quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A forma de conceber os personagens, Antonino Ferro


A forma de conceber os personagens


A forma de conceber os personagens é a terceira digressão, seja em narratologia, seja, especialmente, na sala de análise (Ferro, 1992a, 1992b, 1999a, 1999b; Arrigoni, Barbieri, 1998). Pensemos no romance Os noivos*: Renzo e Lucia querem se casar, Don Rodrigo quer impedi-los a todo custo. Em uma conceitualização realística-psicologista iremos indagar sobre as características psicológicas destes personagens, sobre suas vidas mentais e emocionais. Em um ótica estruturalista – digamos, a partir de Propp – será significativa a função que os personagens têm dentro da história: Don Rodrigo é o motor da história, justamente ao tentar impedir e adiar o happy end do casamento entre Renzo e Lucia. Em um modelo ulterior de cooperação extrema leitor/texto, cada leitor construirá e dará sentido, de forma diferente, aos vários personagens.

Em uma sessão de análise (Paniagua, 2002), um paciente que está prestes a terminá-la, no retorno das férias de verão, fala excitado sobre a filha, em relação à qual existe a dúvida de que tenha uma puberdade precoce, e que deva fazer uma operação cirúrgica, provavelmente indispensável. É claro que será diferente considerar estes personagens, “filha com puberdade precoce” e “operação”, dependendo do modelo do analista, com modalidades muito diferentes entre si:

a)      Estamos efetivamente falando do problema da filha e de um conjunto de emoções que nasce no paciente que tem uma patologia hipocondríaca.

b)      O tema da “puberdade precoce” intervém como freio em relação ao projeto de terminar a análise; é a operação de terminar a análise que é difícil.

Dúvidas sobre a puberdade precoce e sobre a oportunidade da operação (de terminar a análise) são o que o campo deverá responder em relação ao problema do tempo para terminar a análise e as ansiedades que isso desperta. Somente aquela dupla trabalhando poderá dar uma resposta, que ainda ninguém sabe, e que será encontrada na escrita das sessões sucessivas.

Isto corresponde, em grandes linhas e radicalizando, aos três grandes modelos que podem existir em psicanálise, ainda que nunca no estado puro: o primeiro histórico-reconstrutivista, o segundo relacional, o terceiro que tenta compor as duas visões extremas, dando reconhecimento a um “aqui e agora” em constante oscilação transformadora com “lá e então”, e que abre para um “não sabido” em relação ao qual é importante especialmente desenvolver os instrumentos para saber. Façamos o exemplo de uma paciente que nas primeiríssimas sessões de análise – voltamos assim ao tema da sexualidade – após algumas intervenções interpretativas do analista, diga: “Quando eu era menina, fui confiante encontrar a minha amiguinha, e jamais teria pensado que o avô dela poderia me tocar por baixo da saia de forma tão perturbadora. Lembro que me afastei com a intenção de não voltar nunca mais”. No primeiro modelo, a análise ganharia vida justamente da narração que é feita, através de um dissolver progressivo do recalcamento de experiências infantis, reais, acontecidas, que, à medida que são “lembradas” ou repetidas na transferência, são elaboradas e desintoxicadas. O que antes era inconsciente, e fator de inibição e vivências de culpa, ao se tornar consciente, se dissolve como a neve ao sol. O analista será esse Poirot-Homero que irá cantar – explorando-a – a Odisseia do paciente até chegar à Ítaca do conhecimento de si. No segundo modelo, a mesma narração seria compreendida e interpretada como uma vivência que tem muito a ver com a atualidade da situação relacional: a paciente está dizendo que se sentiu, inesperadamente, tocada pelas interpretações do analista em profundidade, de maneira excessivamente íntima e pouco respeitosa pelas suas emoções, e de ter desejado não continuar a experiência analítica, que a expõe a vivências muito perturbadoras. Na terceira modalidade (a que eu definiria de “campo insaturado em perene expansão”), há uma escuta da comunicação manifesta relativa à infância e um sentir fundamental deste nível da narração, mas também uma escuta de um segundo nível relacional atual, sem necessidade de interpretá-lo, considerando-o, porém, como uma sinalização proveniente do campo de um excesso de proximidade e de profundidade da atividade interpretativa; portanto, esta última deverá ser modulada, a porta será aberta também para a vivência, em uma situação particular como a que é permitida pelo setting analítico da paciente que sente seu mundo afetivo invadido pelos seus aspectos mais tumultuados e passionais. O analista, tendo em mente todos estes três cenários possíveis, através de suas intervenções “insaturadas”, abrirá para ulteriores operações narrativas que pertencerão à infância, ao aqui e agora, ao dentro do paciente, em uma oscilação contínua dos vértices de escuta; um “romance” novo e imprevisível surgirá do acasalamento na sessão dos dois conarradores, que deverão constantemente lidar com o que, a partir do recalcado, do cindido, do impensável, entrará na atualidade da relação analítica e com o que, a partir desta, e nesta, “transformado” segundo o interagir das mentes, voltará a habitar o mundo interno e a História, sem que nunca exista a palavra fim para esta tessitura narrativa e transformadora: mas, de qualquer forma, será mais importante aprender a ler novas línguas e novos alfabetos no que se refere ao conhecimento de qualquer história.

