quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A propósito da transferência, Antonino Ferro


A propósito da transferência

A “transferência” entra em cena também na escolha do objeto: na presença de situações mentais não elaboradas, que permaneceram enquistadas, frequentemente, a única possibilidade de transformação é o repropor das mesmas em uma situação na qual podem existir mais chances em relação àquela originária traumática. A transformação que surge “naturalmente”, nos casos afortunados, permite a escolha de objetos cada vez mais novos em relação aos originais causadores de traumas. Em análise, o repropor da história esquecida, cindida, recalcada, é um dos motores da mesma. O contínuo adoecer do campo (na linguagem dos Baranger: a formação dos “baluartes”) e o contínuo curar-se (resolução dos “baluartes”) constitui a respiração do campo que, desta forma, se alarga e colapsa continuamente. Se um paciente teve uma mãe pouco disponível, deverá viver isto, mais cedo ou mais tarde, na sala de análise e no campo, não importa por meio de que personagem: isto poderá ser digerido e metabolizado pelos movimentos peristálticos do campo ou, também, por uma interpretação, contanto que não se esqueça de que a interpretação, para ser eficaz, só pode ser o ato final de um processo digestivo anterior. Mas a questão da transferência não termina aqui: sabemos que existe também uma transferência do analista sobre o paciente, que necessita de constante elaboração (frequentemente, silenciosa e automática).

Cumes tempestuosos, de Emily Bronti, mostra muito bem a transferência sobre o objeto – Heathcliff é recolhido órfão, abandonado e praticamente adotado pelo velho Earnshaw. O vínculo que o une a Catherine, filha de Earnshaw, é passional e simbiótico. Isto será fonte de dor, ciúmes, desespero, ódio. Mas é colocado em cena com Catherine, que por sua vez também é órfã. O que antes não podia ser pensado, vivido: faz viver partes da mente antes atrofiadas. Somente o longo trabalho transformador dará possibilidades aos filhos de Catherine e de Hindley (os aspectos novos de si mesmo), nascidos da digestão transformadora, de terem uma relação que contenha também alegria e não somente tragédia.

No teatro analítico, o silêncio do analista frequentemente é temido, porque não realiza aquele contínuo ajuste de pH que a sua presença, por meio do testemunho das palavras, opera. Ele é como a escuridão do quarto para as crianças pequenas: povoa-se de fantasmas e de cenas de medo. Certamente, para ouvir os barulhos e para ver o filme, é necessário atenuar sons e luzes, mas as luzinhas que permitem sempre saber que estamos no cinema, ou no teatro, deveriam ser mantidas. A única exceção são aqueles pacientes suficientemente estruturados desde o início do trabalho que sabem se lançar no escuro e no silêncio com curiosidade e paixão. Mas estes não são tão frequentes. São mais frequentes aqueles que têm necessidade das luzinhas, dos intervalos, da luz tênue, da presença do lanterninha: talvez, um dia, possam usufruir do grande salto no escuro do silêncio. O analista que “fala” dilui a crueza de certos cenários, torna-se realmente um Virgilio capaz de fazer prosseguir Dante nos percursos infernais. No momento certo, chegará Beatrice, e o paciente poderá usufruir de uma análise da qual não tem mais medo. O analista silencioso pode assumir qualquer rosto, o analista que intervém ilumina com a realidade da sua presença não fantasmática e com o som da sua vida emocional, verdadeira coluna sonora do filme-análise: poderíamos objetar que o analista silencioso polui menos o campo, e isto é verdade com pacientes que não temem o emergir dos “Nessie” (em todos os sentidos) pelos quais são habitados, mas também é verdade que a cor do silêncio, às vezes, se inscreve como um elemento impossível de ser assumido e digerido pelo paciente (p. 100-102).         


N. de T. Na Itália, a sessão de cinema tem um intervalo que marca o “fim do primeiro tempo” e depois o “início do segundo tempo”.      


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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