quinta-feira, 24 de abril de 2014

Língua: vidas em português

https://www.youtube.com/watch?v=VBcz2-R8N6s

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Eu profundo e os outros Eus, Fernando Pessoa

http://pt.slideshare.net/ametistah/o-eu-profundo-e-os-outros-eus-fernando-pessoa

Livro do desassossego, Fernando Pessoa

http://pt.slideshare.net/jopinslide/livro-do-desassossego

O ouro dos tigres, Jorge Luis Borges

http://pt.slideshare.net/ametistah/jorge-luis-borges-o-ouro-dos-tigres

Ficções. Jorge Luis Borges

http://pt.slideshare.net/MarcosJulio3/57171182-jorgeluisborgesficcoes?qid=800c6b32-c1ac-4345-a68f-79889f6a8ff0&v=qf1&b=&from_search=8

terça-feira, 22 de abril de 2014

Senhorita Cora, Julio Cortázar




We'll send your love to college, all for a year or two, and then perhaps in time the boy will do for you.

THE TREES THAT GROW SO HIGH (Canção folclórica inglesa)

NÃO ENTENDO por que não me deixam passar a noite na clínica com o menino, afinal sou sua mãe e o doutor De Luisi nos recomendou pessoalmente a o diretor. Poderiam trazer um sofá‑cama e eu lhe faria companhia para que vá se acostumando, o coitadinho entrou tão pálido como se já fossem operá-lo, acho que é esse cheiro das clínicas, seu pai também estava nervoso e não via a hora de ir embora, mas eu tinha certeza de que me deixariam com meu menino. Além do que ele tem apenas quinze anos, mas ninguém acreditaria nisso, sempre grudado em mim, ainda que agora com as calças compridas queira disfarçar e se fazer de homem. Que impressão deve ter tido quando percebeu, que não me deixavam ficar, ainda bem que seu pai falou com ele, o fez vestir o pijama e se meter na cama. E tudo isso por causa dessa pirralha de enfermeira, eu me pergunto se tem mesmo ordem dos médicos ou se faz isso por pura maldade. Mas bem que lhe disse, bem que lhe perguntei se tinha certeza de que eu devia ir embora. É só olhar para ela para perceber quem é, com esses ares de vamp e esse avental justo, uma criançola que pensa ser a diretora da clínica. Mas é claro, a coisa não ficou assim, eu lhe disse o que pensava e o menino não sabia onde se enfiar de vergonha e seu pai se fazia de desentendido e ainda aproveitava para ficar de olho em suas pernas, como sempre. Meu único consolo é que o ambiente é bom, nota-se que é uma clínica para gente bem; o menino tem um abajur daqueles para ler suas revistas, e por sorte seu pai se lembrou de trazer-lhe balas de menta, são as que ele mais gosta. Mas amanhã de manhã, é claro, a primeira coisa que vou fazer é falar com o doutor De Luisi para que ele ponha essa pirralha metida em seu lugar. E vamos ver se o cobertor esquenta bem o menino, por via das dúvidas vou pedir que lhe deixem outro à mão. Mas sim, claro que me esquenta, ainda bem que eles já foram embora, mamãe pensa que sou uma criança e me faz fazer cada papelão. Com certeza a enfermeira vai pensar que eu não sei pedir o que preciso, me olhou de um jeito quando mamãe estava reclamando... Está bem, se não a deixavam ficar o que é que vamos fazer, já sou grande o bastante pra dormir sozinho de noite, acho. E nesta cama dá prá dormir bem, não se ouve mais nenhum barulho, só às vezes de longe o zumbido do elevador que me faz lembrar aquele filme de terror que também se passava numa clínica, quando à meia-noite a porta se abria devagar e a mulher paralítica na cama via entrar o homem da máscara branca...

A enfermeira é muito simpática, voltou às seis e meia com uns papéis e começou a perguntar meu nome completo, idade, essas coisas. Eu guardei a revista em seguida porque teria sido melhor estar lendo um livro de verdade e não uma fotonovela, e acho que ela percebeu mas não disse nada, com certeza ainda estava chateada pelo que a mamãe tinha dito e pensava que eu era como ela e que ia lhe dar ordens ou coisa parecida. Perguntou‑me se o apêndice doía, e eu disse que não, que estava muito bem esta noite. "Vamos ver o pulso", me disse, e depois de tomá-lo anotou mais alguma coisa na ficha e pendurou-a ao pé da cama. "Você está com fominha?", perguntou, e acho que fiquei vermelho porque me surpreendeu que me tratasse assim, é tão jovem que isso me impressionou. Disse a ela que não, embora fosse mentira porque a essa hora sempre tenho fome. "Esta noite seu jantar vai ser bem leve", disse ela, e quando eu percebi já tinha apanhado meu saquinho de balas de menta e saía. Não sei se comecei a lhe dizer alguma coisa, acho que não. Me dava uma raiva que fizesse isso comigo como se eu fosse uma criança, podia muito bem ter dito que eu não devia comer balas, mas levá-las embora... Com certeza estava furiosa por causa da mamãe e descontava em mim, de puro ressentimento; sei lá, depois que ela saiu minha brabeza passou de repente, queria continuar chateado com ela mas não conseguia. Como ela é jovem, na certa não, tem nem dezenove anos, deve ter se tornado enfermeira há muito pouco tempo. Talvez ela venha me trazer o jantar; vou lhe perguntar como se chama, se vai ser minha enfermeira tenho de chamá-la pelo nome. No fim veio uma outra, uma senhora muito amável vestida de azul que me trouxe uma sopa e bolachas e me fez tomar uns comprimidos verdes. Ela também perguntou como eu me chamava e se eu me sentia bem, e disse que nesse quarto eu dormiria tranqüilo, pois era um dos melhores da clínica, e é verdade porque dormi quase até as oito quando fui acordado por uma enfermeira miudinha e enrugada como um macaco mas muito amável, que disse que eu podia me levantar e me lavar, mas antes me deu um termômetro e disse que eu o colocasse como se faz nessas clínicas, e eu não entendi, porque lá em casa se coloca debaixo do braço, e então ela me explicou e saiu. Logo depois mamãe chegou e que alegria ver você tão bem, eu estava com medo que o pobre querido tivesse passado a noite em claro, mas as crianças são assim, em casa tanto trabalho, depois dormem a sono solto mesmo longe de sua mamãe, coitada, que não pregou os olhos a noite inteira. O doutor De Luisi entrou para examinar o menino e eu saí por um momento porque ele já está bem grandinho e porque queria me encontrar com a enfermeira de ontem para ver bem a sua cara e colocá-la em seu lugar apenas olhando para ela de cima a baixo, mas não havia ninguém no corredor. Quase em seguida o doutor De Luisi saiu e me disse que iam operar o menino na, manhã seguinte, e que ele estava muito bem e nas melhores condições para a operação, em sua idade uma apendicite é uma bobagem. Agradeci muito e aproveitei para lhe dizer que a impertinência da enfermeira da tarde tinha me chamado a atenção, que eu dizia isso porque não era possível que faltasse o cuidado necessário a meu filho. Depois entrei no quarto para fazer companhia ao menino, que estava lendo suas revistas e já sabia que iam operá-lo no dia seguinte. Como se isso fosse o fim do mundo, a coitada me olha de um jeito, mas eu não vou morrer, mamãe, faça-me o favor. Tiraram o apêndice do Cacho no hospital e seis dias depois ele já estava querendo jogar futebol. Fique tranqüila que eu estou muito bem e não me falta nada. Sim, mamãe, sim, dez minutos querendo saber se dói aqui ou ali, ainda bem que tem de cuidar da minha irmã lá em casa, no fim ela foi embora e eu pude terminar a fotonovela que tinha começado ontem à noite.

