domingo, 9 de março de 2014

Cultura e pensamento: Freud e a impossibilidade da felicidade, Voltaire Schilling


O mal estar da civilização

Cultura e pensamento: Freud e a impossibilidade da felicidade

Num ensaio sombrio sobre os destinos da humanidade, intitulado Das Unbehagen in der Kultur (O Mal–estar na Cultura), aparecido em 1929, Freud teceu várias considerações sobre sua percepção do significado da cultura para a humanidade. Entendeu-a como uma prodigiosa sublimação na medida em que ela era produto da impossibilidade da realização dos desejos inconscientes mais profundos de todos nós como também uma eficaz barreira para impedir o afloramento das tendências agressivas dos seres humanos. Mesmo a civilização que nos cercava, aparentando ser sólida, via-se constantemente à beira de uma desintegração devido a hostilidade primordial que provoca um perpétuo conflito entre os homens. O mundo caótico, primitivo e bárbaro dos instintos, tinha assim que ser domado e canalizado por uma força cultural que submetesse o homem a um convívio social mais pacífico e produtivo.

O prêmio Goethe
Por maior que fosse a fama do doutor Freud no mundo de então, ele não era bem visto nem na sua Áustria natal nem na Alemanha. Os nacionalistas pan-germanistas acusavam-no de difundir uma “ciência judaica” – a psicanálise – que nada tinha a haver com a cultura autenticamente alemã. Os sacerdotes e pastores viam-no com a materialização de uma heresia secular que retirava da religião qualquer evidência de sacralidade ou de divindade, além de claramente abolir com a ideia do pecado, peça central de toda a ética religiosa. Mesmo seus colegas psiquiatras duvidavam da eficácia do “ tratamento do divã”, das sucessivas sessões de terapia, para alcançar a cura das neuroses e outras psicopatias. Todavia o sucesso dele era enorme.
Quando o mundo racionalista-positivista da Europa do século XIX desabou no transcorrer da Grande Guerra, de 1914-18, prestígio dele começou a ascender de um modo inevitável. A confiança que a elite européia tinha na eficácia dos seus valores e dos seus preceitos éticos havia sido fortemente abalada pelo morticínio da guerra das trincheiras e pelo assombroso número de vítimas que causou. Os velhos impérios abalados, foram soterrados por transformações bruscas ou violentas revoluções (as principias dinastias reinantes na Alemanha, na Áustria, na Hungria e na Rússia, haviam sido derrubadas). Repetindo-se Marshall Bergman “tudo que era sólido desmanchou-se no ar”. Até a corrente dos artistas surrealistas acusou a forte influência do pensamento dele. Um tanto como para compensá-lo pela desatenção e até hostilidade do mundo científico austro-alemão, um influente grupo de escritores e intelectuais lançou-se numa aberta campanha para que ele recebesse o Premio Nobel de 1928, mesmo que fosse o de Literatura. Entre eles estavam Alfred Döblin, Jacob Wassermann, Bertrand Russell, A.S. Neill, Lytton Strachey, Julian Huxley, Knut Hamsun e Thomas Mann. Os acadêmicos suecos, entretanto, preferiram entregar a láurea para uma obscura escritora norueguesa, Sigrid Undset (1882-1949), especialista em sagas medievais escandinavas. Sem desanimar, foram à forra, indicando então Freud para obter o maior galardão das letras e das ciências germânicas: o Prêmio Goethe, recém estipulado pela prefeitura da cidade de Frankfurt, berço do grande poeta.
Finalmente, em agosto de 1930, deu-se a cerimônia da premiação. Por motivo de saúde, afinal ele já estava com 74 anos de idade, se fez representar por sua filha Anna Freud que teve como missão ler o discurso de agradecimento. Evidentemente que o velho sábio sentiu-se particularmente honrado com aquilo pois foi o quarto grande nome da cultura alemã a receber aqueles louros,e, como a historia posterior iria demonstrar, o mais universalmente reconhecido entre todos.
O romancista Alfred Döblin, famoso autor de “Berlin Alexanderplast”, o principal mentor de Freud nesta questão do premio, num artigo da época, assinalou que tanto Goethe como Freud tinham em comum a intenção de conseguir harmonizar o “ caótico Dionísio” com a grandeza apolínea, tendo ambos maneiras muito similares de entender a existência humana.

