segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A evolução da Psicologia do Ego, John E. Gedo (A tradução é de minha autoria)


o O Ego e a análise da defesa, P. Gray
o A mente em conflito, Charles Brenner
o O processo psicanalítico, J. Weiss, H. Sampson e o Grupo de pesquisas em psicoterapia Mt. Zion. 

Conhecida como uma das escolas do campo da psicanálise, a psicologia do Ego foi designada pelos seus adeptos americanos como uma das “principais correntes”. Os dissidentes, encantados com pontos de vistas alternativos, criticaram o enraizamento da tradição vigorante na epistemologia da psicologia do Ego; tal depreciação tem um fundo de verdade, pois a superestimada potência dos expoentes intelectuais esterilizou qualquer possibilidade de “contaminação” com tradições estrangeiras. Havia uma espécie de xenofobia teórica e técnica dentro da psicologia do Ego, e essa visão estacionária nos trouxe o benefício de poder vislumbrar as mudanças evolutivas inerentes à Psicologia do Ego (consulte Rothstein, 1983), exemplificadas nos três volumes que inauguram este capítulo.
O livro mais influente e antigo é o de Charles Brenner, A mente em conflito. Trata-se de uma obra lúcida, bem escrita, autoritária e contumaz em alguns pontos, já que refuta com naturalidade as alegações e as inferências oriundas de outras escolas; Brenner faz questão de tornar cristalinos aos leitores os próprios compromissos científicos, desprezando os pensamentos divergentes ao dele. Para tanto, evoca de forma explícita o postulado biológico de um “aparato” mental perpassado por processos somáticos. Brenner endossa o uso de dados fora da clínica para validar e construir teorias. O autor articula a noção de Freud sobre o conceito de “instinto” e reitera a diferença entre a psique e o soma: mente e corpo não são domínios contíguos com uma fronteira em comum, mas sim categorias separadas, distintas. A mente é o agrupamento de certas funções referentes ao sistema nervoso central. Brenner mantém o conceito de que os instintos são forças motivacionais que podem ser entendidas a partir do desejo manifesto (confira Greenberg, 1991).    
Tais desejos são considerados como “derivados da pulsão”, ou seja, representações mentais ligadas às necessidades constitucionais que continuam a flutuar com intensidade no psiquismo. Embora Brenner, nos dê consistência com as análises quantitativas, ainda assim, ele rejeita a suposição de Freud acerca do desejo, que compara os sistemas físicos em termos de “energias”. No terreno da clínica, Brenner classifica todos os derivados da pulsão como sendo desejos ligados à sexualidade e à agressividade; mesmo assim, ele põe em xeque o que considera essencial para a clínica (ver o capítulo sobre a Teoria da Motivação). Ele argumenta que o conceito de Freud a respeito da “compulsão à repetição” é supérfluo, porque a satisfação dos desejos agressivos não depende de algo “além do princípio do prazer”. Tal discórdia contempla o fato de que Freud (1920) não atribuiu a compulsão à repetição às operações agressivas, mas sim à entropia. A explanação casual de Freud para a compulsão à repetição não teve sustentação biológica; logo, os argumentos de Brenner ainda se dirigem aos auspícios do pai da psicanálise.
Como o título do livro aponta, a psicologia do Ego de Brenner tem como premissa o fato de que ambos os instintos produzem conflitos que levam, inevitavelmente, às formações dos sintomas. Em sua visão, no entanto, não são os vários derivados da pulsão que entram em conflito entre si; o desprazer gerado pela ameaça de virem à tona faz com que os desejos fiquem desalinhados. As funções defensivas do Ego servem para evitar esse desprazer. Brenner enfatizou o fato de que as capacidades funcionais que Freud chamou de Ego e de Id podem ser diferenciadas apenas quando há um conflito intrapsíquico (confira também em Gedo & Goldberg, 1973). Ele não postulou que as funções defensivas do Ego são como uma série de “mecanismos” específicos; ao contrário, Brenner sustenta que todas as funções mentais, mesmo os derivados da pulsão, podem se prestar a qualquer objetivo que vise à adaptação, e isso inclui as defesas. A falha das defesas incrementa o desprazer que acaba por culminar na desorganização. Brenner, vê nessa calamidade uma consequência do conflito.
De acordo com Brenner, as defesas podem se voltar contra os desejos inconscientes ou mesmo contra os afetos gerados por um conflito. Quando um desejo cria uma ameaça, o organismo responde com ansiedade; quando uma calamidade já ocorreu, a resposta se configura como depressão. Brenner acredita que a culpa é uma combinação de ansiedade e depressão. Apesar de entender o desprazer como um fator desorganizador, Brenner deixa de lado o conceito de superestimulação, justamente pela ideia de Freud (sobre a “neurose real”) alicerçada em uma hipótese etiológica errônea. Ele pontua que o trauma não pode ocorrer sem uma causa psicológica, em princípio. É bom notar que, a despeito das opiniões controversas, Brenner tem sempre em suas concepções o lastro da experiência psicanalítica – vindo a partir da própria atividade clínica, na maioria das vezes. Eis aí uma questão metodológica sobre a qual eu discorrerei em seguida.
Brenner casualmente adverte o leitor sobre o imbróglio de assumir que toda a configuração particular da personalidade tem a sua gênese no Complexo de Édipo ou em um arranjo pré-edípico. Mesmo assim, no livro A mente em conflito, o autor opera os conceitos tendo como ponto de partida o material pré-edípico. Sua cota de calamidades infantis começa no período pré-edípico, situado entre as idades de 2½ e 5½. Os tópicos sobre autoestima proeminentes nessa etapa são explicados pelas noções de “castração e de depressão” (veja o capítulo que aborda o legado de Kohut). Em outras palavras, Brenner não entende as reações depressivas como efeitos gerados pela perda de objeto. Ele também evita associar o Complexo de Édipo unicamente com a ideia de castração: em seu ponto de vista, o perigo está presente ao longo de toda a vida.
O conceito de Freud a respeito da “formação de compromisso” é central na discussão de Brenner em relação às consequências do conflito. Os sintomas não são apenas resultado de um compromisso firmado; para Brenner, chistes, fantasias e sonhos representam soluções adaptativas. As formações de compromisso podem levar a melhores adaptações em determinados espectros psicopatológicos. De acordo com o autor, o sucesso do tratamento depende da adoção de certos compromissos que parecem ser menos desvantajosos no mundo adulto do que foram na infância. As transferências aludem aos compromissos existentes entre as agências tripartites (Id, Ego, Superego), mas Brenner se concentra no Superego, pois nele está concentrada a tradição moral das formações de compromisso edípicas.
O que foi citado acima é uma parcela do funcionamento mental e carrega em si as emanações dos esquemas teóricos de Freud. Brenner reconhece claramente muitas das falhas que trespassam a metapsicologia de Freud. Muitas delas foram confrontadas nas décadas anteriores (confira o capítulo acerca dos Desafios da Metapsicologia). Brenner tentou evitar tais armadilhas ao articular um modelo psicológico embasado em paradigmas biológicos, mas não obteve sucesso na empreitada. Apesar da declarada boa vontade para encontrar validações extraclínicas, o autor acabou por desenvolver construções teóricas estritamente mentais, e isso atiça o debate em torno do significado dos “instintos” em um contexto puramente psicológico: se eles não se referem aos processos químicos e psíquicos, estamos falando de fenômenos espirituais ou relacionados à alma? Rubinstein (1997, capítulo 9) demonstrou que o conceito de “desejo inconsciente” tem elo apenas com a neurofisiologia; mesmo que Brenner tenha um sinônimo para a alusão precedente, no momento em que ele trata dos “derivados da pulsão”, ainda assim a proposta não se encaixa em um vértice de todo mental. Em minha opinião, os esforços de Brenner para resolver alguns problemas da epistemologia metapsicológica falharam ou estão obsoletas.
Ao mesmo tempo, Brenner percebe que o abandono do postulado que engloba a energia psíquica levaria à anulação das diferenças entre o Ego e o Id (Freud mostrou o que povoa cada um desses domínios na segunda tópica) em se tratando das propriedades bioenergéticas. Ele assegura a existência de uma série de funções adaptativas presentes no ego – tanto para potencializar quanto para diminuir o desprazer –, no entanto, não considera que isso tudo se organize como um sistema nos moldes descritos por Freud (1923). No meu ponto de vista, a versão de Brenner a respeito da Psicologia do Ego não é mais uma teoria sustentada por estruturas (mais ou menos) estáveis; para ele, há apenas um delineamento das fontes adaptativas do indivíduo no eixo da sexualidade e no da agressividade: o Ego aumenta a satisfação a partir do estatuto do compromisso. Penso que a inferência de Brenner tem uma conformidade sutil com a de Schafer (1992), que aposta que a psicanálise provê um discurso que favorece a construção de narrativas específicas do desejo (veja o capítulo sobre As opções narrativas e o Construtivismo Social).
