domingo, 9 de março de 2014

Marco Polo foi à China?, Frances Wood




Em Karakorum, os dois mercadores venezianos conheceram o grande soberano, ou Khan, Kublai (Kubilai, Qubilai) e, em vez de tratar de negócios, discutiram o cristianismo com ele. Kublai “tinha cartas escritas em turco para enviar ao Papa e as confiou aos dois irmãos”. “Ele enviou uma mensagem ao papa de que deveria mandar até cem conhecedores da religião cristã (...) que a sua religião estava totalmente errada (...) Além disso, o Grande Khan ordenou que os irmãos trouxessem o óleo da lâmpada que arde sobre o sepulcro de Deus em Jerusalém.” Então, ordenou que um de seus homens acompanhasse os irmãos Polo na primeira parte da viagem e lhes deu uma barra de ouro “na qual estava escrito que (...) eles (...) deveriam receber todas as hospedagens de que pudessem precisar além e cavalos e homens”. (p. 16).

Parece que Marco era um bom contador de histórias, visto que o khan zombava de seus mensageiros normais e os chamava de bobalhões e estúpidos por não conseguirem contar nada sobre os “usos e costumes” das regiões que haviam visitado. Para evitar o mesmo erro, Marco “prestava bastante atenção a todas as novidades e curiosidades que cruzassem o seu caminho para que pudesse oferecê-las ao Grande Khan”. AO retornar à corte, ele tratava primeiro dos negócios sérios e, depois, “relatava tudo de extraordinário que havia visto no caminho”. (p. 17).

Um dos monumentos mais impressionantes referente ao comércio italiano com a China é a lápide de uma jovem italiana encontrada em Yangzhou em 1951. Ela morreu em 1342, mas sua lápide foi movida no final do século XV devido À construção dos muros da cidade. Na inscrição em letras góticas no mármore, seu nome é Katerina, filha de Domenico de Violini, aparentemente de uma família que havia comerciado em Tabriz em meados do século XIII.  A lápide elaborada, com uma imagem da Virgem Maria esculpida acima das cenas do martírio da virgem Santa Catarina sendo fatiada por rodas com facas, indica que ela não era um bebê quando morreu, e alguns especialistas admitem que seu pai tenha falecido antes dela. A existência de um convento franciscano em Yangzhou na década de 1320 (mencionado por Odorico de Pordenone) pode ser uma boa explicação para a imagem da lápide, apesar da maioria das pessoas considerar que seu estilo indica que ela tenha sido feita por artesãos chineses locais. Mesmo assim, continua sendo um testemunho misterioso sobre as viagens dos mercadores de seda italianos. (p. 24).

O maniqueísmo se desenvolveu a partir dos ensinamentos de Mani (c. 276 a.C. a c. 216 a.C.), que era parecido com a religião de adoração ao fogo do zoroatrismo, mas cujos seguidores também adotavam aspectos do budismo e do cristianismo, e, assim, desenvolveram uma visão dualista do mundo. O maniqueísmo enfatizava a oposição entre Deus e o mundo espiritual claro e reluzente, por um lado e, por outro, Satã e o mundo escuro e material. Acreditava-se que os seres humanos contivessem ambos os aspectos, mas só pudessem alcançar uma maior iluminação e espiritualidade através do ascetismo, do vegetarianismo, do pacifismo e do celibato (pois as mulheres eram más e prendiam os homens à carne). O maniqueísmo com seus lados zoroastra (luz, fogo) e budista (ascético, pacífico), pode nos parecer estranho hoje, mas Santo Agostinho foi um “maniqueu” durante nove anos (apesar de mais tarde ter condenado a religião) e considerava-se que visões dualistas desta religião tenham persistido em grupos de hereges posteriores como os bogomils e os albigenses ou cátaros, espinhos na carne da Igreja Ortodoxa européia durante a Idade Média. (P. 38).

 NO bestiário medieval, a salamandra, um anfíbio tritão, podia resistir  ao fogo e, segundo uma explicação desencontrada sobre salamandras e amianto, descobrimos que “os homens a descreviam, e ainda descrevem, como um animal; mas isso não é verdade”, pois é uma “substância” retirada da montanha, que, quando esfarelada e transformada em tecido, surge incólume, na verdade purificada pelo fogo. (p. 45).

Supostamente, essas descrições de artigos de luxo, suas fontes e seus processamentos serviram de inspiração para o livro As cidades invisíveis de Italo Calvino, no qual o triste Kublai Khan, deprimido pelas sombras noturnas e “pelo cheiro dos elefantes depois da chuva”, ouve os relatos de Marco Polo sobre as cidades delgadas, as cidades de comércio, e as cidades ocultas, preferindo os contos “fabulosos” do veneziano aos relatos mais sóbrios de outros viajantes que listam toneladas de sal, distâncias e outros detalhes enfadonhos.
Infelizmente, quem realmente tiver lido o Descrição do mundo irá descobrir que grande parte do relato de Marco Polo sobre o Oriente de fato consiste de toneladas de sal e distâncias. Apesar dessas descrições às vezes serem entremeadas de histórias sobre califas e Reis Magos, elas são basicamente práticas e, mesmo sem seguir um itinerário lógico, o livro apresenta mais uma visão de mundo de um mercador do que a de um escritor criativo. (P. 49).

Tanto Rustichello quanto Marco Polo descrevem sua prisão como um “calabouço”, mas o historiador medieval francês Jacques Heers apontou que Marco Polo, junto com outros prisioneiros “nobres” de Veneza, talvez tivesse ficado em um tipo de prisão domiciliar na casa de uma família genovesa. (p.54).