Fausto/Freud e o estranho mundo obscuro

Havia um laço profundamente afetivo naquela cerimônia ligando Freud a Goethe. Como confessou certa vez, a decisão dele em vir a ser um cientista, ein Naturwissenschaften, um estudiosos das coisas da natureza, surgiu-lhe ainda muito jovem ao conhecer o ensaio do poeta intitulado Die Natur ( A Natureza), publicado em 1780, na qual Goethe pregava a necessidade da total imersão do pesquisador no objeto a ser estudado e não o distanciamento objetivo: “Natureza! Nós estamos cercados e abraçados por ela, impotentes em nos separarmos dela ,e por igual impotentes em penetrar mais profundamente além dela.”(“Aforismos sobre a Natureza”). Recomendava seguir a intuição, associando-a a observação, pois somente desse modo o homem poderia ambicionar penetrar nos mistérios da Natureza. Portanto, Goethe foi o primordial mentor intelectual de Freud, e durante toda a vida deste, este pautou suas reflexões ou conclusões referindo-se a uma ou outra passagem de uma das tantas obras do poeta. A tal ponto que muitos admiradores da prosa de Freud consideram-no como o mais lídimo sucessor de Goethe dentro da cultura alemã (herança que Thomas Mann pretendia para si), seguidor fiel do compromisso do poeta com a Wahrheit, Wissenschaft e a Vernunft (a Verdade, a Ciência e a Razão), sem esquecer-se de mencionar o apreço que ambos tinham pela Itália. Aliás, quando Freud esteve de passagem por Veneza, conforme ele escreveu ao seu confidente, o doutor Fliess, em carta de 3 /10/1897, lembrou-se de que Goethe, quando também andara por lá em 1786, encontrara ao acaso uma cabeça de carneiro o que veio a inspirá-lo num estudo de anatomia, Freud queixou-se ao amigo que não encontrara “nenhuma cabeça de carneiro” que provocasse nele efeito similar, um salto que lhe permitisse a descoberta de algo científico que o celebrizasse. Sentiu-se isso sim um “cabeça-de-carneiro”, “um cabeça-dura”, que nada tirara proveito da incursão.
Todavia, nada custa especular que de fato a maior influencia sobre o psicanalista não teria sido propriamente Goethe mas sim o mais famoso personagem criado pelo poeta, o Doutor Fausto (Faust, 1808). Quem melhor poderia servir-lhe como modelo senão que aquele estranho alquimista e homem de ciência? Alguém que, insatisfeito com os estudos até então realizados ao longo de uma vida trancada em laboratório, cede à tentação de , pelas mãos de Mefistófeles, seguir atrás das pegadas de um outro mundo: aquele regido pelas forças irracionais e sensoriais, arredio aos costumes, um continente embaçado, oculto aos olhos das vistas e mesmo da consciência humana, dominado pelas forças primais dos instintos e das assombrações.

O fracasso do Princípio do Prazer

Um tanto antes de publicar “O Mal-estar na Cultura”, Freud seguindo a tradição iluminista e científica do seu tempo, havia investido contra religião num famoso ensaio intitulado Die Zukunft einer Illusion (“O Futuro de uma Ilusão”), aparecido em 1927, onde reiterou sua crítica à atitude infantil da humanidade pondo-se voluntariamente submissa a um Pai Bondoso que lá do Céu vigiaria pelo bem-estar e pela bem-aventurança dos seus filhos na terra. Irritava-o o fato de verificar que a grande maioria não conseguia superar aquela situação de total dependência a um patriarca “grandiosamente exaltado”, que nem sequer tinha um plano de fazer o homem feliz. Foi exatamente sobre isso, sobre a questão da Felicidade, que ele veio a concentrar sua atenção no ensaio seguinte, o já citado “O Mal-estar........”. Freud procura nele afastar qualquer expectativa de que o Lustprinzips, o Princípio do Prazer, mola impulsionadora do comportamento humano, possa vir a trazer a felicidade. Ao contrário, a idéia que podemos ser felizes tinha pela frente contra si a própria realidade circundante que, ao contrário do que podia se ambicionar, somente nos conduzia ao sofrimento.
A começar pelo nosso Corpo mesmo, condenado desde sempre a uma inapelável decadência e à aniquilação, na maioria dos casos ele somente nos provoca dor e angústia. O Mundo Exterior então nem se fala. Como imaginarmos almejar alegrias em meio a tantas desgraças naturais, ao deslocamento de forças onipotentes e implacáveis que esmagam cidades, afundam navios, sufocam os homens? O pior disso tudo, desse elenco de impedimentos para se vir a atingir a felicidade são os Outros. Como aqueles que nos são próximos nos fazem sofrer! Quantos nos infringem humilhações, quantos deles frustram nossas esperanças mais triviais, quantos nos traem ou nos enganam? Exatamente em vista dessa impossibilidade de encontrar a satisfação determinada pelo Principio do Prazer, é que faz a humanidade procurar derivativos, uma desatinada busca de independência do Mundo Exterior. Fosse como fosse, o projeto existencial de cada um nós – a busca da felicidade – conduzia a um inapelável fracasso.

