quinta-feira, 1 de agosto de 2013

As defesas e a técnica psicanalítica, Anthony Bateman e Jeremy Holmes


 
O tópico clínico de como lidar com as estruturas defensivas do paciente é alvo de discussões acaloradas entre os psicanalistas. Isso se dá, em partes, pela diversidade de visões teóricas sobre o tema e, sobretudo, pela relevância das defesas para o campo de estudo da psicanálise. Logo, as aplicações clínicas sobrepujam os desacordos teóricos, pois, no fim, o que mais importa é o efeito que elas têm no encontro entre o analista e o analisando. O debate foi inaugurado por duas formidáveis senhoras – ambas sucessoras de Freud e pioneiras da psicanálise infantil – Anna Freud e Melanie Klein.

Anna Freud desenvolveu uma abordagem específica sobre a investigação da defesa. Ela definiu as defesas como entidades separadas. Argumentou que as defesas do paciente aludiam aos impulsos do id. A manifestação seria, portanto, um meio de explorar o inconsciente. Anna Freud se opunha às interpretações precoces na análise, já que, em primeiro lugar, um elo de confiança deveria se estabelecer entre o analista e o paciente. É o que a autora chamava de “fase introdutória”, que se equiparava ao desenvolvimento infantil em que a criança se sentia segura e acolhida pelos pais ou pelas figuras que exercem os cuidados essenciais. Só assim, de acordo com ela, uma “análise real” teria início. Durante anos, a autora apostou nessas premissas, mesmo que, depois, as tenha abandonado. Contudo, ela manteve a ideia de que as manifestações da transferência não ocorriam no início da análise e, assim, a transferência negativa, em particular, não deveria ser interpretada no despontar do processo analítico. Anna Freud não estava convencida de que as crianças poderiam desenvolver plenamente a transferência e, ademais, não sabia se a análise da transferência em si seria uma estratégia apropriada ou não. Por exemplo, ela pensava que certos conflitos internos da criança, reencenados externamente com o analista, não eram passíveis de interpretações baseadas na transferência. As batalhas com o analista não eram fruto da transferência, mas tinham de ser explicadas à criança como algo que brotou de seu mundo interno. Anna Freud também acreditava que a análise deveria seguir os preceitos clássicos de Freud em relação às etapas do desenvolvimento (os elementos pré-edípicos precisariam ser examinados primeiro, no caso). Também conservava um grau de ceticismo a respeito do tratamento de crianças recém-nascidas ou de tenra idade.

Melanie Klein discordava disso. Pensava diferente de Anna Freud. Klein supunha que as defesas não se configuravam como entidades distintas e separadas, mas sim como partes integrantes da constelação psíquica. Logo, as ansiedades e as defesas teriam de ser interpretadas de forma simultânea. Ela não tinha objeções em relação ao tratamento de crianças recém-nascidas ou na tenra idade, pois acreditava que a transferência já se fazia presente desde o início da análise. Tal transferência, Klein pontuava, era o principal agente que promoveria mudanças terapêuticas. A transferência – seja ela negativa ou hostil – condensa as defesas e as ansiedades (de fato, para os pós-Kleinianos, a transferência é fundamentada na identificação projetiva) e deve ser interpretada no início da análise. Isso, por si só, aliviava o paciente e favorecia o trabalho analítico. Klein pensava que o analista tinha o compromisso de mostrar ao paciente que havia entendido as suas angústias recônditas e que não o abandonaria nessa jornada em direção ao que o amedrontava.

Os críticos de Klein argumentavam que havia algo de hostil no ato de interpretar as defesas no início do tratamento. Para eles, as intervenções assumiriam conotações perturbadoras ou até mesmo traumáticas, no momento em que desmantelariam abruptamente o equilíbrio das estruturas defensivas, responsáveis pela manutenção psíquica – ainda que precária – do paciente. Dito de uma forma menos dramática, as interpretações feitas no início da análise poderiam causar um fortalecimento das estruturas defensivas ao invés de miná-las aos poucos, visto que o paciente as encararia como ataques ou as registraria como algo fora de seu alcance mental. Em resumo, é bem possível que algumas interpretações deixariam os pacientes com a pulga atrás da orelha, como se diz popularmente. Entretanto, Klein consideraria uma inaptidão não interpretar as ansiedades profundas e nem as defesa logo de início (conforme o trabalho dela, no momento em que tais elementos se manifestam, eles tem de ser interpretados; a ideia de aguardar que a imagem oculta do mosaico se evidencie, não funciona para Klein). Na visão da autora, não devemos comprometer o potencial da análise com o prolongamento desnecessário do sofrimento apresentado pelo paciente. O analisando não precisa sentir-se sozinho e nem angustiado por não se sentir compreendido.

