quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Transferir as emoções, Antonino Ferro


Transferir as emoções
 
Uma forma de trabalhar pode ser a de se perguntar, depois que uma paciente falou, de que objeto interno projetado no analista ele está falando. Muito claro é um exemplo apresentado em um congresso no qual um supervisor relatava a sequência clínica de uma sua supervisionanda para a qual a paciente havia dito: “Vaca!”. O supervisor diz ter perguntado à supervisionanda de que objeto ela pensava que a paciente estivesse falando. “Da mãe”, responde a supervisionanda. Então fica claro que, falando ao “objeto-mãe”, projetado na analista, visto que a vaca produz leite, a paciente exprimia a sua inveja e o seu ódio em relação a uma mãe que nutre. Diferente seria a minha maneira de ver: pediria para examinar a sessão anterior para compreender porque a paciente está tão brava com sua analista, o que aconteceu ali para dar sentido a esta raiva – sem respostas já prontas, com base no que sabemos de vacas, leite, mães e objetos.
Faria como Isabella, na fábula de Carla Muschio (2005), que não se limitou a entrar na cantina, mas encontrou nela a porta que abre para novos e inesperados mundos. Falo de uma análise que olhe para frente, para o futuro e não para o passado, não para os conteúdos, mas para a transformação dos aparatos para pensar (pouco me importa sobre o quê). A sessão me aparece como um sonho das mentes, no qual chegam, se desviam, se imbricam histórias diferentes provenientes de lugares e tempos diversos do campo.  A experiência compartilhada é a de deixar circular estados emocionais, afetos e pensamentos com o analista (ele também um lugar do campo) na dupla polaridade descrita por Riolo (1983), que garante e salvaguarda o setting, e promove uma atividade de tipo onírico da dupla. A sessão torna-se um sonho compartilhado, conarrado, coatuado, no qual ganham vida histórias, transformações, insight, especialmente aptidões – quero dizer aptidões para sonhar, para transformar em rêverie, em emoções, em imagem o que pressionava como sensorialidade-abscesso, ao qual não havia acesso. Cada sessão é uma pérola, um grão daquele colar-rosário que, através de todos os mistérios, leva não aos conteúdos, mas à capacidade de fazer a viagem, para frente e para trás, que é o Star Treck da nossa vida. Portanto, a análise leva ao desenvolvimento da mente, da capacidade de sonhar, de sentir, de pensar. Depois, há a plena liberdade dos conteúdos: se um paciente faz toda a sua análise com um cenário infantil ou através dos filmes de faroeste ou de ficção científica ou “do seu lugar de trabalho”, para mim não faz diferença. O motor da história é a necessidade de que aquilo que não pode ser dito e a incapacidade de dizer encontrem um espaço-tempo que leve à capacidade de pensar e de dizer. A transferência, neste sentido, é também o transferir das capacidades do analista para o campo e do campo para o paciente, que, por sua vez, traz o combustível e seus instrumentos para o processo.
Um aspecto que gostaria de sublinhar é o quanto não é fácil fica em PS sem persecutoriedade, isto é, alcançar as próprias capacidades negativas antes de interpretar (ferro, 2005g, 2005h). Ajudam a tolerar esta situação de espera continente o ligar-se ao conteúdo manifesto, fazer dentro de nós ensaios de interpretações de transferência silenciosas, ou ligar-se na contratransferência e na confiança no método (p. 20-21).             
FERRO, Antonino. Evitar as emoções, viver as emoções. Tradução Marta Petricciani. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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