quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O conceito de “campo”, Antonino Ferro


O conceito de “campo”

Neste ponto, torna-se necessária uma aparente digressão que, na realidade, quer fornecer um mapa para se orientar claramente em relação ao meu modelo de referência, que considero de uma recíproca fertilização do conceito de campo, de algumas conceitualizações de Bion e de algumas contribuições extraídas da narratrologia.

O conceito de campo, a partir da sua formulação inicial de Willy e Madeleine Baranger (1961-1962), tornou-se cada vez mais complexo (Baranger, 1992; Corrao, 1981; Ferro, 2005d, 2006a, 2006f). Desde uma situação que implica o que nasce a partir do encontro de analista e paciente em termos de resistências cruzadas e, portanto, da constituição de baluartes, e depois da sua dissolução através da interpretação que nasce da capacidade de “segundo olhar” do analista, tornou-se cada vez mais o lugar da multipotencialidade do analista e paciente e de todos os mundos possíveis que podem se abrir a partir de seu encontro. É, da forma como eu o penso, não somente um campo espacial, mas também temporal, que é habitado pelo presente, pela história e que abre continuamente para o futuro. É um campo em perene transformação, que implica uma impossibilidade de que algo permaneça fora dele, uma vez que haja aquele Big Bang que ganha vida a partir dos mundos possíveis gerados pelo encontro de paciente e analista no interior do setting. São lugares do campo a relação atual entre analista e paciente, mas também suas histórias, a transferência, as defesas, as turbulências emocionais, suas alfabetizações ou desafalbetizações. O campo tem uma respiração própria, a inspiração assinala a chegada dentro dele (ou o descongelamento dentro dele) de grumos de impensabilidade, a expiração assinala o colapso que se segue a cada interpretação saturada, que o torna puntiforme para prepará-lo a uma futura expansão. Naturalmente, este é um movimento incessante.

Outra característica do campo, já descrita anteriormente, é que, mais cedo ou mais tarde, deve pelo menos se contagiar, ou até mesmo adoecer, da doença do paciente para se tornar o lugar da cura e, portanto, das transformações. Então, o campo tem uma natureza oscilatória entre uma constante abertura de significado (capacidade negativa, Bion, 1962) de um lado e, do outro, um inevitável fechamento de significado e renúncia a todas as histórias possíveis, em forma, a análise oscila entre O jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges, com as contínuas aberturas de significado e os mundos possíveis que se abrem constantemente, e Jacques, o fatalista de Diderot (1796), no qual o autor conta ao leitor que, para poder caminhar juntos e levar a bom termo a viagem, é necessário renunciar a todas as histórias possíveis que poderiam ser narradas em favor da história principal que urge para ser narrada (Ferro, 1999d). Às vezes, a História não é uma história recalcada, cindida ou impensável de ser reconstruída, mas é a história da falta de uma parte do aparato para pensar, e o trabalho consiste em consertar aqueles teares que não funcionam e que, portanto, não são capazes de tecer, isto é, nestes casos, é uma função que deve ser consertada ou, às vezes, criada pela primeira vez. Vamos de uma análise/autoescola de um carro que funciona bem até uma análise que, antes da autoescola e do instrutor, necessita de um mecânico que conserte o próprio carro e, às vezes, de uma oficina que forneça ou construa as peças que faltam, até mesmo peças básicas. O percurso de análise torna-se uma função das modalidades de funcionamento “daquela” dupla analítica ao trabalho, e perde significado a ideia de um processo com etapas pré-estabelecidas. Cada dupla terá uma forma própria de proceder no trabalho analítico, e também os acontecimentos de uma análise, as reações terapêuticas negativas, pertencem àquela dupla. Naturalmente, existe um limite para a deriva subjetivista, que se ancora na ética do analista, na análise pessoal e no preparo do analista, e sobre a responsabilidade dele em relação ao fato de que os acontecimentos narrados sejam aqueles que urgem para serem alfabetizados por parte da dupla analítica e não outros (como a confirmação das teorias do analista ou a evitação da possível dor mental). Em relação a isso, alguns conceitos derivados da narratologia como o de “limites da interpretação”, “limites em relação a aberturas de mundos possíveis”, podem ajudar muito (Ferro, 1996a; Eco, 1962, 1990; Petofi, 1975; Van Dijk, 1976; Pavell, 1976; Platinga, 1974; Ryan, 2001).