Desde os debates e confrontações iniciais, muitas formulações em relação às defesas ganharam forma. Winnicott (1965) colheu dessas divergências a matéria para fomentar a sua abordagem. Ele se valeu de aspectos teóricos e técnicos tanto de Anna Freud quanto de Melanie Klein. Criticou algumas posturas e adotou outras tantas. Em seu construto sobre o falso self, Winnicott argumentou a respeito da necessidade de trabalharmos, nem que seja por um tempo, com as estruturas defensivas, pois foi o próprio falso self que trouxe o paciente à análise. Mas ele nos alertou que essa prática não deve se estender e que ela só existe para que a aliança com o verdadeiro self se processe depois. Como assinalou Winnicott, o objeto que exerce a função de cuidar, eventualmente, sairá da sala de atendimento e deixará o seu filho ou filha em companhia do analista, e é aí que o paciente experimentará a chance de ser quem ele realmente é. Uma das críticas de Winnicott à Anna Freud é a seguinte: se o analista se concentrar muito nos elementos presos às superfícies do ego, talvez ele comece a negligenciar massivamente as camadas mais profundas do self. Ademais, o excesso de intervenções “suaves” tende a incrementar um conluio do analista para com o falso self do paciente. A análise adquirirá tons corruptos ou burlescos do início ao fim, caso isso ocorra; ou poderá se tornar interminável, porque o verdadeiro self estará sempre à margem da terapia.

A pluralidade das visões e das opiniões sobre a análise das defesas tem como emblema os psicanalistas norte-americanos. Primeiramente, eles – influenciados pelos estudos de Anna Freud sobre o ego – realizaram abundantes publicações em torno da defesa, no contexto da Psicologia do Ego. Naquela época, havia a insistência de que a análise da defesa se conduziria de acordo com os moldes paradigmáticos indicados por Anna Freud. Mas os ventos subsequentes influenciaram os pensamentos dos psicanalistas norte-americanos em relação à análise das defesas. O que ilustra essa mudança de rumo é a visão contrastante entre Heinz Kohut (1971) e Otto Kernberg (1974). Na Psicologia do Ego de Kohut é dada uma importância crucial para a análise das defesas narcisistas; o progresso do paciente dependerá, entre outros fatores, da tolerância e do bom convívio do analista com tais traços de caráter e com a defesa, especialmente – e aí residem inúmeras controvérsias – com a idealização do analista. Para Kohut, as defesas narcisistas não se configuram como resistências e, por conseguinte, não precisam ser interpretadas. Elas vão se dissolver sozinhas, sem interpretações, ele pensava. Em contrapartida, Kernberg, inspirado em Klein, entende a sugestão de Kohut como uma receita para o fracasso. Ele insiste que para os pacientes bordereline e narcisistas é essencial que haja um confronto interpretativo direto das defesas em jogo.

Então – o leitor poderia perguntar –, o que realmente está acontecendo nos consultórios hoje em dia? Não tenho evidências cabais para embasar uma resposta, mas, ao escutar as apresentações informais dos meus colegas psicanalistas (geralmente, são indicadores mais confiáveis do que as publicações em periódicos, pois destacam melhor as técnicas que estão em voga), eu consegui traçar um panorama da prática clínica na Inglaterra.

Muitos psicanalistas continuam a seguir as orientações técnicas de uma escola que elegeram em particular. De resto, as diferenciações entre os cabedais teóricos e técnicos das escolas já não são tão acerbas e tumultuadas quanto antes. Cada escola conquistou a sua identidade, ou seja, desenvolveu métodos específicos para tratar os pacientes, e isso só foi possível pelas críticas e as rixas existentes. Foi esse o modo de aprimoramento das falhas. Houve, também, uma revolução generalizada em nível internacional e, claro, na Inglaterra – a ênfase na importância da interpretação da transferência e o monitoramento da contratransferência. Todos esses aspectos provocaram um grande impacto na análise das defesas. Muitos analistas estão menos inclinados a aderir uma abordagem clínica tradicional ou ortodoxa. Há uma tendência à flexibilidade e à integração das diferenças. Os psicanalistas estão mais abertos a viver a atmosfera singular criada através das vicissitudes da transferência e da contratransferência. Eles sentem-se mais autorizados a experimentar novas situações. Isso, em algum grau, demonstra que a imagem complexa da mente humana está longe de ser constituída pelas descobertas referentes ao campo da psicanálise. Não existem privilégios de uma só escola ou de um único pensador: todos acabam se unindo em prol do bem-estar do paciente. Nenhum paciente é igual ao outro. Qualquer analista responsável e apto a escutar as flutuações psíquicas compreenderá que é preciso contemplar as particularidades de seus pacientes. Uma abordagem apropriada para um paciente (ou para o estágio em que se encontra o analista) poderá ser inapropriado para outro. As distinções entre as escolas analíticas certamente não desapareceram, mas a minha impressão é a de que se encontram mais flexíveis e versáteis. Talvez, no futuro, surja um denominador comum, não o sabemos. Ainda há muito trabalho pela frente; no entanto, eu acredito que a psicanálise está mais generosa e aberta às novidades. No fim, há mais recompensas e ganhos para os analistas e para os pacientes desse jeito do que em outros tempos. Parece que está démodé filiar-se rigidamente a um conjunto de normas específicas na psicanálise.

BATEMAN, Anthony; HOLMES, Jeremy. Introduction to Psychoanalysis: Contemporary Theory and Practice. New York: Taylor e Francis e-Library, 1995.

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