quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nadar até o divã, Antonino Ferro


Nadar até o divã

A questão dos critérios de analisabilidade foi, por muito tempo, um conceito forte da psicanálise. De fato, media a disponibilidade do analista de se pôr à prova em situações difíceis e complexas, mais do que viagens organizadas e previsíveis de descanso completo. É necessário dizer, também, que cada paciente, mesmo o mais sofrido ou doente (segundo a maneira de nos aproximarmos ou nos defendermos dele) personifica, de qualquer forma, um nosso aspecto sofrido. Para os nossos aspectos neuróticos estamos suficientemente aparelhados e essa aparelhagem vai, passo a passo, diminuindo para os borderline, psicóticos ou autísticos (p. 125). Tudo o que se refere ao mental (e ao seu funcionamento) nos diz respeito! Mesmo os mais sadios são, de qualquer forma, um conjunto de defesas bem-sucedidas e harmonizadas em relação às partes estranhas e cindidas que se referem a aspectos psicóticos e especialmente simbióticos – na acepção de Bleger – e autísticos. O que nos é estranho nos pertence, e naturalmente nem todos nós temos a tentação de visitar todos os nossos mundos possíveis, que giram a várias distâncias do mundo possível da nossa identidade predominante. Quero dizer que não há ser humano que não esteja no centro de rotações dos próprios mundos não explorados em que se realiza como serial killer ou como catatônico, ou piromaníaco, ou pedófilo, ou nazista, e assim por diante. Mas, o quanto desejamos saber destas outras potencialidades da nossa mente? Quanto devemos fugir delas por medo, ou quanto somos curiosos de ir explorar, para além da cantina, como num livro de Carla Muschio, La cantina di Isabella, no qual Isabella encontra, justamente na cantina, uma porta escondida que lhe permite o acesso a uma infinidade de mundos possíveis, que estão, pela sua natureza, em expansão? Mas retornemos ao tema principal, se não nos distraímos e isto constituiria aquela deriva discursiva do nosso caminho contra a qual nos alerta Diderot em seu Jaques.

Hoje, muitos acreditam que, frequentemente, se trata (parafraseando um belo livro de alguns anos sobre crianças que sofrem de disgrafia, Nadar até a linha) de poder nadar até à análise. Obviamente, com a condição de que paciente e analista sintam motivação para esta viagem. Assim, é possível chegar aos poucos até o setting mais consensualmente analítico. Comumente, a partir das dificuldades nascem novas aberturas: a modalidade de encaminhar progressivamente o paciente em direção à análise, às vezes começando por um certo período com uma sessão, depois passando para duas, depois talvez ao divã, e depois para as três/quatro sessões regulares, nasceu, frequentemente, por causa da dificuldade que se encontra, em muitos países, de se ter pacientes dispostos, desde o início, ao divã e às três/quatro sessões para os candidatos. Portanto, tornou-se praxe iniciar como é possível, e acompanhar o paciente em direção a à pensabilidade da análise, em direção à possibilidade de estruturar um setting mais “comprometedor” do ponto de vista emocional, como o psicanalítico clássico. É incrível constatar quantas vezes é possível acompanhar o paciente, com paciência e disponibilidade, em direção a algo que antes teria sido para ele excessivo e por demais persecutório. Uma outra motivação de necessidade tem sido, no polo oposto, a de que um paciente tenha urgente necessidade, e não há “lugar” de imediato por parte do analista: começar com o que é possível, e depois incrementar, revelou-se uma escolha humana e construtiva. Inútil dizer que muitas destas flexibilidades derivam das experiências com crianças e adolescentes, em que, frequentemente, nos vemos obrigados a “fazer da necessidade uma virtude”.* é comovente o momento da passagem ao divã que, mesmo entre mil ansiedades, é vivido pelo paciente como uma “promoção” no campo, da qual tem também temor, mas da qual está orgulhoso: parte-se do West Point do vis-à-vis** para as pradarias dos índios ou para os pântanos do Vietnam. Uso estas metáforas de guerra porque, com certa frequência, se passa de emoções herbívoras a emoções carnívoras que implicam sofrimento e dor, ainda que eu creia que o analista, na maior parte das vezes, possa ser capaz de modular a entrada em cena de aspectos cindidos, ou nunca pensados, à medida que capta o desenvolvimento da capacidade de contensão por parte do paciente. creio que nestas fases de transição tudo o que acontece não deve ser considerado como fase preparatória para a análise, mas como a análise que é possível naquele momento, aguardando poder transitar até o clássico setting. Penso que o omnia munda mundis de frei Cristovão seja a melhor receita em relação à rigidez superegóica, pessoal ou institucional, que alguns analistas podem ter que enfrentar.

A aproximação progressiva, o respeito pela distância, o passar o método são todos instrumentos que irão possibilitar o desenvolvimento de ♀ e da própria função a. Tolerância, paciência, confiança no método são as capacidades negativas que permitem aliviar a persecutoriedade, até mesmo promover aquela mudança de orbital, que é o aumento de sessões ou a passagem para o divã que, de um outro ponto de vista, são os motores necessários para dar início à decolagem em direção a mundos desconhecidos, e para descongelar experiências que aguardam a possibilidade de serem pensadas (p. 125-127).  

N. de T. Região de origem de Ferro.
*N. de T. Expressão italiana que significa “aceitar com um sorriso algo que somos obrigados a aceitar”.
N. de T. Vis-à-vis = face a face.   

FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário