domingo, 22 de setembro de 2013

A Invenção da Psicanálise

A Invenção da Psicanálise é um documentário francês de 1997. Mostra, detalhadamente, a trajetória da psicanálise, desde seu nascimento até as direções tomadas no período após a morte de Freud, associando-a aos fatos históricos de cada época. Todo o filme é comentado por Elisabeth Roudinesco e Peter Gay, biógrafo de Freud.O documentário mostra muito material fotográfico e vídeos raros como o de Jung descrevendo seu primeiro encontro com Freud e relato de Ernest Jones, como também as últimas imagens de Freud em seu apartamento em Viena, pouco antes do exílio em Londres, feitas por Marie-Bonaparte, neta de Napoleão Bonaparte. Traz ainda a única gravação em áudio da voz de Freud em entrevista à BBC de Londres em 07 de dezembro de 1938.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Transferência erótica, Antonino Ferro

 
Transferência erótica
 
O segundo exemplo, ainda mais arbitrário (obviamente, não utilizo uma chave psicanalítica para dar sentido ao texto, aliás, faço exatamente o contrário, uso o texto como uma forma narrativa eficaz para relatar um conceito psicanalítico), é extraído do livro Anjo Azul de Heinrich Mann. Coloco o professor Rath no lugar de um suposto analista e Rosa Froelich no lugar de uma hipotética paciente. A história é conhecida, mas vale a pena retomar alguns fios.
O professor Rath (chamado de forma irônica pelos alunos de Unrat que quer dizer “lixo”), quando começa a história, tem 57 anos e há tempos desenvolve, sem nenhuma paixão, de forma repetitiva e cansada, o mesmo programa para a 5ª série: A donzela de Orléans de Schiller. “Não havia mais nenhuma melodia na lira desafinada que todos os dias recomeçava a tocar [...]. Ninguém ouvia a voz delicada e inconfundível da jovem, cujo som fazia levantar espadas espectrais e severas, cai a couraça de proteção do coração e asas de anjo se distendem claras, [...] capitã menina que, abandonada pelo céu, se transforma em uma pobre pequena menina desesperadamente apaixonada”. A leitura do texto servia somente para “embromar os estudantes, estudantes que ele despreza e que o desprezam”. O analista está, possivelmente, na crise da meia idade e perdeu qualquer relação com as raízes afetivas de seu trabalho, com a poesia do encontro com o outro e com os aspectos ternos de si mesmo. O seu trabalho tornou-se pura rotina interpretativa orientada narcisisticamente. O professor Unrat, seguindo alguns estudantes dos quais quer se vingar, entra na esfera de atração de uma atriz que é justamente Rosa (no filme de Von Sternberg a inesquecível Lola Lola). É conduzido até ela guiado pela voz de dois marinheiros: “Ei, Klaas, para onde vamos?”, “Encher a cara” responde o outro. “Os dois caminham em direção a um grande edifício [...]. Uma lanterna balançava sobre a figura de um Anjo Azul”. Após ter entrado, “Unrat teve a impressão de que aquela figura feminina fosse como um grito”.