A mente em conflito é uma obra endereçada ao analista comprometido com a Psicologia do Ego; mesmo naquele panorama aventado, é extraordinário o desprezo pela organização da personalidade nos primeiro trinta meses de vida do bebê. Brenner privilegiou os elementos angariados na situação clínica; ele não deu ênfase na razão pela qual outros analistas discordaram de suas proposições. Em função das prescrições teóricas (o implacável foco nos conflitos sexuais e agressivos), a era pré-simbólica passou em branco para Brenner. Em consequência, ele construiu algo que pressupõe as operações simbólicas. Isso favoreceu com que Brenner ficasse confinado nas base que considerava segura, ou seja, a clínica. Foi aí que ele entrou em uma espécie de círculo vicioso. Se cada pessoa alcançasse a idade de 2½ sem nenhum distúrbio no desenvolvimento, a descrição de Brenner da vida mental poderia ter mais densidade e coerência, porém (como Essler já havia notado em 1953) a noção de uma evolução sem atribulações se caracteriza como uma ficção teórica. As visões psicanalíticas de Brenner eram axiomáticas: elas foram apresentadas como verdades autoevidentes.
Temos de levar tudo isso em conta. Sem falar na questão de as observações clínicas de Brenner serem insuficientes; o que ele falha em demonstrar é o nexo causal entre os conteúdos mentais dos quais ele anuncia e as suas inerentes e possíveis disfunções adaptativas. (Brenner passa muito tempo tentando refutar o argumento de Grünbaum que explicava que não era razoável validar hipóteses casuais a partir de evidências clínicas em psicanálise). Brenner ignorou muitas coisas, mas manteve-se firme à ideia de que os compromissos resultariam em conflitos psíquicos; ele nunca considerou a possibilidade de que os conflitos edípicos irresolutos pudessem ter relação com os estágios de desenvolvimento pré-edípicos (confira em Gedo, 1988, 1995a). A tentativa de mostrar – apenas com um caso – as síndromes arcaicas, tais como a despersonalização, como sendo compromissos (entre os derivados da pulsão e a ameaça de sentir desprazer) não foi convincente, no final das contas. Brenner acreditava que a psicose era também a manifestação de tais compromissos.
A mente em conflito é um esforço de resgate dos paradigmas da Psicologia do Ego. Trata-se de um trabalho extremamente significativo, precisamente porque constitui e reconhece os problemas que encabeçam o topo de prioridades dos estudiosos das “principais correntes”. Para conservar o máximo possível dos paradigmas clássicos, Brenner se valeu de uma parcimoniosa teoria (embora não fosse imune aos desafios dos campos da epistemologia e da biologia) que não levou em conta uma série de fenômenos clínicos, incluindo os que necessitavam dos conceitos estruturais e econômicos, observados por Freud. Essa parte retratada da evolução da Psicologia do Ego é desastrosa por si só, pois não conseguiu admitir que a ineficácia de alguns conceitos estimados, a priori
Em contraste ao foco predominante de Brenner na teoria clínica, temos O Ego e a análise das defesas, de Paul Gray. Tal obra se concentra na prática da psicanálise. O objetivo de Gray parece ser o de eliminar os vestígios da “Psicologia do Id” da técnica analítica, e ele o cumpriu com excelência. A teoria clínica implícita nesta apresentação ecoa na de Brenner de várias formas (visto que ele é citado com louvor pelo autor), exceto por uma crucial diferença: Gray esclareceu que a sua discussão é aplicável apenas às “neuroses” (definidas com rigor). Ele também deixou em aberto a questão relacionada às condições em que as neuroses são estruturadas e como elas podem ser abordadas com eficácia terapêutica.
Em outras palavras, O Ego e a análise das defesas é uma excelente cartilha que delineia uma prescrição ideal para o manejo das transferências (edípicas). As principais ressalvas de Gray aos analistas e supervisores, cujas dificuldades se concentram nesse tipo de transferência, é que foquem nas intervenções conhecidas como aqui e agora e que atentem para o modo pelo qual a própria mente está operando na situação (leia também Edelson, 1988). Esse foco implica menos atenção aos comportamentos fora do tratamento; o analista deverá deixar à margem a vida real do paciente. Gray concorda com a recomendação de Gardner (1983) de que o analista tem de se concentrar em como poderá ajudar o paciente a melhorar a sua própria auto-observação – eis aí um objetivo que nunca subestima a capacidade dos pacientes de se tornarem mais ativos e independentes.
