quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O conceito de campo não corre o risco de ser autorreferente?, Antonino Ferro


 
O conceito de campo não corre o risco de ser autorreferente?

Do meu ponto de vista, certamente não. Porque o campo está em constante expansão, tem infinitos cenários, infinitos roteiros, infinitos personagens. Porque um campo que funciona torna-se um campo vivo do qual não há percepção; acontece como um belo filme: esquecemos a percepção de nós mesmos e estamos com Ben Hur, com Star Trek, com Pretty Woman, sem nenhuma consciência de que estamos fazendo análise. Exceto, talvez, naqueles momentos em que o analista, por um motivo ou por outro, sai da história para dar interpretações do que acontece. Isto, às vezes, pode ser necessário. Corresponde a quando, no cinema, as luzes se acendem e entra em funcionamento um outro nível de consciência, mas na expectativa de que a viagem recomece.*

O campo é o espaço-tempo de todas as vicissitudes possíveis, de todos os mundos possíveis, que serão diferentes para cada dupla analítica ao trabalho (Ferro, 1911a, 1994c, 1994d). O campo permite uma constante ativação das funções oníricas da mente, que permite contínuas expansões do método para mentalizá-las. O campo permite que haja, além das interpretações de transferência e aquelas “na” transferência, também interpretações do campo, e aquelas “no” campo, e também estas não são nunca extratransferenciais ou extrarrelacionais (portanto, considero o campo como expressão de uma relacionalidade insaturada em perene expansão) (p. 47 e 48).

*N. de T. Na Itália, a sessão de cinema tem um intervalo que marca o “fim do primeiro tempo” e depois o “início do segundo tempo”.


   FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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