A enfermeira da tarde se chama senhorita Cora, eu perguntei à enfermeira miudinha quando me trouxe o almoço; me deram bem pouca comida e de novo comprimidos verdes e umas gotas com gosto de menta; acho que essas gotas fazem dormir porque as revistas me caíam da mão e de repente eu estava sonhando com o colégio e íamos fazer um piquenique com as garotas do normal como no ano passado e dançávamos à beira da piscina, era muito divertido. Acordei lá pelas quatro e meia e comecei a pensar na operação, não que eu tenha medo, o doutor De Luisi disse que não é nada, mas deve ser estranho a anestesia e que lhe cortem enquanto você está dormindo, o Cacho dizia que o pior é acordar, que dói muito e que nessa hora você vomita e tem febre. O menininho da mamãe já não está tão aceso como ontem, está na cara que tem um pouco de medo, é tão novinho que quase me dá pena. Sentou-se de repente na cama quando me viu entrar e escondeu a revista debaixo do travesseiro. O quarto estava um pouco frio e fui aumentar a calefação, depois trouxe o termômetro e o dei a ele. "Você sabe colocá-lo?", perguntei, e suas faces pareciam a ponto de rebentar de tão vermelho que ele ficou. Disse que sim com a cabeça e se estirou na cama enquanto eu baixava as persianas e acendia o abajur. Quando me aproximei para que me desse o termômetro, continuava tão vermelho que eu quase caí na risada, mas com os meninos dessa idade é sempre assim, é difícil para eles acostumarem-se a essas coisas. E pra piorar me olha nos olhos, por que é que eu não consigo sustentar esse olhar se afinal ela não passa de uma mulher, quando tirei o termômetro de baixo das cobertas e o entreguei, ela me olhava e eu acho que sorria um pouco, deve estar tão na cara que eu fico vermelho, é um lance que eu não posso evitar, é mais forte que eu. Depois anotou a temperatura numa folha que está ao pé da cama e saiu sem dizer nada. Quase não me lembro mais do que falei com papai e com mamãe quando vieram me ver às seis. Ficaram pouco tempo porque a senhorita Cora lhes disse que era preciso preparar-me e seria melhor que eu ficasse tranqüilo na noite anterior. Pensei que mamãe fosse soltar uma das suas mas só olhou pra ela de cima a baixo, papai também, mas eu conheço os olhares do velho, é um lance bem diferente. Justo quando estava saindo ouvi mamãe dizer à senhorita Cora: "Agradecerei que o atenda bem, é uma criança que sempre esteve muito rodeada pela família", ou alguma besteira desse tipo, e eu queria morrer de raiva, nem escutei o que a senhorita Cora respondeu, mas tenho certeza de que não gostou, deve estar pensando que andei reclamando dela ou coisa parecida.

Voltou lá pelas seis e meia com uma dessas mesas de rodinha cheia de frascos e algodões, e eu não sei por que, de repente, me deu um pouco de medo, na verdade não era medo mas comecei a olhar o que tinha na mesinha, todo o tipo de frascos, azuis ou vermelhos, cilindros de gaze e também pinças e tubos de borracha, o coitado devia estar começando a se assustar sem a mamãe que parece um papagaio endomingado, lhe agradecerei que atenda bem o menino, olhe que falei com o doutor De Luisi, mas sim, senhora, vamos atendê-lo como a um príncipe. Seu menino é bonito, senhora, com essas faces que se coram assim que me vê entrar. Quando tirei seus cobertores ele fez um gesto como se quisesse se cobrir de novo, e acho que percebeu que eu me divertia vendooo tão cheio de pudores. "Vamos lá, desça a calça do pijama", disse a ele sem encará-lo. "A calça?", perguntou com uma voz de taquara rachada. "Sim, claro, a calça", repeti, e ele começou a soltar o cordão e a desabotoá-la com uns dedos que não lhe obedeciam. Eu mesma tive de baixar-lhe as calças até a metade das coxas, e era bem como eu tinha imaginado. "Você já é um garoto crescidinho", lhe disse, preparando o pincel e o sabão, mas a verdade é que não tinha quase nada para raspar. Como lhe chamam em casa?", perguntei enquanto o ensaboava. "Meu nome é Pablo", respondeu-me com uma voz de dar dó, tamanha era a vergonha. "Mas você deve ter algum apelido", insisti, e foi pior ainda porque me pareceu que ele ia cair no choro enquanto eu lhe raspava os poucos pelinhos que existiam por ali. "Então você não tem nenhum apelido? É só o menino, claro." Terminei de barbeá-lo e lhe fiz um sinal para que se cobrisse, mas ele se adiantou e num segundo estava coberto até o pescoço. "Pablo é um nome bonito", disse para consolá-lo um pouco; quase me dava pena vê-lo tão envergonhado, era a primeira vez que eu tinha que cuidar de um garotinho tão jovem e tão tímido, mas alguma coisa nele, que devia vir de sua mãe, continuava me incomodando, algo mais forte que a sua idade e que não me agradava, e até me irritava que fosse tão bonito e tão bem feito para os seus anos, um guri que já devia se achar um homem e que na primeira deixa seria capaz de me dar uma cantada.

Fiquei com os olhos fechados, era o único jeito de fugir um pouco disso tudo, mas não adiantava nada porque bem nesse momento ela falou: "Então você não tem nenhum apelido? É só o menino, claro", e eu queria morrer, ou agarrá-la pelo pescoço e sufocá-la, e quando abri os olhos vi seus cabelos castanhos quase colados em meu rosto porque tinha se agachado para tirar de mim um resto de sabão, e tinha um cheiro de xampu de amêndoas como o que a professora de desenho usa, ou um perfume desses, e eu não soube o que dizer e a única coisa que me veio à cabeça foi perguntar: "Você se chama Cora, não é?" Olhou-me com ar irônico, com esses olhos que já me conheciam e já tinham me visto inteirinho, e disse: "Senhorita Cora". Disse isso pra me castigar, eu sei, como antes tinha dito: "Você já é um garoto crescidinho", só pra gozar de mim. Embora eu tenha raiva de ficar vermelho, nunca consiga disfarçar e seja a pior coisa que pode me acontecer, me animei a dizer: "Você é tão jovem que... Bem, Cora é um nome muito bonito". Não era nada disso, o que eu queria ter dito era outra coisa e acho que ela percebeu e se chateou, agora tenho certeza de que está ressentida por causa da mamãe, eu só queria dizer que ela era tão jovem que eu gostaria de poder chamá-la de Cora apenas, mas como eu podia dizer isso agora que ela estava chateada e já saía com a mesa de rodinhas e eu tinha vontade de chorar, essa é outra coisa que eu não posso evitar, de repente minha voz se quebra e vejo tudo nublado, bem quando eu precisaria ficar mais calmo para dizer o que penso. Ela ia sair mas quando chegou na porta deu uma parada pra ver se não estava esquecendo nada, e eu queria dizer o que estava pensando mas não achava as palavras e a única coisa que me passou pela cabeça foi apontar pra bacia com o sabão, tinha sentado na cama e depois de clarear a voz disse: "Está esquecendo a bacia com o sabão", muito sério e com um tom de homem grande. Voltei para pegar a bacia e meio para que se acalmasse passei a mão pelo seu rosto. "Não se aflija, Pablito", lhe disse. "Tudo vai dar certo, é uma operação de nada." Quando o toquei jogou a cabeça para trás como se estivesse ofendido, e depois deslizou até esconder a boca na borda do cobertor. Então disse, ofegante: "Posso chamá-la de Cora, não é? Sou boa demais, quase me deu pena tanta vergonha que procurava compensar de outro jeito, mas sabia que não era o caso de ceder porque depois seria difícil para mim dominá-lo, e um doente deve ser dominado ou acontece o de sempre, os rolos de Maria Luisa no quarto 14 ou as broncas do doutor De Luisi, que tem um faro de cão para essas coisas. "Senhorita Cora", me disse, pegando a bacia e saindo. Me deu uma raiva, uma vontade de bater nela, de pular da cama e expulsá-la no tapa, ou de... Não consigo nem mesmo entender como pude lhe dizer: "Se eu estivesse bom quem sabe você me tratasse de outro jeito". Ela fingiu que não ouviu, nem virou a cabeça, e fiquei sozinho sem vontade de ler, sem vontade de nada, no fundo gostaria que tivesse me respondido indignada pra poder pedir desculpas porque na verdade não era o que eu tinha pensado em lhe dizer, estava com a garganta tão fechada que não sei como as palavras tinham saído, tinha falado de pura raiva mas não era nada disso, ou talvez fosse, mas de outro jeito.