O analista não tolera a própria dor, a sua depressão, está à procura de alguém que a carregue por ele o sofrimento do qual não sabe que está invadido, depois reconhece na paciente, desde o início, um aspecto simétrico ao seu: o grito de desespero. “Unrat conseguiu captar algumas palavras que a mulher, toda colorida, pronunciava enquanto levantava sua saia [...]. Ficou tomado pelo mau humor [...]. tinha a impressão de estar em um mundo que era a negação da sua pessoa”. Ouve cantar: “Eu sou pequena e inocente”. Ele tem a impressão de reencontrar a parte de si terna e perdida, a donzela de Orléans, em Rosa, Rosa que, por sua vez, perdeu qualquer contato com seus aspectos afetivos e, aliás, faz deles uma paródia. Recebido no camarim de Rosa, Unrat bebe rapidamente, mas não somente o vinho, bebe, com os olhos, a juventude de Rosa, está perturbado pelos seus instrumentos de sedução. “Ao primeiro olhar excitado de Unrat ficou visível que nas longas longuíssimas meias pretas dela havia um bordado violeta [...]. O seu vestido de seda azul que transparecia entre as malhas de uma rede preta”. Rosa é toda colorida, mas “o arranjo parecia murcho, o laço azul estava meio caído, as flores de pano em torno da saia tinham a cabeça caída, sem vida”.
O nosso analista é atraído na rede do luto não visível, toma em análise uma jovem paciente na qual reencontra algo dos aspectos necessitados e infantis de si mesmo, ainda que mortificados. Mas a paciente está francamente deprimida, erotiza e manicaliza a dor, o grito.
Começa a obra de sedução por parte de Rosa. “Tocou sob o queixo de Unrat [...] onde estavam as manchas sem pelos entre a barba [...] e fez com os lábios o movimento de chupar [...]. ‘Mandaria embora todos aqueles valentões [os admiradores] em troca de um homem honesto de idade madura’”. Rosa captura na sua rede de depressão erotizada o nosso professor, tocando seus pontos indefesos. A partir deste momento, Unrat/analista está capturado no vórtice da embriaguês, da excitação, da anestesia, onde havia dor, onde havia sofrimento, agora há uma arrebatadora excitação que, apesar de tudo, parece conter um sabor de vida. “Pronto, segura”, lhe diz Rosa. Unrat pega a coisa sem saber o que é. Era preta e dava para apertá-la até que ficasse pequena, pequena e, ao tocá-la, era curiosamente quente, quente como um animal. Em um certo momento, escapou da sua mão... Eram as calcinhas pretas”.
Há, num certo ponto, uma tentativa de tomada de contato com a dor: “E se você apura o ouvido no argênteo do lago, eis o seu amor, você o ouve gemer [...] riem as estrelas e eu choro de amor”. Assim Rosa tenta cantar, mas o público não quer esta canção. “Fazem barulho. ‘Chega, não aguentamos mais, gritam as pessoas”. Só resta Rosa mudar de música e “de repente saltou toda lépida, recolheu o vestido de seda verde, agitou a saia cor de laranja e começou a cantar: ‘Porque eu sou tão pequena e inocente’”.
A tentativa de análise fracassa, não é tolerada pelas forças do campo. Só resta o caminho da negação da dor. O professor Unrat promete a Rosa: “Tentarei salvá-la”. O nosso analista foi parar na areia movediça: gostaria de salvar a paciente e a si mesmo, mas só pode afundar junto com ela cada vez mais. A partir deste momento, temos todos os elementos para caminhar em direção à tragédia, cujas etapas serão as núpcias de Unrat com Rosa, o sucessivo e progressivo tornar-se da cada deles, uma casa de jogo, na qual prazeres orgiásticos exorcizam uma dor inexprimível que, em vão, pede para ser vivida (p. 154-156).
 
