sexta-feira, 23 de agosto de 2013

II Uma experiência de escrita analítica, Thomas Ogden



II Uma experiência de escrita analítica
 
Vou agora examinar uma passagem clínica extraída de um de meus textos recentes (Capítulo 1 deste livro) para tentar comunicar algo do processo de pensamento consciente e inconsciente que informou a escrita. A passagem que vou discutir é o parágrafo de abertura de uma apresentação detalhada de uma experiência de análise.
 
Alguns dias depois que eu e o Sr. A havíamos marcado uma hora para uma consulta inicial, a secretária dele me telefonou para cancelar o encontro por motivos vagos relacionados a assuntos de trabalho do Sr. A. Ele me telefonou algumas semanas depois para se desculpar pelo cancelamento e pedir para marcar outra hora. Em nossa primeira sessão, o Sr. A, um homem em torno de 40 anos, me disse que há algum tempo pensava em fazer análise (sua esposa estava em análise na época), mas que ficara adiando isso. Rapidamente acrescentou (como se respondesse à pergunta “terapêutica” esperável): “Não sei porque eu estava com medo da análise”. Ele prosseguiu: “Embora minha vida pareça muito boa de fora – sou bem-sucedido profissionalmente, tenho um casamento bom e três filhos que amo muito – sinto quase o tempo todo que algo está terrivelmente errado”. (A utilização do Sr. A das expressões “medo da análise”, “amo muito” e “terrivelmente errado” me pareceram ansiosos esforços inconscientes para fingir sinceridade mas, na verdade, para me dizer quase nada). Eu disse ao Sr. A que ter pedido à sua secretária para falar comigo havia me feito pensar que ele podia achar sua própria voz e suas próprias palavras pudessem lhe falhar. O Sr. A olhou-me como seu eu estivesse maluco e disse: “Não, meu telefone celular não estava funcionando, e para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas, eu mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe falasse” (Ogden, 2004, p. 11-12).
Decidir como e por onde começar uma descrição de caso não é uma questão simples. A abertura de uma descrição clínica, quando funciona, tem toda a sensação do inevitável. Ela leva o leitor a sentir: onde mais poder-se-ia começar a contar essa história? O ponto de partida, além de prover um elemento estrutural importante para a história e para o texto como um todo, faz uma declaração implícita significativa sobre o modo de pensar do escritor, os tipos de coisas que ele percebe e valoriza e, em especial, qual do infinito número de momentos críticos nesta experiência humana merece o lugar de honra na narrativa.
No parágrafo de abertura que está sendo discutido, ainda antes do aparecimento do sujeito da primeira frase existe uma cláusula introdutória – “Alguns dias depois que eu e o Sr. A havíamos marcado uma hora para uma consulta inicial” – que discretamente sinaliza o que vai acontecer na descrição clínica como um todo. É feita uma promessa (o acordo de encontrar-se a uma determinada hora e lugar para um determinado propósito) que, na parte seguinte da frase, o paciente quebra. Minha experiência com o Sr. A que está começando a ser contada é uma história de promessas quebradas (implícitas): do paciente trair a confiança da irmã menor ao “brincarem de médico”, do paciente trair a si mesmo por não enfrentar o que havia feito à irmã, e a quebra da promessa implícita por parte da mãe de que seria genuinamente sua mãe.
O sujeito da frase de abertura não é o Sr. A nem eu, mas a secretária do Sr. A: “a secretária dele me telefonou para cancelar o encontro...” Aparentemente, essa é um escolha estranha, mas ao dar a ela as linhas de abertura (ao transmitir o recado do paciente para mim), a frase está mostrando (em contraste com descrevendo) uma ausência – a ausência do paciente. O paciente, ao falar através de sua secretária, está falando de um lugar psicológico definido por sua ausência. Mesmo que o paciente não tenha comparecido à primeira sessão de sua análise – a sessão cancelada – ela não obstante aconteceu em minha mente e, suponho, na dele. Foi uma sessão na qual o paciente estava presente na forma de sua ausência da análise e (suspeito) de muitas outras partes de sua vida.
