domingo, 9 de março de 2014

Arte e política, Kenny Neoob

Procuramos demonstrar conexões entre estética e política: os artistas aqui apresentados possibilitam uma forma de experiência do juízo através da arte contemporânea.
“É no enfrentamento da obra, em algum tipo de surpresa produzido pela obra, que o sentido se constitui”.(2) Esse enfrentamento com o novo possibilita “uma experiência verdadeira do presente com o juízo”.(3) O julgar sem parâmetros – que ocorre quando nos deparamos com algo que ainda não conhecemos, como no juízo estético – exercita a capacidade humana do discernimento e abre um redimensionamento do fenômeno artístico. Nesta condição experimental, podemos perceber uma inserção do espectador no processo de legitimação de produção de sentido.
Para o crítico de arte Luiz Camillo Osório, foi Duchamp quem desestabilizou a relação do espectador com o fenômeno artístico: “a possibilidade de ser e não ser arte, ao mesmo tempo, é a condição paradoxal introduzida por Duchamp, e o problema é não abrir mão deste ‘e’, desta paradoxalidade...um deslocamento para o juízo é se perguntar: o que é arte? que sentido aquilo tem?” (4) Com Duchamp, o espectador ficou incapacitado de definir a priori se uma obra seria ou não arte. É no juízo, na negociação com o público e a história que uma obra vai constituindo seu campo de sentido.
A partir da década de 60, iniciou-se um processo de “afrouxamento de categorias e do desmantelamento das fronteiras interdisciplinares”(5) e o aparecimento de vários nomes e formas de arte: Conceitual, Política, Processo etc. As artes continuaram incorporando uma série de outras atividades e esses cruzamentos continuaram conferindo novos valores para a arte contemporânea. A arte produz novas formas de olhar, de intervir sobre o estabelecido e de pensar “a cidade em toda sua complexidade, sua história, sua lógica socioespacial e sua geografia física e humana”.(6) Há uma “fusão da arte com a vida”.(7) “No último século, a produção artística não cansou de problematizar suas convenções e categorias, levando ao limite todo e qualquer tipo de certeza ontológica em relação às suas condições de ser arte" (...) "Na verdade, parece que a condição experimental da arte moderna e contemporânea – experimental aqui no sentido dado por John Cage de um fazer não convencional cujo resultado é imprevisto e aberto – ganha agora uma exemplaridade política evidente, forçando-nos a imaginar e a criar novas formas de engajamento com o mundo”.(8)
No livro recém-lançado Escritos de Artistas, Anos 60/70, organizado por Glória Ferreira e Cecilia Cotrim, podemos ler um depoimento (9) de Hélio Oiticica, originalmente publicado em 1967, (10) onde encontramos assuntos de importante atualidade para a arte contemporânea. Hélio descreve as principais características da arte brasileira de vanguarda e indica os críticos que influenciaram a evolução da Nova Objetividade. Ao analisar o problema da participação do espectador, define duas maneiras de participação: “uma é a que envolve “manipulação” ou “participação sensorial corporal”, e a outra que envolve uma participação “semântica”. Esses dois modos de participação buscam como que uma participação fundamental" (...) "Manifesta-se de mil e um modos desde o seu aparecimento no movimento Neoconcreto através de Lygia Clark...” (11) Para Hélio, foram as idéias e a obra de Ferreira Gullar, “no campo poético e teórico”, que mais criaram no sentido de uma “arte participante”, durante aquele período. “O que Gullar chama de participação é, no fundo, essa necessidade de uma participação total do poeta, do artista, do intelectual em geral, nos acontecimentos e nos problemas do mundo, conseqüentemente influindo e modificando-os; um não virar as costas para o mundo para restringir-se a problemas estéticos, mas a necessidade de abordar esse mundo com uma vontade e um pensamento realmente transformadores, nos planos ético-político-social”.(12)
Segundo Luiz Sérgio C. de Oliveira, “há muito esse diálogo entre arte e política tem sido reconhecido institucionalmente”.(13) Em sua tese, Oliveira exemplifica esse reconhecimento citando o prêmio Leão de Ouro, da Bienal de Veneza de 2005, para Bárbara Kruger pelo conjunto de sua obra.
No livro A partilha do sensível, Jacques Rancière parte de uma reflexão sobre os atos estéticos que “ensejam novos modos do sentir e induzem novas formas da subjetividade política” para refletir sobre uma “certa estética da política” e afirmar: “é no terreno estético que prossegue uma batalha ontem centrada nas promessas da emancipação e nas ilusões e desilusões da História”.(14)
Acreditamos que através da experiência do juízo estético, através da relação com o fenômeno artístico contemporâneo poderemos estimular uma reflexão mais aprofundada sobre os sistemas de representação e de poder.

(1) Kenny Neoob é artista visual, editora do caderno cultural Polêmica Imagem, mestranda da UNIRIO, viveu oito anos em Paris onde se formou e exerceu a fotografia e a poesia.
(2) Informação verbal do crítico de arte Luiz Camillo Osório, durante o curso de pós-graduação da UNIRIO, Rio de Janeiro, 2006.
(3) ARENDT, Hannah. O que é política. Bertrand Brasil, 1998, p.31.
(4)Informação verbal de Luiz Camillo Osório.
(5) ARCHER, Michael. Arte contemporânea: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
(6) BARJA, Wagner. Intervenção/Terinvenção. A arte de inventar e intervir diretamente sobre o urbano, suas categorias e o impacto no cotidiano. Revista eletrônica Polêmica, Rio de Janeiro: UERJ. Disponível em: http://www2.uerj.br/~labore/pol15/cimagem/p15_barja.htm Acesso em 18 de agosto de 2006.
(7) RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Estética e política. São Paulo: EXO experimental org: Ed. 34, 2005, p.11.
(8) OSÓRIO, Luiz Camillo. Arte e política. Folhetim. Rio de Janeiro: Teatro do Pequeno Gesto, n.22, jul-dez 2005.
(9) OITICICA, Hélio. Esquema geral da Nova Objetividade. In: FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (orgs.) Escritos de Artistas. Anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
(10) Catálogo da mostra “Nova Objetividade Brasileira” (Rio de Janeiro, MAM, 1967, Republicado em Aspiro ao grande labirinto (Rio de Janeiro, Rocco, 1986).
(11) OITICICA, op.cit, p.162 e 163.
(12) Idem, p.164.
(13) OLIVEIRA, Luiz Sérgio da Cruz de. inSITE: práticas de arte pública na fronteira entre dois mundos. Tese (doutorado em Artes Visuais): EBA / UFRJ, 2006, p.139.
(14) RANCIÈRE, op.cit.


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