Que dúvida, são todos iguais, a gente os acaricia, diz uma frase amável, e aí sem mais nem menos surge o machinho, não querem se convencer de que ainda são uns guris. Tenho de contar isso ao Marcial, vai se divertir e quando o vir amanhã na mesa de operações vai achar mais graça ainda, tão fofinho o coitado com esse rostinho esbraseado, maldito calor que me sobe pela pele, o que eu poderia fazer pra que isso não me acontecesse, talvez respirando fundo antes de falar, sei lá. Deve ter saído furiosa, tenho certeza de que ouviu perfeitamente, não sei como é que eu disse isso, acho que quando perguntei se poderia chamá-la de Cora não se chateou, me disse o tal de senhorita porque é sua obrigação mas não estava chateada, a prova é que veio e me acariciou o rosto; mas não, isso foi antes, primeiro me acariciou e aí eu falei na tal história de Cora e botei tudo a perder. Agora estamos pior do que antes e não vou conseguir dormir mesmo que me dêem um vidro de comprimidos. De vez em quando minha barriga dói, é estranho passar a mão e se sentir tão liso, o ruim é que volto a me lembrar de tudo e do perfume de amêndoas, da voz de Cora, tem uma voz muito grave pra uma garota tão jovem e linda, uma voz como de cantora de boleros, que acaricia mesmo estando chateada. Quando ouvi os passos no corredor deitei-me de vez e fechei os olhos, não queria vê-la, não me interessava vê-la, era melhor que me deixasse em paz, senti que entrava e que acendia a luz de cima, ele fingia dormir como um anjinho, com a mão cobrindo o rosto, e não abriu os olhos até que cheguei ao lado da cama. Quando viu o que eu trazia ficou tão vermelho que me deu pena de novo e vontade de rir, era realmente muito idiota. "Vamos lá, meu filhinho, abaixe a calça e se vire para o outro lado", e o coitado a ponto de espernear como faria com a mamãe quando tinha cinco anos, imagino, dizendo que não e chorando e se enfiando debaixo das cobertas e gritando, mas o coitado não podia fazer nada disso agora, ficou apenas olhando para o irrigador e depois para mim, que esperava, e de repente se virou e começou a mexer as mãos por baixo dos cobertores mas não se acertava enquanto eu pendurava o irrigador na cabeceira, e tive de puxar os cobertores e mandar que levantasse um pouco o traseiro para melhor baixar suas calças e deslizar-lhe uma toalha. "Vamos lá, levante um pouco as pernas, assim está bem, deite mais de bruços, estou dizendo que se deite mais de bruços, assim." Tão calado que era quase como se gritasse, por um lado eu achava graça em estar vendo a bundinha de meu jovem admirador, mas sentia outra vez um pouco de pena dele, era como se realmente o estivesse castigando pelo que me dissera. "Avise se estiver muito quente", preveni-o, mas ele não respondeu, devia estar mordendo o punho e eu não queria ver seu rosto e por isso me sentei na beira da cama e esperei que ele dissesse alguma coisa, mas embora fosse bastante líquido agüentou tudo sem uma palavra até o fim, e quando terminou eu disse, e isso sim eu disse para compensar o de antes: "Assim que eu gosto, um homenzinho de verdade", e o cobri enquanto lhe recomendava que agüentasse o máximo possível antes de ir ao banheiro. "Quer que eu apague a luz ou a deixo acesa até que você se levante?", perguntou-me da porta. Não sei como consegui dizer que dava na mesma, alguma coisa assim, e ouvi o barulho da porta se fechando e então cobri a cabeça com os cobertores e fazer o quê, apesar das cólicas mordi as duas mãos e chorei tanto que ninguém pode imaginar o que eu chorei enquanto a xingava e a insultava e cravava uma faca em seu peito cinco, dez, vinte vezes, maldizendo-a a cada vez e gozando do que sofria e de como me suplicava que a perdoasse pelo que me fizera.

É sempre a mesma coisa, hein, Suárez, a gente corta, abre e de repente a grande surpresa. Claro que nessa idade o piá tem todas as chances a seu favor, mas mesmo assim vou falar claro com o pai, vai que acontece qualquer atrapalho. O mais provável é que haja uma boa reação, mas se alguma coisa falha, pense no que aconteceu no começo da anestesia: parece mentira num piá dessa idade. Fui vê-lo às duas horas e ele estava bastante bem em vista do que a coisa durou. Quando o doutor De Luisi entrou eu estava secando a boca do coitado, não parava de vomitar e ainda estava anestesiado mas o doutor o auscultou do mesmo jeito e me pediu que não saísse do seu lado até que estivesse bem desperto. Os pais continuam no outro quarto, vê-se que a boa senhora não está acostumada a essas coisas, de repente se acabaram suas bravatas, e o velho parece um trapo. Vamos, Pablito, vomite se tiver vontade e gema o quanto quiser, eu estou aqui, sim, claro que estou aqui, o coitado continua adormecido mas agarra minha mão como se estivesse se afogando. Deve pensar que sou sua mãe, todos pensam isso, é tão monótono. Vamos, Pablo, não se mexa desse jeito, quieto senão vai lhe doer mais, não, deixe as mãos tranqüilas, não pode tocar aí. O coitado não consegue sair da anestesia, Marcial me disse que a operação tinha sido muito demorada. É estranho, devem ter tido alguma complicação: às vezes o apêndice não está tão visível, vou perguntar ao Marcial esta noite. Sim, meu filhinho, estou aqui, gema o quanto quiser mas não se mexa tanto, eu vou molhar seus lábios com este pedacinho de gelo numa gaze, assim sua sede vai passando. Sim, querido, vomite mais, alivie-se o quanto quiser. Que força você tem nas mãos, assim vai me deixar toda roxa, sim, sim, chore se tiver vontade, chore, Pablito, isso alivia, chore e gema, você está totalmente adormecido e pensa que sou a mamãe. Você é bem bonito, sabe, com esse nariz um pouco arrebitado e esses cílios como cortinas, parece mais velho agora que está tão pálido.

Já não ficaria vermelho por nada, não é, meu pobrezinho. Me dói, mamãe, me dói aqui, me deixe tirar esse peso que me colocaram, tenho alguma coisa na barriga que pesa tanto e me dói, mamãe, diga à enfermeira que me tire isso. Sim, meu filhinho, já vai passar, fique um pouco quieto, por que será que é tão forte? vou ter de chamar Maria Luisa para me ajudar. Vamos, Pablo, se você não ficar quieto vou me chatear, vai doer muito mais se continuar se mexendo tanto. Ah, parece que você começa a perceber, me dói aqui, senhorita Cora, me dói tanto aqui, faça alguma coisa, por favor, me dói tanto aqui, solte minhas mãos, não agüento mais, senhorita Cora, não agüento mais.

