domingo, 9 de março de 2014

Crítica da imaginação indolente ou a longa viagem ao sapateiro, Paulo Endo

Na bolha imensa que recobre os escuros da imaginação, o futuro não é mais do que o ar rarefeito que cada qual busca, sofregamente, inalar em seus próprios pulmões. Em tal lugar, outrora seguro e pacato, cada centímetro cúbico de oxigênio é disputado até a morte.
A ninguém, dos que ali vivem e morrem, ocorrerá lancetar com uma agulha de tricô (objeto em desuso) a enorme bolha que cobre as cabeças e as almas condenadas por todos os efeitos da asfixia.
Todos estão muito ocupados em respirar, evitando cada esforço adicional, cada pensamento desnecessário, cada palavra excessiva. A iminência da morte e da aniquilação também gera o colapso da imaginação e a preguiça do pensamento. A partir daí como provocar então  “a experiência radical de perfuração de futuros opacos e sombrios”?

Edson Sousa persegue esse alerta em seu livro Uma Invenção da Utopia. Não há mais passado que legitime e explique a ausência de inquietação sobre o futuro. Todas as desculpas devem ser deitadas ao chão e as lamentações sobre o passado que não foi e o futuro que não será tornaram-se há muito “imperativos do consenso” que é preciso perturbar. “A passividade anda de mãos dadas com a tristeza” e essa tristeza não é mais do que um copo, vazio de moedas, ao lado do corpo roto que mendiga.

Num mundo sem utopias não poderá haver responsabilização por nossos próprios fracassos, eles serão apenas lamentados e pranteados. Mas a utopia, que Edson Sousa examina como um lapidador de pedras brutas, se instaura na responsabilização do instante, na inquietude pelo impossível e nas fendas do constituído.
É na potência do “poder constituinte” de Negri que o autor buscará as chaves da “lógica que anima os processos de criação”. A equação é radical: sem criação não há utopia. Todavia a criação deve ainda obedecer duas exigências fundamentais: sua dimensão política e, necessariamente, interminável, informe e insubordinada; e o deslocamento persistente do embate com as entidades do poder constituído e suas sólidas camadas superpostas.
Portanto o compromisso “com o amanhã” não é outra coisa senão desejo de transposição. “Pensar é transpor” frase emblema de Ernest Bloch que percorre a reflexão do autor do começo ao fim e que restaura a mutualidade constitutiva do pensamento, da criação e da desobediência.
Toda utopia que morre revela-se então como um simulacro de utopia, como embuste aperfeiçoado e caro que degrada a imaginação e zomba do porvir. As utopias que morrem- e há muitas sob a terra- não são utopias.  A “ruína dos saberes instituídos” e o fim das promessas não cumpridas não é o fim das utopias, mas seu princípio.
Trata-se de uma posição que se radicaliza na crítica, não apenas ao pensamento formal, mas também à arte como horizonte da forma e do conteúdo, como objeto de valor e como mercantilização do fazer criativo. Onde estará a crise na arte? Crise que se funda no próprio território onde ela se refaz inteira para, mais adiante, se desfazer novamente.
Imobilizado para perdurar, como restaurar  o fazer artístico contínuo e constituinte? Onde encontraremos a contrariedade e a desobediência na arte e no artista?
    


Entre os objetos prestes a serem descartados, Sousa bate o pó da utopia e reassegura o seu princípio ativo. Mas a utopia, como horizonte do insuficiente e crítica do instante, exige mais do que a disposição para o ofício. Ela se impõe como “invenção da vida”.   Lá, na longa viagem até o sapateiro, descrita nas primeiras páginas de seu livro, com nossas mãos repletas de objetos estragados, é que se evidencia o caminho da crise para a qual os objetos velhos nos conduzem. Momento em que o sapateiro, diante dos objetos a consertar, desloca-se do homem descartável para homem necessário, ao mesmo tempo em que impõe seu ofício e diagnostica sua situação: Se os objetos não estragassem “eu não viveria”. Como sobreviveria o sapateiro sem esse momento, imediatamente anterior à morte das coisas, quando seu trabalho, sua vida e ele mesmo voltam a fazer sentido no universo dos objetos sem conserto e na melancolia de tudo que ‘não tem mais jeito’. A Morte do sapateiro revela-se, portanto, como a morte de cada um de nós.

Se a ruína da poesia após Auschwitz, que Theodor Adorno prognosticara, foi surpreendida e perturbada pela poesia de Paul Celan – palavras vivas para dizer os mortos- foi ali mesmo, na terra imensa manchada de sangue que Celan fincou seus poemas e sua extraordinária força criadora. Lá onde não havia mais nada a dizer, lá em meio aos corpos baldios o poema de Celan arrancou à força a palavra que nunca foi dita. É a essa experiência limítrofe e inaudita de Celan que Edson Sousa nos aponta. Não à tarefa heróica da superação, mas à experiência ordinária dos sucessivos (re)começos e da esperança.
 Pois então, nos versos de Celan, o murmúrio da utopia:

 “Quem arranca do peito seu coração para a noite deseja
                                                                                [a rosa.”



Paulo Endo-Psicanalista, Professor Doutor do Instituto de Psicologia da USP

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