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O conceito de “campo”, Antonino Ferro


O conceito de “campo”

Neste ponto, torna-se necessária uma aparente digressão que, na realidade, quer fornecer um mapa para se orientar claramente em relação ao meu modelo de referência, que considero de uma recíproca fertilização do conceito de campo, de algumas conceitualizações de Bion e de algumas contribuições extraídas da narratrologia.

O conceito de campo, a partir da sua formulação inicial de Willy e Madeleine Baranger (1961-1962), tornou-se cada vez mais complexo (Baranger, 1992; Corrao, 1981; Ferro, 2005d, 2006a, 2006f). Desde uma situação que implica o que nasce a partir do encontro de analista e paciente em termos de resistências cruzadas e, portanto, da constituição de baluartes, e depois da sua dissolução através da interpretação que nasce da capacidade de “segundo olhar” do analista, tornou-se cada vez mais o lugar da multipotencialidade do analista e paciente e de todos os mundos possíveis que podem se abrir a partir de seu encontro. É, da forma como eu o penso, não somente um campo espacial, mas também temporal, que é habitado pelo presente, pela história e que abre continuamente para o futuro. É um campo em perene transformação, que implica uma impossibilidade de que algo permaneça fora dele, uma vez que haja aquele Big Bang que ganha vida a partir dos mundos possíveis gerados pelo encontro de paciente e analista no interior do setting. São lugares do campo a relação atual entre analista e paciente, mas também suas histórias, a transferência, as defesas, as turbulências emocionais, suas alfabetizações ou desafalbetizações. O campo tem uma respiração própria, a inspiração assinala a chegada dentro dele (ou o descongelamento dentro dele) de grumos de impensabilidade, a expiração assinala o colapso que se segue a cada interpretação saturada, que o torna puntiforme para prepará-lo a uma futura expansão. Naturalmente, este é um movimento incessante.

Outra característica do campo, já descrita anteriormente, é que, mais cedo ou mais tarde, deve pelo menos se contagiar, ou até mesmo adoecer, da doença do paciente para se tornar o lugar da cura e, portanto, das transformações. Então, o campo tem uma natureza oscilatória entre uma constante abertura de significado (capacidade negativa, Bion, 1962) de um lado e, do outro, um inevitável fechamento de significado e renúncia a todas as histórias possíveis, em forma, a análise oscila entre O jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges, com as contínuas aberturas de significado e os mundos possíveis que se abrem constantemente, e Jacques, o fatalista de Diderot (1796), no qual o autor conta ao leitor que, para poder caminhar juntos e levar a bom termo a viagem, é necessário renunciar a todas as histórias possíveis que poderiam ser narradas em favor da história principal que urge para ser narrada (Ferro, 1999d). Às vezes, a História não é uma história recalcada, cindida ou impensável de ser reconstruída, mas é a história da falta de uma parte do aparato para pensar, e o trabalho consiste em consertar aqueles teares que não funcionam e que, portanto, não são capazes de tecer, isto é, nestes casos, é uma função que deve ser consertada ou, às vezes, criada pela primeira vez. Vamos de uma análise/autoescola de um carro que funciona bem até uma análise que, antes da autoescola e do instrutor, necessita de um mecânico que conserte o próprio carro e, às vezes, de uma oficina que forneça ou construa as peças que faltam, até mesmo peças básicas. O percurso de análise torna-se uma função das modalidades de funcionamento “daquela” dupla analítica ao trabalho, e perde significado a ideia de um processo com etapas pré-estabelecidas. Cada dupla terá uma forma própria de proceder no trabalho analítico, e também os acontecimentos de uma análise, as reações terapêuticas negativas, pertencem àquela dupla. Naturalmente, existe um limite para a deriva subjetivista, que se ancora na ética do analista, na análise pessoal e no preparo do analista, e sobre a responsabilidade dele em relação ao fato de que os acontecimentos narrados sejam aqueles que urgem para serem alfabetizados por parte da dupla analítica e não outros (como a confirmação das teorias do analista ou a evitação da possível dor mental). Em relação a isso, alguns conceitos derivados da narratologia como o de “limites da interpretação”, “limites em relação a aberturas de mundos possíveis”, podem ajudar muito (Ferro, 1996a; Eco, 1962, 1990; Petofi, 1975; Van Dijk, 1976; Pavell, 1976; Platinga, 1974; Ryan, 2001).

·         O campo torna-se o espaço-tempo no qual se originam as turbulências emocionais que o encontro analítico desperta;

·         O campo é uma função em relação aos dois membros da dupla, com um altíssimo grau de insaturação;

·         O campo torna-se o lugar-tempo de geração de histórias, de narrações que são a alfabetização das protoemoções presentes na dupla;

·         O campo é a matriz que, a partir das capacidades de rêverie e da disponibilidade para o uníssono nele presentes, irá gerar o desenvolvimento da função a e do continente (Ferro, 2006c).