Ainda bem que o pobre querido dormiu, a enfermeira veio me procurar às duas e meia e me disse para ficar um instantinho com ele, que já estava melhor, mas me parece tão pálido, deve ter perdido tanto sangue, ainda bem que o doutor De Luisi disse que tudo tinha ido bem. A enfermeira estava cansada de lutar com ele, eu não entendo por que não me fez entrar antes, nesta clínica são muito rigorosos. Já é quase noite e o menino dormiu o tempo todo, vê-se que está esgotado, mas me parece que tem melhor aparência, um pouco mais corado. De vez em quando ainda geme mas já não quer tocar a atadura e respira tranqüilo, acho que terá uma noite muito boa. Como se eu não soubesse o que devo fazer, mas era inevitável; mal se recuperou do primeiro susto a boa senhora teve outra vez os desplantes de patroa, por favor que não vá faltar nada ao menino durante a noite, senhorita. Sorte sua que só tenho pena de você, velha estúpida, se não ia ver como é que eu lhe tratava. Conheço bem o tipo, acham que com uma boa gorjeta no último dia acertam tudo. E às vezes a gorjeta nem é tão boa, mas para que continuar pensando nisso, ela já foi embora e tudo está calmo. Marcial, fique aqui um pouco, não vê que o menino está dormindo, me conte o que aconteceu de manhã. Bem, se você estiver pressa deixamos para depois. Não, olhe que Maria Luisa pode entrar, aqui não, Marcial. Claro, lá vem você com uma das suas, já disse que não quero que me beije quando estou trabalhando, não é certo. Até parece que não temos a noite inteira para nos beijar, seu tonto.  Vá embora. Sim, querido, até logo. Claro que sim. Muito mesmo.

Está bem escuro mas é melhor assim, não tenho vontade de abrir os olhos. Quase não dói mais, que bom estar respirando assim devagar, sem os enjôos. Tudo está tão quieto, agora me lembro que vi mamãe, nem sei o que me disse, estava me sentindo tão mal. Nem olhei direito pro velho, estava ao pé da cama e me piscava um olho, o coitado sempre do mesmo jeito. Estou com um pouco de frio, queria mais um cobertor. Senhorita Cora, eu queria mais um cobertor. Ela estava mesmo ali, assim que abri os olhos a vi sentada ao lado da janela lendo uma revista. Veio em seguida e me cobriu, quase não tive tempo de dizer nada porque ela logo percebeu. Agora me lembro, eu acho que a confundia com mamãe esta tarde e que ela me acalmava, ou então andei sonhando. Andei sonhando, senhorita Cora? Você segurava minhas mãos, não é? Eu dizia tanta besteira, mas é que doía muito, e aquele enjôo... Desculpe, não deve ser nem um pouco agradável ser enfermeira. Sim, você ri mas eu sei, devo tê-la sujado e tudo o mais. Bom, não vou continuar falando. Estou tão bem assim, não tenho mais frio. Não, não dói muito, só um pouquinho. É tarde, senhorita Cora? Shh, você agora fique quietinho, já lhe disse que não pode falar muito, alegre-se por não estar doendo e fique bem quieto. Não, não é tarde, são apenas sete horas. Feche os olhos e durma. Assim. Agora durma.

Sim, eu gostaria mas não é tão fácil. Às vezes parece que vou dormir, mas de repente o corte me dá uma fisgada ou tudo gira em minha cabeça, e tenho de abrir os olhos e olhar pra ela, está sentada ao lado da janela e colocou o quebra-luz pra ler sem que a claridade me incomode. Por que será que fica aqui o tempo todo? Tem um cabelo lindo, que brilha quando mexe a cabeça. E é tão jovem, pensar que hoje a confundi com mamãe, é incrível. Sabe-se lá que coisas eu andei dizendo, deve ter rido outra vez de mim. Mas passava gelo pela minha boca, isso me aliviava tanto, agora me lembro, colocou água-de-colônia em minha testa e no cabelo, e segurava minhas mãos pra que eu não tirasse o curativo. Não está mais chateada comigo, talvez mamãe tenha lhe pedido desculpas, qualquer coisa assim, me olhava de outro jeito quando falou: "Feche os olhos e durma". Gosto que ela me olhe assim, parece mentira o que aconteceu no primeiro dia, quando levou, minhas balas. Eu queria dizer-lhe que é tão linda, que não tenho nada contra ela, pelo contrário, que gosto que seja ela quem cuida de mim de noite e não a enfermeira miudinha. Queria que me passasse de novo água-de-colônia nos cabelos. Queria que me pedisse desculpas, que me dissesse que posso chamá-la de Cora.

Dormiu por um bom tempo, às oito calculei que o doutor De Luisi não demoraria e acordei-o para tomar sua temperatura. Estava com melhor aparência e lhe fizera bem dormir. Assim que viu o termômetro tirou a mão para fora das cobertas, mas eu lhe disse que ficasse quieto. Não queria olhá-lo nos olhos para que não sofresse mas ele ficou vermelho do mesmo jeito e começou a dizer que podia muito bem se virar sozinho. Não liguei para ele, claro, mas o coitado estava tão tenso que não tive remédio senão dizer-lhe: "Vamos, Pablo, você já é um homenzinho, não vai ficar assim a cada vez, não é?" É sempre a mesma coisa, com essa fragilidade não pode conter as lágrimas; fiz de conta que não percebia nada, anotei a temperatura e fui preparar sua injeção. Quando voltou eu já tinha enxugado os olhos no lençol e estava com tanta raiva de mim mesmo que daria qualquer coisa pra poder falar, dizer que não me importava, que na verdade não me importava, só que eu, não conseguia evitar. "Isto não dói nada", me disse com a seringa na mão. "E para que durma bem a noite toda." Descobriu-me e outra vez senti que o sangue me subia pelo rosto, mas ela sorriu um pouco e começou a esfregar minha coxa com um algodão molhado. "Não dói nada", lhe disse porque tinha que dizer alguma coisa, eu não podia ficar assim enquanto ela me olhava. "Você vai ver", me disse pegando a agulha e me esfregando com o algodão. "Você vai ver que não doi nada. Nada tem que lhe doer Pablito."  Cobriu-me epassou a mão pelo rosto. Eu fechei os olhos e queria estar morto, estar morto e que ela passasse a mão pelo meu rosto, chorando.

Nunca entendi muito a Cora mas desta vez a coisa passou dos limites. A verdade é que não me importa se não entendo as mulheres, a única coisa que vale a pena é elas gostarem da gente. Se estão nervosas, se fazem tempestade em copo d'água, tudo bem, meu anjo, deixe pra lá, me dê um beijo e fim. Vê-se que  ela ainda é delicadinha, vai se passar um bom tempo até que aprenda a viver nesta profissão maldita, a coitada apareceu esta noite com uma cara estranha e levei meia hora para fazê-la esquecer essas bobagens. Ainda não sabe como lidar com certos doentes, já lhe aconteceu com a velha do 22 mas eu pensava que desde então tinha aprendido um pouco, e agora este piá volta a lhe dar dor de cabeça. Estivemos tomando mate em meu quarto por volta das duas da manhã, depois foi lhe dar injeção e quando voltou estava de mau humor, não queria nada comigo. Ficava bonita com essa carinha chateada, tristonha, irias aos pouquinhos eu a fui mudando, e no fim começou a rir e me contou, nessa hora gosto tanto de tirar sua roupa e sentir que treme um pouco como se tivesse frio. Deve ser muito tarde, Marcial, ah, então posso ficar mais um pouco, a outra injeção é só às cinco e meia, a galeguinha não chega antes das seis. Desculpe, Marcial, eu sou uma boba, veja só eu me preocupando tanto com esse guri, no fim das contas eu o tenho sob controle mas às vezes me dá pena, nessa idade são tão bobinhos, tão orgulhosos, se pudesse pediria ao doutor Suárez que me transferisse, há dois operados no segundo andar, adultos, a gente lhes pergunta tranqüilamente se fizeram cocô, passa-lhes o papagaio, limpa-os se preciso, tudo isso falando do tempo ou da política, é um ir e vir de coisas naturais, cada um está na sua, Marcial, não é como aqui, entende. Sim, claro que é preciso fazer de tudo, quantas vezes vou ter de lidar com garotos dessa idade, como você diz é uma questão de técnica. Sim, querido, claro. Mas é que tudo começou mal por causa da mãe, isso não se apagou, sabe, desde o primeiro minuto houve um mal-entendido, e o garoto tem seus brios e sofre, principalmente porque no começo não sabia o que vinha pela frente e quis dar uma de adulto, olhar-me como se fosse você, como um homem. Agora não posso nem lhe perguntar se quer fazer xixi, o problema é que seria capaz de agüentar a noite toda se eu ficasse no quarto. Acho graça quando me lembro, ele queria dizer que sim e não se animava, então me cansei de tanta idiotice e o obriguei a aprender a fazer xixi sem se mexer, bem deitado de costas. Sempre fecha os olhos nessas horas mas isso é quase pior, fica a ponto de chorar ou me insultar, fica entre as duas coisas e não consegue, é tão garoto, Marcial, e essa boa senhora que deve tê-lo criado como um tolinho, menininho pra cá, menininho pra lá, muito chapéu e paletó sob medida mas no fundo o bebê de sempre, o tesourinho da mamãe. Ali, e justamente eu é que tenho de lidar com ele, eu, a alta voltagem como você diz, quando ele ficaria tão bem com Maria Luisa que é idêntica a sua tia e que o teria limpado por todos os lados sem que as cores lhe subissem ao rosto. Não, a verdade é que não tenho sorte, Marcial.