O tema do engodo aparece na frase de abertura na forma da explicação do Sr. A para o cancelamento, que eu caracterizo como consistindo de “motivos vagos relacionados a assuntos de trabalho do Sr. A”. O leitor e tampouco eu (como personagem) sabe a natureza do trabalho do Sr. A neste ponto da história. Ao referir-se ao “trabalho” do Sr. A antes de usa natureza ser revelada, existe uma fachada para outra coisa. Também fracamente cintilante nesta frase há a sugestão de que seu trabalho que o Sr. A possa estar envolvido em autoengano ao racionalizar sua ausência da primeira sessão de análise. Esta sobreposição de possibilidades – algumas manifestas, outras quase imperceptíveis – produz uma sinistra sensação de forças destrutivas em ação, uma alusão à vida secreta do paciente.
Embora a frase de abertura possa funcionar dos modos que sugeri, não quero dizer que conscientemente construí a frase com estes propósitos em mente. A frase “me ocorreu” no ato da escrita como um sonho ocorre sem convite durante o sono. Em um primeiro esboço, a história começava com meu encontro com o Sr. A na sala de espera onde ele me saudou pelo meu primeiro nome. Como aquele evento tinha sido tão inquietante, o deletei da história porque senti que o efeito criado pela frase que estive discutindo tinha mais camadas de significado (sendo por isso mais interessante). A transferência daquela frase do terceiro parágrafo da versão original para a posição de frase de abertura permitiu-lhe adquirir maior força dramática – assim criando na escrita parte do impacto emocional que o Sr. A tinha tido sobre mim já no início da análise. Somente depois de fazer dessa a frase de abertura da história é que reconheci que ela continha em forma germinal a totalidade da história que se seguiria.
Como no processo de escrita que acabei de descrever, considero importante não conhecer a forma da história desde o início, mas permitir que ela tome forma no processo no processo de redação. Não saber o fim da história durante o início preserva para o escritor, assim como para o leitor, uma sensação da total imprevisibilidade de todas as experiências da vida: nunca sabemos o que vai acontecer antes que aconteça. O equivalente na escrita é deixar que o texto “conte como puder... Ele encontra seu próprio nome à medida que avança” (Frost, 1939, p. 777).
Na penúltima frase do parágrafo que sendo discutido, eu (como personagem) falo pela primeira vez em resposta ao que aconteceu até este ponto na história: “Eu disse ao Sr. A que ter pedido à sua secretária para falar comigo havia me feito pensar que ele podia achar que sua própria voz e suas próprias palavras pudessem lhe falhar”. O que digo começa a definir para o Sr. A e para o leitor a minha concepção da psicanálise. Minha resposta verbal ao Sr. A era, a meu ver, psicanalítica no sentido de que ela constituía uma interpretação verbalmente simbolizada do que eu acreditava ser a principal ansiedade na transferência. Além disso, ela tinha algo da qualidade de “uma interpretação em ação” (Ogden, 1994b) no sentido de que a postura que eu estava assumindo ao fazer a interpretação refletia uma recusa ativa de minha parte de permitir que a forma raivosa e extremamente evasiva com que ele se apresentou – o modo como lidou com a sessão inicial (cancelada) – continuasse sendo um modo de mostrar – não de explicar – ao paciente (e ao leitor) o que significa iniciar um relacionamento psicanalítico. A psicanálise é uma experiência na qual o analista leva o paciente a sério, em parte por tratar tudo o que ele dize faz como comunicações potencialmente significativas para o analista (Ogden, 1989). No caso em discussão, os atos do Sr. A relacionados ao encontro inicial constituíram suas primeiras comunicações sobre o que ele sentia (inconscientemente) que eu deveria saber sobre ele para que pudesse o ajudar. Minha resposta constituía uma ação por si mesma que visava captar a atenção (e imaginação) do paciente. A interpretação tinha uma elegância que está presente no aspecto sensório da frase escrita: existe uma queda abrupta do nível consciente, descritivo (“ter pedido à sua secretária para falar comigo”) para o nível pré-consciente-inconsciente (“ele podia achar que sua própria voz e suas próprias palavras pudesse lhe falhar”).