As transformações do campo se dão por meio de uma contínua obra de conarração entre analista e paciente, que se tornam “dois autores em busca de personagens” (Ferro, 1992d) que alfabetizam as protoemoções e permitem suas contínuas evoluções. No campo, a áurea semântica do conceito de interpretação se amplia e compreende também todas as intervenções insaturadas, aparentemente coloquiais, do analista. No campo, é central a rêverie do analista, considerada como capacidade deste de entrar em contato com o seu pensamento onírico da vigília (e com as subunidades do mesmo), e de narrá-lo em palavras, ativando as transformações do campo; mas são centrais também os derivados narrativos do pensamento onírico de vigília do paciente, e dos elementos a que os compõem. A narração do paciente, de um certo ponto de vista, pode ser entendida como uma contínua renarração de como ele “fotograma” os elementos, os acontecimentos, as linhas de força do campo. Deste ponto de vista, não há fala do paciente que não se refira ao campo.

A que era a atenção em relação à comunicação do paciente, e a atenção em relação à contratransferência, desloca-se e se torna atenção às figuras que ganham vida no campo, que constituem um sinalizador contínuo da vida do campo. Isto permite desconstruir continuamente, de forma subliminar, o “novelo” enrolado da transferência em subunidades narrativas que podem ser transformadas singularmente e continuamente ligadas de novo.

À complexidade atual do campo, horizontal, que vive no aqui e agora, é fundamental acrescentar uma outra complexidade de um campo vertical, que compreende também o multigeracional: o tempo entra na sala de análise. Penetramos, assim, em uma geometria não só do “mundo interno” e da “relação”, mas em uma geometria das Histórias e de suas transmissões: não estão mais, ativos e presentes, analista e paciente com suas “fotos” bidimensionais de pais, tios, avós que serão interpretados e revelados na interpretação de transferência, mas presenças, personagens tridimensionais, de diferentes temporalidades, que pedem ou que, de qualquer forma, necessitam poder entrar em cena por si próprios; neste ponto, qualquer interpretação que seja “no campo” é de transferência. O analista, a meu ver, nesta dimensão, deve deixar-se transitar por estes “liofilizados” transgeracionais (Faimberg, 1988), que aguardam somente a linfa do acolhimento do campo para ganharem “espessura” e história. Estamos, assim, diante de uma complexidade para qual não estamos sempre aparelhados.

A respeito deste percurso, outras tantas reflexões mereceriam um espaço, por exemplo, de como a função narrativa do campo pode “conjugar” as cotas de não pensabilidade:

·         O transgeracional do analista que entra na sala, como cota que se refere à pessoa e como cota que se refere à transmissão da função analítica, incluídas as manchas cegas que pode ter (e que, por sorte, o campo, se for ouvido, pode sinalizar!);

·         O percorrer novamente a História, também a nossa história enquanto analistas não como um rito, mas como o meio de encontrar heranças transgeracionais;

·         Abrem-se reflexões extremamente amplas sobre o conceito de identificação projetiva, de turbulência emocional; como em um filme, poderíamos pensar no início do Jurassic Park com fragmentos de DNA que permaneceram incluídos, e como o desenvolvimento da mente não pode prescindir de certas reatualizações do que havia sido cindido.

A “dupla multipersonalidade” (Baranger, 1963) do analista e do paciente, se antes nos abria para miríades de universos possíveis no eixo do espaço. Agora não pode deixar de nos abrir para ramificações no tempo, dizendo-o, juntamente com Borges, “para uma rede crescente de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam, se ignoram” – o mundo das UCRONIAS, isto é, das utopias da história – abrindo-nos essas possibilidades que, para a história da civilização, são simples exercitações (“Se Custer tivesse ganho em Little Big Horn...), mas que na história pessoal, graças ao après-coup, podem se tornar pensamento de novas realidades do futuro e, por que não?, também do passado: a possível reescrita de uma história nunca acontecida me parece a abertura e o mais rico presente que a análise pode oferecer (p. 66-69).
                        