A autoindagação assistida, como Gardner (1993) a cunhou (consulte o capítulo sobre os Princípios terapêuticos), só pode ser conquistada no momento em que o analista coopera com o paciente – nos termos de Gray: quando se alia ao Ego. A autocompreensão nos mostra que as resistências não estão inativas (através das manipulações inerentes à transferência) e são observadas em acordo com uma espécie de submissão voluntária. É possível notar na técnica de Gray a verve antiautoritária. Ele endossa efusivamente o preceito de que o trabalho analítico é operado da superfície à profundidade e, para tanto, precisa ter como alvo as atividades defensivas e não o Id, no caso. Para que o processo tenha êxito, será necessário dar mais prioridade às correntes dinâmicas e não tanto para o papel ou a representação do passado na atualidade – apesar de todas as contratransferências que se avultam no processo e pela tentação de deslocar a atenção para o que ocorre externamente à vida do paciente.
Gray é particularmente bom no fato de delinear o modo pelo qual o analista pode favorecer o recrudescimento das habilidades de auto-observação nos pacientes. De acordo com ele, devemos assumir uma postura pedagógica. O primeiro passo, obviamente, é o de convencer o paciente de que a sua responsabilidade inicial é a de associar livremente. Então, Gray prepara a atmosfera em que haverá a formação de uma aliança observadora. Ao demonstrar as flutuações defensivas, a partir da revisão das sequências associativas, o paciente e o analista serão capazes de ter um vislumbre da situação em jogo. Gray sugere que o manejo analítico seja explicado de forma clara e consistente aos candidatos ao tratamento. Os assuntos que orbitam os conflitos são ótimas portas de entrada para elucidar o que está ocorrendo na vida do paciente; qualquer obstáculo à associação livre indica a manifestação de algum sintoma neurótico. A principal ferramenta de instrução do analista é a de assumir, em momentos oportunos, uma postura tenaz e observadora, visando sempre o aprendizado do paciente sobre si mesmo. Se o foco nas operações mentais apontar para o prejuízo de certas funções, passa a ser essencial que o analista ajude o paciente a prestar atenção no fator que está gerando dificuldades, em princípio. É imprescindível perceber se houve ou não falha na comunicação do que se está sendo investigado. O analista será a ponte que restaurará o elo associativo de seu interlocutor.
Concordo plenamente com a proposta instrutiva de Gray e, também, com o fato de que tal estratégia tende a nos levar a um conhecimento mais aprofundado das fontes de ansiedades que emanam do mundo interno do paciente. Eu considero fundamental a sua ênfase nas responsabilidades do analista e do paciente, pois isso promove um espaço de comunicação menos poluído e mais investido de afeto (veja em Gedo, 1984, capítulos 8 e 9; 1966a).
A técnica que Gray nos transmite tem como foco os conflitos intrapsíquicos. Logo, lançam-se luzes no desenvolvimento da transferência e nos componentes afetivos envolvidos, assim como na aquisição do insight. É interessante notar que a teoria de Gray tem ecos na de Ferenczi e na de Rank (1924), mesmo que não tenha existido nenhuma intenção por parte dele em segui-los. Em concordância com Brenner, Gray evoca a influência do superego no cabedal de defesas, mas ele aponta que, pela transferência, as funções do superego e os seus equivalentes defensivos são projetados no analista. Esses percalços são facilmente sobrepujados pelo que chamamos de aspectos benignos do superego. Embora Gray tenha discernimento sobre as afecções relacionadas ao superego, a sua recomendação para lidar com os sintomas padrões de tal instância foi abordada de forma unilateral: pela minha experiência, se o analista não preservar a neutralidade, ele estará vulnerável aos impulsos proibidos e às tentações que surgem ao longo do tratamento.
Ao mesmo tempo, Gray entende que, com certas personalidades primitivas (as infantis, por exemplo), o analista poderá agir à maneira de um “superego-auxiliar”. Novamente, de acordo com a minha vivência clínica, percebi que esse tipo de abordagem não foi de todo frutífera; eu só obtive sucesso ao demonstrar aos pacientes com as características citadas as desvantagens pragmáticas do comportamento dissociado. Aí reside apenas um exemplo da ambivalência de Gray em relação à técnica e ao manejo de doenças psíquicas que ultrapassam a fronteira da neurose. Ele preferiria chamar as modificações feitas na técnica de qualquer outra coisa que não fosse “psicanálise”, mas, diferente de Brenner, Gray sabia que, às vezes, dependendo do contexto, era necessário readaptar algumas intervenções. Infelizmente, nem todos têm criatividade e acabam burlando preceitos fundamentais. No meu ponto de vista, é mais arriscado subestimar a natureza arcaica das dificuldades que afetam o paciente do que não diagnosticar ou não identificar os problemas de ordem edípica (verifique o capítulo Os desafios terapêuticos), e é por isso que não me sinto confortável em aderir à proposta de Gray que se refere a uma abordagem estritamente “imutável”.
