segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O detector de bobagens e o Quixote de Menard, Thomas Ogden


O detector de bobagens e o Quixote de Menard


Cada escritor tem seus próprios hábitos de escrita. Os meus incluem escrever um primeiro esboço à caneta e papel; nunca fui capaz de compro durante a digitação. Para mim, existe uma consequência inesperada, porém altamente valiosa de escrever a mão: eu não tenho escolha (dadas as minhas habilidades de digitação) senão ditar o manuscrito quando as minhas anotações estão tão apinhadas de palavras e frases cortadas e inseridas que mal consigo ler o que escrevi. Este método – escrever a mão e ditar – me obriga a ler em voz alta o que escrevi. Em minha experiência não existe melhor detector de bobagem. Ler o que se escreveu em voz alta expõe uma linguagem que é pretensiosa ou convencida; repetitiva ou verbosa; muito presunçosa ou desoladoramente pesada; prejudicada por jargão e clichês; imitativa de outrem ou uma versão reciclada de nossos próprios escritos anteriores; soporífica por conta de uma estrutura frasal repetitiva ou desagradável como consequência de exibir como somos “letrados”.

Talvez, mais importante, ler em voz alta o que eu escrevi o que eu escrevi fornece-me uma resposta à pergunta: estou oferecendo uma perspectiva original sobre um tema psicanalítico importante? Acredito que não há nada de novo sob o sol, mas que é sempre possível ver algo de uma maneira nova e original (Ogden, 2003b). Nenhum escritor, a meu ver, precisa se preocupar com o fato de que o que ele tem a dizer já foi dito. Evidentemente, já foi dito inúmeras vezes, mas nunca foi dito da perspectiva que cada um de nós pode dar-lhe se ousarmos tentar.

Quando um escritor analítico para quem estou trabalhando como consultor protesta porque descobriu que muitos outros já esgotaram o tópico que ele pretende explorar, lembro-me da história de Borges (141b) “Pierre Menard, autor de Quixote”. O fictício romancista do final do século XIX, Pierre Menard, de Borges, propôs-se a escrever o Quixote – não uma transcrição memorizada ou uma versão moderna dele, ou capítulos adicionais para ele, mas o Quixote propriamente dito. Ele conseguiu escrever dois capítulos do livro dos quais Borges cita algumas linhas e as justapões às linhas correspondentes do Quixote de Cervantes. O leitor vê com seus próprios olhos que os dois conjuntos de linhas são idênticos, palavra por palavra, vírgula por vírgula. E, ainda assim, Borges acha o Quixote de Menard muito superior ao de Cervantes: o texto de Menard, escrito por um oitocentista, é admiravelmente livre da “cor local”, isto é, livre da decoração composta de representações detalhadas da vida espanhola do século XVI. Cervantes nada fez de especial ao omitir tais enfeites descritivos, pois seu público do século XVI evidentemente estava familiarizado com as circunstâncias de suas vidas e costumes. Para Menard, um escritor oitocentista, omiti-los é genial.

Para um escritor psicanalítico da segunda metade do século XX, é genial (re)descobrir mais uma vez a transferência (na situação total [Joseph, 1985]); chegar de novo ao conceito de ego do corpo (na noção de unidade da psique-soma na saúde [Winnicott, 1949]); deparar-se, como se pela primeira vez, com o conceito de trabalho do sonho (concebido como um processo no qual a experiência vivida consciente torna-se disponível ao inconsciente para trabalho psicológico [Bion, 1962a]), e assim por diante (p. 152-153).


OGDEN, Thomas H. Esta arte da psicanálise: sonhando sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed, 2010.    

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