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Transferir as emoções, Antonino Ferro


Transferir as emoções
 
Uma forma de trabalhar pode ser a de se perguntar, depois que uma paciente falou, de que objeto interno projetado no analista ele está falando. Muito claro é um exemplo apresentado em um congresso no qual um supervisor relatava a sequência clínica de uma sua supervisionanda para a qual a paciente havia dito: “Vaca!”. O supervisor diz ter perguntado à supervisionanda de que objeto ela pensava que a paciente estivesse falando. “Da mãe”, responde a supervisionanda. Então fica claro que, falando ao “objeto-mãe”, projetado na analista, visto que a vaca produz leite, a paciente exprimia a sua inveja e o seu ódio em relação a uma mãe que nutre. Diferente seria a minha maneira de ver: pediria para examinar a sessão anterior para compreender porque a paciente está tão brava com sua analista, o que aconteceu ali para dar sentido a esta raiva – sem respostas já prontas, com base no que sabemos de vacas, leite, mães e objetos.
Faria como Isabella, na fábula de Carla Muschio (2005), que não se limitou a entrar na cantina, mas encontrou nela a porta que abre para novos e inesperados mundos. Falo de uma análise que olhe para frente, para o futuro e não para o passado, não para os conteúdos, mas para a transformação dos aparatos para pensar (pouco me importa sobre o quê). A sessão me aparece como um sonho das mentes, no qual chegam, se desviam, se imbricam histórias diferentes provenientes de lugares e tempos diversos do campo.  A experiência compartilhada é a de deixar circular estados emocionais, afetos e pensamentos com o analista (ele também um lugar do campo) na dupla polaridade descrita por Riolo (1983), que garante e salvaguarda o setting, e promove uma atividade de tipo onírico da dupla. A sessão torna-se um sonho compartilhado, conarrado, coatuado, no qual ganham vida histórias, transformações, insight, especialmente aptidões – quero dizer aptidões para sonhar, para transformar em rêverie, em emoções, em imagem o que pressionava como sensorialidade-abscesso, ao qual não havia acesso. Cada sessão é uma pérola, um grão daquele colar-rosário que, através de todos os mistérios, leva não aos conteúdos, mas à capacidade de fazer a viagem, para frente e para trás, que é o Star Treck da nossa vida. Portanto, a análise leva ao desenvolvimento da mente, da capacidade de sonhar, de sentir, de pensar. Depois, há a plena liberdade dos conteúdos: se um paciente faz toda a sua análise com um cenário infantil ou através dos filmes de faroeste ou de ficção científica ou “do seu lugar de trabalho”, para mim não faz diferença. O motor da história é a necessidade de que aquilo que não pode ser dito e a incapacidade de dizer encontrem um espaço-tempo que leve à capacidade de pensar e de dizer. A transferência, neste sentido, é também o transferir das capacidades do analista para o campo e do campo para o paciente, que, por sua vez, traz o combustível e seus instrumentos para o processo.
Um aspecto que gostaria de sublinhar é o quanto não é fácil fica em PS sem persecutoriedade, isto é, alcançar as próprias capacidades negativas antes de interpretar (ferro, 2005g, 2005h). Ajudam a tolerar esta situação de espera continente o ligar-se ao conteúdo manifesto, fazer dentro de nós ensaios de interpretações de transferência silenciosas, ou ligar-se na contratransferência e na confiança no método (p. 20-21).             
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

A forma de conceber os personagens, Antonino Ferro


A forma de conceber os personagens


A forma de conceber os personagens é a terceira digressão, seja em narratologia, seja, especialmente, na sala de análise (Ferro, 1992a, 1992b, 1999a, 1999b; Arrigoni, Barbieri, 1998). Pensemos no romance Os noivos*: Renzo e Lucia querem se casar, Don Rodrigo quer impedi-los a todo custo. Em uma conceitualização realística-psicologista iremos indagar sobre as características psicológicas destes personagens, sobre suas vidas mentais e emocionais. Em um ótica estruturalista – digamos, a partir de Propp – será significativa a função que os personagens têm dentro da história: Don Rodrigo é o motor da história, justamente ao tentar impedir e adiar o happy end do casamento entre Renzo e Lucia. Em um modelo ulterior de cooperação extrema leitor/texto, cada leitor construirá e dará sentido, de forma diferente, aos vários personagens.