Estava sonhando com a aula de francês quando acendeu a luz do abajur, a primeira coisa que vejo sempre é o cabelo, por que será que tem de se agachar para as injeções ou o que quer que seja, o cabelo perto do meu rosto, uma vez me fez cócegas na boca e tem um perfume tão gostoso, e sempre me sorri um pouco quando está me esfregando com o algodão, me esfregou um tempão antes de me picar e eu olhava sua mão tão firme apertando pouco a pouco a seringa, o líquido amarelo que entrava devagar, me fazendo sentir dor. "Não, não dói nada." Nunca vou poder dizer: "Não, não dói nada, Cora". E nem vou dizer senhorita Cora, isso eu não vou dizer nunca. Falarei o mínimo possível com ela, e não vou chamá-la de senhorita Cora mesmo, nem que me peça de joelhos. Não, não dói nada. Não, obrigado, estou me sentindo bem, vou continuar dormindo. Obrigado.

Por sorte está corado de novo mas ainda está muito abatido, mal pode me dar um beijo, e quase não olhou para a tia Esther, embora ela tenha lhe trazido as revistas e uma linda gravata para o dia em que o levarmos para casa. A enfermeira da manhã é um amor de mulher, tão humilde, com ela sim dá gosto conversar, diz que o menino dormiu até as oito e que tomou um pouco de leite, parece que agora vão começar a alimentá-lo, tenho de dizer ao doutor Suárez que o chocolate lhe faz mal, ou quem sabe seu pai já tenha lhe falado porque estiveram conversando um instante. Se quiser sair um momento, senhora, vamos ver como anda este homem. Pode ficar, senhor Morán, é que a mãe pode se impressionar com tanta atadura. Vamos dar uma olhada, companheiro, aqui dói? Claro, é natural. E aqui? Me diga se aqui dói ou se só está sensível. Bem, estamos indo muito bem, amiguinho. E assim por cinco minutos, se dói aqui, se estou sensível ali, e o velho olhando a minha barriga como se a visse pela primeira vez. É estranho, mas não me sinto tranqüilo até eles saírem, pobres velhos tão aflitos, mas o que é que vou fazer, me incomodam, sempre dizem o que não é preciso dizer, principalmente mamãe, e ainda bem que a enfermeira miudinha parece surda e suporta tudo com essa cara de esperar gorjeta que a coitada tem. Lá vem ela amolar com o lance do chocolate, como se eu fosse uma criança de colo. Me dá vontade de dormir cinco dias seguidos sem ver ninguém, principalmente sem ver Cora, e acordar só quando vierem me buscar pra ir pra casa. Talvez tenha de esperar mais alguns dias, senhor Morán, já saberá por De Luisi que a operação foi mais complicada do que o previsto, às vezes há pequenas surpresas. Claro que com a constituição desse garoto eu creio que não haverá problema, mas é melhor que diga a sua esposa que não vai ser coisa de uma semana, como se pensou no princípio. Ah, claro, bem, disso o senhor falará com o administrador, são coisas internas. Agora você veja se não é um azar, Marcial, ontem à noite eu o avisei, isso vai durar muito mais do que pensávamos. Sim, já sei que não importa mas você podia ser um pouco mais compreensivo, sabe muito bem que não fico feliz em cuidar desse menino, muito menos ele, coitadinho. Não me olhe assim, por que não ficaria com pena? Não me olhe assim.

Ninguém me proibiu que lesse mas as revistas me caem da mão, e olhe que tenho duas histórias pra terminar e tudo, o que a tia Esther me trouxe. Meu rosto arde, devo estar com febre ou talvez faça muito calor neste quarto, vou pedir a Cora que abra um pouco a janela ou que me tire um cobertor. Queria dormir, isso é o que eu mais queria, que ela estivesse ali sentada lendo uma revista e eu dormindo sem vê-la, sem saber que está ali, mas agora não vai ficar mais de noite, o pior já passou e vão me deixar sozinho. Acho que dormi um pouco das três às quatro, às cinco em ponto veio com um remédio novo, umas gotas muito amargas. Parece que sempre acabou de tomar, banho e trocar de roupa. Tem um frescor e um cheiro de talco perfumado, de lavanda. "Este remédio é muito ruim, já sei", me disse, e sorria pra me animar. "Não, é um pouco amargo, só isso", lhe disse. "Como passou o dia?", perguntou-me, sacudindo o termômetro. Disse que passei bem, que dormindo, que o doutor Suárez tinha me achado melhor, que não estava doendo muito. "Bem, então você pode trabalhar um pouco", disse me dando o termômetro. Eu não soube o que responder e ela foi fechar as persianas e arrumou os frascos na mesinha enquanto eu tomava a minha temperatura. Até tive tempo de dar uma olhada no termômetro antes que viesse buscá-lo. "Mas eu estou com muita febre", me disse como se estivesse assustado. Era fatal, serei sempre a mesma estúpida, para evitar-lhe o constrangimento lhe dou o termômetro e naturalmente o sacaninha não perde tempo em saber que está ardendo em febre. "É sempre assim nos primeiros quatro dias, e além disso ninguém mandou que você olhasse", lhe disse, mais furiosa comigo que com ele. Perguntei-lhe se tinha movido o ventre e ele disse que não. Seu rosto suava, sequei-o e passei um pouco de água-de-colônia; tinha fechado os olhos antes de me responder e não os abriu enquanto eu o penteava um pouco para que o cabelo na testa não o incomodasse. Trinta e nove e nove era muita febre, realmente. "Tente dormir um pouco", lhe disse, calculando a que hora poderia avisar o doutor Suárez. Sem abrir os olhos fez um gesto meio aborrecido, e articulando cada palavra me disse: "Você é muito má comigo, Cora". Não consegui responder nada, fiquei ao seu lado até que abriu os olhos e me olhou com toda sua febre e toda sua tristeza. Quase sem perceber estendi a mão e quis acariciar sua testa, mas me repeliu com um gesto e deve ter sentido uma fisgada no corte porque se torceu" de dor. Antes que pudesse reagir me disse com a voz muito baixa: "Você não seria assim comigo se tivesse me conhecido em outro lugar". Quase caí na risada, mas era tão ridículo que ele me dissesse isso enquanto seus olhos se enchiam dê lágrimas que me aconteceu o de sempre, tive raiva e quase medo, de repente me senti meio desamparada diante desse moleque pretensioso. Consegui me dominar (devo isso a Marcial, me ensinou a controlar-me e faço isso cada vez melhor), e me aprumei como se nada tivesse acontecido, ajeitei a colcha e fechei o frasco de água-decolônia. Enfim, agora sabíamos como nos situar, no fundo era bem melhor assim. Enfermeira, paciente, e paramos por aí. Que a mãe lhe pusesse água-de-colônia, eu teria de lhe fazer outras coisas e as faria sem mais contemplações. Não sei por que fiquei mais que o necessário. Marcial me disse, quando lhe contei, que eu quisera lhe dar uma chance de se desculpar, de pedir perdão. Não sei, talvez tenha sido isso, ou alguma coisa diferente, talvez tenha ficado para que continuasse me insultando, para ver até onde ele era capaz de chegar. Mas continuava com os olhos fechados e o suor encharcava sua testa e as faces, era como se me tivessem colocado em água fervente, via manchas violetas e vermelhas quando apertava os olhos para não vê-la, sabendo que ainda estava ali, e teria dado qualquer coisa para que se inclinasse e voltasse a secar minha testa como se eu não lhe tivesse dito isso, mas agora era impossível, iria embora sem fazer nada, sem me dizer nada, e eu abriria os olhos e encontraria a noite, o abajur, o quarto vazio, ainda um pouco de perfume, e me repetiria dez vezes, cem vezes, que eu estava certo em lhe dizer o que tinha dito, para que aprendesse, para que não me tratasse como criança, para que me deixasse em paz, para que não saísse.