A minha crítica mais veemente à obra intitulada O Ego e a análise das defesas é a de que o autor considera alta a probabilidade de que qualquer paciente terá dificuldades em lidar com as constelações familiares e os seus respectivos legados e não tanto com as urgências emocionais que cada estágio do desenvolvimento traz consigo. Uma técnica focada apenas nos conflitos neuróticos, como a que Gray defende, se mostrará ineficaz em alguns casos variados da mesma linhagem de afecções psíquicas. É preciso aceitar que existem fronteiras à sua aplicabilidade, mas, mesmo assim, o que Gray produziu constitui-se como um avanço significativo na teoria e na técnica da Psicologia do Ego.
O Processo Psicanalítico é um livro incomum: a seção teórica foi escrita por um autor (Weiss), que fez intersecções às descobertas de outro estudioso (Sampson), e o volume inteiro foi creditado aos numerosos participantes de um grupo de pesquisas em psicoterapia. Eu vou me abster de comentar o que eles desenvolviam nesse projeto, mas posso ver que os autores foram bem-sucedidos em alavancar as suas hipóteses. Eles sugerem que o primeiro objetivo, considerado seguro, na regulação comportamental é promovido pelo controle inconsciente baseado nos pensamentos e nas crenças. Talvez seja uma premissa arbitrária. Os autores partem do postulado de que a psicopatologia é oriunda de “crenças disfuncionais ou patogênicas”. A situação psicanalítica concede um ambiente seguro, ao fazer com que as defesas afrouxem a ponto de o paciente conseguir avaliar a coerência de suas crenças. Weiss classificou corretamente essa teoria que conserva elementos de controle/autoridade como sendo uma variante da Psicologia do Ego; no entanto, não estou convencido de que a “corrente principal” tenha aceitado tranquilamente os prenúncios dessa evolução. Weiss estava atento aos desacordos entre os psicólogos do ego sobre as questões referentes à organização do ego (confira o capítulo 2 de Weiss); a posição de que a parte inconsciente do ego produz roteiros ou planos comportamentais é a que mais gerou controvérsias.
Weiss atribui à influência do superego o surgimento dos pensamentos patogênicos: ele explica que a culpa irracional pela separação ou pela sobrevivência podem se configurar como crenças disfuncionais. Ele não leva em consideração, entretanto, o que pode causar a persistência de tais crenças falsas. Nas ilustrações clínicas, Weiss traz como exemplo a perpetuação da culpa em função de uma necessidade de idealização dos pais que ficaram, em princípio, muito aquém da possibilidade de serem admirados pela sua conduta ou pelo que realmente eram; à medida que li esse material, eu percebi que a persistência cognitiva no erro era um resultado secundário à inabilidade do paciente de encarar certas realidades que fazem com que as feridas emocionais venham à tona (as consequências afetivas não conseguiam ser contidas e sustentadas). Em nenhum momento, nas discussões de Weiss a respeito das crenças patogênicas, foi feita a seguinte pergunta: por que os pacientes precisam pautar as vidas sobre os pilares de crenças absurdas? Weiss não empregava o conceito de negação e nem o de dissociação, que, ao menos, poderia esclarecer como os enganos cognitivos, inaugurados na infância, se tornam constantes na vida adulta; ele também não explica como tais erros inconvenientes são reprimidos. No ponto de vista dele, as crenças patogênicas mais comuns são as que tangem a culpa e ameaça de perder os objetos.
Talvez a asserção mais controversa na teleologia de Weiss seja a de que os pacientes entram na análise com o desejo inconsciente de diluir ou de repudiar as crenças patogênicas e de dominá-las, por conseguinte. Em outras palavras, ele afirma que o paciente repete o passado em vista de anulá-lo. Percebam que essa hipótese é exatamente o oposto da maioria das opiniões vigentes, pois as repetições são geralmente entendidas como a perpetuação de comportamentos estereotipados ou padronizados que não possuem valor adaptativo algum. Weiss não explica como o paciente pode desenvolver um plano racional, porém inconsciente, de melhorar (e isso significa controlar ou exercer autoridade sobre o próprio destino). Tais potencialidades vão além de todos os poderes prévios atribuídos ao ego, organizado à maneira de um sistema – eu vejo que essa ideia foi colocada de lado por Weiss. (Para maiores detalhes sobre o esquema cognitivos patogênicos e os seus papéis, consulte Dorpat e Miller, 1992). Vale a pena pontuar que, assim como Brenner ou Gray, Weiss e Sampson não fizeram referências aos estágios de desenvolvimento alocados antes da aquisição da linguagem e da instauração do pensamento conceitual; eles nem mesmo trataram dos reflexos de tais etapas na vida adulta.