domingo, 9 de março de 2014

O que é a Psicologia?, Georges Canguilhem (1904-1995)




Georges Canguilhem (1904-1995)
Conferência dada no Collège Philosophique em 18/12/1956

O filósofo pode se dirigir ao psicólogo sob a forma de um conselho de orientação dizendo: quando saímos da Sorbonne pela Rua Saint-Jacques, podemos subir ou descer. Se subirmos, chegamos ao Pantheon, território de alguns grandes homens; se descermos, damos direto na delegacia de polícia.  (Canguilhem)              

Canguilhem na sua conferência proferida no Collège Philosophique em 1956 desferiu um feroz ataque à psicologia. Na ocasião disse que se tem a impressão ao ler muitos trabalhos de psicologia que estes misturam a uma filosofia sem rigor uma ética sem exigência e uma medicina sem controle. E explica: filosofia sem rigor porque é eclética sob o pretexto de objetividade. Ética sem exigência porque associa experiências sem crítica e medicina sem controle porque funda suas hipóteses na observação das doenças mentais as quais não tornou mais inteligível.
À falta de identidade da psicologia, corresponderia uma falta de objeto e uma diversidade de projetos metodológicos. Seria possível então situar uma unidade de domínio? Na época da conferência vigorava o projeto de Daniel Lagache, ex-colega e amigo de Canguilhem, de unificar a psicologia sob a definição de uma “teoria geral da conduta”. Esta seria a síntese das psicologias experimental e clínica, psicanálise, psicologia social e etnologia. Canguilhem critica esta pretensa unidade chamando-a de um “pacto de coexistência pacífica” sem embasamento lógico pela evidência de uma constância entre uma variedade de casos.   
Para Elisabeth Roudinesco a razão de um importante filósofo manifestar seu ódio a uma disciplina esta no fato de que este via no projeto unitário o perigo de se efetuar a submissão das diversas áreas do conhecimento a um modelo de instrumentalização do psiquismo humano. Do mesmo modo, pressentia o risco de que o projeto contaminasse de tal maneira o campo social que todas as formas de engajamento político e intelectual acabassem suplantadas por uma ciência da gestão dos fenômenos relacionais.
Canguilhem parte então para uma revisão do sentido inicial dos diversos empreendimentos ou disciplinas psicológicas a fim de evidenciar o disparate contemporâneo que fundamenta a questão “o que é a psicologia?”.
Quando ambicionou ser ciência natural, manteve-se dependente desde a antiguidade da medicina e da fisiologia. Como medicina da alma foi destruída por Galeno que tornou o cérebro a sede da alma. Como fisiologia integrou-se ao pensamento aristotélico no qual a alma é concebida como parte integrante do corpo vivo e não como substância separada da matéria.
Com o declínio da física aristotélica no séc XVII a psicologia se torna uma ciência da subjetividade, no sentido de, face à física mecanicista, procura explicar porque o psiquismo insiste enganar a razão no intento de apreender a realidade. Ela se torna uma física do sentido externo imitando a física mecanicista, buscando determinar as constantes quantitativas das sensações e suas relações. A partir do séc XVIII passa a ser ciência do sentido interno, da consciência de si, reduzida assim, segundo Canguilhem, a uma teoria da habilidade, da prudência e da sabedoria. Como ciência do íntimo foi suplantada pela psicanálise e pela psiquiatria.
No séc. XIX se constitui uma biologia do comportamento humano. Isto se deu pela importância que a biologia passa a adquirir no contexto do desenvolvimento industrial que exigiu respostas pragmáticas face às mudanças econômicas e sociais. Para Canguilhem, o que diferencia esta psicologia do comportamento das outras psicologias é a sua incapacidade de evidenciar seu projeto instaurador. Os psicólogos do comportamento negam totalmente o contexto histórico no qual foram levados a propor seus métodos e serviços.
Nietzsche percebe como problema o papel dos psicólogos, qual seja: o de o homem como instrumento do conhecimento analisar e conhecer a si mesmo. O que causa confusão em termos de pesquisa cientifica, tendo em vista que pressupunha uma clara diferença entre sujeito e objeto do conhecimento.     
Ao utilitarismo de um primeiro momento seguiu a idéia de um instrumentalismo: o uso do homem como meio de utilidade. Ao psicólogo cabe colocar cada homem com suas aptidões em seu devido lugar, numa constante adaptação a um meio sócio-técnico. Assim, é parte do psicólogo do comportamento uma convicção de superioridade, de poder gerencial das relações do homem com sua vida. Canguilhem indaga: Quem orienta estes dirigentes? Quem seleciona entre os homens aqueles que irão mensurar os homens. Neste ponto, defende o direito da filosofia se colocar ao lodo do povo, daqueles que sentem repugnância ao serem tratados como insetos e indagar da psicologia o seu estatuto.
 Esta conferência foi proferida em 1956, quando Canguilhem temia que a psicologia se tornasse uma ciência a serviço de uma tecnologia da submissão.  Segundo Roudinesco esta conferência foi publicada, com a autorização do autor em 1966. Por esta época havia o projeto de se construir uma ciência da revolução, baseada na lingüística saussuriana, no marxismo de Althusser e do freudismo de Lacan. Neste contexto a psicologia foi vista como uma ciência a serviço de uma ideologia da servidão e do confinamento. A partir disto o texto de Canguilhem foi visto como o maior ataque a psicologia e suas tendências disciplinares.
Por último, em 1980, numa conferência na Sorbonne, Canguilhem retoma o tema alertando para os perigos do novo localizacionismo decorrente da evolução das tecnologias de imagem. De que forma considerar o pensamento apenas uma secreção do cérebro ou crer no ideal cognitivista de que os estados psíquicos podem ser levianamente correlacionados aos estados cerebrais? Apesar destas “mitologias cerebrais”, Canguilhem alegava que o pensamento não é um lugar vazio, que uma máquina jamais escreveria “Em busca do tempo perdido” ou sua autobiografia. Alertou aos futuros psicólogos contra o perigo de tentar aumentar o rendimento do pensamento sem se preocupar com o significado de seu poder.      
O texto nos instiga a pensar a constituição da psicologia como ciência e quais as suas implicações para o campo. Assim ficam algumas questões: para que e para quem serve o conhecimento psicológico atualmente? De que forma este conhecimento tem sido utilizado? O que nos remete a pensar as implicações éticas deste fazer psicológico. Mais recentemente: pensar qual o papel da ciência, em especial o papel das ciências humanas e da saúde, no contexto da revolução tecnológica ou da tecnociência? Quais os perigos da disciplina frente aos atuais contextos? Como situar esta questão em nossas problematizações de pesquisa? Que psicologia queremos construir e a serviço de que/quem? Para onde vamos? Subir ou descer?   


CANGUILHEM, G (1956) O que é a Psicologia? Conferência no Collège Philosophique em 18/12/1956. Revista Tempo Brasileiro n. 30-31, 1973.

ROUDINESCO, E (2005) Filósofos na Tormenta. Zahar: Rio de Janeiro

  

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto, me esclareceu muitíssimo, este tema foi discussão em sala de aula na disciplina de Bases epistemológicas, e precisava entender o posicionamento de Canguilhem, para que a discussão tivesse exito. Excelente.

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