Começam sempre na mesma hora, entre seis e sete da manhã, deve ser um casal que se aninha nas cornijas do pátio, um pombo que arrulha e a pomba que responde, num instante se cansam, disse isso à enfermeira miudinha que vem me lavar e trazer o café da manhã, deu de ombros e disse que outros pacientes já tinham se queixado das pombas mas que o diretor não queria que as tirassem. Já não sei há quanto tempo as ouço, nas primeiras manhãs estava muito sonolento ou dolorido pra prestar atenção, mas há três dias escuto as pombas e elas me entristecem, gostaria de estar em casa ouvindo Milord latir, ouvindo tia Esther que a esta hora se levanta pra ir à missa. Maldita febre que não quer baixar, sabe-se lá até quando vão me deixar aqui, vou perguntar ao doutor Suárez ainda hoje de manhã, afinal poderia ficar melhor em casa. Olhe, senhor Morán, quero ser franco com o senhor, o quadro não é nada simples. Não, senhorita Cora, prefiro que continue atendendo este paciente, eu vou lhe dizer por quê. Mas então, Marcial... Venha, vou lhe fazer um café bem forte, veja como você ainda é novinha, parece mentira. Escute, benzinho, estive falando com o doutor Suárez, e parece que o menino...

Por sorte depois se calam, talvez saiam voando por aí, por toda a cidade, essas pombas têm sorte. Que manhã interminável, fiquei alegre quando meus velhos saíram, agora deram de vir mais seguido desde que tenho tanta febre. Bom, se ainda tenho de ficar aqui mais quatro ou cinco dias, que importância tem. Em casa seria melhor, claro, mas do mesmo jeito teria febre e volta e meia me sentiria muito mal. Pensar que não posso nem olhar uma revista, é uma fraqueza como se não tivesse mais sangue. Mas tudo isso é por causa da febre, ontem à noite o doutor De Luisi me disse isso e esta manhã o doutor Suárez repetiu, eles sabem. Durmo muito mas é como se o tempo não passasse, sempre é antes das três, como se me importassem as três ou as cinco. Pelo contrário, às três a enfermeira miudinha vai embora e é uma pena porque com ela fico tão bem. Se eu pudesse dormir de uma só vez até a meia-noite seria muito melhor. Pablo, sou eu, a senhorita Cora. Sua enfermeira da noite que lhe faz sofrer com as injeções. Já sei que não dói, seu bobo, é brincadeira. Continue dormindo se quiser, tudo bem. E ele me disse: "Obrigado" sem abrir os olhos, mas poderia tê-los aberto, sei que com a galeguinha ficou de conversa até o meio-dia embora lhe tenham proibido de falar muito. Antes de sair me virei de repente e ele estava me olhando, senti que o tempo todo ele estivera me olhando de costas. Voltei e me sentei ao lado da cama, tomei-lhe o pulso, arrumei os lençóis que ele enrugava com suas mãos febris. Olhava meus cabelos, depois baixava os olhos e evitava os meus. Fui buscar o necessário para prepará‑lo e ele me deixou fazer tudo sem uma palavra, com os olhos fixos na janela, me ignorando. Viriam buscá-lo às cinco e meia em ponto, ainda lhe restava um tempinho para dormir, os pais o esperavam no térreo porque ele poderia ficar impressionádo de vê-los a essa hora. O doutor Suárez viria um pouco antes para explicar-lhe que teriam que completar a operação, qualquer coisa que não o inquietasse muito. Mas em vez disso mandaram Marcial, fiquei surpresa ao vê-lo entrar assim mas me fez um sinal para que não me movesse e ficou ao pé da cama lendo a folha de temperatura até que Pablo se acostumasse com sua presença. Começou a brincar um pouco com ele, armou a conversa como só ele sabe fazer, o frio na rua, como se estava bem nesse quarto, e ele o olhava sem dizer nada, como se esperasse, enquanto eu me sentia tão estranha, queria que Marcial saísse e me deixasse sozinha com ele, eu poderia ter-lhe dito melhor que ninguém, ou talvez não, provavelmente não. Mas sim, eu já sei, doutor, vão me operar de novo, foi o senhor quem me deu a anestesia da outra vez, bem, isso é melhor do que continuar nesta cama e com esta febre. Eu sabia que no final teriam de fazer alguma coisa, porque dói tanto desde ontem, uma dor diferente, que vem mais de dentro. E você aí sentada, não fique com essa cara, não sorria como se viesse me convidar pra ir ao cinema. Vá embora com ele e o beije no corredor, eu não estava tão adormecido assim na outra tarde quando você se irritou com ele porque a beijava aqui. Vão embora os dois, me deixem dormir, dormindo não dói tanto.

