terça-feira, 13 de agosto de 2013

A noite escura da alma do escritor analítico, Thomas Ogden


A noite escura da alma do escritor analítico

Existem dois momentos no processo de escrita que para mim são mais difíceis e emocionalmente mais degradantes. O primeiro envolve chegar a uma ideia que estimule minha imaginação e depois encontrar um modo de desenvolvê-la. Na maioria das vezes, começo enunciando a ideia da maneira mais clara que posso no espaço de um ou dois parágrafos. Depois, escrevo de 20 a 25 páginas a Mao sobre tudo que me vier à cabeça em relação à ideia que estou experimentando. Se houver um único parágrafo que pareça promissor nessas páginas, sinto-me muito gratificado. Se houver três ou quatro parágrafos, fico exultante. Muitas vezes, as ideias nesses parágrafos bem-sucedidos guardam uma relação apenas tangencial com a ideia da qual parti. Eu então escrevo um novo enunciado de abertura para o artigo utilizando as ideias e parte da linguagem para essas ideias contidas no esboço inicial.

Escrevo entre 5 e 10 esboços (grandes reelaborações da estrutura e principais temas) e facilmente 50 reelaborações de muitas palavras, locuções e frases. Depois de cada esboço, o enunciado de abertura sobre o assunto do artigo precisa ser revisado. O segundo dos dois momentos no processo de escrita que considero mais árduos é a leitura do manuscrito depois que ele foi transcrito de meu ditado. Jamais aconteceu de eu ler a primeira versão digitada do texto e não me sentir profundamente decepcionado e desanimado. Muitas das frases e parágrafos parecem pouco mais do que pobres disfarces para a falta de profundidade do pensamento. Prosseguir escrevendo neste ponto é sobretudo um processo de enunciar mais claramente para mim o assunto que estou tentando abordar. A essência de uma ideia está ali, mas ela está tão atolada no palavreado que é difícil detectá-la. A arte de encontrar essa essência envolve cortar sem piedade frases, parágrafos e seções inteiras do artigo que sejam desnecessárias.

É minha experiência que o que acontece neste ponto do processo de escrita é o que define o sucesso ou fracasso de um texto. Quando consigo superar esta dificuldade, é como se eu tivesse chegado a uma clareira na qual sou capaz de pensar com uma clareza que até então eu não tinha sentido no processo de escrita. Vêm-me à cabeça expressões que capturam essências que, até este ponto, mal eram discerníveis. É nesta etapa da escrita que imagino que Winnicott (1956) chegou à expressão “continuar a ser” (p. 303), e Bion (1962a) escreveu “o paciente que não é capaz de sonhar não pode adormecer e não pode acordar” (p. 7), e Balint (1968) encontrou a frase “mistura interpenetrante harmoniosa” (p. 136), e Leowald (1960) escreveu “fantasmas do inconsciente são deitados... para repousarem como antepassados” (p. 249). Ao ler essas expressões e frases no contexto, é inconfundível para o ouvido do escritor e do leitor que a ideia não poderia ser expressa de outra maneira; outras palavras expressariam algo consideravelmente diferente. é aí que é gerada uma parte substancial da graça da boa escrita analítica.

     Quando um texto analítico é bom, é evidente que a intenção do autor não era ser “poético” (caso fosse, as frases pareceriam constrangedoramente artificiais). Em vez disso, as palavras e expressões possuem um equilíbrio desembaraçado. Mesmo quando a maioria dos leitores é incapaz de discernir um texto escrito às pressas de um texto que seja fruto de muitas horas de luta com as palavras, o próprio escritor é capaz de notar a diferença, e nada é mais importante do que isso para um escritor (p. 153-154).


OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.        

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