Em uma sessão de análise (Paniagua, 2002), um paciente que está prestes a terminá-la, no retorno das férias de verão, fala excitado sobre a filha, em relação à qual existe a dúvida de que tenha uma puberdade precoce, e que deva fazer uma operação cirúrgica, provavelmente indispensável. É claro que será diferente considerar estes personagens, “filha com puberdade precoce” e “operação”, dependendo do modelo do analista, com modalidades muito diferentes entre si:

a)      Estamos efetivamente falando do problema da filha e de um conjunto de emoções que nasce no paciente que tem uma patologia hipocondríaca.

b)      O tema da “puberdade precoce” intervém como freio em relação ao projeto de terminar a análise; é a operação de terminar a análise que é difícil.

Dúvidas sobre a puberdade precoce e sobre a oportunidade da operação (de terminar a análise) são o que o campo deverá responder em relação ao problema do tempo para terminar a análise e as ansiedades que isso desperta. Somente aquela dupla trabalhando poderá dar uma resposta, que ainda ninguém sabe, e que será encontrada na escrita das sessões sucessivas.

Isto corresponde, em grandes linhas e radicalizando, aos três grandes modelos que podem existir em psicanálise, ainda que nunca no estado puro: o primeiro histórico-reconstrutivista, o segundo relacional, o terceiro que tenta compor as duas visões extremas, dando reconhecimento a um “aqui e agora” em constante oscilação transformadora com “lá e então”, e que abre para um “não sabido” em relação ao qual é importante especialmente desenvolver os instrumentos para saber. Façamos o exemplo de uma paciente que nas primeiríssimas sessões de análise – voltamos assim ao tema da sexualidade – após algumas intervenções interpretativas do analista, diga: “Quando eu era menina, fui confiante encontrar a minha amiguinha, e jamais teria pensado que o avô dela poderia me tocar por baixo da saia de forma tão perturbadora. Lembro que me afastei com a intenção de não voltar nunca mais”. No primeiro modelo, a análise ganharia vida justamente da narração que é feita, através de um dissolver progressivo do recalcamento de experiências infantis, reais, acontecidas, que, à medida que são “lembradas” ou repetidas na transferência, são elaboradas e desintoxicadas. O que antes era inconsciente, e fator de inibição e vivências de culpa, ao se tornar consciente, se dissolve como a neve ao sol. O analista será esse Poirot-Homero que irá cantar – explorando-a – a Odisseia do paciente até chegar à Ítaca do conhecimento de si. No segundo modelo, a mesma narração seria compreendida e interpretada como uma vivência que tem muito a ver com a atualidade da situação relacional: a paciente está dizendo que se sentiu, inesperadamente, tocada pelas interpretações do analista em profundidade, de maneira excessivamente íntima e pouco respeitosa pelas suas emoções, e de ter desejado não continuar a experiência analítica, que a expõe a vivências muito perturbadoras. Na terceira modalidade (a que eu definiria de “campo insaturado em perene expansão”), há uma escuta da comunicação manifesta relativa à infância e um sentir fundamental deste nível da narração, mas também uma escuta de um segundo nível relacional atual, sem necessidade de interpretá-lo, considerando-o, porém, como uma sinalização proveniente do campo de um excesso de proximidade e de profundidade da atividade interpretativa; portanto, esta última deverá ser modulada, a porta será aberta também para a vivência, em uma situação particular como a que é permitida pelo setting analítico da paciente que sente seu mundo afetivo invadido pelos seus aspectos mais tumultuados e passionais. O analista, tendo em mente todos estes três cenários possíveis, através de suas intervenções “insaturadas”, abrirá para ulteriores operações narrativas que pertencerão à infância, ao aqui e agora, ao dentro do paciente, em uma oscilação contínua dos vértices de escuta; um “romance” novo e imprevisível surgirá do acasalamento na sessão dos dois conarradores, que deverão constantemente lidar com o que, a partir do recalcado, do cindido, do impensável, entrará na atualidade da relação analítica e com o que, a partir desta, e nesta, “transformado” segundo o interagir das mentes, voltará a habitar o mundo interno e a História, sem que nunca exista a palavra fim para esta tessitura narrativa e transformadora: mas, de qualquer forma, será mais importante aprender a ler novas línguas e novos alfabetos no que se refere ao conhecimento de qualquer história.