Bem, rapaz, agora vamos liquidar este assunto de uma vez por todas, até quando você vai ficar nos ocupando uma cama, hein? Conte devagarinho, um, dois, três. Assim está bem, continue contando e dentro de uma semana vai estar comendo um bife suculento em casa. São só uns quinze minutos, meu bem, e costura de novo. Você tinha. de ver a cara do De Luisi, a gente nunca se acostuma totalmente a essas coisas. Olhe, aproveitei para pedir ao Suárez que a transferissem, como você queria, disse a ele que você está muito cansada com um caso tão grave; talvez a mandem para o segundo andar se você também falar com ele. Está bem, faça como quiser, tanta queixa na outra noite e agora aparece a boa samaritana. Não fique braba comigo, fiz isso por você. Sim, claro que fez isso por mim, mas perdeu seu tempo, vou ficar com ele esta noite e todas as noites. Começou a acordar às oito e meia, os pais foram embora em seguida porque era melhor que não os visse com a cara que tinham os coitados, e quando o doutor Suárez chegou perguntou-me em voz baixa se queria que Maria Luisa me substituísse, mas lhe fiz um sinal de que ficaria e ele saiu. Maria Luisa me acompanhou um momento porque tivemos de segurá-lo e acalmá-lo, depois ele se tranqüilizou de repente e quase não teve vômitos; está tão fraco que dormiu de novo sem se queixar muito até as dez. São as pombas, vá vê-las mamãe, já estão arrulhando como todas as manhãs, não sei por que não as tiram, que voem pra outra árvore. Me dê a mão, mamãe, estou com tanto frio. Ah, então estive sonhando, pensei que já era de manhã e que as pombas estavam lá. Desculpe, a confundi com mamãe. Outra vez desviava o olhar, seu mau humor voltava, outra vez me jogava toda a culpa. Atendi-o como se não percebesse que continuava chateado, sentei-me ao seu lado e molhei seus lábios com gelo. Quando me olhou, depois que passei água-de-colônia em suas mãos e na testa, me aproximei mais e sorri. "Me chame de Cora", disse a ele. "Eu sei que não nos entendemos no começo, mas vamos ser tão bons amigos, Pablo." Ele me olhava calado. "Me diga: Sim, Cora." Ele me olhava, sempre. "Senhorita Cora", disse depois, e fechou os olhos. "Não, Pablo, não", lhe pedi, beijando-o no rosto, muito perto da boca. "Eu vou ser Cora para você, só para você." Tive de me jogar para trás, mas mesmo assim me salpicou a cara. Sequei-o, segurei sua cabeça para que limpasse a boca, beijei-o de novo falando ao seu ouvido. "Me desculpe", disse com um fio de voz, "não pude segurar". Disse-lhe que não fosse bobo, que eu estava ali cuidando dele para isso, que vomitasse tudo o que quisesse para se aliviar. "Queria que mamãe viesse", me disse, olhando para o outro lado com os olhos vazios. Ainda acariciei um pouco seus cabelos, arrumei os lençóis esperando que me dissesse alguma coisa, mas estava muito longe e senti que o faria sofrer ainda mais se ficasse. Na porta me virei e esperei; estava com os olhos muito abertos, fixos no teto. "Pablito", lhe disse. "Por favor, Pablito, por favor, querido." Voltei até a cama, me inclinei para beijá-lo; cheirava a frio, atrás da água-de-colônia estava o vômito, a anestesia. Se fico mais um segundo começo a chorar na frente dele, por ele. Beijei-o outra vez e saí correndo, desci para buscar a mãe e Maria Luisa; não queria voltar enquanto a mãe estivesse ali, pelo menos esta noite não queria voltar e depois sabia muito bem que não teria necessidade de voltar a esse quarto, que Marcial e Maria Luisa cuidariam de tudo até que o quarto ficasse outra vez livre.

Conto do livro: Todos os fogos o fogo. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Falece Gabriel García Márquez

La aventura de Miguel Littin: clandestino en Chile, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/la-aventura-de-miguel?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=7

El amor en los tiempos del colera, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/el-amor-en-los-tiempos-del-colera-27348549?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=11

El otoño del patriarca, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/el-otoo-del-patriarca-gabriel-garcia-marquez?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=8

El general en su laberinto, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/el-general-en-su-laberinto-gabriel-garcia-marquez?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=9

El coronel no tiene quien le escriba, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/el-coronel-no-tiene-quien-le-escriba-gabriel-garcia-marquez?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=10

Doce cuentos peregrinos, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/JuanCamiloGelvezCaceres/doce-cuentos-peregrinos-gabriel-garcia-marquez?qid=b721ab13-7da1-47b2-ad4a-624add0af922&v=qf1&b=&from_search=12

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/LailsaLi/garcia-marquez-cronica-de-uma-morte-anunciada?qid=3d34f893-f6d1-4512-979d-46f28604cdac&v=qf1&b=&from_search=1

Memoria de mis putas tristes, Gabriel García Márquez

http://pt.slideshare.net/VictorMontejanoAcevedo/garcia-marquez-gabriel-memorias-de-mis-putas-tristes?qid=f0436250-0b8f-47da-b008-b9fbe824a421&v=qf1&b=&from_search=11

O mal-estar na modernidade e a psicanálise: a psicanálise à prova do social, Joel Birman

http://pt.slideshare.net/Mye133/o-malestar-na-psicanlise-joel-birman?qid=67840fe2-b1b9-4a08-a7ed-b534930703d7&v=qf1&b=&from_search=1

A ética em um mundo desencantado, Jurandir Freire Costa

O psicanalista Jurandir Freire Costa ruma contra a corrente e defende valores tradicionais, como os judaico-cristãos. Em vídeo feito especialmente para a CH-On-line, ainda fala de sua relação com os escritores Graham Greene e Philip K. Dick. Por: Isabela Fraga O futuro parece sombrio. Anuncia-se a decadência de valores éticos e a ‘saída da religião’, fenômeno que distancia o Ocidente cada vez mais de suas raízes judaico-cristãs. Em meio a tantos pensadores contemporâneos que manifestam uma visão catastrófica das transformações que vivemos, o psicanalista e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro Jurandir Freire Costa desponta como um defensor dos valores tradicionais. Em seu livro O ponto de vista do outro: figuras da ética na ficção de Graham Greene e Phillip K. Dick (Garamond, 2010), ele se serve dos mundos criados por esses dois ficcionistas para demonstrar que, na verdade, não perdemos de vista os valores éticos que sempre regeram, de uma forma ou de outra, a sociedade ocidental. E vai além: devemos recuperar nossa matriz judaico-cristã – em sua forma laica ou espiritual – para nos apropriarmos com maior veemência e consciência de seus dois elementos básicos: justiça e amor. Leia, na íntegra, a entrevista que o psicanalista deu para o sobreCultura: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/sobrecultura/colecao-sobrecultura/sobreCultura%208.pdf

Um escritor na biblioteca, Luiz Alfredo Garcia Roza (parte 4)

Um escritor na biblioteca, Luiz Alfredo Garcia Roza (parte 3)

Um escritor na biblioteca, Luiz Alfredo Garcia Roza (parte 2)

Um escritor na biblioteca, Luiz Alfredo Garcia Roza (parte 1)

A literatura e a psicanálise, Contardo Calligaris

https://www.youtube.com/watch?v=Lx0tAhbwTWQ

Trechos da obra de Slavoj Žižek


Vivendo no fim dos tempos


           “Essa virada na direção do entusiasmo emancipatório só acontece quando a verdade traumática não só é aceita de maneira distanciada, como também vivida por inteiro: ‘A verdade tem de ser vivida, e não ensinada. Prepara-te para a batalha!’. Como os famosos versos de Rilke (“Pois não há lugar que não te veja. Deves mudar tua vida”), esse trecho de O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, só pode parecer um estranho non sequitur: se a Coisa me olha de todos os lados, por que isso me obriga a mudar? Por que não uma experiência mística despersonalizada, em que ‘saio de mim’ e me identifico com o olhar do outro? E, do mesmo modo, se é preciso viver a verdade, por que isso envolve luta? Por que não uma experiência íntima de meditação? Porque o estado ‘espontâneo’ da vida cotidiana é uma mentira vivida, de modo que é necessária uma luta contínua para escapar dessa mentira. O ponto de partida desse processo é nos apavorarmos com nós mesmos. Quando analisou o atraso da Alemanha em sua obra de juventude Crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx fez uma observação sobre o vínculo entre vergonha, terror e coragem, raramente notada, mas fundamental:
É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior, acrescentando a ela a consciência da pressão, e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa, tornando-a pública. É preciso retratar cada esfera da sociedade alemã como a partie honteuse [parte vergonhosa] da sociedade alemã, forçar essas relações petrificadas a dançar, entoando a elas sua própria melodia! É preciso ensinar o povo a se aterrorizar diante de si mesmo, a fim de nele incutir coragem.”