·         O campo torna-se o espaço-tempo no qual se originam as turbulências emocionais que o encontro analítico desperta;

·         O campo é uma função em relação aos dois membros da dupla, com um altíssimo grau de insaturação;

·         O campo torna-se o lugar-tempo de geração de histórias, de narrações que são a alfabetização das protoemoções presentes na dupla;

·         O campo é a matriz que, a partir das capacidades de rêverie e da disponibilidade para o uníssono nele presentes, irá gerar o desenvolvimento da função a e do continente (Ferro, 2006c).

As transformações do campo se dão por meio de uma contínua obra de conarração entre analista e paciente, que se tornam “dois autores em busca de personagens” (Ferro, 1992d) que alfabetizam as protoemoções e permitem suas contínuas evoluções. No campo, a áurea semântica do conceito de interpretação se amplia e compreende também todas as intervenções insaturadas, aparentemente coloquiais, do analista. No campo, é central a rêverie do analista, considerada como capacidade deste de entrar em contato com o seu pensamento onírico da vigília (e com as subunidades do mesmo), e de narrá-lo em palavras, ativando as transformações do campo; mas são centrais também os derivados narrativos do pensamento onírico de vigília do paciente, e dos elementos a que os compõem. A narração do paciente, de um certo ponto de vista, pode ser entendida como uma contínua renarração de como ele “fotograma” os elementos, os acontecimentos, as linhas de força do campo. Deste ponto de vista, não há fala do paciente que não se refira ao campo.

A que era a atenção em relação à comunicação do paciente, e a atenção em relação à contratransferência, desloca-se e se torna atenção às figuras que ganham vida no campo, que constituem um sinalizador contínuo da vida do campo. Isto permite desconstruir continuamente, de forma subliminar, o “novelo” enrolado da transferência em subunidades narrativas que podem ser transformadas singularmente e continuamente ligadas de novo.

À complexidade atual do campo, horizontal, que vive no aqui e agora, é fundamental acrescentar uma outra complexidade de um campo vertical, que compreende também o multigeracional: o tempo entra na sala de análise. Penetramos, assim, em uma geometria não só do “mundo interno” e da “relação”, mas em uma geometria das Histórias e de suas transmissões: não estão mais, ativos e presentes, analista e paciente com suas “fotos” bidimensionais de pais, tios, avós que serão interpretados e revelados na interpretação de transferência, mas presenças, personagens tridimensionais, de diferentes temporalidades, que pedem ou que, de qualquer forma, necessitam poder entrar em cena por si próprios; neste ponto, qualquer interpretação que seja “no campo” é de transferência. O analista, a meu ver, nesta dimensão, deve deixar-se transitar por estes “liofilizados” transgeracionais (Faimberg, 1988), que aguardam somente a linfa do acolhimento do campo para ganharem “espessura” e história. Estamos, assim, diante de uma complexidade para qual não estamos sempre aparelhados.

A respeito deste percurso, outras tantas reflexões mereceriam um espaço, por exemplo, de como a função narrativa do campo pode “conjugar” as cotas de não pensabilidade:

·         O transgeracional do analista que entra na sala, como cota que se refere à pessoa e como cota que se refere à transmissão da função analítica, incluídas as manchas cegas que pode ter (e que, por sorte, o campo, se for ouvido, pode sinalizar!);

·         O percorrer novamente a História, também a nossa história enquanto analistas não como um rito, mas como o meio de encontrar heranças transgeracionais;

·         Abrem-se reflexões extremamente amplas sobre o conceito de identificação projetiva, de turbulência emocional; como em um filme, poderíamos pensar no início do Jurassic Park com fragmentos de DNA que permaneceram incluídos, e como o desenvolvimento da mente não pode prescindir de certas reatualizações do que havia sido cindido.

A “dupla multipersonalidade” (Baranger, 1963) do analista e do paciente, se antes nos abria para miríades de universos possíveis no eixo do espaço. Agora não pode deixar de nos abrir para ramificações no tempo, dizendo-o, juntamente com Borges, “para uma rede crescente de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam, se ignoram” – o mundo das UCRONIAS, isto é, das utopias da história – abrindo-nos essas possibilidades que, para a história da civilização, são simples exercitações (“Se Custer tivesse ganho em Little Big Horn...), mas que na história pessoal, graças ao après-coup, podem se tornar pensamento de novas realidades do futuro e, por que não?, também do passado: a possível reescrita de uma história nunca acontecida me parece a abertura e o mais rico presente que a análise pode oferecer (p. 66-69).
                        
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, Anna. Que bom que gostaste. Espero que possamos ter muitas trocas daqui para frente.

      Abraço,

      Paulo

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