Estratégias de fuga da realidade

Se o Princípio da Realidade é brutal, bloqueando o Principio do Prazer, isso, todavia, não evita que se procure alternativas que nos levam a contornar o problema, a uma espécie de fuga da realidade. Alguns tentam a Arte como uma “técnica de vida”. Mas ela não passa de uma “ligeira narcose”, um “refugio fugaz” frente aos dissabores da vida e evidentemente não nos faz esquecer da miséria real. Mesmo que busque a beleza (em formas ou gesto humanos), que se deixem levar por um Orientação Estética, isso pouco os pode proteger dos sofrimentos iminentes visto não passar de um estratagema “ligeiramente embriagador”, que na maioria dos casos somente gera narcisismo.
Outros optam por uma existência de Eremita, criando um mundo somente seu, mas cujo recolhimento e afastamento de tudo geralmente provoca uma espécie de demência ou acentuada paranóia que faz com que substituam a quimera pela realidade. É certo que muitos ainda preferem uma solução coletiva que os proteja da dor e do sofrimento aderindo à idéia de uma “transformação delirante da realidade” (que pode se dar pela adesão a uma religião como a uma ideologia), que não diferente dos demais está por igual condenada ao fracasso. Por último resta o Amor como a grande válvula de escape à arredia realidade, uma fantasia sensual que provocaria um êxtase de grande prazer. Todavia, como alguém pode esperar encontrar a felicidade justamente com o mais inconfiável dos deuses que é Eros, responsável pelos transtornos de juízo dos deuses e dos homens? Pois não advém das injunções do Amor o maior número de tristezas e desatinos que se abatem sobre todos nós?
Por conseguinte, tentar alcançar a felicidade é algo inatingível, é um propósito irrealizável. O que é possível sim ser modestamente atingido é uma “felicidade minguada”, que termina dependendo da “economia libidinal” de cada um. Freud concluiu suas observações afirmando que mesmo sabendo-se disso tudo, da inviabilidade dos objetivos do Principio do Prazer, não se deve e nem pode abandonar os esforços em vir a concretizá-los. De algum modo todos devem se empenhar para que ocorra a sua realização. Na sentença final que encerra o ensaio, concluiu que: “Nossos contemporâneos chegaram a tal ponto no domínio das forças elementares que com sua ajuda seria fácil exterminarem-se mutuamente até o último homem. Tanto sabem que aí reside boa parte da sua presente agitação e da sua infelicidade e angústia. Só nos resta esperar que outra das potências celestes, o eterno Eros, mobilize suas forças para vencer a luta contra seu não menos imortal adversário (o demônio da auto-destruição). Mas quem pode prever o desenlace final?”(O Mal-estar na Cultura).

Bibliografia
Freud, Sigmund – Elemente der Psychoanalyse. in Werkausgabe in Zwei Banden, Band 1 . Frankfurt: Fischer Verlag GmbH, 1978.
Freud, Sigmund – El Malestar en la Cultura. Obras Completas, vol XIX. Buenos Aires: Santiago Rueda Editor, 1955.
Freud, Sigmund _ A Correspondência completa para Wilhelm Fliess ( 1887-1904). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1986.
Gay, Peter – Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2007/07/30/000.htm

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