As palavras específicas que utilizo ao escrever o diálogo nas frases finais do parágrafo de abertura são de grande importância para meu esforço em dar vida à minha experiência com o Sr. A na escrita. Não fiz anotações durante a sessão, assim o diálogo para esta cena exigia que eu encontrasse palavras que captassem a essência do que o paciente e eu realmente dissemos e também a voz com a qual cada um falou*. Embora o que eu disse não seja colocado entre aspas, a frase mesmo assim transmite uma ideia da voz com que fiz a interpretação. Foi uma voz que surpreendeu o paciente (o que pode ser identificado em sua resposta). O diálogo também reflete o modo como o paciente percebeu que estava encontrando neste contato inicial não apenas uma nova pessoa, mas um novo modo de pensar e falar. A voz com a qual falei era direta e evitava as regras convencionais de etiqueta (assim como o tom patriarcal do modo tradicional de um médico falar com um paciente). A voz não é arrogante, nem reclama onisciência, mas é a voz de alguém que acredita que tem alguma familiaridade com um nível de relacionamento humano que é novo e um pouco mais do que assustador para o paciente.
O Sr. A não disse o que o assustava sobre começar a fazer análise, mas seu medo estava perceptivelmente presente em sua resposta ao que eu disse: “Meu telefone celular não estava funcionando, e para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas, mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe telefonasse”. Nesta parte da sessão, o Sr. A estava expressando muitos sentimentos ao mesmo tempo. Minha tarefa como escritor é utilizar palavras de um modo que de alguma forma captem essa simultaneidade. As palavras “O Sr. A olhou-me como seu eu estivesse maluco” servem para expressar (com ligeira ironia) a rebeldia raivosa e temerosa do paciente contra o modo como eu enquadrei os fatos em torno do telefonema e da secretária. Em seu protesto, ele invoca o bom senso em defesa não apenas de seu ponto de vista, mas também de sua sanidade**. (Meu uso da palavra “maluco” para descrever como o Sr. A olhou para mim visa sugerir seu medo do aspecto psicótico em si mesmo).
Ao redigir cada elemento da resposta do paciente, a linguagem que utilizo visa transmitir uma ideia da pressão do inconsciente quase explodindo através das palavras faladas: “Meu telefone celular não estava funcionando” – isto é, ele se sentiu impedido por minha interpretação de falar e pensar do modo como estava acostumado. “Para não ter que pagar as tarifas exorbitantes que os hotéis cobram por ligações telefônicas” – isto é, ele se sentia impotente no setting analítico onde eu crio regras egoístas que, ele temia, não levariam em conta quem ele é e o que ele precisa. “Eu mandei um e-mail à minha secretária pedindo a ela que lhe telefonasse [para cancelar a sessão]” – isto é, ele se recusou a se submeter a mim e a meus modos de pensar e falar que ele temia  que eu estava tentando lhe impor; ele poderia comunicar-se com mais segurança sem falar (utilizando o e-mail e a secretária falando em seu nome); ele poderia tentar se proteger contra o meu poder (e o poder de seus próprios pensamentos e sentimentos repelidos) pelo uso de autoengano (ao cancelar a primeira sessão). Nas palavras que utilizo para expressar meu entendimento da experiência emocional do Sr. A, estou tentando criar uma voz para ele na qual o leitor possa ouvir a simultaneidade de uma criança assustada suplicante, a dolorosa insegurança e bravata vazia de uma valentão, e um homem em sofrimento psicológico que está veladamente pedindo ajuda. Cada leitor vai determinar para si mesmo se estas frases conseguem dar vida a uma experiência analítica na experiência de leitura (p. 141-145).
 
Notas
* Utilizo os termos voz e tom para me referir a diferentes aspectos da fala/escrita. O tom reflete o que o falante está sentindo; a voz reflete o que o falante é, o modo como ele pensa, como organiza sua experiência emocional. Evidentemente, os dois se sobrepõem.
** Isso me faz lembrar do que o médico em A Fortunate Man de Berger(1967) disse sobre o bom senso: “Quando lido com seres humanos este é o meu maior inimigo...ele me tenta a aceitar o óbvio, a resposta mais prontamente disponível”. (p. 62).
   
OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.        

Nenhum comentário:

Postar um comentário