Naturalmente, o personagem “avô”, do qual falava antes, poderia ser visto ao longo de todas estas três modalidades no interior de uma sessão de análise. Na primeira maneira de pensar (seja no personagem, seja nas comunicações de um paciente), o “avô” terá um alto grau de referência histórica, terá tido uma psicologia própria, impulsos próprios impossíveis de serem contidos e que precisam ser satisfeitos, e assim por diante. No segundo modelo, ele permite a dialética entre desejo de calma e desejo de conhecimento, entre confiança na análise e aspectos inquietantes da mesma, e poderia ser interpretado como o que perturba e assusta da análise para permitir que ela prossiga. No terceiro modelo, o avô é tudo isso e ainda algo mais: fornece sinais sobre o grau de tensões toleráveis no campo (para que o livro não seja fechado) e, depois, será tantas outras coisas, dependendo de como o texto irá se chamar, Lolita, Madame Bovary ou Os noivos, dependendo do que urge para ser narrado, e dependendo de como o que urge é recolhido e transformado – e, especialmente, abrirá para o prazer da leitura.

As teorizações relativas aos personagens podem ser aplicadas também ao analista e ao paciente na sessão. Em uma teoria “psicologista”, teremos duas pessoas, analista e paciente, cada um com suas características pessoais, com suas subjetividades (Renik, 1998). Em uma teoria estruturalista, o que importa é o papel exercido por um e por outor e o jogo complexo de suas ações (paciente que projeta sãs identificações projetivas, analista que tem suas rêveries) e são esses papéis que contam e permitem o desenvolvimento da análise, que tem uma espécie de estrutura-processo como o descrito de forma admirável por Meltzer (1967). Em uma teoria da interação total, analista e paciente são lugares e funções do campo: uma função analisante, uma função receptiva, uma função doadora de significado, uma função de interpretação, uma função de espera que pertencem ao campo, que a partir dele ganham vida, e que se situam em lugares diversos do próprio campo, que se torna uma espécie de contexto autointerpretante, autoexpansável. Nele, zona de assimetria está somente na maior responsabilidade do analista.

Isto posto, podemos distinguir: uma transferência na posição 2 (a do modelo de identificação projetiva-rêverie, com dois polos fortes da relação: Analista e Paciente), uma transferência na posição 3 (na qual a transferência, codeterminada, indistinguível da copresença e cogeração). É supérfluo sublinhar que não existem situações puras, e eu realizo a operação impossível, ficando no modelo 3, de descrever o polo que projeta mais frequentemente (o paciente) e polo receptivo (o analista), e este é um expediente para ver as funções realizadas por um e por outro; estamos ainda em uma espécie de geometria sólida euclidiana, antes de propor o salto de considerar paciente, analista, transferência e contratransferência como lugares-funções do campo analítico. A mesma sessão pode ser vista a partir de cada um desses vértices, pelo menos de forma prevalente (p. 73-76).


*N. de T. I promessi sposi, de Alessandro Manzoni.


FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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