Primeiro como tragédia, depois como farsa


“(...) na democracia, cada cidadão comum é de fato um rei – mas um rei numa democracia constitucional, um monarca que decide apenas formalmente, cuja função é apenas assinar as medidas propostas pelo governo executivo. É por isso que o problema dos rituais democráticos é semelhante ao grande problema da monarquia constitucional: como proteger a dignidade do rei? Como manter a aparência de que o rei toma as decisões, quando todos sabemos que isso não é verdade? Trotsky estava certo então em sua crítica básica à democracia parlamentar: não é que ela dê poder demais às massas não instruídas, mas que, paradoxalmente, apassive as massas, deixando a iniciativa para o aparelho do poder estatal (ao contrário dos ‘sovietes’, em que as classes trabalhadoras se mobilizam e exercem o poder diretamente). Por conseguinte, o que chamamos de ‘crise da democracia’ não ocorre quando os indivíduos deixam de acreditar em seu poder, mas, ao contrário, quando deixam de confiar nas elites, que supostamente sabem por eles e fornecem as diretrizes, quando vivenciam a angústia que acompanha o reconhecimento de que ‘o (verdadeiro) trono está vazio’, de que a decisão agora é realmente deles. É por isso que, nas ‘eleições livres’, há sempre um aspecto mínimo de boa educação: os que estão no poder fingem educadamente que não detêm de fato o poder e nos pedem para decidir livremente se queremos lhes dar o poder – num modo que imita a lógica do gesto feito para ser recusado.”


            O ano em que sonhamos perigosamente


“Marx descreveu a má circulação do capital, que se aperfeiçoa e cujo caminho solipsista da autofecundação chega ao apogeu nas especulações metarreflexivas da atualidade sobre os futuros. É simplista demais afirmar que o espectro desse monstro que se aperfeiçoa e segue seu caminho negligenciando qualquer preocupação humana ou ambiental seja uma abstração ideológica, e que por trás dessa abstração haja pessoas reais e objetos naturais em cujos recursos e capacidades produtivas se baseia a circulação do capital e dos quais o capital se alimenta como um parasita gigante. O problema é que, além de estar em nossa má percepção da realidade social da especulação financeira, essa abstração é real no sentido preciso de determinar a estrutura dos processos sociais materiais: o destino de todas as camadas da população, e por vezes de países inteiros, pode ser decidido pela dança especulativa solipsista do capital, que persegue seu objetivo de lucratividade com uma indiferença abençoada em relação ao modo como seu movimento afetará a realidade social.”


             Em defesa das causas perdidas


“Restam somente duas teorias que ainda indicam e praticam essa noção engajada de verdade: o marxismo e a psicanálise. Ambas são teorias de luta, não só teorias sobre a luta, mas teorias que estão, elas mesmas, engajadas numa luta: sua história não consiste num acúmulo de conhecimentos neutros, pois é marcada por cismas, heresias, expulsões. É por isso que, em ambas, a relação entre teoria e prática é propriamente dialética; em outras palavras, é de uma tensão irredutível: a teoria não é somente o fundamento conceitual da prática, ela explica ao mesmo tempo por que a prática, em última análise, está condenada ao fracasso – ou, como disse Freud de modo conciso, a psicanálise só seria totalmente possível numa sociedade que não precisasse mais dela. Em seu aspecto mais radical, a teoria é a teoria de uma prática fracassada: “É por isso que as coisas deram errado...”. Costumamos esquecer que os cinco grandes relatos clínicos de Freud são basicamente relatos de um sucesso parcial e de um fracasso definitivo; da mesma forma, os maiores relatos históricos marxistas de eventos revolucionários são descrições de grandes fracassos (da Guerra dos Camponeses Alemães, dos jacobinos na Revolução Francesa, da Comuna de Paris, da Revolução de Outubro, da Revolução Cultural Chinesa...). Esse exame dos fracassos nos põe diante do problema da fidelidade: como redimir o potencial emancipatório de tais fracassos evitando a dupla armadilha do apego nostálgico ao passado e da acomodação demasiado escorregadia às “novas circunstancias”.

Žižek e a psicanálise, Christian Dunker

"Žižek e a psicanálise" é a segunda aula do "Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek". Mediado por João Alexandre Peschanski, o curso integra a primeira etapa do projeto "MARX: a criação destruidora", promovido pela Boitempo Editorial. Baixe aqui a apostila do "Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek" gratuitamente aqui: http://bit.ly/1bi7dTe Confira as obras de Slavoj Žižek editadas pela Boitempo: http://bit.ly/1aGOLCL

segunda-feira, 14 de abril de 2014

As transformações do sofrimento psíquico, Christian Dunker

O objetivo do encontro é abordar as transformações na forma do sofrimento caracterizadas pela impossibilidade de compartilhar e reconhecer narrativamente o mal-estar, por exemplo, soldados que retornam da guerra sem uma história para contar, trabalhadores em silêncio diante da televisão ou sintomas ascendentes, como o mutismo seletivo e a inibição da fala pública. O declínio da capacidade de compartilhar narrativamente experiências de sofrimento sugere que este sujeito pós-traumático está às voltas com a nomeação do mal-estar que lhe aparece como indeterminação e anomia, mas também com a excessiva disponibilidade para reduzir toda forma de sofrimento a sintomas codificados (depressões, pânicos, distúrbios de atenção etc). https://www.youtube.com/watch?v=QBat8w9ks44

Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política, Walter Benjamin

http://pt.slideshare.net/luaraschamo/walter-benjamin-magia-e-tcnica-arte-e-poltica?qid=8f602626-054b-4245-9326-46a53aba9e3e&v=qf1&b=&from_search=7

sábado, 12 de abril de 2014

Lo obvio y lo obtuso: imagenes, gestos, voces, Roland Barthes

http://pt.slideshare.net/edelinbravo29/roland-barthes-lo-obvio-y-lo-obtuso?qid=7ee8f1b7-5a1b-4b1b-989a-4c9a6e635749&v=default&b=&from_search=13

A câmara clara: nota sobre a fotografia, Roland Barthes

http://pt.slideshare.net/luis108/a-camara-clara-roland-barthes?qid=7ee8f1b7-5a1b-4b1b-989a-4c9a6e635749&v=qf1&b=&from_search=5

O prazer do texto, Roland Barthes

http://pt.slideshare.net/miriancardoso/roland-barthes-o-prazer-do-texto?qid=7ee8f1b7-5a1b-4b1b-989a-4c9a6e635749&v=qf1&b=&from_search=1

Como se faz uma tesse, Umberto Eco

http://pt.slideshare.net/MarciaKayser/como-se-faz-uma-tese-24670388?qid=2fe746b6-41c7-46d0-ad89-980a19b8a2a3&v=default&b=&from_search=7

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A jornada masculina: mudanças nas relações amorosas e na gestão da vida, Contardo Calligaris

https://www.youtube.com/watch?v=wMdodYWApAQ

A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, Umberto Eco


Em 2011, aos 80 anos, Umberto Eco concedeu uma entrevista à revista Época onde comentou sobre os prós e contras da internet como ferramenta formadora de indivíduos leitores críticos e/ou analfabetos funcionais. E sobre a acessibilidade do conhecimento possibilitada pela mesma. Confira abaixo a reprodução desta entrevista e não deixe de compartilhar conosco a sua opinião sobre o assunto.

ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos?

Umberto Eco - Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros. 

ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?

Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet. 

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento. 

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?

Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes. 

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?

Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga?

Eco - Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos?

Eco - Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitériode Praga.

ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?

Eco - Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo?

Eco - Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.

ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável?

Eco - Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.

ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas?

Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia?

Eco - Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero?

Eco - Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.

ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura?

Eco - Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).

ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert?

Eco - Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea?

Eco - Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que não é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.

ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos?

Eco - O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.

ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido?

Eco - Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.

ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?

Eco - Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código DaVinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.

ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção?

Eco - Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever Ocemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.

ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição?

Eco - Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.

ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar?

Eco - Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.

ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália?

Eco - Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.

ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre?

Eco - Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.

ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria?

Eco - Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.

http://www.leioeu.com.br/2014/02/a-internet-e-perigosa-para-o-ignorante.html