o viu voar, viu alguma coisa cair do seu bico, brilhando, vermelha como sangue, como brasa, caiu na erva verde e brilhava na erva verde e era tão familiar, seu brilho vermelho pedia tão alto, que a mocinha se curvou e o vermelho segurou. Aí era um cristal, era um carbúnculo e onde ele está não pode haver escuridão.
 
Assim que a mocinha segurou a pedra encantada na sua mão branca, logo se satisfez o desejo de seu coração. A bela desapareceu, penetrou na árvore e tornou-se com ela uma só, brotou do seu tronco como um jovem ramo, cresceu rapidamente para cima.

Agora estava tudo bem, o mundo estava em ordem, só agora o paraíso fora encontrado, Piktor não era mais uma velha árvore preocupada, agora cantava bem alto vitória, vitória.

Ele se transformara. E porque dessa vez alcançara a transformação certa e eterna, porque de um meio, ele se tornara um todo, daquela hora em diante podia continuar se transformando, quanto quisesse. A encantadora torrente da transformação corria contínua pelo seu sangue, ele eternamente tomava parte na criação de todas as horas.

Foi rena, foi peixe, foi gente e serpente, nuvem e pássaro. Em cada forma, porém, era um todo, era um par, tinha lua e sol, tinha macho e fêmea em si, corria pelas terras como rios gêmeos, brilhava como dupla estrela no céu.


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