quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Transferência erótica, Antonino Ferro

 
Transferência erótica
 
O segundo exemplo, ainda mais arbitrário (obviamente, não utilizo uma chave psicanalítica para dar sentido ao texto, aliás, faço exatamente o contrário, uso o texto como uma forma narrativa eficaz para relatar um conceito psicanalítico), é extraído do livro Anjo Azul de Heinrich Mann. Coloco o professor Rath no lugar de um suposto analista e Rosa Froelich no lugar de uma hipotética paciente. A história é conhecida, mas vale a pena retomar alguns fios.
O professor Rath (chamado de forma irônica pelos alunos de Unrat que quer dizer “lixo”), quando começa a história, tem 57 anos e há tempos desenvolve, sem nenhuma paixão, de forma repetitiva e cansada, o mesmo programa para a 5ª série: A donzela de Orléans de Schiller. “Não havia mais nenhuma melodia na lira desafinada que todos os dias recomeçava a tocar [...]. Ninguém ouvia a voz delicada e inconfundível da jovem, cujo som fazia levantar espadas espectrais e severas, cai a couraça de proteção do coração e asas de anjo se distendem claras, [...] capitã menina que, abandonada pelo céu, se transforma em uma pobre pequena menina desesperadamente apaixonada”. A leitura do texto servia somente para “embromar os estudantes, estudantes que ele despreza e que o desprezam”. O analista está, possivelmente, na crise da meia idade e perdeu qualquer relação com as raízes afetivas de seu trabalho, com a poesia do encontro com o outro e com os aspectos ternos de si mesmo. O seu trabalho tornou-se pura rotina interpretativa orientada narcisisticamente. O professor Unrat, seguindo alguns estudantes dos quais quer se vingar, entra na esfera de atração de uma atriz que é justamente Rosa (no filme de Von Sternberg a inesquecível Lola Lola). É conduzido até ela guiado pela voz de dois marinheiros: “Ei, Klaas, para onde vamos?”, “Encher a cara” responde o outro. “Os dois caminham em direção a um grande edifício [...]. Uma lanterna balançava sobre a figura de um Anjo Azul”. Após ter entrado, “Unrat teve a impressão de que aquela figura feminina fosse como um grito”.
O analista não tolera a própria dor, a sua depressão, está à procura de alguém que a carregue por ele o sofrimento do qual não sabe que está invadido, depois reconhece na paciente, desde o início, um aspecto simétrico ao seu: o grito de desespero. “Unrat conseguiu captar algumas palavras que a mulher, toda colorida, pronunciava enquanto levantava sua saia [...]. Ficou tomado pelo mau humor [...]. tinha a impressão de estar em um mundo que era a negação da sua pessoa”. Ouve cantar: “Eu sou pequena e inocente”. Ele tem a impressão de reencontrar a parte de si terna e perdida, a donzela de Orléans, em Rosa, Rosa que, por sua vez, perdeu qualquer contato com seus aspectos afetivos e, aliás, faz deles uma paródia. Recebido no camarim de Rosa, Unrat bebe rapidamente, mas não somente o vinho, bebe, com os olhos, a juventude de Rosa, está perturbado pelos seus instrumentos de sedução. “Ao primeiro olhar excitado de Unrat ficou visível que nas longas longuíssimas meias pretas dela havia um bordado violeta [...]. O seu vestido de seda azul que transparecia entre as malhas de uma rede preta”. Rosa é toda colorida, mas “o arranjo parecia murcho, o laço azul estava meio caído, as flores de pano em torno da saia tinham a cabeça caída, sem vida”.
O nosso analista é atraído na rede do luto não visível, toma em análise uma jovem paciente na qual reencontra algo dos aspectos necessitados e infantis de si mesmo, ainda que mortificados. Mas a paciente está francamente deprimida, erotiza e manicaliza a dor, o grito.
Começa a obra de sedução por parte de Rosa. “Tocou sob o queixo de Unrat [...] onde estavam as manchas sem pelos entre a barba [...] e fez com os lábios o movimento de chupar [...]. ‘Mandaria embora todos aqueles valentões [os admiradores] em troca de um homem honesto de idade madura’”. Rosa captura na sua rede de depressão erotizada o nosso professor, tocando seus pontos indefesos. A partir deste momento, Unrat/analista está capturado no vórtice da embriaguês, da excitação, da anestesia, onde havia dor, onde havia sofrimento, agora há uma arrebatadora excitação que, apesar de tudo, parece conter um sabor de vida. “Pronto, segura”, lhe diz Rosa. Unrat pega a coisa sem saber o que é. Era preta e dava para apertá-la até que ficasse pequena, pequena e, ao tocá-la, era curiosamente quente, quente como um animal. Em um certo momento, escapou da sua mão... Eram as calcinhas pretas”.
Há, num certo ponto, uma tentativa de tomada de contato com a dor: “E se você apura o ouvido no argênteo do lago, eis o seu amor, você o ouve gemer [...] riem as estrelas e eu choro de amor”. Assim Rosa tenta cantar, mas o público não quer esta canção. “Fazem barulho. ‘Chega, não aguentamos mais, gritam as pessoas”. Só resta Rosa mudar de música e “de repente saltou toda lépida, recolheu o vestido de seda verde, agitou a saia cor de laranja e começou a cantar: ‘Porque eu sou tão pequena e inocente’”.
A tentativa de análise fracassa, não é tolerada pelas forças do campo. Só resta o caminho da negação da dor. O professor Unrat promete a Rosa: “Tentarei salvá-la”. O nosso analista foi parar na areia movediça: gostaria de salvar a paciente e a si mesmo, mas só pode afundar junto com ela cada vez mais. A partir deste momento, temos todos os elementos para caminhar em direção à tragédia, cujas etapas serão as núpcias de Unrat com Rosa, o sucessivo e progressivo tornar-se da cada deles, uma casa de jogo, na qual prazeres orgiásticos exorcizam uma dor inexprimível que, em vão, pede para ser vivida (p. 154-156).
 
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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