Naturalmente, o personagem “avô”, do qual falava antes, poderia ser visto ao longo de todas estas três modalidades no interior de uma sessão de análise. Na primeira maneira de pensar (seja no personagem, seja nas comunicações de um paciente), o “avô” terá um alto grau de referência histórica, terá tido uma psicologia própria, impulsos próprios impossíveis de serem contidos e que precisam ser satisfeitos, e assim por diante. No segundo modelo, ele permite a dialética entre desejo de calma e desejo de conhecimento, entre confiança na análise e aspectos inquietantes da mesma, e poderia ser interpretado como o que perturba e assusta da análise para permitir que ela prossiga. No terceiro modelo, o avô é tudo isso e ainda algo mais: fornece sinais sobre o grau de tensões toleráveis no campo (para que o livro não seja fechado) e, depois, será tantas outras coisas, dependendo de como o texto irá se chamar, Lolita, Madame Bovary ou Os noivos, dependendo do que urge para ser narrado, e dependendo de como o que urge é recolhido e transformado – e, especialmente, abrirá para o prazer da leitura.

As teorizações relativas aos personagens podem ser aplicadas também ao analista e ao paciente na sessão. Em uma teoria “psicologista”, teremos duas pessoas, analista e paciente, cada um com suas características pessoais, com suas subjetividades (Renik, 1998). Em uma teoria estruturalista, o que importa é o papel exercido por um e por outor e o jogo complexo de suas ações (paciente que projeta sãs identificações projetivas, analista que tem suas rêveries) e são esses papéis que contam e permitem o desenvolvimento da análise, que tem uma espécie de estrutura-processo como o descrito de forma admirável por Meltzer (1967). Em uma teoria da interação total, analista e paciente são lugares e funções do campo: uma função analisante, uma função receptiva, uma função doadora de significado, uma função de interpretação, uma função de espera que pertencem ao campo, que a partir dele ganham vida, e que se situam em lugares diversos do próprio campo, que se torna uma espécie de contexto autointerpretante, autoexpansável. Nele, zona de assimetria está somente na maior responsabilidade do analista.

Isto posto, podemos distinguir: uma transferência na posição 2 (a do modelo de identificação projetiva-rêverie, com dois polos fortes da relação: Analista e Paciente), uma transferência na posição 3 (na qual a transferência, codeterminada, indistinguível da copresença e cogeração). É supérfluo sublinhar que não existem situações puras, e eu realizo a operação impossível, ficando no modelo 3, de descrever o polo que projeta mais frequentemente (o paciente) e polo receptivo (o analista), e este é um expediente para ver as funções realizadas por um e por outro; estamos ainda em uma espécie de geometria sólida euclidiana, antes de propor o salto de considerar paciente, analista, transferência e contratransferência como lugares-funções do campo analítico. A mesma sessão pode ser vista a partir de cada um desses vértices, pelo menos de forma prevalente (p. 73-76).


*N. de T. I promessi sposi, de Alessandro Manzoni.


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.