Ela fica dezesseis quilômetros a oeste de Pequim, sobre um rio que atualmente é conhecido como Yongding, mas que antes era chamado de Lugou. O termo que Marco Polo usou para ela, pulisanghin, ou é um nome persa para “ponte de pedra” ou um nome sino-persa para “ponte Sanggan” (um nome mais antigo do rio era Sanggan). Ele diz que ela ficava a dez milhas de Pequim “na direção do poente” e tinha cerca de trezentos ou quatrocentos passos de comprimento e oito ou nove passos de largura (esses valores variam nos diferentes manuscritos); e prossegue, “ela tem 24 arcos e 24 píeres na água que os sustentam e é de mármore cinza e muito bem trabalhada e com fundações muito boas. Acima, e de cada lado da ponte, há uma cortina bonita ou um paredão de painéis de mármore e pilares artificiais [somente em Ramusio] ...”. ele descreve os pilares com os leões de pedra que os sustentavam, o que parece com as estelas que costumavam ser erigidas em lugares especiais e que, geralmente, se apoiavam sobre cágados de pedra:
E de cada lado da ponte há diversos pilares pequenos e debaixo de cada pilar há um leão de pedra com base e, do mesmo modo, acima há a cabeça de um outro leão [esses detalhes só aparecem no compêndio latino do início do século XV, que agora está em Ferrara], e de um pilar ao outro ela é fechada com um painel de mármore cinzento todo trabalhado com diferentes esculturas e encaixado nas colunas laterais [somente em Ramusio] portanto, ao todo, na dita ponte, há 600 pilares com 1200 leões de pedra de cada lado da ponte, e todos são de mármore muito fino [somente na versão latina do século XIV].
Atualmente, a ponte só tem onze arcos e os registros chineses indicam que ela jamais tenha tido mais de treze; certamente, nunca teve 24. Yule considerou a possibilidade de que Marco Polo estivesse se lembrando de uma outra ponte, a oeste, sobre o rio Liuli.

A ponte de pedra que ainda existe foi construída em 1189-92, restaurada em 1444 e 1698, novamente. Ela tem 120 balaústres com pequenos leões entalhados no topo (mas não na base) e seus “painéis” intermediários são lisos. Em cada extremidade da ponte há um elefante entalhado na pedra que empurra a extremidade do parapeito com a testa. Visto que poucos detalhes sobreviveram às restaurações (p.98/ 99).
É possível que os elefantes seja uma adição posterior. Se dividirmos o número de arcos, se ignorarmos a omissão dos elefantes e a aparente substituição dos cágados por leões para sustentar as estelas, se dividirmos consideravelmente o número de leões pequenos (retirando os da base dos pilares, visto que não correspondem aos estilos chineses de construção de pontes), se ignorarmos o nome persa do local e se, como Moule, compilarmos a descrição a partir de diversos manuscritos em diferentes línguas, então essa descrição é passável. (p. 100).

Marco Polo não planejou o cerco nem foi o primeiro europeu a conhecer o khan mongol, e, passou pela China com olhos alternadamente abertos (à porcelana e aos palácios) ou fechados (aos pés das mulheres, a Grandes Muralhas e às xícaras de chá que eram oferecidas).
O livro de Marco Polo, apesar de ser repleto de descrições maravilhosas, também está cheio de dados imprecisos e discrepantes. Alguns deles explicam-se devido ao intervalo de tempo e a lapsos de memória, ou devido à falta de interesse do seu co-autor, mas alguns são mais problemáticos e podem ser interpretados de diversas maneiras. Mesmo se Rustichello for responsabilizado por algumas das omissões e elisões – e os copistas posteriores por outras –, a questão sobre por que o livro veio a ser escrito, quem era Marco Polo e em que ele contribuiu para o Descrição do mundo indicam que Marco Polo era um homem com uma curiosidade viva e, se o estilo da obra não for de responsabilidade total do escritor anônimo, com talento para descrições. (p. 121).

Outro documento nos arquivos venezianos, datado de 1305, diz respeito ao contrabando de vinho por Bonocio de Mestre, de quem um dos fiadores era Marco Polo. Esse último documento é de interesse especial, já que Marco Polo é chamado de “marcus paulo milion”, a primeira referência ao apelido “il milione”. (p. 137/ 138).
Marco Polo afirmava ter tido uma intimidade considerável com o khan, portanto, também poderia ter sido candidato a uma inclusão nos volumosos documentos chineses referentes ao período em questão; entretanto, um dos aspectos mais intrigantes da sua história, dada a posição de importância e proximidade com a corte que ele mesmo afirmava ter, é a falta de referência aos Polo nas fontes chinesas (ou fontes mongóis neste caso). No entanto, não são somente as fontes oficiais que são importantes, visto que a misteriosa missão de Novgorod de 1261 não consta do registro oficial, mas é mencionada no diário de um cortesão. (p. 141).

Apesar de não se ter certeza nem mesmo de qual foi a batalha que resultou no aprisionamento de Marco Polo, uma das certezas relativas que se tem sobre o Descrição do mundo é que ele foi escrito em conjunto. Impressionado pelas histórias fantásticas que Marco Polo contava para passar o tempo, fosse em um calabouço ou em outro tipo de confinamento, Rustichello talvez tenha sugerido uma colaboração literária. Em uma época anterior à impressão e aos direitos autorais, é difícil imaginar que se fizessem fortunas devido a um manuscrito muito circulado (e não, muito vendido); mas Rustichello, que havia dependido previamente do apoio de um herdeiro do trono inglês como resultado dos seus esforços literários, pode ter almejado um favor semelhante. (p. 151).

Trechos do livro: Frances Wood. Marco Polo foi à China?. Trad. De Betina Von Staa. Rio de Janeiro: Record, 1997. 192 p.

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